JUDAS NO PLURAL

(PASCHOA DE 1873)

Foram-se alguns mas ainda ficaram muitos. Ha-os de todas as idades, de

todos os feitios e de todos os sexos. A vida seria um perpetuo sabbado

d'alleluia se cada homem e cada mulher tivesse a consciencia do que é.

Mas o grande erro do nosso barro é o querermos enganar-nos a nós mesmos.

D'este erro nascem todos ou quasi todos os maus sentimentos,--a vaidade,

o orgulho, a perfidia...

Na perfidia é que bate o ponto,--da perfidia é que hoje se tracta.

Queimou-se hontem pelas ruas a figura do apostolo traidor, e a maioria

das pessoas que eu encontrei tinha as faces radiosas d'alegria e não

denotava arder na fogueira interior em que muitas vezes nos

queimamos,--o remorso. Tudo por não nos querermos conhecer, tudo por não

descermos ás profundezas de nós mesmos a tactear aquella costella de

Judas que herdamos de nossa mãe Eva, quando no paraiso terreal

seduzia o esposo com blandicias conjugaes para tental-o a comer do

fructo prohibido. No pomo da tentação foi toda a perfida maldade da

fingida esposa. Adão comeu-o, digeriu-o, entrou-lhe muito da substancia

na massa do sangue. Depois o sangue do primeiro homem correu para os

grandes vasos da humanidade e levou comsigo alguma coisa da fatal maçã,

alguma coisa de Judas. Succedeu porém que no corpo do discipulo traidor

entrou maior dose do veneno; isto significa simplesmente que elle era

mais traidor do que nós e não que, por elle o ser, não o sejamos tambem.

Somos! Se somos! O que nós temos a nosso favor é a civilisação do nosso

tempo e a suavidade dos nossos costumes. Judas fez uma acção má por

maneira peior do que a acção. Nós fazemos o que elle fez,--mas sabemos

fazel-o. Elle, com toda a rudeza dos seus babitos de pescador, envenenou

com a sua traição a mais doce formula de exprimir a amisade,--o beijo.

O beijo ficou envenenado, e tanto assim é, que desconfiamos sempre do

beijo, excepto quando elle desabrocha em labios de mãe.

É que o coração materno, profundo como o mar, é inviolavel como elle:

rejeita qualquer corpo extranho á pureza dos seus sentimentos. Feita

esta excepção, a primeira e unica,--o beijo continua a estar envenenado.

O beijo tem sempre um fim, o beijo é simplesmente um instrumento. Parece

impossivel que uma coisa que dura tão pouco possa fazer tanto mal, mas

faz. Ah! é de noite, n'um quintalsinho de roseiras? Lá ao longe ha

montes, recortados por pinheiraes, e pinheiraes illuminados pela lua cheia?

Julieta está entre as suas roseiras, com os cabellos revoltos, o seio

offegante? Um fremito! Foi uma folha que cahiu? Ah! não foi,--foi um

beijo que poisou. Estás bem servido, desgraçado! Romeu piegas! esse

beijo coou-te ao sangue a febre do casamento. Ó desgraçado!...

É uma noite d'inverno. A chuva é torrencial. A ventania abala as

janellas. Tu estás sentado ao fogão, com o teu _robe-de-chambre_ e o teu

capote, com os pés no _fender_ e a cabeça mettida dentro do barrete de

velludo preto. Leste o teu jornal, e ficaste somnolento, ou fosse que o

jornal te adormecesse ou que o calor te enervasse. Chegaste a um d'esses

estados de espirito em que já se não pensa em nada; e se se pensasse em

alguma coisa, era decerto em dormir. N'isto ouves entrar na sala tua

mulher.

Abriste os olhos, conheceste-lhe o andar e deixaste cahir as palpebras.

Ella vem, pé-ante-pé, debruçar-se do espaldar, bater-te uma palmada no

hombro, e dizer-te maviosamente:

--Já são horas de me vestir, filho?

Estremeces, como se te rebentasse aos pés uma bomba Orsini.

--Vestir?

--São nove horas. Eu mandei vir a carruagem ás onze.

--Ó filha, mas eu estou constipado, não posso comigo, tem

paciencia, filha, mas com esta noite, não vamos, não podemos ir!...

Atchi, atchi... olha como eu estou constipado!

--Ahi estás tu com as tuas phantasias, com a tua negregada imaginação!

Dir-me-has ámanhã se peioraste com o baile. Imagina que desces as

escadas muito embrulhado no teu capote, que te mettes na carruagem, que

te deixas enterrar nas almofadas, que chegamos finalmente, que entras

nas salas onde as luzes conservam uma temperatura confortavel, que o

conselheiro e o doutor esperam por ti, que fazem a sua partida de

voltarete, que dás seis codilhos e um geral, que vaes tres vezes á casca...

--Tudo isso é verdade, filha, mas hoje não póde ser. Estou indisposto,

estou bruto, deixa-me dizer assim, estou bruto. Hoje, se jogasse o

voltarete, não ia á casca, dava á casca com toda a certeza.

Ella, que n'esta esgrima conjugal tem guardado para o fim o bote

decisivo, continua um pouco mysteriosamente, cada vez mais debruçada na

cadeira:

--Pois sim, tu não queres ir... não vamos... por mim pouco me importa.

Mas lembra-te que não jantaste ainda ha duas horas, que n'esta sala faz

um calor excessivo, que o medico...

O marido, aprumando-se e esgazeando o olhar:

--Que o medico?

Ella perplexa:

--Deixemos isso. Vamos ao baile, filho, anda vestir-te...

Elle:

--Ó Nini, mas que disse o medico? Não me enganes... Este fogão... este

maldito fogão... eu bem sinto que isto é calor de mais.

--Mais uma rasão para o evitares.

--Ó filha, ó Nini, mas passar agora para o frio!

--Não passes já: arrefece primeiro. Em todo o caso livra-te do fogão,

homem, livra-te d'este fogão, que hade dar cabo de ti... Bem o disse...

--O medico?

--Sim, o medico.

--Que disse elle, Nini?

--Que fizesse por arrancar-te ao fogão, porque este calor, depois de

jantar, bem sabes que o teu temperamento...

--Ah! Já sei! A apoplexia!

E n'isto cae dos labios da esposa á face sanguinea do marido um beijo

muito mais venenoso do que um frasco d'acido prussico. E que a esposa

vende a tranquillidade do marido pelos trinta dinheiros do baile.

E as creanças, quando são inquietas como borboletas, e têem cabellos

loiros como o sol, e olhos azues como o céo, que graciosos Judas que

ellas são! Prohibe-lhes a gente que bulam no _bouquet_ que poisamos em

cima da mesa. E ellas a estenderem sorrateiramente a mão...

--Menina!

--Menino!

--Não bula ahi.

--Deixe estar isso.

E d'ahi a segundos lá torna a creança a mexer com a mãosita, como um

beija-flôr que estivesse abrindo uma aza para ir oscular uma rosa.

--Tu apanhas!

--Espera ahi!

E a creança, em vez de saltar ao _bouquet_, salta ao nosso collo, e

afaga-nos, e pede-nos meigamente que lhe deixemos vêr o _bouquet_, que

ella só o quer vêr, que só o quer cheirar. Beija-nos! O almasita de

Judas em corpo de cherubim! Tu não sabes que o beijo foi a arma de

Judas, mas o que tu já advinhaste é que o beijo é um veneno com que a

gente facilmente mata uma opposição qualquer.

Os governos ainda se não lembraram d'este grande expediente, mas estou

certo de que mais tarde ou mais cedo será incluido na longa lista das

tricas parlamentares.

Supponhamos que um ministerio não tinha maioria. Um dos ministros

entrava na camara, e estava fallando vehementemente um dos maiores

oradores do parlamento. As accusações eram energicas, o ministro

sentia-se abalado no pedestal do governo, via cavar-se-lhe aos pés o

abysmo do _nunca mais_. Era preciso uma ideia salvadora, um pensamento

luminoso. Pois bem. S. ex.ª o ministro levantava-se doidamente

apaixonado, e corria a beijar freneticamente o orador da opposição. E s.

ex.ª o deputado, affrontado d'aquella ancia de beijar, cahia na cadeira

amavelmente asphyxiado, e afastava com um gesto carinhoso s. ex.ª o

ministro.

Já se tentou rehabilitar o beijo, mudando-lhe o nome. Começou-se a dizer

osculo, não por ser mais elegante a dicção, mas por ser menos conhecida.

Logo porém que se veio a saber o que era o osculo, entrou-se a

desconfiar tanto do osculo como do beijo.

Diziam os namorados:

--Acreditas o juramento?

--Não acredito.

--E se o sellar com um osculo?

--Oh! não acredito. Não póde haver amor exdruxulo.

Nós não rompemos por entre a multidão, asperamente, apartando os grupos,

para ir vender com um beijo; vendemos e compramos com um beijo,

negociando com elle serenamente. A grande culpa de Judas foi falsificar

a moeda e lançal-a falsificada na circulação. Nós não falsificamos, é

verdade, mas negociamos com dinheiro falso.

Por isso hontem, quando a alleluia passava festivamente de torre em

torre, e estralejava nas ruas, e os Judas de palha iam arder estoirando

com grande applauso do rapazio, eu ouvi soar a meus ouvidos a grande voz

da Rasão, d'esta Rasão que se escreve com letra maiuscula por ser da

escola do Infinito, e dizer:

--Se só os que não fossem Judas devessem acender o rastilho, estes monos

de palha, que tu ahi vês, não arderiam jámais.

* * * * *

Entre o caffé e o cognac · 第 57 / 64 题