Eu já citei algures estas palavras de Alexandre Dumas pae: «Ha sempre
nos moveis que vos cercam alguma cousa de vós mesmos».[1]
Tão profunda verdade, se carecesse de demonstração, encontral-a-ia no
gabinete de Camillo Castello Branco.
É aquelle um templo consagrado unicamente á Arte. Alli tem altar a
pintura, a archeologia, a historia natural, e a litteratura. Presente-se
que se está no gabinete d'um grande romancista porque se adivinha a
historia de cada quadro, a novella de cada movel, a epopêa do tinteiro
de metal amarello d'onde ha pouco mais de vinte annos tem nascido para
gloria das letras portuguezas cerca de cem livros. Tudo alli falla.
Ha idillios de saudade suavissima a murmurar ao de cima dos silenciosos
companheiros da mocidade; ha marcos milliarios que rememoram successivas
phases da vida do escriptor. Os verdadeiros amigos de Camillo são
aquelles. Só elles guardam o segredo de intimas commoções, que parecem
vibrar ainda em novellas escriptas ha doze annos, e que primeiro lhe
arrancaram lagrimas a elle do que a nós. O talento de Camillo é nosso:
estamos ha longo tempo familiarisados com elle; tanto o estimamos, que o
vamos procurar mal que se annuncia um livro novo. Nós lemos o livro já
enroupado em galas de estremada linguagem; mas o seu gabinete lê o
esboço da novella tal como lhe sahiu do coração. Nós vemos a estatua; o
seu gabinete vê Pigmalião. Quando as lagrimas nos chegam a nós já as
sentimos dulcificadas pela amenidade da phrase. Não as vemos;
conhecemos-lhes apenas os vestigios. Mas o seu gabinete viu-as. O mesmo
é pelo que respeita a personagens. Nós conhecemos o retrato; o gabinete
conheceu o modelo. Camillo tem feito a historia de muito homem; só o seu
gabinete poderia fazer a historia de Camillo. Nós temos o romancista; o
gabinete tem o homem. Ainda mais. Se os moveis quizessem fallar,
revelariam o romance de muito escriptor portuguez, que elles têm
conhecido e ouvido em intimas praticas, ora contando os seus desalentos,
as suas maguas, os seus queixumes, ora arroubando-se em enganosos
sonhos, em esperanças quasi sempre mentidas, em aspirações poucas vezes
realisadas...
Todavia o leitor denuncia-se impaciente de entrar ao gabinete de Camillo.
Entremos pois.
Corrido um reposteiro, estamos n'uma alegre e clara sala
_á-rez-de-chaussée_. Logo nos fascina o pittoresco do _ensemble_. Não é
o gabinete de Lucullo; é o escriptorio d'Horacio. Não ha iriados
reflexos de crystaes e marmores. Encontramos apenas o _atelier_ do artista.
Dizem para a rua duas largas janellas; transparentes amarellos modificam
a claridade exterior.
No desvão da janella da direita casa-se com o angulo da parede uma
pequena mesa triangular coberta de panno amarello; o desvão da janella
da esquerda é occupado por uma gaiola, prisão d'um _viuva_, ave cujo
nome procede de se vestir de negro duas vezes ao anno.
É a _viuva_ o primeiro cuidado de Camillo quando entra ao seu
escriptorio; vae vel-a, fallar-lhe, examinar se lhe faltam as regalias
indispensaveis para tornar suave a carceragem.
Á parede interposta ás duas janellas fica encostado o fogão sempre
chammejante de intenso brasido; sobranceiras ao fogão pendem uma gravura
representando Lacordaire, e um quadro com o retrato de Vieira de Castro.
Visinha do fogão está a priguiceira de palha, onde o romancista, ora com
os pés no _fender_, ora resguardados no _couvre-pied_ de feltro, procura
repousar-se para o trabalho, intercortado de pequenas pausas, lendo os
jornaes do dia e atiçando o fogo.
Entre a janella da direita e a porta, encimada por um quadro a oleo
que representa as armas da casa de Cadaval, ha uma banca com tinteiro de
prata e uma cesta de palha cogullada de cartões de visita, que a meu vêr
são o verdadeiro bosquejo historico da litteratura portugueza. O
erudicto padre Cardoso, se tivesse conhecimento d'esta cesta, poderia
augmentar consideravelmente a sua synopse com os nomes de notabilissimos
escriptores portuguezes desde Garrett a esta parte.
Este lanço de parede está adornado com os retratos da familia de Camillo
e com um quadro a oleo reputado de Murillo por pessoas sobremodo
competentes em assumptos de pintura.
Na continuação d'esta parede encontramos uma _etagére_ de pau preto com
romances francezes e inglezes; sobrepostos á _etagére_ os retratos da
familia Ouguella, uma paisagem ingleza a oleo, o collar da academia real
das sciencias que pertencera a Vieira de Castro, e uma valiosa placa de
prata que apresenta em relevo a imagem de Santo Antonio.
Segue-se uma mesa sustentando uma estantesinha entre cujos livros
notaremos as obras de Filinto Elysio; sobre a estantesinha ha um
relogio; superior um quadro anonymo a oleo, figurando o _Eden_; aos
lados duas gravuras francezas, uma assignada por Desjardins--_L'aprés
dinée_--, outra assignada por Paul Girardin--_La Benediction
paternelle_, e a photographia de José Barbosa e Silva, deputado que foi
da nação, e auctor do romance _Viver para soffrer_.
Avultam no angulo duas _etagéres_ com livros e bustos.
Cobrem a parede do fundo duas estantes envidraçadas, sobranceadas por
quadros a oleo, bustos de escriptores estrangeiros, rumas de livros, e
pela caixa que guarda o chapéo do uniforme de socio da academia
pertencente a Vieira de Castro.
Encostada á parede fronteira á porta d'entrada ha uma estante, e
pendentes varias gravuras, retratos, e pinturas.
Uma das gravuras assignada por Granville representa o lance do _Medecin
malgré lui_ em que Sganarelle diz a Géronte: _Voilá justement ce qui
fait que votre fille est muette_; ha ainda duas gravuras, copias de
Horacio Vernet, denominadas _Le dernier morceau de pain_ e _Le dernier
ami_, que o romancista possue desde os vinte annos.
Resaltam tambem d'este panno dois quadros a oleo, um relogio de parede,
uma copia da Virgem da Cadeira, o espadim de Vieira de Castro, e os
retratos de Thomaz Ribeiro, Vieira de Castro, José Julio d'Oliveira
Pinto, Francisco Martins, e morgado de Pereira, actualmente em Africa,
senhor da honra e solar de Esmeriz, antigo solar dos Pereira Forjazes,
de Riba d'Ave.
Por estes sinceros amigos d'outros tempos, Vieira de Castro, José
Barbosa e Silva, José Julio d'Oliveira Pinto, hoje cadaveres, sente
ainda o coração de Camillo pungentissima saudade. Não ha ahi encontrar
memoria mais tenaz em recordar desgraças alheias, e alma mais
devotada a carpir as angustias d'esses notaveis homens que pereceram
deixando immoredouro nome á historia portugueza mais deslembrada do que
elles valiam do que o amigo que os prantea ainda no remanço meditativo
do seu gabinete.
Em seguida á estante deparamos uma jardineira com candeeiro, albuns, e
uma urna de prata offerecida pelos portuguezes de Hongkong, como consta
da inscripção gravada na mesma urna:
AO ILL.mo E EX.mo SNR.
CAMILLO CASTELLO BRANCO
O.
OS SOCIOS DA
BIBLIOTHECA PORTUGUEZA
DE HONGKONG
1869.
Immediatamente á jardineira ficam o sophá e as poltronas d'estofo
vermelho com ramagens cinzentas. As demais cadeiras são de pau preto com
molduras douradas.
Entre o sophá e a janella da esquerda está collocado um contador sobre o
qual assentam rumas de livros e outro candeeiro.
Resta-nos fallar d'uma estante de musica, que serve de banca a Camillo,
quando por incommodo de saude não póde lêr sentado, para chegarmos á
mesa onde habitualmente escreve, posta á esquerda da porta d'entrada.
São unicos adornos da sua banca um tinteiro circular de metal amarello,
um cinzeiro de loiça, uma cabeça de metal onde archiva as cartas
recentemente recebidas, livros depositados a um e outro lado, e tiras de
papel que Camillo Castello Branco infatigavelmente enche todos os dias.
Da banca para o fogão facilmente se deslisa ao longo do tapete que cobre
todo o pavimento.
Sigamos este breve trajecto para nos repotrearmos na priguiceira de
palha em que provavelmente se reclinou o imperador do Brasil, que
Camillo Castello Branco presenteou com um quadro dos reis de Portugal
até D. João IV.
Relanceemos ainda um olhar a este mudo conjuncto de coisas inanimadas
que o romancista estima como partes integrantes de sua familia.
Parece-nos porém ouvir passos no corredor. É decerto Camillo que vem
retomar o seu posto de todos os dias. Soou a hora de trabalhar. Antes de
sentar-se, festejará a ave da gaiola, aquecerá ao fogão as mãos
enregeladas, e abancará depois para escrever um dos ultimos capitulos do
romance _Herança de Londres_ ou para traduzir primorosamente algumas
paginas do _Diccionario de educação_, de Campagne.
Antes que o artista entre ao seu _atelier_ e retome a penna que descança
sobre o tinteiro desde o alvorecer da manhã, saiamos nós, os que não
temos direito a surprehender o escriptor na doce quietação da sua vida
intima.
Entre o romancista que está escrevendo a novella cujo entrecho será
amanhã conhecido das classes menos abastadas da sociedade portugueza e
das mais remotas provincias, interpõe-se hoje o reposteiro que separa o
escriptor do homem.
* * * * *