AO LEITOR

Pela Chronica do primeiro Rei de Portugal começo a satisfazer a promessa

de dar ao prelo todas as Chronicas dos nossos Reis, que até agora se

conservavam manuscritas. Esta do fundador glorioso do Imperio Portuguez

tem mais de dous seculos de antiguidade, porque seu Author Duarte Galvão

falleceu na Ilha de Camarão a 9 de Junho do anno de mil e quinhentos e

dezasete. A authoridade de quem a escreveu não é menor, porque o Pai

deste Chronista foi Ruy Galvão, Secretario, e Escrivão da Puridade de

El-Rei D. Affonso V. de Portugal, lugares tão grandes, e tão immediatos

á Magestade, que suppõem illustre a quem os exercita. Duarte Galvão seu

filho foi do Conselho dos Reis D. João o II e D. Manoel, Chronista Mór

do Reino, Alcaide Mór de Leiria, doutissimo nas Letras humanas, e

Embaixador a França, e Alemanha, e ultimamente ao Preste João, levando

em sua companhia ao Embaixador Matheus, que da Corte do Abexim tinha

passado á de Portugal, vencidas, e compostas as injustissimas duvidas da

sua verdade. O irmão deste Chronista foi D. João Galvão, que depois dos

maiores lugares da Congregação de Santa Cruz de Coimbra, sendo Bispo da

mesma Cidade, lhe fez mercê El-Rei D. Affonso V do Titulo de Conde de

Arganil, que até agora se conserva nos seus Successores, e desta Mitra

passou para a de Braga. Nesta Historia se acham alguns pontos

encontrados com a verdade, o que de nenhum modo se deve de attribuir a

malicia do Author senão a que naquelle tempo devia de ser esta a

tradição, que havia entre nós mal fundada no principio, e peior

continuada na boca dos que a passavam a outros, em que como é natural,

cada dia se vai desfigurando, e perdendo a sua fórma verdadeira. Estes

descuidos emendou doutissimamente o Doutor Fr. Antonio Brandão na

Terceira Parte da Monarchia Lusitana, porque examinou a verdade no

segredo dos Cartorios, em que estava sepultada. Algumas pessoas me

aconselhavam, que lhe fizesse notas, porém segui o parecer de outras,

que assentáram, que como esta Chronica se imprimia para os que sabem,

elles não ignoram pela lição de Fr. Antonio Brandão, o que é tradição

errada. Sahe pois a Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques da sórte que

a escreveu Duarte Galvão, e lhe fiz o beneficio de lhe ordenar um Index

para utilidade de todos. Agradeça o leitor o meu cuidado, que brevemente

lhe darei impressas todas as mais Chronicas manuscritas dos nossos Reis,

e entre ellas a de El-Rei D. João o II que escreveu Ruy de Pina, tão

rara como desejada.

_Vale._

Chronica de el-rei D. Affonso Henriques · 第 27 / 113 题