XII

Quando Martha morrer, depois do extremo arranco,

Não tratem d'orações;

Desprendam-lhe o cabello o vistam-a de branco

Á moda das visões.

Desejo vel-a então passar d'esta maneira

Depois de tal revêz,

Por entre a chama azul e tenue da poncheira

No fumo dos cafés.

Áquelle bom paiz das pallidas chymeras,

Monotonia azul;

Não temam que ella vá no fogo das espheras

Queimar o véu de tulle.

Assusta-a muito o frio, a chuva, o sol dos tropicos

A nuvem triste e vã,

E pódem-lhe prender os pés tão microscopicos

As nevoas da manhãa!

De noite ella virá com seus trajes singellos,

Archanjo d'outros ceus,

Nos suspiros febris dos meigos violoncellos

Dizer-nos mal de Deus.

Contar-nos por que foge á doce transparencia

Que o ceu formoso tem,

Meiga filha gentil da mesma decadencia

Que é nossa boa mãe.

Se as lagrimas de luz que chora o firmamento

Em noites de luar,

Ao seu pescoço nú podessem, n'um momento,

Cingir-se n'um collar;

De certo ella daria ao pallido comêta

E á estrella trivial,

A mesma adoração que dava á cançoneta

Que amou até final!

E á saida do circo, ao astro romanesco,

Á noite iria, então,

Contar, ainda a sorrir, o ardor funambulesco

Do livido truão!

Assim, não quer ouvir aos córos invisiveis

Um hymno d'enfadar,

Cantado por milhões d'archanjos insensiveis

Sem um que a possa amar!

E não lhe esquecem nunca os rapidos instantes

Do que ella amava mais:

--A vida illuminada á luz dos restaurantes

N'um sonho de cristaes!

A Alma Nova · 第 23 / 89 题