Sabeis o que é ir correndo mundo, com os olhos fitos n'uma esperança,
vencendo todos os obstaculos, dormindo á sombra d'uma arvore á espera da
aurora, que é o pharol dos que navegam no mar da vida, deixando-se bater
dos temporaes que passam mugindo e alastrando a estrada de folhas e
flores? Os viandantes apenas relanceiam um olhar de surpreza ou desdem
ao peregrino que vae absorto no seu pensar, e logo desviam a vista a
procurar horisonte, sem se importarem mais com a sombra que se afastou,
d'olhos baixos, porque o horisonte que procura ainda está longe, porque
o céo coberto de nuvens sinistras não côa ainda os fulgores iriados do
sol...
A sombra que perpassou por vós, ó caminheiros da vida, levava uma ideia
comsigo, um proposito, um desejo, uma esperança.
Vós ides com a vossa ideia; elle vae com a sua. Vós procuraes um
horisonte; elle procura outro. Vós quereis aproveitar o dia; elle quer
esperar a alvorada. Ris-vos! Pois se o sol desencadea das alturas
torrentes de luz, dizeis vós, se tudo é azul e oiro no céo, elaboração e
abundancia na terra, como é que o peregrino vae a procurar a aurora que
se illumina apenas de palidos diluculos, e não aquece o mundo, e não
fecunda a gleba, e não doira as aguas? Toda a gente vos dará rasão,
porque a humanidade costuma legislar para as circumstancias normaes da
vida, para as temperas vulgares que seguem a rotina do vicio ou da
virtude, para as abelhas que volitam em inalteravel rotação em derredor
da grande colmea do mundo, e não vos obrigam a suppôr o caso
extraordinario de desertar uma do enxame e ir procurar em jardins
remotos os sucos com que ha-de encher de mel o seu favo. Ah! não riaes.
É que o espirito d'elle não foi vasado nos moldes communs do vosso; é
que a sua alma não se póde medir pela bitola que põe limites ao vulgar
dos homens; é que o peregrino que passou tem o seu ideial n'umas alturas
que só a aguia com a sua vista audaz e penetrante logrará devassar. Ride
pois.
Chamae-lhe devaneador, utopista, poeta, visionario... Notae porém que
nobreza a sua! Vós não vos contentaes com o vosso riso banal, e chegaes
ao insulto; elle vae com a sua ideia e com o seu silencio, á procura do
seu sol. Vós transigis com todos os accidentes da jornada para vos
dardes repouso e conforto; elle não entra ás pousadas, porque lá
dentro ha rumor de vozes, e cada um dos convivas ha de ter uma opinião
que póde não ser a sua. Senta-se pois á sombra de uma arvore, por entre
cujas frondes descem as fitas do luar ou as ondulações do sol, porque a
arvore póde dar sombra a todos, e porque sobranceiro á arvore fica o céo
que é o abrigo universal... Alli tem as suas visões, as suas luctas,
alli se retemperam as suas esperanças, e ainda o horisonte tão vasto e
tão limpido, sem um contorno que denuncie a architectura dos castellos
sonhados na phantasia!
Não importa. Bastará uma hora de descanço physico para reanimal-o.
Depois, lá irá pela estrada deserta, rompendo as trevas, expondo a
fronte ao açoite dos vendavaes, á procura da sua luz. É o peregrinar
continuo do sonhador que não encontra, dizeis vós, a realidade, porque o
seu ideal não terá realidade. Ah! vós sabeis lêr no futuro, escrutar os
segredos do amanhã, sondar o destino que é intangivel? E elle, o
peregrino, tambem se podia rir de vós, porque elle bem sabe que muitas
vezes na nuvem rosada do occaso referve latente a tempestade da noite.
Não se ri, não vos insulta: caminha. Mas sabei, porém, que o sonhador
que vós chasqueaes é o audaz Colombo que vae á procura d'um mundo novo;
o velho Noé que anda recolhendo madeiras para construir a arca em que se
ha de salvar no diluvio sonhado; o inquebrantavel Demosthenes que erra
de montanha em montanha para afinar pela orchestra das tempestades a
revolta eloquencia com que ha de oppôr uma enorme barreira ás hostes
conquistadoras de Philippe. Todos tres pareciam devaneadores, e todavia
a visão de Colombo abrange um hemispherio, e a arca de Noé depõe nas
faldas do Arará a familia que ha de ser humanidade, e Demosthenes com um
só decreto lucta contra os exercitos de Philippe.
Se o visseis, tambem vos ririeis do louco que andava acordando os echos
dos fragoedos para _domar as rebeldias da palavra_, que devia de ser a
primeira espada hellenica. E todavia o devaneador solitario das
montanhas mereceu aos athenienses seus irmãos este epitaphio: «Ó
Demosthenes, se a tua força fosse igual á tua eloquencia, jámais o Marte
da Macedonia haveria submettido a Grecia!»
Demosthenes dos tempos modernos, Emilio Castelar, o sonhador da
republica hespanhola, errava desde os primeiros annos na indefessa
peregrinação do seu ideial. Quando mais brilhavam de clarões festivos os
paços de Castella, e o throno de S. Fernando se recamava de custosos
brocados, ia elle mundo alem, de capital em capital, ouvindo os homens e
estudando os acontecimentos para tirar horoscopos com a credulidade do
sonhador que só vive do seu phantasiar.
Quem no caminho o encontrava, ficava-se dizendo aos companheiros:
Visionario! E os companheiros repetiam: Visionario!
E elle caminhava, caminhava, medindo-se com a voz da tempestade, como
Demosthenes, e expondo a ampla fronte ao turbilhão que arrastava na
passagem o sceptro de Napoleão III, a corôa d'Izabel, o manto de
Maximiliano, folhas soltas da arvore da realeza...
Corria o mundo, visitava Paris, estudava Roma, e a peregrinação não
tinha ainda acabado, e havia tantos annos que partira! D'onde partira
elle, o visionario? Da praia do seu pensamento, das regiões da
liberdade, da _sancta sanctorum_ onde guardava este evangelho da sua
religião politica:
«A liberdade, a igualdade, prégadas no Golgotha, selladas com o sangue
de Christo, verdades religiosas no Evangelho, vieram a ser na austera
Suissa, n'esses Estados Unidos que se sacrificam pelo escravo, grandes
verdades sociaes. O mundo moderno, a civilisação moderna, não farão mais
que estender essas verdades e applical-as á vida. São como a lei
definitiva da historia. Passarão ás gerações arrastadas pela corrente
dos seculos, e não darão de si ideal superior ao ideal da liberdade.»[2]
Para onde ia elle, o sonhador das Hespanhas? Ia para o futuro que devia
chegar fatalmente, para a realisação do seu ideal, para as paragens
sonhadas que o seu espirito procurava. Acabava de vibrar o seu grito de
liberdade no Atheneu de Madrid e ia para a Republica de Hespanha. E, nem
por affrontado do caminho, levava o coração cheio d'odio contra os reis.
Amava os principes, quando fossem magnanimos; o que elle não queria
era a corôa, o throno e o sceptro, porque a corôa averga a fronte,
porque o throno eleva o homem e o homem é uno, e porque o sceptro fatiga
o braço que o sustenta. Queria liberdade, e até para os principes a
queria. Por isso, quando a generosa alma do filho de Victor Manoel,
espavorida dos horrores da grandeza, quiz sacudir de si os arminhos da
magestade, e aspirou á liberdade do seu principado, do seu lar, da sua
patria, Emilio Castelar, redigindo a resposta á mensagem d'el-rei
Amadeu, generosa como a renuncia do monarcha, fez votos porque a
liberdade, que o principe deixára nos seus jardins de Italia, voltasse a
sorrir-lhe de novo, deposta a corôa que comprime a fronte...
Quando elle viu descer do throno o ultimo rei d'Hespanha, não parou para
dizer--Emfim!--mas antes o ficou abençoando, porque comprehendeu a alma
do principe, que não tivera uma palavra d'azedume para os que o elegeram
e o desampararam, e porque o julgava tão feliz como elle proprio, porque
para ambos havia terminado a trabalhosa peregrinação, a de um pelas
regiões do poder, a do outro pelos dominios da phantasia.
E a visão convertera-se em realidade, e a Hespanha, o paiz das tradições
monarchicas, patria de reis que chegariam para occupar muitos solios, a
Hespanha, dizia eu, deixava vazio o unico throno que tinha, e sem dar
tempo a que resfolegasse a ambição dos pretendentes á realeza, arvorava
a bandeira da republica sem havêr derramado uma gota de sangue nos
despojos da magestade...
E os que tinham gritado: Visionario! ficaram olhando estupefactos para o
horisonte que no céo da peninsula apparecia refulgente dos clarões
matinaes da ideia nova.
E o peregrino despia a esclavina do caminho e lançava ao povo hespanhol,
da tribuna do poder, construida pelo povo, as primeiras palavras do
crédo republicano, porque, como disse Fenelon d'um periodo analogo da
historia grega, «tudo dependia do povo e o povo dependia da palavra».
Se a eloquencia é chamada a representar um papel activo nos destinos
d'um paiz, se ella tem necessidade de ser uma instituição do estado e um
meio de governo, é de certo quando se desencadeam todas as forças vivas
d'uma raça que readquire a consciencia da sua individualidade e do seu
poder. Então á torrente infrene da vontade popular, da seiva que rebenta
em cachões do coração do povo, é preciso oppôr a torrente da eloquencia
reflectida, a luz d'um grande espirito, que desempenhe a missão do sol,
e aqueça a seiva, para que possa fructificar e revigorar todas as
sinuosidades do organismo nacional.
A Grecia, no periodo fecundo que seguiu o grande movimento das guerras
médicas, quando a alma popular respirava desopprimida do jugo de
Pisistrato, teve Pericles que appareceu ao mundo como a mais completa
encarnação da força nova, dirigindo com a palavra, durante vinte annos,
os destinos do paiz. «Pericles, fallando, diz um historiador francez,
tinha a força e a serenidade do Jupiter homerico, tal como o cinzel
de Phidias acabava de creal-o. O que dominava no orador era um
sentimento profundo da gloria de Athenas e do papel que ella lhe havia
confiado.»
A Hespanha d'este que póde ser periodo fecundo, á similhança da Grecia,
tem tambem o seu Pericles, digno como elle do cognome de Olympiano, cuja
palavra alternadamente poderá servir de barreira e de leme, de sol e de
tufão, de correcção e de guia.
O mundo antigo costumava vencer com a espada; o mundo moderno deve
convencer com a palavra. Convencer é vencer duas vezes: vencer-se a si e
vencer aos outros.
Esta dupla missão pertence ao nosso seculo; seja pois a palavra que
derrube, a palavra que construa, a palavra que persuada, que arraste,
que conquiste. E a Hespanha, no por emquanto breve periodo da sua fórma
republicana, já por mais d'uma vez tem carecido da força e da serenidade
do Jupiter homerico, já comprimindo a impaciencia popular n'este dilemma
pungente: _Ou rei ou dictador_, já serenando as facciosas tempestades
parlamentares, como na sessão do dia 14 de março, com o seu verbo
incisivo, pensado e ardente.
Elle tem, como Pericles, o sentimento profundo da gloria d'Hespanha, e é
sobre as aguas da democracia que pretende estender a sua vara de Moysés
apontando a liberdade nascente.
Trabalhará, fallará, persuadirá. O que elle pede é a liberdade
collectiva, a felicidade da sua patria, mas se o destino lhe fôr
adverso, contentar-se-ha com a liberdade individual, volverá á modesta
posição de escriptor, aos seus jornaes americanos, á sua velha
propaganda até que resurja de novo a aurora, porque Emilio Castelar
morrerá republicano, sorrindo á liberdade.
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