Havia doze dias que Jorge tinha partido e, apesar do calor e da poeira,
Luiza vestia-se para ir a casa de Leopoldina. Se Jorge soubesse, não
havia de gostar, não! Mas estava tão farta de estar só! Aborrecia-se
tanto! De manhã, ainda tinha os arranjos, a costura, a _toilette_,
algum romance... Mas de tarde!
Á hora em que Jorge costumava voltar do ministerio, a solidão parecia
alargar-se em torno d'ella. Fazia-lhe tanta falta o _seu_ toque da
campainha, os seus passos no corredor!...
Ao crepusculo, ao vêr cahir o dia, entristecia-se sem razão, cahia
n'uma vaga sentimentalidade: sentava-se ao piano, e os fados tristes,
as cavatinas apaixonadas gemiam instinctivamente no teclado, sob os
seus dedos preguiçosos, no movimento abandonado dos seus braços molles.
O que pensava em tolices então! E á noite, só, na larga cama franceza,
sem poder dormir com o calor, vinham-lhe de repente terrores, palpites
de viuvez.
Não estava acostumada, não podia estar só. Até se lembrára de chamar a
tia Patrocinio, uma velha parenta pobre que vivia em Belem: ao menos
era _alguem_: mas receou aborrecer-se mais ao pé da sua longa figura de
viuva taciturna, sempre a fazer meia, com enormes oculos de tartaruga
sobre um nariz d'aguia.
N'aquella manhã pensára em Leopoldina, toda contente d'ir tagarellar,
rir, segredar, passar as horas do calor. Penteava-se em collete e
saia branca: a camisinha decotada descobria os ombros alvos d'uma
redondeza macia, o collo branco e tenro, azulado de vêasinhas finas; e
os seus braços redondinhos, um pouco vermelhos no cotovêlo, descobriam
por baixo, quando se erguiam prendendo as tranças, fiosinhos louros,
frisando e fazendo ninho.
A sua pelle conservava ainda o rosado humido da agua fria: havia no
quarto um cheiro agudo de vinagre de _toilette_: os transparentes de
linho branco descidos davam uma luz baça, com tons de leite.
Ah! positivamente devia escrever a Jorge, que voltasse depressa!
Que o que tinha graça era ir surprehendel-o a Evora, cahir-lhe no
Tabaquinho, um dia, ás tres horas! E quando elle entrasse empoeirado e
encalmado, de lunetas azues, atirar-se-lhe ao pescoço! E á tardinha,
pelo braço d'elle, ainda quebrada da jornada, com um vestido fresco,
ir vêr a cidade. Pelas ruas estreitas e tristes admiravam-na muito.
Os homens vinham ás portas das lojas. Quem seria? É de Lisboa. É a do
Engenheiro.--E diante do toucador, apertando o corpete do vestido,
sorria áquellas imaginações, e ao seu rosto, no espelho.
A porta do quarto rangeu devagarinho.
--Que é?
A voz de Juliana, plangente, disse:
--A senhora dá licença que eu vá logo ao medico?
--Vá, mas não se demore. Puxe-me essa saia atraz. Mais. O que é que
vossê tem?
--Enjôos, minha senhora, peso no coração. Passei a noite em claro.
Estava mais amarella, o olhar muito pisado, a face envelhecida. Trazia
um vestido de merino preto escoado, e a cuia da semana de cabellos
velhos.
--Pois sim, vá--disse Luiza.--Mas arranje tudo antes. E não se demore,
hein ?
Juliana subiu logo á cozinha. Era no segundo andar, com duas janellas
de sacada para as trazeiras, larga, ladrilhada de tijolo diante do
fogão.
--Diz que sim, snr.^a Joanna--disse á cozinheira--que podia ir. Vou-me
vestir. Ella tambem está quasi prompta. Fica vossemecê com a casa por
sua!
A cozinheira fez-se vermelha, poz-se a cantar, foi logo sacudir,
estender na varanda um velho tapete esfiado; e os seus olhos não
deixavam, defronte, uma casa baixa, pintada d'amarello, com um portal
largo,--a loja de marceneiro do tio João Galho, onde trabalhava o
Pedro, o seu amante. A pobre Joanna «babava-se» por ele. Era um
rapazola pallido e afadistado; Joanna era minhota, de Avintes, de
familia de lavrador, e aquella figura delgada de lisboeta anemico
seduzia-a com uma violencia abrazada. Como não podia sahir á semana,
mettia-o em casa, pela porta de traz, quando estava só; estendia então
na varanda para dar signal o velho tapete desbotado, onde ainda se
percebiam os paus de um veado.
Era uma rapariga muito forte, com peitos d'ama, o cabello como
azeviche, todo lustroso do oleo de amendoas dôces. Tinha a testa curta
de plebêa teimosa. E as sobrancelhas cerradas faziam-lhe parecer o
olhar mais negro.
--Ai!--suspirou Juliana.--A snr.^a Joanna é que a leva!
A rapariga ficou escarlate.
Mas Juliana acudiu logo:
--Olha o mal! fosse eu! Boa! faz muito bem!
Juliana lisongeava sempre a cozinheira: dependia d'ella: Joanna
dava-lhe caldinhos ás horas de debilidade, ou, quando ella estava mais
adoentada, fazia-lhe um bife ás escondidas da senhora. Juliana tinha
um grande medo de «cair em fraqueza», e a cada momento precisava tomar
a «sustancia». De certo, como feia e solteirona detestava aquelle
«escandalo do carpinteiro»; mas protegia-o, porque elle valia muitos
regalos aos seus fracos de gulosa.
--Fosse eu!--repetiu--dava-lhe o melhor da panella! Se a gente ia a
ter escrupulos por causa dos amos, boa! Olha quem! Vêem uma pessoa a
morrer, e é como fosse um cão.
E com um risinho amargo:
--Diz que me não demorasse no medico. É como quem diz, cura-te depressa
ou espicha depressa!
Foi buscar a vassoura a um canto, e com um suspiro agudo:
--Todas o mesmo, uma récua!
Desceu, começou a varrer o corredor.--Toda a noite estivera doente: o
quarto no sotão, debaixo das telhas, muito abafado, com um cheiro de
tijolo cozido, dava-lhe enjôos, faltas d'ar, desde o começo do verão:
na vespera até vomitára! E já levantada ás seis horas, não descançára,
limpando, engommando, despejando, com a pontada no lado e todo o
estomago embrulhado!--Tinha escancarado a cancella, e com grandes ais,
atirava vassouradas furiosas contra as grades do corrimão.
--A snr.^a D. Luiza está em casa?
Voltou-se. Nos ultimos degraus da escada estava um sujeito, que lhe
pareceu «estrangeirado». Era trigueiro, alto, tinha um bigode pequeno
levantado, um ramo na sobrecasaca azul, e o verniz dos seus sapatos
resplandecia.
--A senhora vai sahir--disse ela olhando-o muito.--Faz favor de dizer
quem é?
O individuo sorriu.
--Diga-lhe que é um sujeito para um negocio. Um negocio de minas.
Luiza, diante do toucador, já de chapéo, mettia n'uma casa do corpete
dous botões de rosa de chá.
--Um negocio!--disse muito surprehendida--Deve ser algum recado para o
snr. Jorge, de certo! Mande entrar. Que especie de homem é?
--Um janota!
Luiza desceu o véo branco, calçou devagar as luvas de _peau de suède_
claras, deu duas pancadinhas fofas ao espelho na gravata de renda, e
abriu a porta da sala. Mas quasi recuou, fez _ah!_ toda escarlate.
Tinha-o reconhecido logo. Era o primo Bazilio.
Houve um _shake-hands_ demorado, um pouco tremulo. Estavam ambos
calados:--ella com todo o sangue no rosto, um sorriso vago; elle
fitando-a muito, com um olhar admirado. Mas as palavras, as perguntas
vieram logo, muito precipitadamente:--Quando tinha elle chegado? Se
sabia que elle estava em Lisboa? Como soubera a morada d'ella?
Chegára na vespera no paquete de Bordeus. Perguntára no ministerio:
disseram-lhe que Jorge estava no Alemtejo, deram-lhe a _adresse_...
--Como tu estás mudada, Santo Deus!
--Velha?
--Bonita!
--Ora!
E elle, que tinha feito? Demorava-se?
Foi abrir uma janella, dar uma luz larga, mais clara. Sentaram-se. Elle
no sophá muito languidamente; ella ao pé, pousada de leve á beira d'uma
poltrona, toda nervosa.
Tinha deixado o _degredo_--disse elle.--Viera respirar um pouco á
velha Europa. Estivera em Constantinopla, na Terra Santa, em Roma.
O ultimo anno passára-o em Paris. Vinha de lá, d'aquella aldeola de
Paris!--Fallava devagar, recostado, com um ar intimo, estendendo sobre
o tapete, commodamente, os seus sapatos de verniz.
Luiza olhava-o. Achava-o mais varonil, mais trigueiro. No cabello
preto annelado havia agora alguns fios brancos: mas o bigode pequeno
tinha o antigo ar moço, orgulhoso e intrepido; os olhos, quando ria, a
mesma doçura amollecida, banhada n'um fluido. Reparou na ferradura de
perola da sua gravata de setim preto, nas pequeninas estrellas brancas
bordadas nas suas meias de sêda. A Bahia não o vulgarisára. Voltava
mais interessante!
--Mas tu, conta-me de ti--dizia elle com um sorriso, inclinado para
ela.--És feliz, tens um pequerrucho...
--Não--exclamou Luiza rindo.--Não tenho! Quem te disse?
--Tinham-me dito. E teu marido demora-se?
--Tres, quatro semanas, creio.
Quatro semanas! Era uma viuvez! Offereceu-se logo para a vir vêr mais
vezes, palrar um momento, pela manhã...
--Pudera não! És o unico parente, que tenho, agora...
Era verdade!... E a conversação tomou uma intimidade melancolica:
fallaram da mãi de Luiza, a _tia Jójó_, como lhe chamava Bazilio. Luiza
contou a sua morte, muito dôce, na poltrona, sem um ai...
--Onde está sepultada?--perguntou Bazilio com uma voz grave; e
acrescentou, puxando o punho da camisa de chita:--Está no nosso jazigo?
--Está.
--Hei-de ir lá. Pobre tia Jójó!
Houve um silencio.
--Mas tu ias sahir!--disse Bazilio de repente, querendo erguer-se.
--Não!--exclamou--Não! Estava aborrecida, não tinha nada que fazer. Ia
tomar ar. Não saio, já.
Elle ainda disse:
--Não te prendas...
--Que tolice! Ia a casa d'uma amiga passar um momento.
Tirou logo o chapéo; n'aquelle movimento os braços erguidos repuxaram o
corpete justo, as fórmas do seio accusaram-se suavemente.
Bazilio torcia a ponta do bigode devagar; e vendo-a descalçar as luvas:
--Era eu antigamente quem te calçava e descalçava as luvas...
Lembras-te?... Ainda tenho esse privilegio exclusivo, creio eu...
Ella riu-se.
--De certo que não...
Bazilio disse então, lentamente, fitando o chão:
--Ah! Outros tempos!
E poz-se a fallar de Collares: a sua primeira idéa, mal chegára, tinha
sido tomar uma tipoia e ir lá: queria vêr a quinta; ainda existiria o
balouço debaixo do castanheiro? ainda haveria o caramanchão de rosinhas
brancas, ao pé do Cupido de gesso que tinha uma aza quebrada?...
Luiza ouvira dizer que a quinta pertencia agora a um brazileiro: sobre
a estrada havia um mirante com um tecto chinez, ornado de bolas de
vidro; e a velha casa morgada fôra reconstruida e mobilada pelo Gardé.
--A nossa pobre sala de bilhar, côr d'oca, com grinaldas de
rosas!--disse Bazilio; e fitando-a:--Lembras-te das nossas partidas de
bilhar?
Luiza, um pouco vermelha, torcia os dedos das luvas; ergueu os olhos
para elle, disse, sorrindo:
--Eramos duas crianças!
Bazilio encolheu tristemente os hombros, fitou as ramagens do tapete:
parecia abandonar-se a uma saudade remota, e com uma voz sentida:
--Foi o bom tempo! Foi o meu bom tempo!
Ella via a sua cabeça bem feita, descahida n'aquella melancolia
das felicidades passadas, com uma risca muito fina, e os cabellos
brancos--que lhe dera a separação. Sentia tambem uma vaga saudade
encher-lhe o peito: ergueu-se, foi abrir a outra janella, como para
dissipar na luz viva e forte aquella perturbação. Perguntou-lhe então
pelas viagens, por Paris, por Constantinopla.
Fôra sempre o seu desejo viajar--dizia--ir ao Oriente. Quereria andar
em caravanas, balouçada no dorso dos camêlos; e não teria medo, nem do
deserto, nem das feras...
--Estás muito valente!--disse Bazilio.--Tu eras uma maricas, tinhas
medo de tudo... Até da adega, na casa do papá, em Almada!
Ella córou. Lembrava-se bem da adega, com a sua frialdade subterranea
que dava arripios! A candêa d'azeite pendurada na parede alumiava com
uma luz avermelhada e fumosa as grossas traves cheias de têas d'aranha,
e a fileira tenebrosa das pipas bojudas. Havia alli ás vezes, pelos
cantos, beijos furtados...
Quiz saber então o que tinha feito em Jerusalém, se era bonito.
Era curioso. Ia pela manhã um bocado ao Santo Sepulchro; depois
d'almoço montava a cavallo... Não se estava mal no hotel, inglezas
bonitas... Tinha algumas intimidades illustres...
Fallava d'ellas, devagar, traçando a perna: o seu amigo o patriarcha
de Jerusalém, a sua velha amiga a princeza de La Tour d'Auvergne! Mas
o melhor do dia era de tarde--dizia--no Jardim das Oliveiras, vendo
defronte as muralhas do templo de Salomão, ao pé a aldêa escura de
Bethania onde Martha fiava aos pés de Jesus, e mais longe, faiscando
immovel sob o sol, o mar Morto! E alli passava sentado n'um banco,
fumando tranquillamente o seu cachimbo!
Se tinha corrido perigos?
De certo. Uma tempestade de arêa no deserto de Petra! Horrivel! Mas
que linda viagem, as caravanas, os acampamentos! Descreveu a sua
_toilette_:--uma manta de pelle de camêlo ás listras vermelhas e
pretas, um punhal de Damasco n'uma cinta de Bagdad, e a lança comprida
dos Beduinos.
--Devia-te ficar bem!
--Muito bem. Tenho photographias.
Prometteu dar-lhe uma, e acrescentou:
--Sabes que te trago presentes?
--Trazes?--E os seus olhos brilhavam.
O melhor era um rosario...
--Um rosario?
--Uma reliquia! Foi benzido primeiro pelo patriarcha de Jerusalém sobre
o tumulo de Christo, depois pelo papa...
Ah! Porque tinha estado com o papa! Um velhinho muito aceado, já todo
branquinho, vestido de branco, muito amavel!
--Tu d'antes não eras muito devota--disse.
--Não, não sou muito caturra n'essas cousas--respondeu rindo.
--Lembras-te da capella de nossa casa em Almada?
Tinham passado alli lindas tardes! Ao pé da velha capella morgada
havia um adro todo cheio de altas hervas floridas,--e as papoulas,
quando vinha a aragem, agitavam-se como azas vermelhas de borboletas
pousadas...
--E a tilia, lembras-te, onde eu fazia gymnastica?
--Não fallemos no que lá vai!
Em que queria ella então que elle fallasse? Era a sua mocidade, o
melhor que tivera na vida...
Ella sorriu, perguntou:
--E no Brazil?
Um horror! Até fizera a côrte a uma mulata.
--E porque te não casaste?...
Estava a mangar! Uma mulata!
--E de resto--acrescentou com a voz d'um arrependimento
triste--já que me não casei quando devia,--encolheu os hombros
melancolicamente--acabou-se... Perdi a vez. Ficarei solteiro.
Luiza fez-se escarlate. Houve um silencio.
--E qual é o outro presente, então, além do rosario?
--Ah! Luvas. Luvas de verão, de _peau de suède_, de oito botões. Luvas
decentes. Vossês aqui usam umas luvitas de dous botões, a vêr-se o
punho, um horror!
De resto pelo que tinha visto, as mulheres em Lisboa cada dia se
vestiam peor! Era atroz! Não dizia por ella; até aquelle vestido tinha
_chic_, era simples, era honesto. Mas em geral, era um horror. Em
Paris! Que deliciosas, que frescas as _toilettes_ d'aquelle verão!
Oh! mas em Paris!... Tudo é superior! Por exemplo, desde que chegára
ainda não pudera comer. Positivamente não podia comer!--Só em Paris se
come--resumiu.
Luiza voltava entre os dedos o seu medalhão de ouro, preso ao pescoço
por uma fita de velludo preto.
--E estiveste então um anno em Paris?
Um anno divino. Tinha um _appartamento_ lindissimo, que pertencera a
lord Falmouth, rue Saint Florentin, tinha tres cavallos...
E recostando-se muito, com as mãos nos bolsos:
--Emfim, fazer este valle de lagrimas o mais confortavel possivel!...
Dize cá, tens algum retrato n'esse medalhão?
--O retrato de meu marido.
--Ah! deixa vêr!
Luiza abriu o medalhão. Elle debruçou-se; tinha o rosto quasi sobre o
peito d'ella. Luiza sentia o aroma fino que vinha de seus cabellos.
--Muito bem, muito bem!--fez Bazilio.
Ficaram calados.
--Que calor que está!--disse Luiza.--Abafa-se, hein!
Levantou-se, foi abrir um pouco uma vidraça. O sol deixára a varanda.
Uma aragem suave encheu as pregas grossas das bambinellas.
--É o calor do Brazil--disse elle.--Sabes que estás mais crescida?
Luiza estava de pé. O olhar de Bazilio corria-lhe as linhas do corpo; e
com a voz muito intima, os cotovêlos sobre os joelhos, o rosto erguido
para ella:
--Mas, francamente, dize cá, pensaste que eu te viria vêr?
--Ora essa! Realmente, se não viesses zangava-me. És o meu unico
parente... O que tenho pena é que meu marido não esteja...
--Eu--acudiu Bazilio--foi justamente por elle não estar...
Luiza fez-se escarlate. Bazilio emendou logo, um pouco corado tambem:
--Quero dizer... talvez elle saiba que houve entre nós...
Ella interrompeu:
--Tolices! Eramos duas crianças. Onde isso vai!
--Eu tinha vinte e sete annos--observou elle, curvando-se.
Ficaram calados, um pouco embaraçados. Bazilio cofiava o bigode,
olhando vagamente em redor.
--Estás muito bem installada aqui--disse.
Não estava mal... A casa era pequena, mas muito commoda. Pertencia-lhes.
--Ah! estás perfeitamente! Quem é esta senhora, com uma luneta d'ouro?
E indicava o retrato por cima do sophá.
--A mãi de meu marido.
--Ah! vive ainda?
--Morreu.
--É o que uma sogra póde fazer de mais amavel...
Bocejou ligeiramente, fitou um momento os seus sapatos muito aguçados,
e com um movimento brusco, ergueu-se, tomou o chapéo.
--Já? Onde estás?
--No Hotel Central. E até quando?
--Até quando quizeres. Não disseste que vinhas ámanhã com o rosario?
Elle tomou-lhe a mão, curvou-se:
--Já se não póde dar um beijo na mão d'uma velha prima?
--Porque não?
Pousou-lhe um beijo na mão, muito longo, com uma pressão dôce.
--Adeus!--disse.
E á porta, com o reposteiro meio erguido, voltando-se:
--Sabes, que eu, ao subir as escadas, vinha a perguntar a mim mesmo,
como se vai isto passar?
--Isto quê? Vêrmo-nos outra vez? Mas, perfeitamente. Que imaginaste tu?
Elle hesitou, sorriu:
--Imaginei que não eras tão boa rapariga. Adeus. Ámanhã, hein?
No fundo da escada accendeu o charuto, devagar.
--Que bonita que ella está!--pensou.
E arremessando o phosphoro, com força:
--E eu, pedaço d'asno, que estava quasi decidido a não a vir vêr!
Está de appetite! Está muito melhor! E sósinha em casa, aborrecidinha
talvez!...
Ao pé da Patriarchal fez parar um _coupé_ vazio; e estendido, com o
chapéo nos joelhos, em quanto a parelha esfalfada trotava:
--E tem-me o ar de ser muito aceada, cousa rara na terra! As mãos muito
bem tratadas! O pé muito bonito!
Revia a pequenez do pé, poz-se a fazer por elle o desenho mental de
outras bellezas, despindo-a, querendo adivinhal-a... A amante que
deixára em Paris era muito alta e magra, d'uma elegancia de tisica;
quando se decotava viam-se as saliencias das suas primeiras costellas.
E as fórmas redondinhas de Luiza decidiram-no:
--A ella!--exclamou com appetite:--A ella, como S. Thiago aos mouros!
Luiza, quando o sentiu em baixo fechar a porta da rua, entrou no
quarto, atirou o chapéo para a _causeuse,_ e foi-se logo vêr ao
espelho. Que felicidade estar vestida! Se elle a tivesse apanhado em
roupão, ou mal penteada!... Achou-se muito afogueada, cobriu-se de pós
de arroz. Foi á janella, olhou um momento a rua, o sol que batia ainda
nas casas fronteiras. Sentia-se cançada. Áquellas horas, Leopoldina
estava a jantar já, de certo... Pensou em escrever a Jorge «para
matar o tempo», mas veio-lhe uma preguiça; estava tanto calor! Depois
não tinha que lhe dizer! Começou então a despir-se devagar diante do
espelho, olhando-se muito, gostando de se vêr branca, acariciando a
finura da pelle, com bocejos languidos d'um cansaço feliz.--Havia
sete annos que não via o primo Bazilio! Estava mais trigueiro, mais
queimado, mas ia-lhe bem!
E depois de jantar ficou junto á janella, estendida na _voltaire_, com
um livro esquecido no regaço. O vento cahira, e o ar, de um azul forte
nas alturas, estava immovel; a poeira grossa pousára, a tarde tinha
uma transparencia calma de luz; passaros chilreavam na figueira brava;
da serralheria proxima sahia o martellar continuo e sonoro de folhas
de ferro. Pouco a pouco o azul desbotou; sobre o poente, laivos de côr
de laranja desmaiada esbateram-se como grandes pinceladas desleixadas.
Depois tudo se cobriu de uma sombra diffusa, calada e quente, com uma
estrellinha muita viva que luzia e tremia. E Luiza deixára-se ficar na
_voltaire_ esquecida, absorvida, sem pedir luz.
--Que vida interessante a do primo Bazilio!--pensava.--O que elle tinha
visto! Se ella podesse tambem fazer as suas malas, partir, admirar
aspectos novos e desconhecidos, a neve nos montes, cascatas reluzentes!
Como desejaria visitar os paizes que conhecia dos romances--a Escocia e
os seus lagos taciturnos, Veneza e os seus palacios tragicos; aportar
ás bahias, onde um mar luminoso e faiscante morre na arêa fulva; e das
cabanas dos pescadores, de tecto chato, onde vivem as Graziellas, vêr
azularem-se ao longe as ilhas de nomes sonoros! E ir a Paris! Paris
sobretudo! Mas, qual! Nunca viajaria de certo; eram pobres; Jorge era
caseiro, tão lisboeta!
Como seria o patriarcha de Jerusalém? Imaginava-o de longas barbas
brancas, recamado d'ouro, entre instrumentações solemnes e rolos de
incenso! E a princeza de La Tour d'Auvergne? Devia ser bella, de uma
estatura real, vivia cercada de pagens, namorára-se de Bazilio.--A
noite escurecia, outras estrellas luziam.--Mas de que servia viajar,
enjoar nos paquetes, bocejar nos wagons, e, n'uma diligencia muita
sacudida, cabecear de somno pela serra nas madrugadas frias? Não era
melhor viver n'um bom conforto, com um marido terno, uma casinha
abrigada, colxões macios, uma noite de theatro ás vezes, e um bom
almoço nas manhãs claras quando os canarios chalram? Era o que ella
tinha. Era bem feliz! Então veio-lhe uma saudade de Jorge; desejaria
abraçal-o, tel-o alli, ou quando descesse ir encontral-o fumando o seu
cachimbo no escriptorio, com o seu jaquetão de velludo. Tinha tudo,
elle, para fazer uma mulher feliz e orgulhosa: era bello, com uns
olhos magnificos, terno, fiel. Não gostaria de um marido com uma vida
sedentaria e caturra: mas a profissão de Jorge era interessante; descia
aos poços tenebrosos das minas, um dia aperrára as pistolas contra
uma malta revoltada; era valente, tinha talento! Involuntariamente,
porém, o primo Bazilio fazendo fluctuar o seu _burnous_ branco pelas
planicies da Terra Santa; ou em Paris, direito na almofada, governando
tranquillamente os seus cavallos inquietos--davam-lhe a idéa d'uma
outra existencia mais poetica, mais propria para os episodios do
sentimento.
Do céo estrellado cahia uma luz diffusa: janellas alumiadas sobresahiam
ao longe, abertas á noite abafada: vôos de morcegos passavam diante da
vidraça.
--A senhora não quer luz?--perguntou á porta a voz fatigada de Juliana.
--Ponha-a no quarto.
Desceu. Bocejava muito, sentia-se quebrada.
--É trovoada--pensou.
Foi á sala, sentou-se ao piano, tocou ao acaso bocados da _Lucia_, da
_Somnambula_, o _Fado_; e parando, os dedos pousados de leve sobre
o teclado, poz-se a pensar que Bazilio devia vir no dia seguinte:
vestiria o roupão novo de _foulard_ côr de castanho! Recomeçou o
_Fado_, mas os olhos cerravam-se-lhe.
Foi para o quarto.
Juliana trouxe o rol e a lamparina. Vinha arrastando as chinellas, com
um casabeque pelos hombros, encolhida e lugubre. Aquella figura com um
ar de enfermaria irritou Luiza:
--Credo, mulher! Vossê parece a imagem da morte!
Juliana não respondeu. Pousou a lamparina; apanhou, placa a placa,
sobre a commoda, o dinheiro das compras; e com os olhos baixos:
--A senhora não precisa mais nada, não?
--Vá-se, mulher, vá!
Juliana foi buscar o candieiro de petroleo, subiu ao quarto. Dormia em
cima, no sotão, ao pé da cozinheira.
--Pareço-te a imagem da morte!--resmungava, furiosa.
O quarto era baixo, muito estreito, com o tecto de madeira inclinado;
o sol, aquecendo todo o dia as telhas por cima, fazia-o abafado
como um forno; havia sempre á noite um cheiro requentado de tijolo
escandecido. Dormia n'um leito de ferro, sobre um colxão de palha
molle coberto d'uma colcha de chita; da barra da cabeceira pendiam os
seus _bentinhos_ e a rêde enxovalhada que punha na cabeça; ao pé tinha
preciosamente a sua grande arca de pau, pintada de azul, com uma grossa
fechadura. Sobre a mesa de pinho estava o espelho de gaveta, a escova
de cabello ennegrecida e despellada, um pente d'osso, as garrafas de
remedio, uma velha pregadeira de setim amarello, e, embrulhada n'um
jornal, a _cuia_ de retroz dos domingos. E o unico adorno das paredes
sujas, riscadas da cabeça de phosphoros,--era uma lithographia de Nossa
Senhora das Dôres por cima da cama, e um daguerreotypo onde se percebia
vagamente, no reflexo espelhado da lamina, os bigodes encerados e as
divisas de um sargento.
--A senhora já se deitou, snr.^a Juliana?--perguntou a cozinheira do
quarto pegado, d'onde sahia uma barra de luz viva cortando a escuridão
do corredor.
--Já se deitou, snr.^a Joanna, já. Está hoje com os azeites. Falta-lhe
o homem!
Joanna, ás voltas, fazia ranger as madeiras velhas da cama. Não podia
dormir! Abafava-se! Ouf!
--Ai! e aqui!--exclamou Juliana.
Abriu o postigo que dava para os telhados, para deixar arejar; calçou
as chinellas de tapete, e foi ao quarto de Joanna. Mas não entrou,
ficou á porta; era _criada de dentro_, evitava familiaridades. Tinha
tirado a _cuia_, e com um lenço preto e amarello amarrado na cabeça, o
seu rosto parecia mais chupado, e as orelhas mais despegadas do craneo;
a camisa decotada descobria as claviculas descarnadas; a saia curta
mostrava as canellas muito brancas, muito seccas. E com o casabeque
pelos hombros, coçando devagarinho os cotovêlos agudos:
--Diga-me cá, snr.^a Joanna--disse com a voz discreta--aquelle sujeito
demorou-se muito? Reparou?
--Tinha sahido n'aquelle instantinho, quando vossemecê entrou. Ouf!
Encalmada, quasi descoberta, com as pernas muito abertas, Joanna
coçava-se furiosamente por baixo da grossa camisa com folhos á minhota
que lhe descobria os peitos. Não podia parar com os persevejos! O raio
do quarto tinha ninhos! Até sentia o estomago embrulhado.
--Ai! é um inferno!--disse com lastima Juliana.--Eu só adormeço com
dia. Mas ainda eu agora reparo... Vossemecê tem S. Pedro á cabeceira. É
devoção?
--É o santo do meu rapaz--disse a outra. Sentou-se na cama. Ouf! E
então tinha estado toda a noite com uma sêde!...
Saltou para o chão, com passadas rijas que faziam tremer o soalho, foi
ao jarro, pôl-o á bocca, bebeu uma tarraçada. A camisa justa, feita de
pouca fazenda, mostrava as fórmas rijas e valentes.
--Pois eu fui ao medico--disse Juliana. E com um grande suspiro:--Ai!
isto só Deus, snr.^a Joanna! Isto só Deus!
Mas porque se não resolvia a snr.^a Juliana a ir á mulher de virtude?
Era a saude certa. Morava ao Poço dos Negros; tinha orações e unguentos
para tudo. Levava meia moeda pelo _preparo_...
--Que isso são humores, snr.^a Juliana. O que vossemecê tem, são
humores.
Juliana tinha dado dous passos para dentro do quarto. Quando se tratava
de doenças, de remedios, tornava-se mais familiar.
--Eu já me tenho lembrado... eu já me tenho lembrado de ir á mulher.
Mas, meia moeda!
E ficou a olhar, tristemente, reflectindo.
--É o que eu tenho junto para umas botinas de gaspia!
Eram o seu vicio, as botinas! Arruinava-se com ellas: tinha-as de
duraque com ponteiras de verniz, de cordovão com laço, de pellica
com pespontos de côr, embrulhadas em papeis de sêda, na arca,
fechadas--guardadas para os domingos!
Joanna censurou-a.
--Ai! eu, em se tratando do corpo, do interior, que o diabo leve os
arrebiques!
Queixou-se tambem da sua miseria. Tinha pedido á senhora um mez
adiantado! Estava sem camisas! As duas que tinha eram uns trapos! Pelo
gosto da que trazia, a desfazerem-se!
--Mas, então!--suspirou--O meu rapaz precisou um dinheiro...
--Vossemecê tambem, snr.^a Joanna, deixa-se cardar pelo homem!
Joanna sorriu.
--Ainda que eu tivesse de roer ossos, snr.^a Juliana, a ultima migalha
havia de ser p'ra elle!
Juliana teve um risinho secco, e com a voz arrastada:
--Vale lá a pena!
Mas invejava asperamente a cozinheira pela posse d'aquelle amor, pelas
suas delicias. Repetiu, contrafeita:
--Vale lá a pena! Perfeito rapaz--continuou--o que veio hoje vêr a
senhora! Melhor que o homem!
E depois d'uma pausa:
--Então esteve mais de duas horas?
--Tinha sahido quando vossemecê entrou.
Mas o candieiro de petroleo apagava-se, com um cheiro fetido e uma
fumarada negra.
--Boa noite, snr.^a Joanna. Ainda vou rezar a minha corôa.
--Ó snr.^a Juliana!--disse a outra d'entre os lençoes--Se vossemecê
quer rezar tres salvè-rainhas pela saude do meu rapaz que tem estado
adoentado, eu cá lhe rezava tres pelas melhoras do peito.
--Pois sim, snr.^a Joanna!
Mas reflectindo:
--Olhe. Eu do peito vou melhor; dê-m'as antes p'ra allivio das dôres de
cabeça. A Santa Engracia!
--Como vossemecê quizer, snr.^a Juliana.
--Se faz favor. Boa noite! Fica-lhe ahi um cheiro! Credo!
Foi para o quarto. Rezou, apagou a luz. Um calor molle continuo cahia
do forro; começou a faltar-lhe o ar: tornou a abrir o postigo, mas o
bafo quente que vinha dos telhados enjoava-a; e era assim todas as
noites, desde o começo do estio! Depois as madeiras velhas fervilhavam
de bicharia! Nunca, nunca, nas casas que servira, tinha tido um quarto
peor. Nunca!
A cozinheira começou a resonar ao lado. E acordada, ás voltas, com
afflicções no coração, Juliana sentia a vida pesar-lhe, com uma
amargura maior!
Nascera em Lisboa. O seu nome era Juliana Couceiro Tavira. Sua mãi
fôra engommadeira; e desde pequena tinha conhecido em casa um sujeito,
a quem chamavam na visinhança--_o fidalgo_, a quem sua mãi chamava--o
snr. D. Augusto. Vinha todos os dias, de tarde no verão, no inverno
de manhã, para a saleta onde sua mãi engommava, e alli estava horas
sentado no poial da janella que dava para um quintalejo, fumando
cachimbo, cofiando em silencio um enorme bigode preto. Como o poial era
de pedra, punha-lhe em cima, com muito methodo, uma almofada de vento,
que elle mesmo soprava. Era calvo, e trazia ordinariamente uma quinzena
de velludo castanho e chapéo alto branco. Ás seis horas levantava-se,
esvaziava a almofada, estava um bocado a esticar as calças para cima,
e sahia, com a sua grossa bengala de cana da India debaixo do braço,
gingando da cinta. Ella e sua mãi iam então jantar na mesinha de pinho
da cozinha debaixo d'um postigo, diante do qual se balouçavam, de verão
e d'inverno, galhos magros d'uma arvore triste.
Á noite o snr. D. Augusto voltava; trazia sempre um jornal; sua mãi
fazia-lhe chá e torradas, servia-o, toda enlevada n'elle. Muitas vezes
Juliana a vira chorar de ciumes.
Um dia uma visinha má, a quem ella não quizera ajudar a lavar a roupa,
enfureceu-se, e atirando-lhe injurias dos degraus da porta,--gritou-lhe
que sua mãi era uma desavergonhada, e que seu pai estava na Africa por
ter morto o _Rei de Copas_!
Pouco tempo depois foi servir. Sua mãi morreu d'ahi a mezes, com uma
doença d'utero. Juliana só uma vez tornou a vêr o snr. D. Augusto,--uma
tarde, com uma opa rôxa, lugubre, na procissão de Passos!
Servia, havia vintes annos. Como ella dizia, mudava de amos, mas não
mudava de sorte. Vinte annos a dormir em cacifros, a levantar-se
de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos velhos, a soffrer
os repellões das crianças e as más palavras das senhoras, a fazer
despejos, a ir para o hospital quando vinha a doença, a esfalfar-se
quando voltava a saude!... Era de mais! Tinha agora dias em que só de
vêr o balde das aguas sujas e o ferro d'engommar se lhe embrulhava o
estomago. Nunca se acostumára a servir. Desde rapariga a sua ambição
fôra ter um negociosito, uma tabacaria, uma loja de capellista ou de
quinquilherias, dispôr, governar, ser patrôa: mas, apesar d'economias
mesquinhas e de calculos sôfregos, o mais que conseguira juntar foram
sete moedas ao fim d'annos: tinha então adoecido; com o horror do
hospital fôra tratar-se para casa d'uma parenta; e o dinheiro, ai!
derretera-se! No dia em que se trocou a ultima libra, chorou horas com
a cabeça debaixo da roupa.
Ficou sempre adoentada desde então, perdeu toda a esperança de se
estabelecer. Teria de servir até ser velha, sempre, d'amo em amo! Essa
certeza dava-lhe uma desconsolação constante. Começou a azedar-se.
E depois não tinha _geito_, não sabia tirar partido das casas: via
companheiras divertir-se, visinhar, janellar, bisbilhotar, sahir aos
domingos ás hortas e aos retiros, levar o dia cantando, e quando as
patrôas iam ao theatro, abrir a porta aos derriços--e patuscar pelos
quartos! Ella não. Sempre fôra embezerrada. Fazia a sua obrigação,
comia, ia estirar-se sobre a cama; e aos domingos, quando não passeava,
encostava-se a uma janella, com o lenço sobre o peitoril para não
roçar as mangas, e alli estava immovel, a olhar, com o seu broche de
filigrana e a cuia dos dias santos! Outras companheiras eram muito das
amas, faziam-se muito humildes, sabujavam, traziam de fóra as historias
da rua, e cartinhas levadas e recadinhos e p'ra dentro e p'ra fóra,
muito confidentes,--muito presenteadas tambem! Ella não podia. Era
_minha senhora isto! minha senhora aquillo!_ E cada uma no seu lugar!
Era genio.
Desde que servia, apenas entrava n'uma casa sentia logo, n'um relance,
a hostilidade, a malquerença: a senhora fallava-lhe com seccura, de
longe; as crianças tomavam-lhe birra; as outras criadas, se estavam
chalrando, calavam-se, mal a sua figura esguia apparecia; punham-lhe
alcunhas--_a isca sêcca_, _a fava torrada_, _o saca-rolhas_;
imitavam-lhe os trejeitos nervosos; havia risinhos, cochichos pelos
cantos; e só tinha encontrado alguma sympathia nos gallegos taciturnos,
cheios d'uma saudade morrinhenta, que veem de manhã quando ainda os
quartos estão escuros, com as suas grossas passadas, encher os barris,
engraxar o calçado.
Lentamente, começou a tornar-se desconfiada, cortante como um nordeste;
tinha respostadas, questões com as companheiras; não se havia de deixar
pôr o pé no pescoço!
As antipathias que a cercavam faziam-na assanhada, como um circulo
d'espingardas enraivece um lobo. Fez-se má; beliscava crianças até lhe
ennodoar a pelle; e se lhe ralhavam, a sua colera rompia em rajadas.
Começou a ser despedida. N'um só anno esteve em tres casas. Sahia com
escandalo, aos gritos, atirando as portas, deixando as amas todas
pallidas, todas nervosas...
A inculcadeira, a sua velha amiga, a tia Victoria, disse-lhe:
--Tu acabas por não ter onde te arrumar, e falta-te o bocado do pão!
O pão! Aquella palavra que é o terror, o sonho, a difficuldade do pobre
assustou-a. Era fina, e dominou-se. Começou a fazer-se «uma pobre
mulher», com affectações de zelo, um ar de soffrer tudo, os olhos
no chão. Mas roia-se por dentro: veio-lhe a inquietação nervosa dos
musculos da face, o _tic_ de franzir o nariz: a pelle esverdeou-se-lhe
de bilis.
A necessidade de se constranger trouxe-lhe o habito d'odiar: odiou
sobretudo as patrôas, com um odio irracional e pueril. Tivera-as ricas,
com palacetes, e pobres, mulheres d'empregados, velhas e raparigas,
colericas e pacientes;--odiava-as a todas, sem differença. É patrôa
e basta! Pela mais simples palavra, pelo acto mais trivial! Se as
via sentadas:--Anda, refestela-te, que a moura trabalha! Se as via
sahir:--Vai-te, a negra cá fica no buraco! Cada riso d'ellas era uma
offensa á sua tristeza doentia; cada vestido novo uma affronta ao seu
velho vestido de merino tingido. Detestava-as na alegria dos filhos
e nas prosperidades da casa. Rogava-lhes pragas. Se os amos tinham
um dia de contrariedade, ou via as caras tristes, cantarolava todo o
dia em voz de falsete a _Carta adorada_! Com que gosto trazia a conta
retardada d'um credor impaciente, quando presentia embaraços na casa!
«Este papel!--gritava com uma voz estridente--diz que não se vai embora
sem uma resposta!» Todos os lutos a deleitavam,--e sob o chale preto,
que lhe tinham comprado, tinha palpitações de regosijo. Tinha visto
morrer criancinhas, e nem a afflicção das mães a commovera; encolhia os
hombros: «Vai d'alli, vai fazer outro. Cabras!»
As boas palavras mesmo, as condescendencias eram perdidas com ella,
como gotas d'agua lançadas no fogo. Resumia as patrôas na mesma
palavra--_uma récua_! E detestava as boas pelos vexames que soffrera
das más. A ama era para ella o Inimigo, o Tyranno. Tinha visto morrer
duas,--e de cada vez sentira, sem saber porquê, um vago allivio, como
se uma porção do vasto peso, que a suffocava na vida, se tivesse
desprendido e evaporado!
Sempre fôra invejosa; com a idade aquelle sentimento exagerou-se de
um modo aspero. Invejava tudo na casa: as sobremesas que os amos
comiam, a roupa branca que vestiam. As noites de _soirée_, de theatro,
exasperavam-na. Quando havia passeios projectados, se chovia de
repente, que felicidade! O aspecto das senhoras vestidas e de chapéo,
olhando por dentro da vidraça com um tedio infeliz, deliciava-a,
fazia-a loquaz:
--Ai minha senhora! É um temporal desfeito! É a cantaros, está para
todo o dia! Olha o ferro!
E muito curiosa: era facil encontral-a, de repente, cosida por detraz
de uma porta com a vassoura a prumo, o olhar aguçado. Qualquer carta
que vinha era revirada, cheirada... Remexia subtilmente em todas as
gavetas abertas, vasculhava em todos os papeis atirados. Tinha um modo
de andar ligeiro e surprehendedor. Examinava as visitas. Andava á busca
de um _segredo_, de um _bom segredo_! Se lhe cahia um nas mãos!
Era muito gulosa. Nutria o desejo insatisfeito de comer bem, de
petiscos, de sobremesas. Nas casas em que servia ao jantar, o seu olho
avermelhado seguia avidamente as porções cortadas á mesa; e qualquer
bom appetite que repetia exasperava-a, como uma diminuição da sua
parte. De comer sempre os restos ganhára o ar aguado,--o seu cabello
tomára tons seccos, côr de rato. Era lambareira: gostava de vinho;
em certos dias comprava uma garrafa de oitenta reis, e bebia-a só,
fechada, repimpada, com estalos da lingua, a orla do vestido um pouco
erguida, revendo-se no pé.
E nunca tivera um homem, era virgem. Fôra sempre feia, ninguem a
tentára: e, por orgulho, por birra, com receio de uma desfeita, não se
offerecera, como vira muitas, claramente. O unico homem que a olhára
com desejo tinha sido um criado de cavalhariça, atarracado e immundo,
de aspecto facinora: a sua magreza, a sua _cuia_, o seu ar domingueiro
tinham excitado o bruto. Fitava-a com um ar de _bull-dog_. Causára-lhe
horror,--mas vaidade. E o primeiro homem por quem ella sentira, um
criado bonito e alourado, rira-se d'ella, pozera-lhe o nome da _Isca
sêcca_! Não contou mais com os homens, por despeito, por desconfiança
de si mesma. As rebelliões da natureza, suffocava-as; eram _fogachos,
flatos_. Passavam. Mas faziam-na mais secca; e a falta d'aquella grande
consolação aggravava a miseria da sua vida.
Um dia teve, emfim, uma grande esperança. Entrára para o serviço
da snr.^a D. Virginia Lemos, uma viuva rica, tia de Jorge, muito
doente, quasi a morrer com um catarrho de bexiga. A tia Victoria, a
inculcadeira, preveniu-a:
--Tu trata a velha, apaparica-a, que ella o que quer é uma enfermeira
que a soffra. É rica, não é nada apegada ao dinheiro, é capaz de te
deixar uma independencia!
Durante um anno Juliana, roída de ambição, foi a enfermeira da velha.
Que zelos! que mimos!
Virginia era muito rabugenta, a idéa de morrer enfurecia-a; quanto mais
ella ralhava com a sua voz guttural, mais Juliana se fazia serviçal. A
velha, por fim, estava enternecida: gabava-a ás pessoas que a vinham
vêr, chamava-lhe a sua _providencia_. Tinha-a recommendado muito a
Jorge.
--Não ha outra! não ha outra!--exclamava.
--Pois apanhaste!--dizia-lhe a tia Victoria.--Pelo menos deixa-te o teu
conto de reis.
Um conto de reis! Juliana, de noite, em quanto a velha gemia no seu
antigo leito de pau santo, via o conto de reis á claridade morbida que
dava a lamparina, reluzir em pilhas de ouro inesgotavel e prodigioso.
Que faria com o dinheiro? E, á cabeceira da doente, com um cobertor
pelos hombros, os olhos dilatados e fixos, planeava: poria uma loja de
capellista! Vinham-lhe logo lampejos vivos de outras felicidades: um
conto de reis era um dote, poderia casar, teria um homem!
Estavam acabadas as canceiras. Ia jantar, emfim, o _seu_ jantar!
Mandar, emfim, a _sua_ criada! A _sua_ criada! Via-se a chamal-a,
a dizer-lhe, de cima para baixo:--Faça, vá, despeje, sáia!--Tinha
contracções no estomago, de alegria. Havia de ser boa ama. Mas que lhe
andassem direitas! Desmazelos, más respostas, não havia de soffrer a
criadas!--E, impellida por aquellas imaginações, arrastava subtilmente
as chinellas pelo quarto, fallando só.--Não, desmazelos, não havia de
soffrer! Mantel-as bem, de certo, porque quem trabalha precisa metter
p'ra dentro! Mas havia de lh'o tirar do corpo. Ah! lá isso, haviam de
lhe andar direitas...--A velha tinha então um gemido mais afflicto.
--É agora!--pensava--Morre!
E o seu olhar ancioso ia logo para a gaveta da commoda, onde estava
de certo o dinheiro, os papeis. Mas não! a velha queria beber, ou
voltar-se...
--Como se sente?--perguntava Juliana, com uma voz plangente.
--Melhor, Juliana, melhor--murmurava.
Suppunha-se sempre melhor.
--Mas a senhora tem estado desinquieta!--dizia Juliana, despeitada da
melhora.
--Não--suspirava--dormi bem!
--Isso não tem dormido... Tenho-a ouvido gemer! Tem estado toda a noite
a gemer!
Queria argumentar com ella, convencel-a que estava peor! Convencer-se a
si mesma que o allivio era ephemero, que ia morrer depressa! E todas as
manhãs seguia o dr. Pinto até á porta, com os braços cruzados, a face
triste:
--Então, snr. doutor, não ha esperança?
--Está por dias!
Queria saber os dias: dous? cinco?
--Sim, snr.^a Juliana--dizia o velho, calçando as suas luvas
pretas--uns dias, sete, oito.
--Oito dias!
E como a felicidade se aproximava, já tinha de olho tres pares de
botinas que vira na vidraça do Manoel Lourenço!
A velha, emfim, morreu. Nem a mencionava no testamento!
Veio-lhe uma febre. Jorge, agradecido pelos cuidados d'ella com a tia
Virginia, pagou-lhe um quarto no hospital, e prometteu tomal-a para
criada de dentro. A que tinha, uma Emilia muito bonita, ia casar.
Quando sahiu do hospital para casa de Jorge, começava a queixar-se
mais do coração. Vinha desilludida de tudo, tinha ás vezes vontade de
morrer. Ouviam-se todo o dia pela casa os seus _ais_. Luiza achava-a
funebre.
Quiz despedil-a ao fim de duas semanas. Jorge não consentiu,
estava em divida com ella, dizia. Mas Luiza não podia disfarçar a
sua antipathia;--e Juliana começou a detestal-a: poz-lhe logo um
nome:--a _piorrinha_! depois, d'ahi a semanas viu vir os estofadores:
renovava-se a mobilia da sala! A tia Virginia deixára tres contos de
reis a Jorge,--e ella, ella que durante um anno fôra a enfermeira,
humilde como um cão e fixa como uma sombra, aturando o monstrengo,
tinha em paga ido para o hospital, com uma febre, das noitadas, das
canceiras! Julgava-se vagamente roubada. Começou a odiar a casa.
Tinha para isso muitas razões, dizia: dormia n'um cubiculo abafado; ao
jantar não lhe davam vinho, nem sobremesa; o serviço dos engommados
era pesado; Jorge e Luiza tomavam banho todos os dias, e era um
trabalhão encher, despejar todas as manhãs as largas bacias de folha:
achava despropositada aquella mania de se pôrem a chafurdar todos os
dias que Deus deitava ao mundo; tinha servido vinte amos, e nunca
vira semelhante desproposito! A unica vantagem--dizia ella á tia
Victoria--era não haver pequenos; tinha horror a crianças! Além d'isso
achava que o bairro era saudavel; e como tinha a cozinheira «na mão»,
não é verdade? havia aquelle regalo dos caldinhos, de algum prato
melhor de vez em quando! Por isso ficava; senão, não era ella!
Fazia no entanto o seu serviço, ninguem tinha nada que lhe dizer. O
olho aberto sempre e o ouvido á escuta, já se vê! E como perdera a
esperança de se estabelecer, não se sujeitava ao rigor de economisar:
por isso ia-se consolando com algumas pinguinhas, de vez em quando; e
satisfazia o seu vicio,--trazer o pé catita. O pé era o seu orgulho, a
sua mania, a sua despeza. Tinha-o bonito e pequenino.
--Como poucos--dizia ella--não vai outro ao Passeio!
E apertava-o, aperreava-o; trazia os vestidos curtos, lançava-o muito
para fóra. A sua alegria era ir aos domingos para o Passeio Publico,
e alli, com a orla do vestido erguida, a cara sob o guarda-solinho de
sêda, estar a tarde inteira na poeira, no calor, immovel, feliz,--a
mostrar, a expôr o pé!