AS VELHITAS

Eu não professo muito o culto das ruinas.

Prefiro uma officina ás velhas barbacãs;

Das velhinhas, porém, mirradas, pequeninas,

No entanto nunca insulto as prateadas cãns.

Deixal-as caminhar, curvadas, vagarosas,

Com seu bento rozario, os seus fofos beitões,

A rirem-se de nós, crueis, maliciosas,

Sagazes comentando as nossas illusões!

Ah, velhitas sem côr! cabeças regeladas,

Vulcões de que só resta a cinza e nada mais:

Já fostes as visões; talvez as brancas fadas;

Prendestes vossos pés nos humidos rosaes;

Tivestes já no olhar os bons reflexos magicos

Dos lagos ideaes cubertos de luar;

As curvas sensuaes, os bellos dedos tragicos;

As rosas más do inferno, os lyrios bons do altar!

Pendestes já scismando as frontes melancolicas

Nas varandas á noite, amantes dos Titães

Do bello amor antigo! ó Marcias das bucolicas!

E agora apenas sois as mães de nossas mães!

Segui vosso caminho: as graciosas fadas,

As bellas da cidade, anémicas, gentis,

Sorriem-se, talvez, das fitas desbotadas,

Dos provectos chapéos, das gallas que vestis!

Oh! mostrando os trophéos das vossas velhas rosas,

Dizei-lhes, a sorrir das futeis illusões,

Que fostes já, tambem, galantes e nervosas

Mas destes isso tudo a varios corações!

Agora tendes pouco: apenas uns lamentos

Sentidos contra nós; queixumes sem valor

E ao mundo importam muito os vossos testamentos

E importa muito pouco a vossa immensa dôr!

Batei á grande porta: os bellos dias vossos

Velhitas, bem sabeis, não podem voltar mais!

Á terra ide levar, em fim, n'uns tristes ossos

O residuo fatal das cousas virginaes!

A Alma Nova · 第 45 / 89 题