Á NOITE

Eu gosto de velar a percorrer os mundos

Ó noite dos bons canticos,

Aos lividos clarões dos astros vagabundos

Nos extasis romanticos,

Emquanto a vil cidade, a cortesã devassa

Dos falsos ouropeis,

Com seus famintos cães, a sua lua baça

E os seus negros bordeis,

Resona torpemente aos beijos deleterios

D'alguns velhos amantes;

--Os longos hospitaes e os tristes cemiterios

Que a afagam delirantes!

Comtudo eu tambem sei que existe muito instante

De gelos, em que tu,

Feroz, cravas o dente agudo e penetrante

No pobre seio nú!

Que ha horas em que vens, nas humidas cidades,

Nas choças, nos esgotos,

Cuspir cynicamente as frias tempestades

No seio vil dos rotos,

Sem ter pena, sequer, da pobre mãe que passa

Um dia sem ter pão,

Nem d'essa esfarrapada e velha populaça

Que rosna como um cão!...

Mas em breve deixando as tenebrosas vestes,

O manto dos horrores,

E o gladio vingador das coleras celestes

Ó noite dos amores,

Retomas o tom puro e santo do mysterio

Da pallida mulher

Que vae colher, scismando, um lyrio ao cemiterio

E ao campo um malmequer!

Em horas de tormenta és a mulher colerica!

Até cospes na cruz!

E formam-te espiraes na coma athmospherica

As viboras de luz!

Porém no teu regaço, altivo, casto, enorme,

Em doce e plena paz,

É que a virtude sonha e que a desgraça dorme

Depois das horas más,

E em lucidos cristaes, ha scintillantes vinhos;

Os casos mais galantes;

As languidas canções; os bellos desalinhos

E os gestos provocantes!...

Ó filha do silencio! Aos puros alabastros

Dos hombros ideaes,

Se Deus arremessasse a quantidade d'astros

Que em ti brilham a mais,

As pallidas visões que passam doloridas,

E um tanto contristadas,

Haviam de surgir d'estrellas revestidas

Em trajos d'alvoradas!

Em ti cuida escutar uns sons inexprimiveis

De languidas canções,

O pobre sonhador de coisas impossiveis

Que adora as solidões!

E quando o resplendor de mundos luminosos

Na tua fronte cinges,

Os gatos sensuaes, electricos, nervosos

Repouzam como esphinges;

Emquanto as combustões dos lividos comêtas,

Errantes e fataes,

Comsomem lentamente as grandes borboletas

Dos nossos ideaes!

A Alma Nova · 第 53 / 89 题