Dirigido ao Serenissimo, e Muito Poderoso Principe El-Rei D. Manoel
nosso Senhor, sobre as vidas, e excellentes feitos dos Reis de Portugal,
seus Antecessores, ordenados, e escritos por seu mandado, por Duarte
Galvão Fidalgo da sua Casa, e do seu Conselho, no qual falla do grande
louvor destos mesmos Reis de Portugal.
Muito devem, Serenissimo Senhor, trabalhar os homens, por em sua vida
obrarem virtudes, para que mereçam a Deos no outro mundo, e neste leixem
de seu tempo memoria, não sómente, que viveram o que as animalias tem
por igual comnosco; mas que bem, e louvadamente passaram sua vida, que é
proprio do homem, o qual tendo a vida, em dias breve, com a virtude que
obra, a faz longa, e durar mais des que morre, vivendo depois de morto
no outro mundo, por gloria, e neste por exemplo assi, que para nós
necessario nos é nossa virtuosa vida, e para os outros nossa virtuosa
fama; esto como quer que convem a todos, muito mais cabe em os
Principes, e Reis faze-lo, cuja maior excellencia de seu nome traz logo
maior obrigação de seu carrego, que é serem Reis postos por Deos, para
regedores principaes na terra sobre os outros homens para execução, e
exemplo de toda perfeita virtude, mas pois que toda desposição para
obrar virtudes por muito que naça com a pessoa não póde ser comprida,
nem haver perfeição senão por ajuda, e graça Divinal. Grandes e
perpetuos louvores devem ser dados a nosso Senhor, por todos os naturaes
do Reino de Portugal, por tanto participar de sua graça, com os Reis
vossos Antecessores, e com vossa Real pessoa, com tão clara mostrança de
os querer honrar, e escolher para seu santo serviço, exalçamento da sua
Santa Fé, de maneira, que para se mais mostrar que vinha delle, e por
elle, segundo em seus grandes mysterios sempre neste mundo, até em si
mesmo escolheo o menos, para fazer, ou desfazer o mais, e o baixo para
se fazer conhecer por mais alto, lhe aprouve dar graça, e poder a vossos
Antecessores por onde no Reino, e senhorio menos de outros que vemos na
Christandade, alcançáram por suas louvadas famas, e obras, em todo o
genero de louvor, e virtudes grande, e assinado merecimento para o outro
mundo, e neste muita honra, fama, e proveito, para sua Real Coroa, e de
seus Reinos, e esto então poucas idades, que se as contarmos parece mui
pouco tempo, e segundo a grandeza de suas obras julgar-se-ha por
infindo, querendo nosso Senhor que assi como no desejo, e fervor de
serviço em especial de punhar pela Fé vossos Antecessores fossem sempre
mui singulares, assi fosse singular antre os outros Principes nesta
parte, e em outra seu louvor, remunerando-lhes nosso Senhor nisso seus
grandes merecimentos como hoje em dia faz a vossa Real Alteza, segundo
se grandemente manifesta no grande louvor, e não menos mysterio de
vossas mui louvadas, e excellentes obras, as quais bem condradas
concludem, e claramente mostram não menos, que vosso Divino nome ser
Deos comnosco, e com o bem destes Reinos mais que de antes, dando-vos
nellos para o diante como fruito mostrado, e prometido, no grande
emflorecer de vossos Antecessores, escuza-me, Senhor, de ser, nem
parecer adulação o que digo.
Primeiramente vossa successão nestos Reinos por nosso Senhor tão
claramente querida, e ordenada levando para si tantos, que vos nella
precediam, segundo seus ocultos Juizos, porém sempre justos, e escuza-me
o grande fervor, que logo poz em vosso virtuoso coração para seu
serviço, em tirar Judeus, e Mouros destos Reinos por tal, que lançado
fóra todo Judaico, e Mosometico culto, ficasse só o verdadeiro de sua
Christã Religião, e escuza-me esso mesmo vossa perseverante devação, e
cuidado, em proseguir, e obrar por mar, e terra, guerra contra Mouros,
em as partes Dafrica, do que não satisfeito vosso manhanimo coração, e
desejo, que sempre ha por menos o muito de tão santas emprezas, não
leixou de mandar a Levante por mar Armada de mui nobre gente, maior do
que des memoria de homens, sem Rei saio destes Reinos em soccorro da
Christandade contra os Turcos, e por Capitão della D. João de Menezes
Conde de Tarouca vosso Mordomo Mor, e Capitão da Cidade de Tanger, mui
dino de semelhantes, e maiores encargos por sua singular cavalaria, e
prudencia. Escuzo-me finalmente antes, e depois desto, a grande
maravilha, e mysterio, do achamento, ou mais com verdade conquista das
Indias; nunca esperado, nem cuidado pelas gentes, até que se vio feito
por vosso mandado, e posto por obra, e assi descobrimento de minas,
terras outras, mares, climas, polos, e gentes inconhitas, nunca de antes
sabidas, nem de nós conversadas, o que nem aquelle grão Rei Alexandre
Conquistador do mundo, nem Carthaginenses Senhores Dafrica, e grande
parte Deuropa, nem Romãos, que todos os outros passaram em senhorio,
poderam alcançar trabalhando-se desso, como se lê, nem esso mesmo fazer
vossos Antecessores em sessenta annos com muitas mortes de gentes,
grandes despezas, e continuadas diligencias, o que se fez, e comprio nos
primeiros dous, e tres annos de vosso Reinado trigando-se (segundo
parece) a Divina Clemencia a manifestar este grande mysterio, por elle
em vosso tempo predestinado, pelo qual quiz que em tão breve espaço se
fizesse de uma só viagem, e por os primeiros, que a esto mandastes,
outro tanto caminho, para achar a India, como em sessenta annos estava
feito, no que, Senhor, grandemente servistes a Deos, ganhaste perpetua
honra, nobrecestes vosso Reino, obrigastes o mundo, fazendo que em muita
parte não sabida, o mundo soubesse parte de si mesmo, e por conseguinte
de seu Creador, e Redemptor, o qual por sua infinda piedade, e amor que
sempre mostrou ao bem, e honra destos Reinos, ordenou, que por vossas
mãos se supprisse pelo mundo outra quasi segunda Prégação dos Apostolos,
para notificação de nossa Fé, renovada ás gentes, que apoz seus peccados
depois de recebida perderam, e necessaria para outra, que a nunca
houveram, e de necessidade hão de haver, segundo affirma Santo
Agostinho, que em tempo dos Apostolos não foi prégada a Fé de Christo
por todo o mundo, nem até seu tempo, quatro centos annos despois, dando
logo em prova desso muitas gentes em Africa donde elle era, como pelos
Cativos, que se de lá traziam era manifesto, e que em todo caso a dita
universal manifestação havia de ser, para se comprir, o que nosso Senhor
disse, que seu Evangelho havia de ser notificado por o mundo universo
ante do fim, em testemunho a todalas gentes, segundo se ora assás
confirma por vossa navegação e conquista o qual mysterio traz consigo
grande mostra, e pronostico de ser, não sómente para convertimento de
muitos infieis, mas ainda para desfazimento, e destruimento da
Mahometica secta consirado bem, Deos seja louvado, os começos, e
proseguimentos de seus maravilhosos effectos.
Muitos outros louvores, Serenissimo Rei, apontaria de vossas mui
singulares obras, e virtudes mui compridas, se tão facil me fosse
poder-lhe dar cabo, quão facil me é achar-lhe começo, e se a elle não
aprouvera faze-los mais sobidos, e manifestos por vossas obras, do que
poderiam ser por minhas palavras, mas hi ficará tempo, e lugar para com
sua graça se poderem dizer em vossa Chronica mais compridamente, com
todo, Senhor, é-me forçado dizer ainda de vossas virtuosas obras uma
necessaria á presente materia, a qual é, mandar-me V.A. mui
afficadamente, que os notaveis feitos dos mui esclarecidos Reis vossos
Antecessores, escritos, e postos por negligencia de Escritores, ou culpa
dos tempos, não só em menos polida, mas ainda em desordenada, e acerca
não achada memoria, os quizesse ordenar, e escrever, e quasi trespassar,
e a mais honrados Jazigos, e sepulturas, como é meu desejo para vosso
serviço, e na confiança que me nesso V. A. mostra muito para folgar, mas
para nella presumir sufficiencia não mais de atrever, que quanto está
conhecido, que tão grandes, e verdadeiros louvores participados de tanta
graça Divinal, não pode nhum humano falecimento apouquenta-los, nem
faze-los menos da verdade toda humana eloquencia, sem receo de nhum
prasmo deve de folgar achar-se vencida de tão excellente materia, cujo
mui estimado pezo mais é de culpar quem não queira, que quem não possa
leva-lo; porque ainda não leixará de precalçar muito louvor, e
contentamento quem de tão nobres, e louvados feitos fizer lembrança, que
foram, posto que não abaste dinamente faze-la de quão louvados foram,
pois a grandeza de seu louvor por elles mesmos milhor se póde estimar,
que dizer. Escuzo aqui poder pela ventura parecer este carrego, e
serviço menos da maneira, e estimação de meus serviços; porque certo
amor, e vontade, sobeja não acha serviço minguado, nem devem de mais
para os Principes, cujas causas por grandes que sejam, não devem tolher
atrevimento, maiormente quando por algumas rezões necessarias a seu mais
serviço se mandam, a quem sem ellas poderiam ser escusado mandar-se,
assi que, Senhor, esto que me V.A. manda fazer se deve a meu juizo antre
outras vossas louvadas obras muito estimar, e haver por outro quasi novo
descobrimento, e renovação de cousa ácerca perdida, que tanto devia
estar sã, e alumeada como cousa principal do mui devulgado bem, e honra
que vossos Reinos tem, e logram, no que não menos, que em todas outras
cousas esclarece vosso grande louvor, porque bem se mostra povoado de
muitas virtudes, e não invejar as alheias, quem as dos outros muito ama,
e assi as manda renovar, e apregoar, pelo qual, Serenissimo Senhor, como
quer-que álem da grandeza da materia, me haja de ser trabalho, e
difficuldade ajuntar, e supprir cousa de tantos tempos, desordenada, e
falecida, e para haver de emendar escritos alheios, vejo que armo sobre
mim juizos de muitos; porém pois V.A. o ha tanto por bem, e serviço seu,
e de seus Antecessores, mui de vontade me puz a faze-lo, sendo certo,
que haverei ante elle grado se não de sufficiencia, ao menos de
obediencia, pois por comprir seu mandado, no que muito me não atrevo
fazer, me não pude, nem soube negar.