ÁS VISÕES

Pois que visões! não cessa a rapida corrida

E seja noite ou dia,

Volteadoras crueis! vós sempre a toda a brida

Na minha phantasia!

Parti chymeras vãs! archanjos ou _madonnas_,

Parti, que o mando eu,

Como um bando fatal de velhas amasonas

Que o circo aborreceu!

Levae tudo comvosco: as settas mais a aljava;

O angelico sorriso;

E as azas d'escumilha em que eu voava

Á noite, ao paraiso!

Eu quero, em fim, dormir; passar as noites gratas

Sentindo-me feliz,

No somno machinal dos velhos acrobatas

Depois das farças vis!

Mais tarde hei de sorrir, ou escarnecer-me quasi,

Lembrando-me--ó verdade!--

Que onde eu suppunha aurora havia apenas gaze

E uns traços d'alvaiade.

Perdão se vos insulto! oh, não, vós sois do empyreo,

D'aquelle meigo azul,

Que a todos tem sorrido: a Christo no martyrio,

Na dôr, ao rei de Thule;

E quando vos apraz, nas azas transparentes,

Mais alto ides por certo,

Do que as deusas gentis, aerias, insolentes,

Que vemos voar tão perto!

No entanto podeis crer ó lucidos fantasmas

Que o seculo, afinal,

Occulta no esplendor não sei que vis miasmas

Que fazem muito mal!

E quando vós passaes, nas horas do mysterio

D'estrellas revestidas,

Bebemos nós, talvez, o aroma deleterio

Das rosas corrompidas!

Oh sim! parti depressa; erguei-vos d'este abysmo

Archanjos ideaes,

Deixando-nos colher a flôr do realismo

Nas coisas triviaes!

A Alma Nova · 第 47 / 89 题