VELHA FARÇA

Rufa ao longe um tambor. Dir-se-ia ser o arranco

D'um mundo que desaba; ahi vae tudo em tropel!

Vão ver passar na rua um velho saltimbanco

E uma féra que dansa atada a um cordel.

Ó funambulos vis, comediantes rotos,

O vosso riso alvar agrada á multidão!

E quando vós passaes o archanjo dos esgotos

Atira-vos a flôr que mais encontra á mão!

Lá vae tudo a correr: são as grotescas dansas

D'uns velhos animaes que já foram crueis

E agora vão soffrendo os risos das creanças

E os apupos da turba a troco de dez réis.

Conta um velho histrião, descabellado e pallido,

Da féra sanguinaria o instincto vil e mau,

E vae chicoteando um urso meio invalido

Que lambe as mãos ao povo e faz jogo de páu.

Depois inclina a face e obriga a que lh'a beije

A fera legendaria olhada com pavor:

E uma deosa gentil, vestida de bareje,

Annuncia o prodigio a rufo de tambor!

E as mães erguem ao collo uns filhos enfezados

Que nunca tinham visto a luz dos ouropeis:

E accresce á multidão a turba dos soldados,

--Ao ilota da cidade o escravo dos quarteis.

E o funambulo grita; impõe qual evangelho

Á turba extasiada a grande narração.

E sobre um cão enfermo um ourangotango velho

Passeia nobremente os gestos de truão.

Correi de toda a parte, aligeirae o passo,

Deixae a grande lida e vinde á rua vêr

As prendas d'uma fera, as galas d'um palhaço,

E um archanjo que sua e pede de beber!

A tua imagem tens ó povo legendario

No comico festim que mal podes pagar,

Pois tu ainda és no mundo o velho dromedario

Que a vara do histrião nas praças faz dansar.

A Alma Nova · 第 10 / 89 题