Li a Chronica do Invictissimo Monarca o Serenissimo Senhor D. Affonso
Henriques, de santa e eterna memoria, famoso conquistador, e primeiro
Rei de Portugal, a qual quer dar á estampa Miguel Lopes Ferreira,
dignissimo do titulo de Vivicador das glorias de Portugal, pois que
zeloso da fama Regia, por meio do Prelo intenta resuscitar as memorias
daquelle seculo dourado, em que Portugal no berço da sua infancia, com
maior fortuna, que a do valeroso Alcides no da sua meninisse, soube
despedaçar innumeraveis Hydras Africanas, que em varios recontros,
capitaneados por dezoito Reis, e um Emperador de Marrocos Almiramolim,
em formidolosos exercitos intentaram cortar os venturosas progressos,
com que ia sacudindo o forte jugo do perfido Mauritano. Mas a pezar
sentidissimo de Mafoma, em tão perfiados recontros, e em tão sentidas
batalhas, havendo em algumas quasi cem Mouros contra cada um só
Portuguez, ficaram sempre os Mouros inteiramente destroçados, os seus
Reis vergonhosamente vencidos, e só Portugal gloriosamente triumfante, e
senhor pacifico não só das terras, que pela repartição dos Estados
tocavam á sua Monarchia, mas de muitas, que pertenciam á de Hespanha,
porque de umas, e outras, á força de forte braço, e duro ferro fez
largar a iniqua, e injusta posse, que havia muitos seculos, desde a
sempre lacrimosa perda de Hespanha, logravam os Agarenos: protegido
sempre daquelle destemido Capitão, e valerosissimo Heroe D. Affonso
Henriques, que efficazmente soccorrido da mão Omnipotente do Senhor dos
exercitos, na miraculosa apparição do Campo de Ourique quando batalhou
com cinco Reis Africanos, ficou seu valente braço revestido de uma
fortaleza tão desmedidamente grande, que já vibrando a lança, nunca
tirou bote, que não fosse inexoravel desizivo da morte, já empunhando a
espada não descarregou golpe, que não fosse infeliz Parca da vida. E
sendo tal o esforço de seu braço, que o manejo das Armas, não era menos
o valor do seu coração para o exercicio das virtudes: porque foi
constantissimo no da Justiça administrando-a, e fazendo-a guardar
rigorosamente aos seus povos, sem que o continuo exercicio de Marte lhe
embaraçasse as execuções de Nemesis, mas antes, que com a espada sempre
empunhada representava um vivo simulacro da Justiça. No da Humildade foi
singular, porque sem respeito aos sacros decoros da Magestade, familiar,
e urbanissimamente com palavras, e obras, como a companheiros e amigos a
todos os seus vassallos, tratava carinhoso, e careciava benigno. No da
Liberalidade foi magnifico, porque quando nas campanhas, os ricos
despojas das batalhas, (e não foram poucos) primeiro os enfardelavam os
soldados, do que elle se redimisse com parte das coroas dos triunfos,
porque até destes repartia seu nobre coração com os que o ajudavam a
vencer; e quando na Corte, dos seus Erarios eram chaves mestras os
merecimentos de seus vassallos. No da Misericordia foi insigne, porque
não cabendo já nos limites de seu estado, lá se dilatou para o Hospital
de Jerusalem com oitenta mil dinheiros de ouro (que nem tudo lhe
consumiam as guerras consumindo-lhe as guerras muito) para emprego de
que annual, e perpetuamente rendessem para sustento dos pobres, que
nelle se alvergassem. No da Piedade foi magnanimo, como testemunham
entre muitas Igrejas que fundou os Reais Mosteiros de S. Vicente de Fóra
em Lisboa, o de Santa Cruz em Coimbra, e o de Alcobaça, aos quaes dotou
de amplos Senhorios, e copiosissimos patrimonios. No da Religião, todo
este livro é breve compendio dos vastos dominios que conquistou para as
cearas da Igreja; instituindo de muitos delles o nobilissimo Bispado de
Coimbra, e o Illustrissimo de Lisboa, que offereceu ao Romano Pontifice
adiantando-se este tanto nos seus augmentos que não cabendo na esfera de
sua propria grandeza se multiplicou em duas Sagradas Sedes, nas quaes,
uma conservando o titulo de Archiepiscopal, que já tinha, se separou com
a differença de Oriental por respeito do sitio que tem na Corte, e a
outra com o distintivo de Occidental que é o sitio deste Reino a
respeito do Mundo, se exalta com o especioso titulo de Patriarcal sendo
a primeira que o logra em todo elle. Por ventura que tanta gloria lá
tenha o seu proporcionado auspicio, no seu glorioso fundador, que tambem
foi o primeiro em Portugal; mas sem questão, deve o seo glorioso
augmento á Serenissima, Augustissima, Felicissima, e sempre Magnifica
Magestade do Senhor Rei D. João o V no nome que somando na linha de
todas suas acções sempre em tudo heroicas, em tudo excellentes, e
magnanimas em tudo, o numero admiravel de todas as de seus
gloriosissimos Progenitores se dignou illustra-las com a Real
preheminencia de engrandecer a sua Corte com uma Santa Sé Patriarcal,
realçando seus lustres com o feliz, e premeditado acerto de instituir
por seu primeiro Patriarca ao Meritissimo, Illustrissimo, e
Reverendissimo Senhor D. Thomás de Almeida da Nobilissima Casa de
Avintes, Bispo que foi de Lamego, e Porto; e para que finalmente na sua
Corte pela destas Igrejas Occidental, e Oriental constasse notoriamente
o ardentissimo desejo, que rezide no seu religioso coração de que o nome
da Divina Magestade, o Rei dos Reis, e Senhor dos Senhores seja sempre
louvado desde o Oriente onde o Sol nasce, té o Occaso onde fenece: «A
Solis ortu usque ad Occasum laudabile nomen Domine».
Tão gloriosos progressos, tiveram o seu feliz principio nas acções do
Serenissimo Senhor D. Affonso Henriques, que esta Chronica descreve, e é
mais que justo, saiam a luz do mundo, que pertende dar-lhe este
Restaurador das primitivas, e estupendas memorias de Portugal, para que
por benificio da estampa resuscite no mundo um vivo modelo da Magestade,
um elegante exemplo do valor, e um famoso trofeo da admiração. Este o
meu parecer salv. semp. mel. Carmo de Lisboa Occidental 1 de Agosto de
1726.
_Fr. José de Sousa_.
Vista a informação, póde-se imprimir a Chronica de que se trata, e
depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra,
sem a qual não correrá. Lisboa Occidental, 3 de Agosto de 1726.
_D. F. Arcebispo de Lacedemonia_.