--Quem não era capaz de deixar Lisboa, nem á mão de Deus Padre, era o
conselheiro!
O conselheiro, voltando-se vagarosamente para ella, um pouco curvado,
replicou:
--Nasci em Lisboa, D. Felicidade, sou lisboeta d'alma!
--O conselheiro--lembrou Jorge--nasceu na rua de S. José.
--Numero setenta e cinco, meu Jorge. Na casa pegada áquella em que
viveu, até casar, o meu prezado Geraldo, o meu pobre Geraldo!
Geraldo, o seu pobre Geraldo, era o pai de Jorge. Accacio fôra o seu
intimo. Eram visinhos. Accacio tocava então rebeca, e, como Geraldo
tocava flauta, faziam duos, pertenciam mesmo á Philarmonica da rua de
S. José. Depois Accacio, quando entrou nas repartições do Estado, por
escrupulo e por dignidade, abandonou a rebeca, os sentimentos ternos,
os serões joviaes da Philarmonica. Entregou-se todo á estatistica. Mas
conservou-se muito leal a Geraldo; continuou mesmo a Jorge aquella
amizade vigilante; fôra padrinho do seu casamento, vinha vêl-o todos os
domingos, e, no dia de seus annos, mandava-lhe pontualmente, com uma
carta de felicitações, uma lampreia d'ovos.
--Aqui nasci--repetiu, desdobrando o seu bello lenço de sêda da
India--e aqui conto morrer.
E assoou-se discretamente.
--Isso ainda vem longe, conselheiro!
Elle disse, com uma melancolia grave:
--Não me arreceio d'_ella_, meu Jorge. Até já fiz construir, sem
vacillar, no Alto de S. João, a minha ultima morada. Modesta, mas
decente. É ao entrar, no arruamento á direita, n'um lugar abrigado, ao
pé da choça dos Verissimos amigos.
--E já compoz o seu epitaphio, snr. conselheiro?--perguntou Julião, do
canto, ironico.
--Não o quero, snr. Zuzarte. Na minha sepultura não quero elogios.
Se os meus amigos, os meus patricios entenderem que eu fiz alguns
serviços, teem outros meios para os commemorar; lá teem a imprensa,
o communicado, o necrologio, a poesia mesmo! Por minha vontade quero
apenas sobre a lapide lisa, em letras negras, o meu nome--com a minha
designação de conselheiro--a data do meu nascimento e a data do meu
obito.
E com um tom demorado, de reflexão:
--Não me opponho todavia a que inscrevam por baixo, em letras menores:
_Orai por elle!_
Houve um silencio commovido, e á porta uma voz fina, disse:
--Dão licença?
--Oh Ernestinho!--exclamou Jorge.
Com um passo miudinho e rapido, Ernestinho veio abraçal-o pela cintura:
--Eu soube que tu que partias, primo Jorge... Como está, prima Luiza?
Era primo de Jorge. Pequenino, lymphatico, os seus membros franzinos,
ainda quasi tenros, davam-lhe um aspecto debil de collegial; o buço,
delgado, empastado em cêra-mostache, arrebitava-se aos cantos em pontas
afiadas como agulhas; e na sua cara chupada, os olhos repolhudos
amorteciam-se com um quebrado langoroso. Trazia sapatos de verniz com
grandes laços de fita; sobre o collete branco, a cadêa do relogio
sustentava um medalhão enorme, d'ouro, com fructos e flôres esmaltadas
em relevo. Vivia com uma actrizita do Gymnasio, uma magra, côr de
melão, com o cabello muito riçado, o ar tisico,--e escrevia para o
theatro. Tinha traducções, dous originaes n'um acto, uma comedia em
_calembourgs_. Ultimamente trazia em ensaios nas Variedades uma obra
consideravel, um drama em cinco actos, a _Honra e Paixão_. Era a sua
estreia séria. E desde então, viam-no sempre muito atarefado, os bolsos
inchados de manuscriptos, com localistas, com actores, muito prodigo
de cafés e de _cognacs_, o chapéo ao lado, descórado, e dizendo a
todos: Esta vida, mata-me! Escrevia todavia por paixão entranhada pela
Arte--porque era empregado na alfandega, com bom vencimento, e tinha
quinhentos mil reis de renda das suas inscripções. A Arte mesmo, dizia,
obrigava-o a desembolsos: para o acto do baile da _Honra e Paixão_
mandára fazer, á sua custa, botas de verniz para o _galan_, botas de
verniz para o _pai-nobre_! O seu nome de familia era Ledesma.
Deram-lhe um lugar, e Luiza notou logo, pousando o bordado, que estava
abatido! Queixou-se então das suas fadigas: os ensaios arrazavam-no,
tinha turras com o empresario: na vespera, vira-se forçado a refazer
todo o final d'um acto! todo!
--E tudo isto--acrescentou muito exaltado--porque é um pelintra, um
parvo, e quer que se passe n'uma sala, o acto que se passava n'um
abysmo!
--N'um quê?--perguntou surprehendida D. Felicidade.
O conselheiro, muito cortez, explicou:
--N'um abysmo, D. Felicidade, n'um despenhadeiro. Tambem se diz, em bom
vernaculo, um _vortice_.--Citou: _N'um espumoso vortice se arroja..._
--N'um abysmo?--perguntaram.--Porquê?
O conselheiro quiz conhecer o _lance_.
Ernestinho, radioso, esboçou largamente o enredo:--Era uma mulher
casada. Em Cintra tinha-se encontrado com um homem fatal, o conde de
Monte-Redondo. O marido arruinado, devia cem contos de reis ao jogo!
Estava deshonrado, ia ser preso. A mulher, louca, corre a umas ruinas
acastelladas, onde habita o conde, deixa cahir o véo, conta-lhe a
catastrophe. O conde lança o seu manto aos hombros, parte, chega no
momento em que os beleguins vão levar o homem.--É uma scena muito
commovente, dizia, é de noite, ao luar!--O conde desembuça-se, atira
uma bolsa d'ouro aos pés dos beleguins, gritando-lhes: Saciai-vos,
abutres!...
--Bello final!--murmurou o conselheiro.
--Emfim--acrescentou Ernesto, resumindo--aqui ha um enredo complicado:
o conde de Monte-Redondo e a mulher amam-se, o marido descobre,
arremessa todo o seu ouro aos pés do conde, e mata a esposa.
--Como?--perguntaram.
--Atira-a ao abysmo. É no quinto acto. O conde vê, corre, atira-se
tambem. O marido cruza os braços, e dá uma gargalhada infernal. Foi
assim que eu imaginei a cousa!
Calou-se, offegante: e, abanando-se com o lenço, rolava em redor os
seus olhos langorosos, prateados como os d'um peixe morto.
--É uma obra de cunho, embatem-se grandes paixões!--disse o
conselheiro, passando as mãos sobre a calva.--Os meus parabens, snr.
Ledesma!
--Mas que quer o empresario?--perguntou Julião, que escutára de pé,
attonito--que quer elle? Quer o abysmo n'um primeiro andar, mobilado
pelo Gardé?
Ernestinho voltou-se, muito affectuosamente:
--Não, snr. Zuzarte,--a sua voz era quasi meiga--quer o desfecho n'uma
sala. De modo que eu--e fazia um gesto resignado--a gente tem de
condescender, tive d'escrever outro final. Passei a noite em claro.
Tomei tres chavenas de café!...
O conselheiro acudiu, com a mão espalmada:
--Cuidado, snr. Ledesma, cuidado! Prudencia com esses excitantes! Por
quem é, prudencia!
--A mim não me faz mal, snr. conselheiro--disse sorrindo.--Escrevi-o em
tres horas! Venho de lh'o mostrar agora. Até o tenho aqui...
--Leia, snr. Ernesto, leia!--exclamou logo D. Felicidade.
Que lêsse! que lêsse! porque não lia?
Era uma massada!... Era um rascunho!... Emfim, como queriam!... E
radiante desdobrou, no silencio, uma grande folha de papel azul pautado.
--Eu peço desculpa. Isto é um borrão. A cousa não está ainda com todos
os FF e RR.--Fez então voz theatral:--Agatha!... É a mulher; isto aqui
é a scena com o marido, o marido já sabe tudo...