VERSOS A *

Eu sou, mulher suave, aquelle antigo louco,

O triste sonhador que o teu olhar cantou,

E que hoje vae sentindo, o sonho, a pouco e pouco,

Fugir como o luar d'um astro que expirou!

Que morra, porque, emfim, bem longo elle tem sido

E tempo é já, talvez, da Morte desposar

O sonho que em minha alma entrou como um bandido

E só da vida sae depois de me roubar!

Eu devera amarral-o á braga do forçado,

Como a Justiça faz aos despreziveis réos,

E lançal-o depois á valla do passado

Aonde o fulminasse a colera dos céos.

Mas não; quero embalar-lhe os ultimos momentos

Ao som d'uma canção das quadras juvenis,

E amortalhar depois--em doces pensamentos--

No manto da saudade, os seus restos gentis.

E quando elle seguir ás regiões saudosas,

Aonde todos nós iremos repousar,

Ao esquife hei de atirar-lhe as derradeiras rosas

Que dentro de minha alma houver por desfolhar!

Ninguem profanará seus restos adorados,

Que em paz irão dormir n'um fundo mausoleo;

E quando alguma vez já hirtos, regelados,

Acordem, por ventura, á luz que vem do céo;

Em vão tu baterás, ó sonho, á fria porta

Que em breve has de sentir fechada sobre ti,

Porque a tua Memoria, emfim, já estará morta,

E não te escutarei... porque também morri!

A Alma Nova · 第 79 / 89 题