--É uma pomba, coitada, é uma pomba! Não, lá isso, é uma pomba.
E envolvia-a n'um olhar maternal.
Mas a familia taciturna ergueu-se, sem ruido,--e as meninas adiante, os
paes atraz, afastaram-se lugubremente, succumbidos.
Bazilio immediatamente apossou-se da cadeira ao pé de Luiza,--e vendo
D. Felicidade a olhar distrahida:
--Estive para te ir vêr de manhã--disse baixinho a Luiza.
Ella ergueu a voz, muito naturalmente, com indifferença:
--E porque não foste? Tinhamos feito musica. Fizeste mal. Devias ter
ido...
D. Felicidade quiz então saber as horas. Começava a enfastiar-se.
Tinha esperado encontrar o conselheiro: por elle, para lhe parecer
bem, fizera o sacrificio de se apertar; Accacio não vinha, os gazes
começavam a affrontal-a; e o despeito d'aquella ausencia augmentava-lhe
a tortura da digestão. Na sua cadeira, com o corpo molle, ia seguindo a
multidão que girava incessantemente, n'uma nevoa empoeirada.
Mas a musica, no coreto, bateu de repente, alto, a grande ruido de
cobres, os primeiros compassos impulsivos da marcha do _Fausto_.
Aquillo reanimou-a. Era um _pot-pourri_ da opera,--e não havia musica
de que gostasse mais. Estaria para a abertura de S. Carlos, o snr.
Bazilio?
Bazilio disse, com uma intenção, voltando-se para Luiza:
--Não sei, minha senhora, depende...
Luiza olhava, calada. A multidão crescera. Nas ruas lateraes mais
espaçosas, frescas, passeavam apenas, sob a penumbra das arvores, os
acanhados, as pessoas de luto, os que tinham o fato coçado. Toda a
burguezia domingueira viera amontoar-se na rua do meio, no corredor
formado pela filas cerradas das cadeiras do asylo: e alli se movia
entalada, com a lentidão espessa d'uma massa mal derretida, arrastando
os pés, raspando o macadam, n'um amarfanhamento plebeu, a garganta
secca, os braços molles, a palavra rara. Iam, vinham, incessantemente,
para cima e para baixo, com um bamboleamento relaxado e um rumor
grosso, sem alegria e sem bonhomia, no arrebanhamento passivo que
agrada ás raças mandrionas: no meio da abundancia das luzes e das
festividades da musica, um tedio morno circulava, penetrava como uma
nevoa: a poeirada fina envolvia as figuras, dava-lhes um tom neutro; e
nos rostos que passavam sob os candieiros, nas zonas mais directas de
luz, viam-se desconsolações de fadiga e aborrecimentos de dia santo.
Defronte as casas da rua Occidental tinham na sua fachada o reflexo
claro das luzes do Passeio; algumas janellas estavam abertas; as
cortinas de fazenda escura destacavam sobre a claridade interior dos
candieiros. Luiza sentia como uma saudade de outras noites de verão, de
serões recolhidos. Onde? Não se lembrava. O movimento então retrahia-a;
e encontrava em face, fitando-a n'uma attitude lugubre, o sujeito da
pera longa. Debaixo do véo sentia a poeira arder-lhe nos olhos: em
redor d'ella gente bocejava.
D. Felicidade propoz uma volta. Levantaram-se, foram rompendo devagar;
as filas das cadeiras apertavam-se compactamente, e uma infinidade de
faces a que a luz do gaz dava o mesmo tom amarellado olhavam de um modo
fixo e cançado, n'um abatimento de pasmaceira. Aquelle aspecto irritou
Bazilio, e como era difficil andar lembrou--«que se fossem d'aquella
semsaboria».
Sahiram. Em quanto elle ia comprar os bilhetes, D. Felicidade,
deixando-se quasi cahir n'um banco sob a folhagem d'um chorão, exclamou
afflicta:
--Ai filha! Estou que arrebento!
Passava a mão no estomago, tinha a face envelhecida.
--E o conselheiro, que me dizes? Olha que já é pouca sorte! Hoje que eu
vim ao Passeio...
Suspirou, abanando-se. E com o seu sorriso bondoso:
--É muito sympathico, teu primo! E que maneiras! Um verdadeiro fidalgo.
Que elles conhecem-se, filha!
Declarou-se muito fatigada, apenas sahiram o portão. Era melhor tomarem
um trem.
Bazilio achava preferivel subirem a pé até ao largo do Loreto. A noite
estava tão agradavel! E o andar fazia bem á snr.^a D. Felicidade!
Depois diante do Martinho, fallou em irem tomar neve; mas D. Felicidade
receava a frialdade, Luiza tinha vergonha. Pelas portas do café
abertas, viam-se sobre as mesas jornaes enxovalhados; e algum raro
individuo, de calça branca, tomava placidamente o seu sorvete de
morango.
No Rocio, sob as arvores, passeava-se: pelos bancos, gente immovel
parecia dormitar; aqui e além pontas de cigarro reluziam; sujeitos
passavam, com o chapéo na mão, abanando-se, o collete desabotoado; a
cada canto se apregoava agua fresca «do Arsenal»; em torno do largo,
carruagens descobertas rodavam vagarosamente. O céo abafava,--e na
noite escura, a columna da estatua de D. Pedro tinha o tom baço e
pallido de uma vela de estearina colossal e apagada.
Bazilio, ao pé de Luiza, ia calado. Que horror de cidade!--pensava--Que
tristeza! E lembrava-lhe Paris, de verão: subia, á noite, no seu
phaeton, os Campos Elyseos devagar: centenares de victorias descem,
sobem rapidamente, com um trote discreto e alegre; e as lanternas fazem
em toda a avenida um movimento jovial de pontos de luz; vultos brancos
e mimosos de mulheres reclinam-se nas almofadas, balançadas nas molas
macias; o ar em redor tem uma doçura avelludada, e os castanheiros
espalham um aroma subtil. Dos dous lados, d'entre os arvoredos, saltam
as claridades violentas dos cafés cantantes, cheios do _brouhaha_
das multidões alegres, dos _brios_ impulsivos das orchestras; os
restaurantes flammejam; ha uma intensidade de vida amorosa e feliz;
e, para além, sahe das janellas dos palacetes, através dos _stores_
de sêda, a luz sobria e velada das existencias ricas. Ah! se lá
estivesse!--Mas ao passar junto dos candieiros olhava de lado para
Luiza: o seu perfil fino sob o véo branco tinha uma grande doçura; o
vestido prendia bem a curva do seu peito; e havia no seu andar uma
lassidão que lhe quebrava a linha da cinta de um modo languido e
promettedor.
Veio-lhe uma certa idéa, começou a dizer: Que pena que não houvesse
em toda a Lisboa um restaurante, onde se podesse ir tomar uma aza de
perdiz e beber uma garrafa de _champagne frappée_!
Luiza não respondeu. Devia ser delicioso--pensava.--Mas D. Felicidade
exclamou:
--Perdiz, a esta hora!
--Perdiz ou outra qualquer cousa.
--Fosse o que fosse, era para estourar! Credo!
Subiam pela rua Nova do Carmo. Os candieiros davam uma luz mortiça: as
altas casas dos dous lados, apagadas, entalavam, carregavam a sombra;
e a patrulha muito armada, descia passo a passo, sem ruido, sinistra e
subtil.
Ao Chiado um garoto de barrete azul perseguiu-os com cautelas de
loteria; a sua voz aguda e chorosa promettia a fortuna, muitos contos
de reis. D. Felicidade ainda parou, com uma tentação... Mas uma troça
de rapazes bebedos que descia de chapéo na nuca, fallando alto, aos
tropeções, assustou muito as duas senhoras. Luiza encolheu-se logo
contra Bazilio, D. Felicidade enfiada agarrou-lhe anciosamente o braço,
quiz-se metter n'uma carruagem; e até ao Loreto foi explicando o seu
medo aos borrachos, com a voz atarantada, contando casos, facadas, sem
largar o braço de Bazilio. Da fileira de tipoias, ao lado das grades
da praça de Camões, um cocheiro lançou logo a sua caleche descoberta,
de pé na almofada, apanhando confusamente as rédeas, com grandes
chicotadas na parelha, muito excitado, gritando:
--Prompto, meu amo, prompto!
Demoraram-se um momento ainda conversando. Um homem então passou,
rondou,--e Luiza desesperada reconheceu os olhos acarneirados do
sujeito da pera.
Entraram para a caleche. Luiza ainda se voltou para vêr Bazilio
immovel no largo, com o seu chapéo na mão: depois accommodou-se, pôz
os pésinhos no outro assento e balançada pelo trote largo viu passar,
calada, as casas apagadas da rua de S. Roque, as arvores de S. Pedro
de Alcantara, as fachadas estreitas do Moinho de Vento, os jardins
adormecidos da Patriarchal. A noite estava immovel, de um calor molle:
e desejava, sem saber porque, rolar assim sempre, infinitamente, entre
ruas, entre grades cheias de folhagem de quintas nobres, sem destino,
sem cuidados, para alguma cousa de feliz que não distinguia bem! Um
grupo defronte da Escóla ia tocando o _Fado do Vimioso_; aquelles sons
entraram-lhe na alma como um vento dôce, que fazia agitar brandamente
muitas sensibilidades passadas: suspirou baixo.
--Um suspirosinho que vai para o Alemtejo--disse D. Felicidade,
tocando-lhe o braço.
Luiza sentiu todo o sangue abrazar-lhe o rosto. Davam onze horas quando
entrou em casa.
Juliana veio alumiar.--O chá estava prompto, quando a senhora
quizesse...
Luiza subiu d'ahi a pouco com um largo roupão branco, muito fatigada,
estendeu-se na _voltaire_; sentia vir-lhe uma somnolencia, a cabeça
pendia-lhe, cerrava as palpebras... E Juliana tardava tanto com o chá!
Chamou-a. Onde estava? credo!
Tinha descido, pé ante pé, ao quarto de Luiza. E ahi tomando o
vestido, as saias engommadas que ella despira e atirára para cima da
_causeuse_, desdobrou-as, revirou-as, examinou-as, e com uma certa
idéa, cheirou-as! Havia o vago aroma de um corpo lavado e quente,
com uma pontinha de suor e de agua de colonia. Quando a sentiu
chamar, impacientar-se em cima, subiu, correndo.--Fôra abaixo dar uma
arrumadella. Era o chá? Estava prompto...
E entrando com as torradas:
--Veio ahi o snr. Sebastião, haviam de ser nove horas...
--Que lhe disse?
--Que a senhora tinha sahido com a snr.^a D. Felicidade. Como não
sabia, não disse para onde.
E acrescentou:
--Esteve a conversar commigo, o snr. Sebastião... Esteve a conversar
mais de meia hora!...
Luiza recebeu, na manhã seguinte, da parte de Sebastião, um ramo de
rosas, magenta-escuro, magnificas. Cultivava-as elle na quinta de
Almada, e chamavam-se rosas _D. Sebastião_. Mandou-as pôr nos vasos da
sala, e como o dia estava encoberto, de um calor baixo e suffocante:
--Olhe--disse a Juliana--abra as janellas.
--Bem--pensou Juliana--temos cá o melro.
O _melro_ veio com effeito ás tres horas. Luiza estava na sala, ao
piano.
--Está alli o sujeito do costume--foi dizer Juliana.
Luiza voltou-se corada, escandalisada da expressão:
--Ah! meu primo Bazilio? Mande entrar.
E chamando-a:
--Ouça, se vier o snr. Sebastião, ou alguem, que entre.
Era o primo! O _sujeito_, as suas visitas perderam de repente para ella
todo o interesse picante. A sua malicia cheia, enfunada até ahi, cahiu,
engelhou-se como uma vela a que falta o vento. Ora, adeus! Era o primo!
Subiu á cozinha, devagar,--lograda.
--Temos grande novidade, snr.^a Joanna! O tal peralta é primo. Diz que
é o primo Bazilio.
E com um risinho:
--É o Bazilio! Ora o Bazilio! Sahe-nos primo á ultima hora! O diabo tem
graça!
--Então que havia de o homem ser senão parente?--observou Joanna.
Juliana não respondeu. Quiz saber se estava o ferro prompto, que tinha
uma carga de roupa para passar! E sentou-se á janella, esperando. O céo
baixo e pardo pesava, carregado de electricidade; ás vezes uma aragem
subita e fina punha nas folhagens dos quintaes um arripio tremulo.
--É o primo!--reflectia ella.--E só vem então quando o marido se vai.
Boa! E fica-se toda no ar quando elle sahe, e é roupa branca e mais
roupa branca, e roupão novo, e tipoia para o passeio, e suspiros e
olheiras! Boa bebeda! Tudo fica na familia!
Os olhos luziam-lhe. Já se não sentia tão lograda. Havia alli muito
«para vêr e para escutar». E o ferro, estava prompto?
Mas a campainha, em baixo, tocou.
--Boa! isto agora é um fadario! Estamos na casa do despacho!
Desceu; e exclamou logo, vendo Julião com um livro debaixo do braço:
--Faz favor d'entrar, snr. Julião! A senhora está com o primo, mas diz
que mandasse entrar!
Abriu a porta da sala bruscamente, de surpreza.
--Está aqui o snr. Julião--disse com satisfação.
Luiza apresentou os dous homens.
Bazilio ergueu-se do sophá languidamente, e, n'um relance, percorreu
Julião desde a cabelleira desleixada até ás botas mal engraxadas, com
um olhar quasi horrorisado.
--Que pulha!--pensou.
Luiza, muito fina, percebeu, e córou, envergonhada de Julião.
Aquelle homem de collarinho enxovalhado e com um velho casaco de pano
preto mal feito--que idéa daria a Bazilio das relações, dos amigos
da casa! Sentia já o seu _chic_ diminuido. E instinctivamente, a sua
physionomia tornou-se muito reservada,--como se semelhante visita a
surprehendesse! semelhante _toilette_ a indignasse!
Julião percebeu o constrangimento d'ella, disse, já embaraçado,
ageitando a luneta:
--Passei por aqui por acaso, entrei a saber se ha algumas noticias de
Jorge...
--Obrigada. Sim, tem escripto. Está bem...
Bazilio, recostado no sophá, como um parente intimo, examinava a
sua meia de sêda bordada de estrellinhas escarlates, e cofiava
indolentemente o bigode, arrebitando um pouco o dedo minimo,--onde
brilhavam, em dous grossos anneis d'ouro, uma saphira e um rubi.
A affectação da attitude, o reluzir das joias irritaram Julião.
Quiz mostrar tambem a sua intimidade, os seus direitos, disse:
--Eu não tenho vindo fazer-lhe um bocado de companhia, porque tenho
estado muito occupado...
Luiza acudiu para desauthorisar logo aquella familiaridade:
--Eu tambem não me tenho achado bem. Não tenho recebido ninguem,--a não
ser meu primo, naturalmente!
Julião sentiu-se renegado! E todo vermelho, de surpreza, d'indignação,
ficou a balançar a perna, calado, com o livro sobre o joelho; como a
calça era curta, via-se o elastico esfiado das botas velhas.
Houve um silencio difficil.
--Bonitas rosas!--disse emfim Bazilio, preguiçosamente.
--Muito bonitas!--respondeu Luiza.
Estava agora compadecida de Julião, procurava uma palavra; disse-lhe
emfim muito precipitadamente:
--E que calor! É de morrer! Tem havido muitas doenças?
--Colerinas--respondeu Julião.--Por causa das frutas. Doenças de ventre.
Luiza baixou os olhos. Bazilio então começou a fallar da viscondessinha
d'Azeias: tinha-a achado acabada; e que era feito da irmã, da grande?
Aquella conversação sobre fidalgas que elle não conhecia isolava mais
Julião: sentia o suor humedecer-lhe o pescoço; procurava um dito, uma
ironia, uma agudeza; e machinalmente abria e fechava o seu grosso livro
de capa amarella.
--É algum romance?--perguntou-lhe Luiza.
--Não. É o tratado do dr. Lee sobre doenças d'utero.
Luiza fez-se escarlate: Julião tambem, furioso da palavra que lhe
escapára. E Bazilio, depois de sorrir, perguntou por uma certa D.
Raphaela Grijó, que costumava ir á rua da Magdalena, que usava luneta,
e tinha um cunhado gago...
--Morreu-lhe o marido. Casou com o cunhado.
--Com o gago?
--Sim. Tem um filhito d'elle, gago tambem.
--Que conversação, em familia! E a D. Eugenia, a de Braga?
Julião, exasperado, ergueu-se; e com uma voz de garganta secca:
--Estou com pressa, não me posso demorar. Quando escrever a Jorge, os
meus recados, hein?
Abaixou bruscamente a cabeça a Bazilio. Mas não achava o chapéo,
tinha rolado para debaixo d'uma cadeira. Embrulhou-se no reposteiro,
topou violentamente contra a porta fechada, e sahiu emfim
desesperado, desejando vingar-se, odiando Luiza, Jorge, o luxo, a
vida,--transbordando agora d'ironias, de ditos, de réplicas. Devia-os
ter achatado, o asno e a tola... E não lhe acudira nada!
Mas apenas elle tinha fechado a cancella, Bazilio pôz-se de pé, e
cruzando os braços:
--Quem é este pulha?
Luiza córou muito, balbuciou:
--É um rapaz medico...
--É uma creatura impossivel, é uma especie d'estudante!
--Coitado, não tem muitos meios...
Mas não era necessario ter meios para escovar o casaco e limpar a
caspa! Não devia receber semelhante homem! Envergonha uma casa. Se seu
marido gostava d'elle, que o recebesse no escriptorio!...
Passeava pela sala, excitado, com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar
o dinheiro e as chaves.
--São frescos os amigos da casa!...--continuou.--Que diabo! tu não
foste educada assim. Nunca tiveste gente d'este genero na rua da
Magdalena.
Não tivera: e pareceu-lhe que as ligações do casamento lhe tinham
trazido um pouco o plebeismo das convivencias. Mas um respeito pelas
opiniões, pelas sympathias de Jorge fez-lhe dizer:
--Diz que tem muito talento...
--Era melhor que tivesse botas.
Luiza, por cobardia, concordou.
--Tambem o acho exquisito!--disse.
--Horrivel, minha filha!
Aquella palavra fez-lhe bater o coração. Era assim que elle lhe
chamava, outr'ora! Houve um momento de silencio:--e a campainha da
porta retiniu fortemente.
Luiza ficou assustada. Jesus! Se fosse Sebastião! Bazilio achal-o-hia
ainda mais reles! Mas Juliana veio dizer:
--O snr. conselheiro. Mando entrar?
--De certo--exclamou.
E a alta figura d'Accacio adiantou-se, com as bandas do casaco d'alpaca
deitadas para traz, a calça branca muito engommada cahindo sobre
sapatos de entrada abaixo, de laço.
Apenas Luiza lhe apresentou o primo Bazilio, disse logo, respeitoso:
--Já sabia que v. exc.^a tinha chegado, vi-o nas interessantes noticias
do nosso _high-life_. E do nosso Jorge?
Jorge estava em Beja... Diz que se aborrece muito...
Bazilio, mais amavel, deixou cahir:
--Eu realmente não tenho a menor idéa do que se possa fazer em Beja.
Deve ser horroroso!
O conselheiro, passando sobre o bigode a sua mão branca onde destacava
o annel d'armas, observou:
--É todavia a capital do districto!
Mas se já em Lisboa se não podia fazer nada, e era a capital do
reino!--E Bazilio puxava, todo recostado, o punho da camisa.--Morria-se
positivamente de pasmaceira!
Luiza, muito contente da affabilidade de Bazilio, pôz-se a rir:
--Não digas isso diante do conselheiro. É um grande admirador de Lisboa.
Accacio curvou-se:
--Nasci em Lisboa, e aprecio Lisboa, minha rica senhora.
E com muita bonhomia:
--Conheço porém que não é para comparar aos Parizes, ás Londres, ás
Madrids...
--De certo--fez Luiza.
E o conselheiro continuou com pompa:
--Lisboa porém tem bellezas sem igual! A entrada, ao que me dizem
(eu nunca entrei a barra), é um panorama grandioso, rival das
Constantinoplas e das Napoles. Digno da penna d'um Garrett ou d'um
Lamartine! Proprio para inspirar um grande engenho!...
Luiza, receando citações ou apreciações litterarias, interrompeu-o,
perguntou-lhe o que tinha feito? Tinham estado domingo no Passeio, ella
e D. Felicidade, tinham esperado vêl-o, e nada!
Nunca ia ao Passeio, ao domingo--declarou.--Reconhecia que era muito
agradavel, mas a multidão entontecia-o. Tinha notado,--e a sua voz
tomou o tom espaçado d'uma revelação,--tinha notado que muita gente,
n'um local, causa vertigens aos homens d'estudo. De resto queixou-se da
sua saude e do peso dos seus trabalhos. Andava compilando um livro e
usando as aguas de Vichy.
--Pódes fumar--disse Luiza de repente, sorrindo, a Bazilio.--Queres
lume?
Ella mesmo lhe foi buscar um phosphoro, toda ligeira, feliz. Tinha um
vestido claro, um pouco transparente, muito fresco. Os seus cabellos
pareciam mais louros, a sua pelle mais fina.
Bazilio soprou o fumo do charuto, e declarou muito reclinado:
--O Passeio ao domingo é simplesmente idiota!...
O conselheiro reflectiu e respondeu:
--Não serei tão severo, snr. Brito!--Mas parecia-lhe que com
effeito antigamente era uma diversão mais agradavel.--Em primeiro
lugar--exclamou com muita convicção, endireitando-se--nada, mas
nada, absolutamente nada póde substituir a charanga da Armada!--Além
d'isso havia a questão dos preços... Ah! tinha estudado muito o
assumpto! Os preços diminutos favoreciam a agglomeração das classes
subalternas... Que longe do seu pensamento lançar desdouro n'essa parte
da população... As suas idéas liberaes eram bem conhecidas.--Appéllo
para a snr.^a D. Luiza!--disse.--Mas emfim, sempre era mais agradavel
encontrar uma roda escolhida! Em quanto a si nunca ia ao Passeio.
Talvez não acreditassem, mas nem mesmo quando havia fogo de vistas!
N'esses dias, sim, ia vêr por fóra das grades. Não por economia! De
certo não. Não era rico, mas podia fazer face a essa contribuição
diminuta. Mas é que receava os accidentes! É que os receava muito!
Contou a historia d'um sujeito, cujo nome lhe escapava, a quem uma cana
de foguete furára o craneo.--E além d'isso nada mais facil que cahir
uma fagulha accesa na cara, n'um paletot novo...--É conveniente ter
prudencia--resumiu, compenetrado, limpando os beiços com o lenço de
sêda da India muito enrolado.
Fallaram então da estação: muita gente fôra para Cintra: de resto,
Lisboa no verão era tão seccante!... E o conselheiro declarou que
Lisboa só era imponente, verdadeiramente imponente, quando estavam
abertas as camaras e S. Carlos!
--Que estavas tu a tocar quando eu entrei?--perguntou Bazilio.
O conselheiro acudiu logo:
--Se estavam fazendo musica, por quem são... Sou um velho assignante de
S. Carlos, ha dezoito annos...
Bazilio interrompeu-o:
--Toca?
--Toquei. Não o occulto. Em rapaz fui dado á flauta.
E acrescentou, com um gesto benevolo:
--Rapaziadas!... Alguma novidade, o que estava tocando, D. Luiza?
--Não! Uma musica muito conhecida, já antiga: a _Filha do Pescador_, de
Meyerbeer! Tenho a letra traduzida.
Tinha cerrado as vidraças, sentára-se ao piano.
--O Sebastião é que toca isto bem, não é verdade, conselheiro?
--O nosso Sebastião--disse o conselheiro com authoridade--é um rival
dos Thalbergs e dos Litz. Conhece o nosso Sebastião?--perguntou a
Bazilio.
--Não, não conheço.
--Uma perola!
Bazilio tinha-se aproximado do piano devagar, frisando o bigode.
--Tu ainda cantas?--perguntou-lhe Luiza, sorrindo.
--Quando estou só.
Mas o conselheiro pediu-lhe logo um «trecho». Bazilio ria. Tinha medo
d'escandalisar um velho assignante de S. Carlos...
O conselheiro animou-o; disse mesmo paternalmente:
--Coragem, snr. Brito, coragem!
Luiza então preludiou.
E Bazilio soltou logo a voz, cheia, bem timbrada, de barytono; as suas
notas altas faziam a sala sonora. O conselheiro, direito na poltrona,
escutava concentrado; a sua testa, franzida n'um vinco, parecia
curvar-se sob uma responsabilidade de juiz; e as lunetas defumadas
destacavam, com reflexos escuros, n'aquella physionomia de calvo, que o
calor tornava mais pallida.
Bazilio dizia com uma melancolia grave a primeira phrase, tão larga, da
canção:
Igual ao mar sombrio
Meu coração profundo...
Um poeta, com uma dedicação obscura, traduzira a letra no _Almanach das
Senhoras_. Luiza pela sua propria mão a tinha copiado nas entrelinhas
da musica. E Bazilio debruçado sobre o papel sempre torcendo as pontas
do bigode:
Tem tempestades, coleras,
Mas perolas no fundo!
Os olhos largos de Luiza affirmavam-se para a musica--ou a espaços, com
um movimento rapido, erguiam-se para Bazilio. Quando, na nota final,
prolongada como a reclamação d'um amor supplicante, Bazilio soltou a
voz d'um modo appellativo:
Vem! vem
Pousar, ó dôce amada,
Teu peito contra o meu...
os seus olhos fixaram-se n'ella com uma significação de tanto desejo,
que o peito de Luiza arfou, os seus dedos embrulharam-se no teclado.
O conselheiro bateu as palmas.
--Uma voz admiravel!--exclamava--Uma voz admiravel!
Bazilio dizia-se envergonhado.
--Não, senhor, não, senhor!--protestou Accacio, levantando-se.--Um
excellente orgão! Direi, o melhor orgão da nossa sociedade!
Bazilio riu. Uma vez que tinha successo, então ia dizer-lhes uma
modinha brazileira da Bahia. Sentou-se ao piano, e depois de ter
preludiado uma melodia muito balançada, d'um embalado tropical, cantou:
Sou negrinha, mas meu peito
Sente mais que um peito branco.
E interrompendo-se:
--Isto fazia furor nas reuniões da Bahia quando eu parti.
Era a historia d'uma «negrinha» nascida na roça, e que contava, com
lyrismos d'almanach, a sua paixão por um feitor branco.
Bazilio parodiava o tom sentimental d'alguma menina bahiana; e a sua
voz tinha uma preciosidade comica, quando dizia o _ritornello_ choroso:
E a negra p'ra os mares
Seus olhos alonga;
No alto coqueiro
Cantava a araponga.
O conselheiro achou «delicioso»; e, de pé na sala, lamentou a proposito
da cantiga a condição dos escravos. Que lhe affirmavam amigos do Brazil
que os negros eram muito bem tratados. Mas emfim a civilisação era
a civilisação! E a escravatura era um estigma! Tinha todavia muita
confiança no imperador...
--Monarcha de rara illustração...--acrescentou respeitosamente.
Foi buscar o seu chapéo, e collando-lhe as abas ao peito, curvando-se,
jurou que--havia muito tempo não tinha passado uma manhã tão completa.
De resto para elle nada havia como a boa conversação e a boa musica...
--Onde está v. exc.^a alojado, snr. Brito?
Pelo amor de Deus! Que não se incommodasse! Estava no Hotel Central.
Não havia considerações que o impedissem de cumprir o seu
dever--declarou.--Cumpril-o-hia! Elle era uma pessoa inutil, a snr.^a
D. Luiza bem o sabia.--Mas se necessitar alguma cousa, uma informação,
uma apresentação nas regiões officiaes, licença para visitar algum
estabelecimento publico, creia que me tem ás suas ordens!
E conservando na sua mão a mão de Bazilio:
--Rua do Ferregial de Cima numero tres, terceiro. O modesto tugurio
d'um ermita.
Tornou a curvar-se diante de Luiza:
--E quando escrever ao nosso viajante, que faço sinceros votos pela
prosperidade dos seus emprehendimentos. Por quem é! Criado de v. exc.^a!
E direito, grave, sahiu.
--Este ao menos é limpo--resmungou Bazilio, com o charuto ao canto da
bocca.
Sentára-se outra vez ao piano, corria os dedos pelo teclado. Luiza
aproximou-se:
--Canta alguma cousa, Bazilio!
Bazilio pôz-se então a olhar muito para ella.
Luiza córou, sorriu; através da fazenda clara e transparente do
vestido, entrevia-se a brancura macia e lactea do collo e dos braços;
e nos seus olhos, na côr quente do rosto havia uma animação e como uma
vitalidade amorosa.
Bazilio disse-lhe, baixo:
--Estás hoje nos teus dias felizes, Luiza.
O olhar d'elle, tão avido, perturbava-a; insistiu:
--Canta alguma cousa.
O seu seio arfava.
--Canta tu--murmurou Bazilio.
E devagarinho, tomou-lhe a mão. As duas palmas um pouco humidas, um
pouco tremulas, uniram-se.
A campainha, fóra, tocou. Luiza desprendeu a mão bruscamente.
--É alguem--disse agitada.
Vozes baixas fallavam á cancella.
Bazilio teve um movimento d'hombros contrariado, foi buscar o chapéo.
--Vaes-te?--exclamou ella toda desconsolada.
--Pudera! Não posso estar só comtigo um momento!
A cancella fechou-se com ruido.
--Não é ninguem, foi-se--disse Luiza.
Estavam de pé, no meio da sala.
--Não te vás! Bazilio!
Os seus olhos profundos tinham uma supplicação dôce. Bazilio pousou o
chapéo sobre o piano; mordia o bigode um pouco nervoso.
--E para que queres tu estar só commigo?--disse ella.--Que tem que
venha gente?--E arrependeu-se logo d'aquellas palavras.
Mas Bazilio, com um movimento brusco, passou-lhe o braço sobre os
hombros, prendeu-lhe a cabeça, e beijou-a na testa, nos olhos, nos
cabellos, vorazmente.
Ella soltou-se a tremer, escarlate.
--Perdôa-me--exclamou elle logo, com um impeto apaixonado.--Perdôa-me.
Foi sem pensar. Mas é porque te adoro, Luiza!
Tomou-lhe as mãos com dominio, quasi com direito.
--Não. Has-de ouvir. Desde o primeiro dia que te tornei a vêr estou
doudo por ti, como d'antes, a mesma cousa. Nunca deixei de me morrer
por ti. Mas não tinha fortuna, tu bem o sabes, e queria-te vêr rica,
feliz. Não te podia levar para o Brazil. Era matar-te, meu amor! Tu
imaginas lá o que aquillo é! Foi por isso que te escrevi aquella carta,
mas o que eu soffri, as lagrimas que chorei!
Luiza escutava-o immovel, a cabeça baixa, o olhar esquecido; aquella
voz quente e forte, de que recebia o bafo amoroso, dominava-a,
vencia-a; as mãos de Bazilio penetravam com o seu calor febril a
substancia das suas; e, tomada d'uma lassidão, sentia-se como adormecer.
--Falla, responde!--disse elle anciosamente, sacudindo-lhe as mãos,
procurando o seu olhar avidamente.
--Que queres que te diga?--murmurou ella.
A sua voz tinha um tom abstracto, mal acordado.
E desprendendo-se devagar, voltando o rosto:
--Fallemos n'outras cousas!
Elle balbuciava com os braços estendidos:
--Luiza! Luiza!
--Não, Bazilio, não!
E na sua voz havia o arrastado d'uma lamentação, com a molleza d'uma
caricia.
Elle então não hesitou, prendeu-a nos braços.
Luiza ficou inerte, os beiços brancos, os olhos cerrados--e Bazilio,
pousando-lhe a mão sobre a testa, inclinou-lhe a cabeça para traz,
beijou-lhe as palpebras devagar, a face, os labios depois muito
profundamente; os beiços d'ella entreabriram-se, os seus joelhos
dobraram-se.
Mas de repente todo o seu corpo se endireitou, com um pudor indignado,
afastou o rosto, exclamou afflicta:
--Deixa-me, deixa-me!
Viera-lhe uma força nervosa; desprendeu-se, empurrou-o; e passando as
mãos abertas pela testa, pelos cabellos:
--Oh meu Deus! É horrivel!--murmurou.--Deixa-me! É horrivel!
Elle adiantava-se com os dentes cerrados; mas Luiza recuava, dizia:
--Vai-te. Que queres tu? Vai-te! Que fazes tu aqui? Deixa-me!
Elle então tranquillisou-a com a voz subitamente serena e humilde. Não
percebia. Porque se zangava? Que tinha um beijo? Elle não pedia mais.
Que tinha ella imaginado, então? Adorava-a, de certo, mas puramente.
--Juro-t'o!--disse com força, batendo no peito.
Fel-a sentar no sophá, sentou-se ao pé d'ella. Fallou-lhe muito
sensatamente:--Via as circumstancias, e resignar-se-hia. Seria como uma
amizade d'irmãos, nada mais.
Ella escutava-o, esquecida.
De certo, dizia elle, aquella paixão era uma tortura immensa. Mas
era forte, dominar-se-hia. Só queria vir vêl-a, fallar-lhe. Seria um
sentimento ideal.--E os seus olhos devoravam-na.
Voltou-lhe a mão, curvou-se, pôz-lhe um beijo cheio na palma. Ella
estremeceu, ergueu-se logo:
--Não! Vai-te!
--Bem, adeus.
Levantou-se com um movimento resignado e infeliz. E limpando devagar a
sêda do chapéo:
--Bem, adeus--repetiu melancolicamente.
--Adeus.
Bazilio disse então com muita ternura:
--Estás zangada?
--Não!
--Escuta--murmurou, adiantando-se.
Luiza bateu com o pé.
--Oh que homem! Deixa-me! Ámanhã. Adeus. Vai-te! Ámanhã!
--Ámanhã!--disse elle, baixinho.
E sahiu rapidamente.
Luiza entrou no quarto toda nervosa. E ao passar diante do espelho
ficou surprehendida: nunca se vira tão linda! Deu alguns passos calada.
Juliana arrumava roupa branca n'um gavetão do guarda-vestidos.
--Quem tocou ha bocado?--perguntou Luiza.
--Foi o snr. Sebastião. Não quiz entrar; disse que voltava.
Tinha dito, com effeito, «que voltava». Mas começava quasi a
envergonhar-se de vir assim todos os dias, e encontral-a sempre «com
uma visita»!
Logo no primeiro dia ficára muito surprehendido quando Juliana lhe
disse: «Está com um sujeito! Um rapaz novo que já cá esteve hontem!»
Quem seria? Conhecia todos os amigos da casa... Seria algum empregado
da secretaria ou algum proprietario de minas, o filho do Alonso,
talvez, um negocio de Jorge de certo...
Depois no domingo, á noite, trazia-lhe a partitura de _Romeu e
Julieta_, de Gounod, que ella desejava tanto ouvir, e quando Juliana
lhe disse da varanda «que tinha sahido com D. Felicidade de carruagem»,
ficou muito embaraçado com o grosso volume debaixo do braço, coçando
devagar a barba. Onde teriam ido? Lembrou-se do enthusiasmo de D.
Felicidade pelo theatro de D. Maria. Mas irem sós, n'aquelle calor de
julho, ao theatro! Emfim, era possivel. Foi a D. Maria.
O theatro, quasi vazio, estava lugubre; aqui e além, n'algum camarote,
uma familia feia perfilava-se, com cabellos negrissimos carregados de
postiços, gozando soturnamente a sua noite de domingo: na platéa, á
larga nas bancadas vazias, pessoas avelhadas e inexpressivas escutavam
com um ar encalmado e farto, limpando a espaços, com lenços de sêda,
o suor dos pescoços; na geral, gente de trabalho arregalava olhos
negros em faces trigueiras e oleosas; a luz tinha um tom dormente;
bocejava-se. E no palco, que representava uma sala de baile amarella,
um velhote condecorado fallava a uma magrita de cabellos riçados, sem
cessar, com o tom diluido de uma agua gordurosa e morna que escorre.
Sebastião sahiu. Onde estariam? Soube-o na manhã seguinte.--Descia
o Moinho de Vento, e um visinho, o Netto, que subia curvado sob o
seu guarda-sol, com o cigarro ao canto do bigode grisalho, deteve-o
bruscamente, para lhe dizer:
--Ó amigo Sebastião, ouça cá. Vi hontem á noite no Passeio a D. Luiza
com um rapaz que eu conheço. Mas d'onde conheço eu aquella cara? Quem
diabo é?
Sebastião encolheu os hombros.
--Um rapaz alto, bonito, com um ar estrangeirado. Eu conheço-o. N'outro
dia vi-o entrar para lá. Vossê não sabe?
Não sabia.
--Eu conheço aquella cara. Tenho estado a vêr se me recordo...--Passava
a mão pela testa.--Eu conheço aquella cara! Elle é de Lisboa. De Lisboa
é elle!
E depois d'um silencio, fazendo girar o guarda-sol:
--E que ha de novo, Sebastião?
Tambem não sabia.
--Nem eu!
E bocejando muito:
--Isto está uma pasmaceira, homem!
N'essa tarde, ás quatro horas, Sebastião voltou a casa de Luiza. Estava
com «o sujeito!» Ficou então preoccupado. De certo era algum negocio de
Jorge; porque não comprehendia que ella fallasse, sentisse, vivesse,
que não fosse no interesse da casa e para maior felicidade de Jorge.
Mas devia ser grave então--para reclamar visitas, encontros, tantas
relações. Tinham pois interesses importantes que elle não conhecia! E
aquillo parecia-lhe uma ingratidão, e como uma diminuição d'amizade.
A tia Joanna tinha-o achado «macambusio».
Foi ao outro dia que soube que o sujeito era o primo Bazilio, o Bazilio
de Brito. O seu vago desgosto dissipou-se, mas um receio mais definido
veio inquietal-o.
Sebastião não conhecia Bazilio pessoalmente, mas sabia a chronica da
sua mocidade. Não havia n'ella certamente, nem escandalo excepcional,
nem romance pungente. Bazilio tinha sido apenas um _pandigo_ e, como
tal, passára methodicamente por todos os episodios classicos da
estroinice lisboeta:--partidas de monte até de madrugada com ricaços
do Alemtejo; uma tipoia despedaçada n'um sabbado de touros; ceias
repetidas com alguma velha Lola e uma antiga salada de lagosta; algumas
_pégas_ applaudidas em Salvaterra ou na Alhandra; noitadas de bacalhau
e Collares nas tabernas fadistas; muita guitarra; sôcos bem jogados á
face attonita d'um policia; e uma profusão de gemas d'ovos nas glorias
do entrudo. As unicas mulheres mesmo que appareciam na sua historia,
além das Lolas e das Carmens usuaes, eram a Pistelli, uma dançarina
allemã cujas pernas tinham uma musculatura d'athleta, e a condessinha
d'Alvim, uma douda, grande cavalleira, que se separára de seu marido
depois de o ter chicotado, e que se vestia d'homem para bater ella
mesmo em trem de praça do Rocio ao Dá-fundo. Mas isto bastava para
que Sebastião o achasse um _debochado_, um _perdido_; ouvira que elle
tinha ido para o Brazil para fugir aos credores; que enriquecera por
acaso, n'uma especulação, no Paraguay; que mesmo na Bahia, com a corda
na garganta, nunca fôra um trabalhador; e suppunha que a posse da
fortuna para elle, seria apenas um desenvolvimento dos vicios. E este
homem agora vinha vêr a Luizinha todos os dias, estava horas e horas,
seguia-a ao Passeio...
Para que?... Era claro, para a desinquietar!
Ia justamente descendo a rua, dobrado sob a pesada desconsolação
d'estas idéas, quando uma voz encatarrhoada disse com respeito:
--Ó snr. Sebastião!
Era o Paula dos moveis.
--Viva, snr. João.
O Paula atirou para as pedras da rua um jacto escuro de saliva, e com
as mãos cruzadas debaixo das abas do comprido casaco de cotim, o tom
grave:
--Ó snr. Sebastião, ha doença cá por casa do snr. Engenheiro?
Sebastião todo surprehendido:
--Não. Porque?
O Paula fez roncar a garganta, cuspilhou:
--É que tenho visto entrar para cá todos os dias um sujeito. Imaginei
que fosse o medico.
E puxando o escarro:
--D'esses novos da hom[oe]opathia!
Sebastião tinha córado.
--Nada--disse.--É o primo de D. Luiza.
--Ah!--fez o Paula.--Pois pensei... Queira desculpar, snr. Sebastião.
E curvou-se, respeitosamente.
--Já temos fallatorio!--foi pensando Sebastião.
E entrou em casa, descontente.
Morava ao fundo da rua, n'um predio seu, de construcção antiga, com
quintal.
Sebastião era só. Tinha uma fortuna pequena em inscripções, terras de
lavoura para o lado do Seixal, e a quinta em Almada,--o Rozegal. As
duas criadas eram muito antigas na casa. A Vicencia, a cozinheira, era
uma preta de S. Thomé já do tempo da mamã. A tia Joanna, a governanta,
servia-o havia trinta e cinco annos; chamava ainda a Sebastião o
«menino»; tinha já as tontices d'uma criança, e recebia sempre os
respeitos d'uma avó. Era do Porto, do _Poârto_, como ella dizia,
porque nunca perdera o seu accento minhôto. Os amigos de Sebastião
chamavam-lhe uma velha de comedia. Era baixinha e gorda, com um sorriso
muito bondoso; tinha os cabellos alvos como uma estriga, atados no
alto n'um rolinho com um antigo pente de tartaruga; trazia sempre um
vasto lenço branco muito aceado, traçado sobre o peito. E todo o dia
passarinhava pela casa, com o seu passinho arrastado, fazendo tilintar
os mólhos de chaves, resmungando proverbios, tomando rapé de uma caixa
redonda, em cuja tampa se lascava o desenho abonecado da ponte pensil
do Porto.
Em toda a casa havia um tom caturra e dôce: na sala de visitas, quasi
sempre fechada, o vasto canapé, as poltronas tinham o ar empertigado
do tempo do snr. D. José I, e os estofos de damasco vermelho desbotado
lembravam a pompa d'uma côrte decrepita; das paredes da casa de jantar
pendiam as primeiras gravuras das batalhas de Napoleão, onde se vê
invariavelmente, n'uma eminencia, o cavallo branco, para o qual galopa
desenfreadamente do primeiro plano um hussard, brandido um sabre.
Sebastião dormia os seus somnos de sete horas, sem sonhos, n'uma velha
barra de pau preto torneado; e n'uma saleta escura, sobre uma commoda
de fecharias de metal amarello, conservava-se, havia annos, o padroeiro
da casa, S. Sebastião--que se torcia, cravado de settas, nas cordas que
o atavam ao tronco, á luz d'uma lampada muito cuidada pela tia Joanna,
sob os ruidos subtis dos ratos pelo forro.
A casa condizia com o dono. Sebastião tinha um genio antiquado. Era
solitario e acanhado. Já no latim lhe chamavam o _pelludo_; punham-lhe
rabos, roubavam-lhe impudentemente as merendas. Sebastião, que tinha a
força d'um gymnasta, offerecia a resignação d'um martyr.
Foi sempre reprovado nos primeiros exames do lyceu. Era intelligente,
mas uma pergunta, o reluzir dos oculos d'um professor, a grande lousa
negra immobilisavam-o; ficava muito embezerrado, a face inchada e
rubra, a coçar os joelhos, o olhar vazio.
Sua mãi, que era da aldêa e que fôra padeira, muito vaidosa agora das
suas inscripções, da sua quinta, da sua mobilia de damasco, sempre
vestida de sêda, carregada d'anneis, costumava dizer:
--Ora! tem que comer e beber! Estar a affligir a criança com estudos!
Deixa lá, deixa lá!
A inclinação de Sebastião era pela musica. Sua mãi, por conselhos da
mãi de Jorge, sua visinha e sua intima, tomou-lhe um mestre de piano;
logo desde as primeiras lições, a que ella assistia com enfeites de
velludo vermelho e cheia de joias, o velho professor Achilles Bentes,
d'oculos redondos e cara de coruja, exclamou excitado com a sua voz
nasal:
--Minha rica senhora! o seu menino é um genio! É um genio! Ha-de ser um
Rossini! É puxar por elle! É puxar por elle!
Mas era justamente o que ella não queria, era puxar por elle,
coitadinho! Por isso não foi um Rossini. E todavia o velho Bentes
continuava a dizer, por habito:
--Ha-de ser um Rossini! Ha-de ser um Rossini!
Sómente em lugar de o gritar, brandindo papeis de musica, murmurava-o,
com bocejos enormes de leão enfastiado.
Já então os dous rapazes visinhos, Jorge e Sebastião, eram intimos.
Jorge mais vivo, mais inventivo, dominava-o. No quintal, a brincar,
Sebastião era sempre o _cavallo_ nas imitações da diligencia, o
_vencido_ nas guerras. Era Sebastião que carregava os pesos, que
offerecia o dorso para Jorge trepar; nas merendas comia todo o pão,
deixava a Jorge toda a fruta. Cresceram. E aquella amizade sempre
igual, sem amúos, tornou-se na vida d'ambos um interesse essencial e
permanente.
Quando a mãi de Jorge morreu, pensaram mesmo em viver juntos;
habitariam a casa de Sebastião, mais larga e que tinha quintal; Jorge
queria comprar um cavallo; mas conheceu Luiza no Passeio, e d'ahi a
dous mezes passava quasi todo o seu dia na rua da Magdalena.
Todo aquelle plano jovial da _Sociedade Sebastião e
Jorge_--chamavam-lhe assim, rindo--desabou, como um castello de cartas.
Sebastião teve um grande pezar.
E era elle, depois, que fornecia os ramos de rosas que Jorge levava a
Luiza, sem espinhos, com cuidados devotos embrulhados n'um papel de
sêda. Era elle que tratava dos arranjos do «ninho», ia apressar os
estofadores, discutir preços de roupas, vigiar o trabalho dos homens
que pregavam os tapetes, conferenciar com a inculcadeira, cuidar dos
papeis do casamento!
E á noite, fatigado como um procurador zeloso, tinha ainda de escutar
com um sorriso as expansões felizes de Jorge, que passeava pelo quarto
até ás duas horas da noite em mangas de camisa, namorado, loquaz,
brandindo o cachimbo!
Depois do casamento Sebastião sentiu-se muito só. Foi a Portel visitar
um tio, um velho exquisito, com um olhar de doudo, que passava a
existencia combinando enxertos no pomar, e lendo, relendo o _Eurico_.
Quando voltou, passado um mez, Jorge disse-lhe radioso:
--E sabes, hein? Isto agora é que é a tua casa! Aqui é que tu vives!
Mas nunca obteve de Sebastião que fosse a sua casa com uma inteira
intimidade. Sebastião batia á porta, timidamente. Corava diante de
Luiza; o antigo _pelludo_ de latim reapparecia. Jorge luctára para que
elle cruzasse sem ceremonia as pernas, fumasse cachimbo diante d'ella,
não lhe dissesse a todo o momento:--V. exc.^a, v. exc.^a--meio erguido
na cadeira.
Nunca vinha jantar senão arrastado. Quando Jorge não estava, as suas
visitas eram curtas, cheias de silencio. Julgava-se gebo, tinha medo de
massar!
N'essa tarde, quando elle foi para a sala de jantar, a tia Joanna
veio-lhe perguntar pela Luizinha.
Adorava-a, achava-a um _anjinho_, uma _açucena_.
--Como está ella? viu-a?
Sebastião corou, não quiz dizer, como na vespera, «que estava gente,
que não tinha entrado»; e abaixando-se, pondo-se a brincar com as
orelhas do _Trajano_, o seu velho perdigueiro:
--Está boa, tia Joanna, está boa. Então como ha-de d'estar? Está optima!
Áquella hora Luiza recebia uma carta de Jorge. Era de Portel, com
muitas queixas sobre o calor, sobre as más estalagens, historias sobre
o extraordinario parente de Sebastião,--saudades e mil beijos...
Não a esperava, e aquella folha de papel cheia d'uma letra miudinha,
que lhe fazia reapparecer vivamente Jorge, a sua figura, o seu olhar,
a sua ternura, deu-lhe uma sensação quasi dolorosa. Toda a vergonha
dos seus desfallecimentos cobardes, sob os beijos de Bazilio, veio
abrazar-lhe as faces. Que horror deixar-se abraçar, apertar! No
sophá o que elle lhe dissera, com que olhos a devorára!... Recordava
tudo,--a sua attitude, o calor das suas mãos, a tremura da sua voz... E
machinalmente, pouco e pouco, ia-se esquecendo n'aquellas recordações,
abandonando-se-lhe, até ficar perdida na deliciosa lassidão que ellas
lhe davam, com o olhar languido, os braços frouxos. Mas a idéa de
Jorge vinha então outra vez fustigal-a como uma chicotada. Erguia-se
bruscamente, passeava pelo quarto toda nervosa, com uma vaga vontade de
chorar...
--Ah! não! é horroroso, é horroroso!--dizia só, fallando alto.--É
necessario acabar!
Resolveu não receber Bazilio, escrever-lhe, pedir-lhe que não voltasse,
que partisse! Meditava mesmo as palavras; seria sêcca e fria, não diria
_meu querido primo_, mas simplesmente _primo Bazilio_.
E que faria elle, quando recebesse a carta? Choraria, coitado!
Imaginava-o só, no seu quarto d'hotel, infeliz e pallido; e d'aqui,
pelos declives da sensibilidade, passava á recordação da sua pessoa, da
sua voz convincente, das turbações do seu olhar dominante, e a memoria
demorava-se n'aquellas lembranças com uma sensação de felicidade, como
a mão se esquece acariciando a plumagem dôce d'um passaro raro. Sacudia
a cabeça com impaciencia, como se aquellas imaginações fossem os
ferrões d'insectos importunos: esforçava-se por pensar só em Jorge; mas
as idéas más voltavam, mordiam-na: e achava-se desgraçada, sem saber
o que queria, com vontades confusas de estar com Jorge, de consultar
Leopoldina, de fugir para longe, ao acaso. Jesus, que infeliz que
era!--E do fundo da sua natureza de preguiçosa vinha-lhe uma indefinida
indignação contra Jorge, contra Bazilio, contra os sentimentos, contra
os deveres, contra tudo o que a fazia agitar-se e soffrer. Que a não
seccassem, Santo Deus!
Depois de jantar, á janella da sala, ficou a relêr a carta de Jorge.
Pôz-se a recordar de proposito tudo o que a encantava n'elle, do
seu corpo e das suas qualidades. E juntava ao acaso argumentos, uns
de honra, outros de sentimento, para o amar, para o respeitar. Tudo
era por elle estar fóra, na provincia! Se elle alli estivesse ao pé
d'ella! Mas tão longe, e demorar-se tanto! E ao mesmo tempo, contra
sua vontade, a certeza d'aquella ausencia dava-lhe uma sensação
de liberdade; a idéa de se poder mover á vontade nos desejos, nas
curiosidades, enchia-lhe o peito d'um contentamente largo, como uma
lufada de independencia.
Mas emfim, vamos, de que lhe servia estar livre, só?--E de repente tudo
o que poderia fazer, sentir, possuir, lhe apparecia n'uma perspectiva
longa que fulgurava: aquillo era como uma porta, subitamente aberta e
fechada, que deixa entrever, n'um relance, alguma cousa de indefinido,
de maravilhoso, que palpita e faisca.--Oh! estava douda, de certo!
Escureceu. Foi para a sala, abriu a janella; a noite estava quente e
espessa, com um ar d'electricidade e de trovoada. Respirava mal, olhava
para o céo, desejando alguma cousa fortemente, sem saber o quê.
O moço do padeiro em baixo, como sempre, tocava o fado; aquelles sons
banaes entravam-lhe agora na alma, com a brandura d'um bafo quente e a
melancolia de um gemido.
Encostou a cabeça á mão com uma lassidão. Mil pensamentosinhos
corriam-lhe no cerebro como os pontos de luz que correm n'um papel que
se queimou; lembrava-lhe sua mãi, o chapéo novo que lhe mandára madame
François, o tempo que faria em Cintra, a doçura das noites quentes sob
a escuridão das ramagens...
Fechou a janella, espreguiçou-se; e sentada na _causeuse_, no seu
quarto, ficou alli, n'uma immobilidade, pensando em Jorge, em lhe
escrever, em lhe pedir que viesse. Mas bem depressa aquelle scismar
começou a quebrar-se a cada momento como uma tela que se esgaça em
rasgões largos, e por traz apparecia logo com uma intensidade luminosa
e forte a idéa do primo Bazilio.
As viagens, os mares atravessados tinham-no tornado mais trigueiro;
a melancolia da separação dera-lhe cabellos brancos. Tinha soffrido
por ella!--dissera.--E no fim onde estava o mal? Elle jurára-lhe que
aquelle amor era casto, passando-se todo na alma. Tinha vindo de Paris,
o pobre rapaz, assim lh'o jurára, para a vêr, uma semana, quinze dias.
E havia de dizer-lhe:--Não voltes, vai-te?
--Quando a senhora quizer o chá...--disse da porta do quarto Juliana.
Luiza deu um suspiro alto como acordando. Não; que trouxesse a
lamparina, mais tarde.
Eram dez horas. Juliana foi tomar o seu chá, á cozinha. O lume ia-se
apagando, o candieiro de petroleo estendia nos cobres dos tachos
reflexos avermelhados.
--Hoje houve cousa, snr.^a Joanna--disse Juliana sentando-se.--Está
toda no ar! E é cada suspiro! Alli houve-a e grossa.
Joanna, do outro lado, com os cotovêlos na mesa e a face sobre os
punhos, pestanejava de somno.
--A snr.^a Juliana, tambem, deita tudo para o mal--disse.
--É que era necessario ser tola, snr.^a Joanna!
Calou-se, cheirou o assucar; era um dos seus despeitos; gostava d'elle
bem refinado--e aquelle assucar mascavado e grosso, que punha no chá um
gosto de formigas, exasperava-a.
--Este é peor que o do mez passado! Para uma pobre de Christo tudo é
bom!--rosnou muito amargamente.
E depois d'uma pausa repetiu:
--É que era necessario ser tola, snr.^a Joanna!
A cozinheira disse preguiçosamente:
--Cada um sabe de si...
--E Deus de todos--suspirou Juliana.
E ficaram caladas.
Luiza tocou a campainha em baixo.
--Que teremos nós agora? Está com as cocegas!
Desceu. Voltou com o regador, muito enfastiada:
--Quer mais agua! Olha a mania, pôr-se agora a chafurdar á meia noite!
Sempre a gente as vê...
Foi encher o regador, e em quanto a agua da torneira cantava no fundo
de lata:
--E diz que lhe faça ámanhã ao almoço um bocado de presunto frito, do
salgado. Quer picantes!
E com muito escarneo:
--Sempre a gente vê cousas! Quer picantes!
Á meia noite a casa estava adormecida e apagada. Fóra, o céo
ennegrecera mais; relampejou, e um trovão secco estalou, rolou.
Luiza abriu os olhos estremunhada; começára a cahir uma chuva grossa
e sonora; a trovoada arrastava-se, ao longe. Esteve um momento
escutando as goteiras que cantavam sobre o lagedo; a alcova abafava,
descobriu-se; o somno tinha fugido, e de costas, o olhar fixo na vaga
claridade que vinha de fóra da lamparina, seguia o tic-tac do relogio.
Espreguiçou-se, e uma certa idéa, uma certa visão foi-se formando
no seu cerebro, completando-se, tão nitida, quasi tão visivel, que
se revirou na cama devagar, estirou os braços, lançou-os em roda do
travesseiro, adiantando os beiços seccos--para beijar uns cabellos
negros onde reluziam fios brancos.
Sebastião tinha dormido mal. Acordou ás seis horas e desceu ao quintal
em chinellas. Uma porta envidraçada da sala de jantar abria para um
terraçosinho, largo apenas para tres cadeiras de ferro pintado e
alguns vasos de cravos; d'alli, quatro degraus de pedra desciam para
o quintal; era uma horta ajardinada, muito cheia, com canteirinhos de
flôres, saladas muito regadas, pés de roseiras junto dos muros, um poço
e um tanque debaixo d'uma parreirita, e arvores; terminava por outro
terraço assombreado d'uma tilia, com um parapeito para uma rua baixa
e solitaria; defronte corria um muro de quintal muito caiado. Era um
sitio recolhido, d'uma paz aldeã. Muitas vezes Sebastião, de madrugada,
ia para alli fumar o seu cigarro.
Era uma manhã deliciosa. Havia um ar transparente e fino; o céo
arredondava-se a uma grande altura com o azulado de certas porcelanas
velhas e, aqui e além, uma nuvemzinha algodoada, mollemente enrolada,
côr de leite; a folhagem tinha um verde lavado, a agua do tanque uma
crystallinidade fria; passaros chilreavam de leve, com vôos rapidos.
Sebastião estava debruçado para a rua, quando a ponteira d'uma bengala,
passos vagarosos cortaram o silencio fresco. Era um visinho de Jorge,
o Cunha Rosado, o doente d'intestinos; arrastava-se, curvado, abafado
n'um cachenez e n'um paletot côr de pinhão, com a barba grisalha
desmazelada, a crescer.
--Já a pé, visinho!--disse Sebastião.
O outro parou, ergueu a cabeça lentamente.
--Oh Sebastião!--disse com uma voz plangente--Ando a passear os meus
leites, homem!
--A pé?
--Ao principio ia na burrita até fóra de portas, mas diz que me fazia
bem o passeiosito a pé...
Encolheu os hombros com um gesto triste de duvida, de desconsolação.
--E como vai isso?--perguntou Sebastião, muito debruçado para a rua,
com affecto.
O Cunha teve um sorriso desolado nos seus beiços brancos:
--A desfazer-se!
Sebastião tossiu, embaraçado, sem achar uma consolação.
Mas o doente, com as duas mãos apoiadas á bengala, uma subita radiação
d'interesse no olhar amortecido:
--Ó Sebastião, um rapaz alto, que eu tenho visto todos estes dias
entrar para casa do Jorge, é o Bazilio de Brito, pois não é? O primo da
mulher? o filho do João de Brito?
--É, sim, porque?
O Cunha fez: _Ah! ah!_ com uma grande satisfação.
--Bem dizia eu!--exclamou.--Bem dizia eu! E aquella teimosa que não!
que não!...
E então explicou com uma tagarellice subita, e cansaços de voz:
--O meu quarto é para a rua, e todos os dias, como eu estou quasi
sempre pela janella para espairecer... tenho visto aquelle rapaz, a
modo estrangeirado, entrar para lá... todos os dias! Este é o Bazilio
de Brito! disse eu. Mas minha mulher que não! que não!... Que diabo,
homem! Eu tinha quasi a certeza... Não conheço eu outra cousa!... Até
elle esteve para casar com a D. Luiza. Oh! Eu sei essa historia na
ponta dos dedos... Morava ella na rua da Magdalena!...
Sebastião disse vagamente:
--Pois é, é o Brito...
--Bem dizia eu!
Ficou um momento immovel, fitando o chão, e refazendo uma voz dolente:
--Pois, vou-me arrastando até casa.
Suspirou. E arregalando os olhos:
--Quem me dera a sua saude, Sebastião!
E dizendo adeus, com um gesto da mão calçada de luva de casimira
escura, afastou-se, curvado, rente do muro, conchegando com o braço ao
ventre, o seu largo paletot côr de pinhão.
Sebastião entrou preoccupado. Todo o mundo começava a reparar, hein!
Pudera! Um rapaz novo, janota, vir todos os dias de trem, estar duas,
tres horas! Uma visinhança tão chegada, tão maligna!...
Ao começo da tarde sahiu. Teve vontade de procurar Luiza; mas sem saber
porque, sentia um grande acanhamento; como que receava encontral-a
differente ou com outra expressão... E subia a rua devagar, sob o seu
guarda-sol, hesitando, quando um coupé que descia a trote largo veio
parar á porta de Luiza.
Um sujeito saltou rapidamente, atirou o charuto, entrou. Era alto,
com um bigode levantado, trazia uma flôr no peito; devia ser o primo
Bazilio, pensou. O cocheiro limpou o suor da testa, e, cruzando as
pernas, pôz-se a enrolar o cigarro.
Ao ruido do trem o Paula postou-se logo á porta, de boné carregado, as
mãos enterradas no bolso, com olhares de revés: a carvoeira defronte,
immunda, disforme de obesidade e de prenhez, veio embasbacar com um
pasmo lôrpa na face oleosa; a criada do doutor abriu precipitadamente
a vidraça. Então o Paula atravessou rapidamente a rua faiscante de
sol, entrou no estanque; d'ahi a um momento appareceu á porta, com a
estanqueira, de carão viuvo; e cochichavam, cravavam olhares perfidos
nas varandas de Luiza, no coupé! O Paula, d'alli, arrastando as
chinellas de tapete, foi segredar com a carvoeira, provocou-lhe uma
risada que lhe sacudia a massa do seio; e foi emfim estacar á sua
porta entre um retrato de D. João VI e duas velhas cadeiras de couro,
assobiando com jubilo. No silencio da rua ouvia-se n'um piano, a
compasso de estudo, a _Oração d'uma virgem_.
Sebastião ao passar olhou machinalmente para as janellas de Luiza.
--Rico calor, snr. Sebastião!--observou o Paula curvando-se--É um
regalo estar á fresca!
Luiza e Bazilio estavam muito tranquillos, muito felizes na sala, com
as portadas meio cerradas, n'uma penumbra dôce. Luiza tinha apparecido
de roupão branco, muito fresca, com um bom cheiro de agua d'alfazema.
--Eu venho assim mesmo--disse ella.--Não faço ceremonias.
Mas assim é que ella estava linda! Assim é que a queria
sempre!--exclamava Bazilio muito contente, como se aquelle roupão de
manhã fosse já uma promessa da sua nudez.
Vinha muito tranquillo, affectava um tom de parente. Não a inquietou
com palavras vehementes, nem com gestos desejosos: fallou-lhe do calor,
d'uma _zarzuela_ que vira na vespera, de velhos amigos que encontrára,
e disse-lhe apenas que tinha sonhado com ella.
O que? Que estavam longe, n'uma terra distante, que devia ser a Italia,
tantas as estatuas que havia nas praças, tantas as fontes sonoras
que cantavam nas bacias de marmore; era n'um jardim antigo, sobre um
terraço classico; flôres raras transbordavam de vasos florentinos;
pousando sobre as balaustradas esculpidas, pavões abriam as caudas; e
ella arrastava devagar sobre as lages quadradas a cauda longa do seu
vestido de velludo azul. De resto, dizia, era um terraço como o de S.
Donato, a _villa_ do principe Demidoff,--porque lembrava sempre as suas
intimidades illustres, e não se descuidava de fazer reluzir a gloria
das suas viagens.
E ella, tinha sonhado?
Luiza córou.--Não, tinha tido muito medo da trovoada. Tinha ouvido a
trovoada, elle?
--Estava a cear no Gremio, quando trovejou.
--Costumas cear?
Elle teve um sorriso infeliz.--Cear! se se podia chamar cear ir ao
Gremio rilhar um bife corneo e tragar um Collares peçonhento!
E fitando-a:
--Por tua causa, ingrata!
Por sua causa?
--Por quem, então? Porque vim eu a Lisboa? Porque deixei Paris?
--Por causa dos teus negocios...
Elle encarou-a severamente:
--Obrigado--disse, curvando-se até ao chão.
E a grandes passadas pela sala soprava violentamente o fumo do seu
charuto.
Veio sentar-se bruscamente ao pé d'ella.--Não, realmente era injusta.
Se estava em Lisboa, era por ella. Só por ella!
Fez uma voz meiga, perguntou-lhe se lhe tinha realmente um bocadinho
d'amor muito pequenino, assim...--Mostrava o comprimento da unha.
Riram.
--Assim, talvez.
E o peito de Luiza arfava.
Elle então examinou-lhe as unhas; admirou-lh'as e aconselhou-lhe o
verniz que usam as _cocottes_, que lhes dá um lustre polido; ia-se
apossando da sua mão, pôz-lhe um beijo na ponta dos dedos; chupou o
dedo minimo, jurou que era muito dôce; arranjou-lhe com um contacto
muito timido uns fios de cabello que se tinham soltado,--e, disse,
tinha um pedido a fazer-lhe!
Olhava-a com uma supplicação.
--Que é?
--É que venhas commigo ao campo. Deve estar lindo no campo!
Ella não respondeu; dava pancadinhas leves nas pregas molles do roupão.
--É muito simples--acrescentou elle.--Tu vaes-me encontrar a qualquer
parte, longe d'aqui, está claro. Eu estou á espera de ti com uma
carruagem, tu saltas para dentro e _fouette_, _cocher_!
Luiza hesitava.
--Não digas que não.
--Mas onde?
--Onde tu quizeres. A Paço d'Arcos, a Loires, a Queluz. Dize que sim.
A sua voz era muito urgente, quasi ajoelhára.
--Que tem? É um passeio d'amigos, d'irmãos.
--Não! isso não!
Bazilio zangou-se, chamou-lhe _beata_. Quiz sahir. Ella veio tirar-lhe
o chapéo da mão, muito meiga, quasi vencida.
--Talvez, veremos--dizia.
--Dize que sim!--insistia.--Sê boa rapariga!
--Pois sim, ámanhã veremos, ámanhã fallaremos.
Mas no dia seguinte, muito habilmente, Bazilio não fallou no passeio,
nem no campo. Não fallou tambem do seu amor, nem dos seus desejos.
Parecia muito alegre, muito superficial; tinha-lhe trazido o romance de
Belot, _A mulher de fogo_. E sentando-se ao piano, disse-lhe canções de
_café concerto_, muito picantes; imitava a rouquidão acre e canalha das
cantoras; fel-a rir.
Depois fallou muito de Paris, contou-lhe a moderna chronica amorosa,
anecdotas, paixões _chics_. Tudo se passava com duquezas, princezas,
d'um modo dramatico e sensibilisador, ás vezes jovial, sempre cheio de
delicias. E, de todas as mulheres de que fallava, dizia recostando-se:
Era uma mulher distinctissima, tinha naturalmente o seu amante...
O adulterio apparecia assim um dever aristocratico. De resto a virtude
parecia ser, pelo que elle contava, o defeito d'um espirito pequeno, ou
a occupação reles d'um temperamento burguez...
E quando sahiu, disse, como recordando-se:
--Sabes que estou com minhas idéas de partir?...
Ella perguntou, um pouco descorada:
--Porque?
Bazilio disse, muito indifferente:
--Que diabo faço eu aqui?...
Esteve um momento a fitar o tapete, deu um suspiro, e como dominando-se:
--Adeus, meu amor...
E sahiu.
Quando n'essa tarde Luiza entrou na sala de jantar, levava os olhos
vermelhos.
Foi ella no dia seguinte que fallou do campo. Queixou-se do contínuo
calor, da _sécca_ de Lisboa. Como devia estar lindo em Cintra!
--És tu que não queres--acudiu elle. --Podiamos fazer um passeio
adoravel.
Mas tinha medo, podiam vêr...
--O quê! N'um coupé fechado? Com os _stores_ descidos?
Mas então era peor que estar n'uma sala, era abafar n'uma bocêta!
Mas não! Iam a uma quinta. Podiam ir ás _Alegrias_, á quinta d'um amigo
d'elle que estava em Londres. Só viviam lá os caseiros, era ao pé dos
Olivaes, era lindo! Bellas ruas de loureiros, sombras adoraveis. Podiam
levar gelo, champagne...
--Vem!--disse bruscamente, tomando-lhe as mãos.
Ella córou.--Talvez. No domingo veria.
Bazilio conservava-lhe as mãos presas. Os seus olhos encontraram-se,
humedeceram-se. Ella sentiu-se muito perturbada; desprendeu as mãos;
foi abrir as vidraças ambas, dar á sala uma claridade larga como
uma publicidade; sentou-se n'uma cadeira ao pé do piano, receando a
penumbra, o sophá, todas as cumplicidades; e pediu-lhe que cantasse
alguma cousa, porque já temia as palavras, tanto como os silencios!
Bazilio cantou a _Medjé_, a melodia de Gounod, tão sensual e
perturbadora. Aquellas notas quentes passavam-lhe na alma como bafos
d'uma noite electrica. E quando Bazilio sahiu, ficou sentada, quebrada,
como depois d'um excesso.
Sebastião tinha estado nos ultimos tres dias em Almada, na quinta do
Rozegal, onde trazia obras. Voltára na segunda-feira cedo, e, pelas
dez horas, sentado no poial da janella de jantar que abria para o
terraçosinho, esperava o seu almoço, brincando com o _Rolim_--o seu
gato, amigo e confidente da illustre Vicencia, nedio como um prelado,
ingrato como um tyranno.
A manhã começava a aquecer; o quintal estava já cheio de sol; na agua
do tanque, sob a parreira, claridades espelhadas e tremulas faiscavam.
Nas duas gaiolas os canarios cantavam estridentemente.
A tia Joanna, que andava a arranjar a mesa do almoço muito calada,
poz-se então a dizer com a sua vozinha arrastada e minhôta:
--Ora esteve ahi hontem a Gertrudes, a do doutor, com uns palratorios,
com umas tontices!...
--A respeito de quê, tia Joanna?--perguntou Sebastião.
--A respeito d'um rapaz, que diz que vai agora todos os dias a casa da
Luizinha.
Sebastião ergueu-se logo:
--Que disse ella, tia Joanna?
A velha assentava a toalha devagar com a sua mão gorducha espalmada:
--Esteve ahi a palrar. Quem seria, quem não seria? Diz que é um
perfeito rapaz. Vem todos os dias. Vem de trem, vai de trem... No
sabbado que estivera até quasi á noitinha. E cantou-se na sala, diz que
uma voz que nem no theatro...
Sebastião interrompeu-a, impaciente:
--É o primo, tia Joanna. Então quem havia de ser? É o primo que chegou
do Brazil.
A tia Joanna teve um bom sorriso.
--Eu logo vi que era cousa de parente. Pois diz que é um perfeito
rapaz! E todo janota!
E sahindo para a cozinha, devagar:
--Eu logo vi que era parente, logo disse!...
Sebastião almoçou inquieto. Positivamente a visinhança já se punha a
mexericar, a commentar! Estava-se a armar um escandalo!--E, assustado,
decidiu-se logo a ir consultar Julião.
Descia a rua de S. Roque para casa d'elle, quando o viu, que subia
devagar pela sombra, com um rolo de papel debaixo do braço, uma calça
branca enxovalhada, o ar suado.
--Ia a tua casa, homem!--disse Sebastião logo.
Julião estranhou a excitação desusada da sua voz.
Havia alguma novidade? Que era?
--Uma do diabo!--exclamou, baixo, Sebastião.
Estavam parados ao pé da confeitaria. Na vidraça, por traz d'elles,
emprateleirava-se uma exposição de garrafas de malvasia com os seus
letreiros muito coloridos, transparencias avermelhadas de gelatinas,
amarellidões enjoativas de dôces d'ovos, e quéques d'um castanho escuro
tendo espetados cravos tristes de papel branco ou côr de rosa. Velhas
natas lividas amollentavam-se no ôco dos folhados; ladrilhos grossos de
marmelada esbeiçavam-se ao calor; as empadinhas de marisco agglomeravam
as suas crôstas resequidas. E no centro, muito proeminente n'uma
travessa, enroscava-se uma lampreia d'ovos medonha e bojuda, com o
ventre d'um amarello ascoroso, o dorso malhado d'arabescos d'assucar, a
bocca escancarada: na sua cabeça grossa esbogalhavam-se dous horriveis
olhos de chocolate; os seus dentes d'amendoa ferravam-se n'uma
tangerina de chila; e em torno do monstro espapado moscas esvoaçavam.
--Vamos alli para o café--disse Julião.--Aqui na rua arde-se!
--Tenho estado apoquentado--ia dizendo Sebastião.--Muito apoquentado!
Quero fallar-te.
No café o papel azul ferrete e as meias portas fechadas abatiam a
aspera intensidade da luz, davam uma frescura calada.
Foram-se sentar ao fundo. Do outro lado da rua as fachadas muito
caiadas brilhavam com uma radiação faiscante. Por traz do balcão, onde
reluziam garrafas de crystal, um criado de jaquetão, estremunhado
e esguedelhado, cabeceava de somno. Um passaro chilreava dentro;
sentia-se o bater espaçado das bolas do bilhar através d'uma porta de
baeta verde; ás vezes o pregão de um cangalheiro na rua sobresahia,
e--todos estes sons, por momentos, se perdiam no ruido forte do descer
d'um trem travado.
Defronte d'elles um sujeito de ar debochado lia um jornal; as suas
melenas grisalhas collavam-se a um craneo amarellado; o bigode tinha
tons queimados do cigarro; e das noitadas ficára-lhe uma vermelhidão
inflammada nas palpebras. De vez em quando erguia preguiçosamente a
cabeça, atirava para o chão areado um jacto escuro de saliva, dava uma
sacudidella triste ao jornal e tornava a fital-o com um olhar infeliz.
Quando os dous entraram e pediram carapinhadas, abaixou-lhes gravemente
a cabeça.
--Mas o que é então?--perguntou logo Julião.
Sebastião chegou-se mais para elle:
--É por causa lá da nossa gente. Por causa do primo--disse baixo.
E acrescentou:
--Tu vistel-o, hein?
A lembrança repentina da sua humilhação na sala de Luiza trouxe um
rubor ás faces de Julião. Mas muito orgulhoso, disse seccamente:
--Vi.
--E então?
--Pareceu-me um asno!--exclamou, não se contendo.
--E um extravagante--disse com terror Sebastião--Não te pareceu, hein?
--Pareceu-me um asno--repetiu.--Umas maneiras, uma affectação, um
alambicado, a olhar muito para as meias, umas meias ridiculas de
mulher...
E com um certo sorriso azedado:
--Eu mostrei-lhe francamente as minhas botas. Estas--disse, apontando
para os botins mal engraxados--tenho muita honra n'ellas, são de quem
trabalha...
Porque publicamente costumava gloriar-se d'uma pobreza, que intimamente
não cessava de o humilhar.
E remexendo devagar a sua carapinhada:
--Uma besta!--resumiu.
--Tu sabes que elle foi namoro da Luiza?--disse Sebastião, baixo, como
assustado da gravidade da confidencia.
E respondendo logo ao olhar surprehendido de Julião:
--Sim. Ninguem o sabe. Nem Jorge. Eu soube-o ha pouco, ha mezes. Foi.
Estiveram para casar. Depois o pai falliu, elle foi para o Brazil, e de
lá escreveu a romper o casamento.
Julião sorriu, e encostando a cabeça á parede:
--Mas isso é o enredo da _Eugenia Grandet_, Sebastião! Estás-me a
contar o romance de Balzac! Isso é a _Eugenia Grandet_!
Sebastião fitou-o espantado.
--Ora! não se póde fallar serio comtigo. Dou-te a minha palavra
d'honra--acrescentou vivamente.
--Vá, Sebastião, vá, dize.
Houve um silencio. O sujeito calvo, agora, contemplava o estuque do
tecto sujo do fumo dos cigarros e do pousar das moscas; e, com a mão
sapuda, de tom pegajoso, cofiava amorosamente as rêpas. No bilhar vozes
altercavam.
Sebastião então, como tomado d'uma resolução, disse bruscamente:
--E agora vai lá todos os dias, não sahe de lá!
Julião afastou-se na banqueta e encarou-o:
--Tu queres-me dar a entender alguma cousa, Sebastião?
E com uma vivacidade quasi jovial:
--O primo atira-se?
Aquella palavra escandalisou Sebastião.
--Ó Julião!--E severamente:--Com essas cousas não se brinca!
Julião encolheu os hombros.
--Mas está claro que se atira!--exclamou.--És de bom tempo ainda! Está
claro que sim! Namorou-a solteira, agora quel-a casada!
--Falla baixo--acudiu Sebastião.
Mas o criado dormitava, e o sujeito calvo tinha recahido na sua leitura
funebre.
Julião baixou a voz:
--Mas é sempre assim, Sebastião. O primo Bazilio tem razão; quer o
prazer sem a responsabilidade!
E quasi ao ouvido d'elle:
--É de graça, amigo Sebastião! É de graça! Tu não imaginas que
influencia isto tem no sentimento!
Riu-se. Estava radioso; as palavras, as pilherias vinham-lhe com
abundancia:
--Ha um marido que a veste, que a calça, que a alimenta, que a engomma,
que a vela se está doente, que a atura se ella está nervosa, que tem
todos os encargos, todos os tedios, todos os filhos, todos, todos os
que vierem, sabes a lei... Por consequencia o primo não tem mais que
chegar, bater ao ferrolho, encontra-a aceada, fresca, appetitosa á
custa do marido, e...
Teve um risinho, recostou-se com uma grande satisfação, enrolando
deliciosamente o cigarro, regosijando-se no escandalo.
--É optimo!--acrescentou.--Todos os primos raciocinam assim. Bazilio
é primo, logo... Sabes o syllogismo, Sebastião! Sabes o syllogismo,
menino!--gritou, dando-lhe uma palmada na perna.
--É o diabo--murmurou Sebastião cabisbaixo.
Mas revoltando-se contra a suspeita que o ia dominando:
--Mas tu suppões que uma rapariga de bem...
--Eu não supponho nada!--acudiu Julião.
--Falla baixo, homem!
--Eu não supponho nada--repetiu Julião baixinho.--Eu affirmo o que elle
faz. Agora ella...
E acrescentou com seccura:
--Como é uma rapariga honesta...
--Se é!--exclamou Sebastião, batendo uma punhada na pedra da mesa.
--Prompto!--cantou arrastadamente o moço.
O velho calvo ergueu-se logo; mas vendo que o criado se recolhia
ao balcão bocejando, e que os dous continuavam a remexer a sua
carapinhada, encostou os cotovêlos á mesa, salivou para longe, e
puxando o jornal deixou-lhe cahir em cima um olhar desolado.
Sebastião disse, então, com tristeza: