A ANTHERO DE QUENTAL

_Meu amigo.

Este livro parece-me um pouco do nosso tempo. Sorrindo ou combatendo,

fala da Humanidade e da Justiça, inspirando-se no mundo que nos rodeia.

E porque julgo que elle segue na direcção nova dos espiritos, offereço-o

a um obreiro honesto do pensamento: a uma alma lucida, moderna e

generosa_.

Dezembro de 1873.

Guilherme d'Azevedo.

I

Eu poucas vezes canto os casos melancolicos,

Os lethargos gentis, os extasis bucolicos

E as desditas crueis do proprio coração;

Mas não celebro o vicio e odeio o desalinho

Da muza sem pudor que mostra no caminho

A liga á multidão.

A sagrada poesia, a peregrina eterna,

Ouvi dizer que soffre uma affecção moderna,

Uns fastios sem nome, uns tedios ideaes;

Que ensaia, presumida, o gesto romanesco

E, vaidosa de si, no collo eburneo e fresco,

Põe crémes triviaes!

Oh, pensam mal de ti, da tua castidade!

Deslumbra-os o fulgor dos astros da cidade,

Os falsos ouropeis das cortezãs gentis,

E julgam já tocar-te as roçagantes vestes

Ó deusa virginal das coleras celestes,

Das graças juvenis!

Retine a cançoneta alegre das bachantes,

Saudadas nos wagons, nos caes, nos restaurantes,

Visões d'olhar travesso e provocantes pés,

E julgam já escutar a voz do paraiso,

Amando o que ha de falso e torpe no sorriso

Das musas dos cafés!

Oh, tu não és, de certo, a virgem quebradiça

Estiolada e gentil, que vem depois da missa

Mostrar pela cidade o seu fino desdem,

Nem a fada que sente um vaporoso tedio

Emquanto vae sonhando um noivo rico e nédio

Que a possa pagar bem!

Nem posso mesmo crêr, archanjo, que tu sejas

A menina gentil que ás portas das egrejas

Emquanto a multidão galante adora a cruz,

A bem do pobre enfermo á turba pede esmola

Nas pompas ideaes da moda, que a consola

Das magoas do Jesus!

E nas horas de luta emquanto os povos choram

E a guerra tudo mata e os reis tudo devoram,

Não posso dizer bem se acaso tu serás

A senhora que espalha os languidos fastios

Nos pomposos salões, sorrindo a fazer fios

Á viva luz do gaz!

Tu és a apparição gentil, meia selvagem,

D'olhar profundo e bom, de candida roupagem,

De fronte immaculada e seios virginaes,

Que desenha no espaço o limpido contorno

E cinge na cabeça o virginal adorno

De folhas naturaes.

Tens a linha ideal das candidas figuras;

As curvas divinaes; as tintas sãs e puras

Da austera virgindade; as bellas correcções;

E segues magestosa em teu longo caminho

Deixando fluctuar a tunica de linho

Ás frescas virações!

Quando trava batalha a tua irmã Justiça

Acodes ao combate e apontas sobre a liça

Uma espada de luz ao Mal dominador:

E pensas na belleza harmonica das cousas

Sentindo que se move um mundo sob as louzas

No germen d'uma flôr!

N'um sorriso cruel, pungente d'ironia,

Tambem sabes vibrar, serena, altiva e fria,

O latego febril das grandes punições;

E vendo-te sorrir, a geração doente,

Sentir cuida, talvez, a nota decadente,

Das morbidas canções!

Oh, vôa sem cessar traçando nos teus hombros

O manto constellado, ó deusa dos assombros,

Até chegar um dia ás regiões de luz,

Aonde, na poeira aurifera dos astros,

Contricto, Satanaz enxugará de rastos,

As chagas de Jesus!

Logar á minha fada ó languidas senhoras!

E vós que amaes do circo as noites tentadoras,

Os fluctuantes véos, os gestos divinaes,

Podeis vel-a passar n'um turbilhão fantastico,

Voando no corcel febril, nervoso, elastico,

Dos novos ideaes!

A Alma Nova · 第 7 / 89 题