Denso nevoeiro envolvia, como uma gaze alvissima, as altas m

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existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à

versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com

o original. No final deste livro encontrará a lista de erros

corrigidos.

Rita Farinha (Jan. 2008)

ADOLPHO CAMINHA

NO PAIZ DOS YANKEES

DOMINGOS DE MAGALHÃES--EDITOR

54 RUA DO OUVIDOR 54

LIVRARIA MODERNA

RIO DE JANEIRO

*1894*

NO PAIZ DOS YANKEES

[Figura: CRUZADOR "ALMIRANTE BARROSO"]

ADOLPHO CAMINHA

NO PAIZ DOS YANKEES

RIO DE JANEIRO

Domingos de Magalhães--editor

54 Rua do Ouvidor 54

LIVRARIA MODERNA

*1894*

DO MESMO AUTOR:

*A NORMALISTA*

I vol. broc. 3$. cnc. 5000

EM PREPARAÇÃO:

BOM--CRIOULO

Typ. da Empreza Democratica Editora--Rua do Hospicio n. 11

Taine, o glorioso Taine, o querido philosopho, cuja obra admiravel tem

sido uma especie de bussola para os que se iniciam na complicada arte da

palavra; Taine, o mestre, aconselhava sabiamente, com aquella profundeza

de vista e com aquelle raro e superior criterio de artista e

pensador:--«Que chacun dise ce qu'il a vu, et seulement ce qu'il a vu;

les observations, pourvu qu'elles soient personnelles et faites de bonne

foi, sont toujours utiles.»

Devo a estas palavras a lembrança de escrever as multiplas impressões,

os successivos transportes de admiração, de jubilo e tristeza por que

passou meu espirito durante alguns mezes de viagem nos Estados-Unídos.

A principio afigurou-se-me obra de alevantado alcance e de extrema

coragem traçar, ainda que ligeiramente, o plano de um livro sobre a

grande nação americana, tão singular em seus costumes, em sua vida

agitada e tumultuosa, em seus variadissimos aspectos...

E de facto, esse trabalho, essa difficil tarefa demandaria,

incontestavelmente, muito mais que uma somma de notas mais ou menos

verdadeiras e algum estylo. Era preciso, antes de tudo, um elevado

criterio historico e scientifico, grande cópia de conhecimentos e

profundo espirito analytico.

Não se escreve a historia de um paiz,--a vida inteira de um povo--sem

demorar-se em largo e paciente estudo sobre as suas origens, seus

habitantes primitivos, sua evolução politica e social, suas luctas

intestinas e sobre os elementos que mais directamente influíram para sua

independencia.

A elles, os historiadores e analystas da sciencia, tão arriscada

empreza.

Os poucos mezes que passei nos Estados-Unidos apenas me proporcionaram

ensejo de admirar, atravéz de um prisma todo pessoal, o progresso

assombroso d'esse extraordinario paíz.

Comprehendem-se, pois, os meus intuitos: nada mais que reproduzir, com a

possível exactidão, _o que vi_, somente _o que vi_ nessa interessante

viagem ao paiz dos _yankees_.

Procurei ser espontaneo e simples, natural e logico, evitando exageros

de observação e o estylo rebuscado e palavroso dos que, á fina força,

pretendem transformar a litteratura n'uma simples arte mecanica de

construir phrases ôcas e coloridas.

Escriptas em 1890, as paginas que se vão ler podem não ter a importancia

de um estudo completo, mas de algum modo têm seu valor intrinseco.

Rio, 1^o de Agosto de 1893.

_Ad. Caminha_

NO PAIZ DOS YANKEES

I

...Tinha cessado a faina geral de suspender ancora. Os marinheiros

estavam todos em seus postos, alerta á primeira voz, silenciosos,

enfileirados a bombordo e á boréste, alguns convenientemente

distribuidos na pôpa, na prôa e nas cobertas do cruzador.

Noite escura e chuvosa, cheia de nevoeiro e tristeza, fria, sem

estrellas, cortada de clarões longinquos. Tão escura que se não

distinguia um palmo diante do nariz, tão feia que os bicos de gaz da

cidade, soturna e quieta, bruxoleavam pallidamente com a sua luz tremula

e vacillante...

E comtudo estavamos a 19 de Fevereiro, em plena estação calmosa, no

rigor do verão.

Chuvera todo o dia. O céo conservava-se coberto de nuvens bojudas e côr

de chumbo, velando uns restos de lua.

Um grande silencio de alto mar alastrava-se por toda a bahia do Rio de

Janeiro. Sómente ao longe, para os lados da cidade, badalava o sino

d'uma egreja, compassado e lugubre.

De vez em quando passava rente com a pôpa do _Barrozo_ o vulto sombrio e

largo de uma barca Ferry, com o seu pharól de côr, dezerta, indistincta,

e que desapparecia logo na escuridão.

Seria meia noite quando o navio começou a mover-se lentamente, caminho

da barra, cheio da silenciosa melancolia dos que partiam, e uma hora

depois a cidade, as praias, e as montanhas sumiam-se na distancia, como

si o mar as fosse engolindo com a voracidade de um monstro.

Restava apenas um ponto luminoso, uma visão microscopica da terra

fluminense; era o pharol da ilha Rasa tremeluzindo, como palpebra

somnolenta, atravéz da noite.

E todos a bordo, todos silenciosamente, egoistas na sua dôr concentrada

e incommunicavel, mandaram ainda um--adeus--profundamente saudoso á vida

alegre e ruidosa do Rio.

Dizem que o homem do mar é insensivel aquelles que nunca viram esta

realidade: a lagryma da saudade brilhar na face de um marinheiro.

Lá fomos mar afóra...

Pernambuco foi o primeiro porto da nossa escala.

Viagem monotona, sem accidentes notaveis, essa do Rio ao Recife. As

horas succediam-se n'uma uniformidade tediosa e imperturbavel. Sempre o

mar, sempre o céo, ora sombrios, ora azues...

Durante o dia 21 avistámos, e isso nos consolou, uma vela que bordejava,

muito branca, triste garça erradia no horisonte luminoso.

Para quem viaja no mar uma vela que se avista é sempre motivo de

innocente alegria O marinheiro com especialidade gosta de seguil-a com o

olhar nostalgico até perdel-a completamente. É como ao avistar-se terra

depois de longa travessia: sente-se a mesma impressão bôa e indefinivel.

Na manhã de 26--léste-oeste com o pharol de S. Agostinho, e ás onze

horas recebiamos o pratico.

Impossivel entrar nesse dia, por falta de maré: passámos a noite fóra,

no Lamarão, aos solavancos, vendo, por um oculo, a cidade do Recife,

illuminada e bella, hombro a hombro com a legendaria Olinda dos

hollandezes e dos banhos de mar.

Na falta de outro assumpto falou se de historia patria.

Pela manhã de 27 o _Barrozo_ sulcava as aguas do Lamarão, lento e

magestoso, crivado de olhares. O povo saudava-o do cáes da Lingueta.

Espalhou-se logo que o principe D. Augusto, neto do imperador, vinha a

bordo, e toda a gente correu a recebel-o com essa avidez instinctiva das

massas populares. O povo pernambucano, tradicionalmente inimigo dos

imperadores, lembrava-se do tempo em que o Sr. D. Pedro de Alcantara

dava-se ao luxo de visitar o norte.

Mais tarde, ao desembarcar a turma de guardas-marinha, de que fazia

parte o principe, subiu de ponto a curiosidade publica.

--Oh! o principe!--Que é d'elle?--É um ruivo?--É aquelle barbado?

O pobre moço viu-se em apuros, e mudava de côres, e fazia-se escarlate,

e vociferava contra a plebe, occultando-se entre os collegas,

desapontado. Um preto velho teve a lembrança de ajoelhar-se aos pés de

S. A. e supplicar-lhe uma esmola. Aconteceu, porém, que errou o alvo e

foi direito a um outro rapaz, louro e rubro, como o principe, que se

apressou em desfazer o engano.

O imperial senhor achava-se ridiculo no meio de toda aquella multidão

servil e anonyma que o acompanhava, «como si visse n'elle um animal

selvagem...»

É assim o povo--ingenuo, pueril.

Visitámos, em romaria, os principaes edificios publicos: a

Penitenciaria, a Assembléa Provincial, o Gymnasio, o Theatro.

A nova Penitenciaria do Recife é um bello edificio no genero.

Impressiona tristemente esse casarão sombrio com escadarias de ferro,

onde mal penetra a claridade meridiana.

Ha criminosos de toda a especie, em cujos semblantes retratam-se

delictos tenebrosos. Nada, porém, nos commoveu tanto como a historia do

preso Gustavo Adolpho, que, ha quasi vinte annos, cumpria a terrivel

sentença a que fôra condemnado. Era um d'esses sentenciados sympathicos

que inspiram compaixão a quem os observa de perto.

Um dos nossos companheiros desejou saber a historia do seu crime e pediu

ao infeliz que lh'a contasse elle proprio.

--Não queira, disse o condemnado, não queira obrigar-me a fazer minha

propria autopsia moral... Narral-a, essa historia, seria um supplicio

muito maior do que estar eu aqui, n'este carcere, ha vinte annos...

Gustavo Adolpho parecia-nos um regenedo, tal o aspecto humilde de sua

physionomia e o tom commovente de sua voz. O isolamento transformara-lhe

a alma. A dôr tem isto de bom--purifica o espirito, é como um crysol.

Esse infame, esse assassino, Gustavo Adolpho, era um martyr. Aquelle

semblante abatido pelas insomnias, aquelle rosto descarnado, aquelles

olhos cansados de chorar, aquelles labios lividos de defunto, cansados

de repetir a palavra--perdão, lembravam a figura resignada de um

moribundo que nada mais espera senão a eterna liberdade--a morte...

Vimol-o na casa dos condemnados, entre as quatro paredes de um miseravel

cubiculo, vestido de preto, barba crescida, macilento, arrependido e só.

Poucos iam incommodal-o ali, n'aquella pavorosa solidão, e no emtanto

elle não odiava ninguem e desejava falar a todos.

Tinha dezenove annos quando a fatalidade o arremessou a Fernando de

Noronha. A justiça humana o havia condemnado a esta pena

infamante--galés perpetuas.

Perdoar a um arrependido nas condições de Gustavo Adolpho, me parece a

mais nobre acção de um rei. Todavia elle continuava, mendigo de

liberdade, a pedir, a pedir...

Por diversas vezes a academia de direito, pelo orgão de seus

representantes, exorara a piedade imperial, mas o imperador nunca

estendeu o seu _magnanimo_ olhar até aos carceres senão em certos dias

de gala natalicia para indultar os escolhidos da politica dominante.

--Console-se, disse eu ao desventurado moço. E citei Lamartine:--_Vivre

c'est attendre..._

Retirámo-nos commentando aquella catastrophe desastrada.

A historia tragica d'esse preso foi-nos contada por um empregado do

estabelecimento. Eu podia resumil-a em duas palavras:--_cherchez la

femme_, si não fosse o prurido de registrar, ainda que brevemente, um

caso curioso de processo crime. Cada um tire as illações que lhe

aprouverem.

Gustavo Adolpho nasceu no Pará onde iniciou seus estudos como

seminarista.

Muito cedo seu espirito mostrou-se refractario á educação ecclesiastica,

e desviou-se dos livros sagrados para outro genero de leituras e estudos

mais concentaneos com as suas aspirações.

Os paes do nubil seminarista desgostaram-se com o procedimento do filho

revolucionario e ardente apologista de Martinho Luthero, que não

occultava-lhes suas tendencias anti-catholicas. Elle, porém, o apostata,

o hereje, sentia-se instinctivamente arrebatado pelas idéas do seculo e

tratou de trocar a sotaina de noviço pelo frak á ultima moda. Ninguem

põe peias á fatalidade. Não contente com ir de encontro á vontade de

seus paes e preceptores, o ex-seminarista tomou o primeiro vapor, e,

subito, vio-se na capital do Brazil, sem um amigo que o guiasse n'esse

labyrintho de ruas suspeitas onde o vicio assentou praça. A rua do

Ouvidor e os theatros sempre eram mais agradaveis que o claustro e as

impertinencias do reitor,--muito mais...

Pobre Gustavo Adolpho! Salvara-se de um abysmo para precipitar-se

imprudentemente, como creança inexperta, n'outro abysmo talvez mais

perigoso.

Sem amigos, sem protecção, longe de sua terra e de seus paes,--que podia

esperar o joven desconhecido n'aquelle turbilhão de vis interesses?

Imbert-Galloix, um italiano, tambem adolescente e cheio de esperanças,

intelligente e trabalhador, morreu de miseria n'uma rua de Pariz, por

ter trocado sua patria natal por um paiz que só conhecia de nome. Fôra

em busca de glorias e encontrou a miseria, o frio, a fome, e a morte por

fim.

Esses sonhadores como Imbert-Galloix são sempre victimas da propria

imaginação.

A sorte de Gustavo Adolpho foi mais cruel.

Custa a crêr que um insignificante par de brincos leve um homem á cadeia

e depois ao exilio perpetuo!

Uma vez sem meios de subsistencia, luctando com a má vontade de uns e a

indifferença de outros, Gustavo Adolpho, que tinha certa dóse de

espirito, d'esse espirito fino que caracterisa o homem de talento,

fez-se _bohemio_, isto é, indifferente á vida, nomade a quem tanto faz

dormir sobre flacido colxão, como ao relento e sobre a lage das

calçadas. Ora, os bohemios são umas creaturas sympathicas. Quando um

bohemio tem espirito acha sempre quem lhe estenda a mão. Gustavo Adolpho

preferiu a mão leve, alva e setinosa, de uma cortezã pela qual

apaixonou-se devéras.

A mulher, sempre essa creatura profundamente seductora e mysteriosa!

E, parece incrivel! quando na primeira noite, após as ineffaveis

caricias do amor, a misera Manon, adormecida ao lado do amante, sonhava,

talvez, n'algum banquete sumptuoso, á sombra d'alamos frondosos, talvez

n'alguma de suas passadas orgias, á luz de candelabros deslumbrantes,

elle, o malaventurado moço, cujo olhar fitava na meia sombra da alcova o

rosto sereno de sua amante, antepensava um crime e um crime excepcional,

monstruoso, inqualificavel.

--Estes brincos, estes brincos... pensava elle fitando as joias, duas

grandes lagrimas de diamante pendentes das orelhas da rapariga. Seu

espirito oscillava como um pendulo na duvida terrivel, aguçado por um

desejo louco.

Eil-o que se levanta de um impeto, pisando devagar, surrateiramente, tão

de leve que dir-se-ia uma sombra; eil-o que se encaminha para a porta da

rua, tacteando, encostando-se as paredes, pé ante pé, sem respirar,

olhando sempre para traz, para o leito da amante (lembra-me a scena da

«Cymbelina» de Shakspeare).

Meia noite... Eil-o ainda que volta e se approxima do leito onde ha

pouco boiara em mar de volupia. Traz na mão um objecto reluzente, uma

cousa disforme... uma machadinha.

Que irá elle fazer?!...

Approxima-se mais, rastejando quasi, mansamente, subtilmente.

De repente sôa uma pancada surda, e um grito estrangulado:--Soc...corro!

Sôa outra pancada surda, outra, outra, muitas pancadas, e sobre os

brancos lençóes d'aquelle malfadado leito palpitam as carnes sangrentas,

moribundas, de um corpo de mulher que ainda ha pouco sentia e pensava...

Obseccado pela idéa do roubo, o assassino arranca brutalmente as joias

do cadaver, e, á luz do combustor de crystal, reconhece que são falsas!

Foge rua fóra, como um possesso, enfia num becco, sae por outra rua, e

desapparece na escuridão da noite.

No dia seguinte seu nome lá estava estampado em letras garrafaes no

livro dos réos: «Gustavo Adolpho... preso pelo duplo crime de

assassinato e roubo.»

Mais tarde, annos depois, o joven criminoso tentou fugir de Fernando de

Noronha onde fôra recolhido. Prenderam-no em flagrante. E ha poucos

mezes, no anno passado, a princeza Isabel, então regente do Brazil,

abriu-lhe as portas da prisão.

Gustavo Adolpho publicou, no degredo, um livro de versos intitulado

_Risos e Lagrimas_, uma collecção de poesias sentimentaes e amorosos que

pouco valem pela fórma e onde se acham crystalisadas as dôres do infeliz

poeta, cuja imaginação cantava entre lagrimas.

Penalisou-nos a sorte d'esse rapaz sympathico e intelligente.

Havia, alem de Gustavo Adolpho, outro preso não menos interessante e que

nos excitou a curiosidade. Indigitado autor de não sei que roubo, fôra

condemnado igualmente a galés perpetuas.

Interrogado, disse-nos contar oitenta (!) annos de idade e possuir

familia numerosa:--mulher e 30 filhos!

--Qual foi o seu crime? perguntámos.

O velhinho todo tremulo, a cabeça muito branca; uma nevoa humida no

olhar, sem forças quasi para dar um passo, murmurou tristemente:

--Nenhum, meus caros senhores... Supponho que houve engano da justiça...

--E si lhe dessem liberdade agora?...

--De que me servia? Mal me tenho em pé e já não sei de minha mulher e de

meus filhos, Estou muito velho, preciso morrer descansado aqui mesmo na

prisão.

O edificio da Penitenciaria tem, logo á entrada, a seguinte inscripção

em marmore:

No dia 23 de abril de 1885 sendo presidente da provincia o Illm.

Sr. Conselheiro Dr. José Bento da C. Figueiredo foram removidos os

presos para este edificio organisado sob a direcção do engenheiro

José Mamede Alves Pereira.

Contava, portanto, trinta e cinco annos.

Foi a mais interessante de todas as nossas visitas em Pernambuco.

II

No dia 27 deixámos o Recife em direcção ás Antilhas.

Como até ahi, a viagem continuou a vapor,--uma verdadeira viagem de

recreio si não fosse a exiguidade dos commodos a bordo do cruzador.

O commandante levava ordem para chegar a Nova Orleans em tempo de

assistirmos a abertura da exposição internacional americana, onde o

_Almirante Barroso_ devia figurar como legitimo e admiravel producto da

industria naval brazileira tão pouco conhecida no extrangeiro.

Adoptavamos, sempre que o vento permittia, a navegação mixta, e deste

modo, á vela e a vapor, arrastados pelas correntes maritimas que puxam

para o norte, alcançámos, a 2 de Março, a linha equatorial, onde

apanhámos alguns chuviscos debaixo d'uma athmosphera ardentissima.

Reinava «calmaria pôdre». Ferraram-se as velas á mingua da mais leve

aragem, armaram-se os toldos para que podessemos supportar o calor na

tólda, e os banhos salgados de ducha foram recebidos com especialissimo

agrado. Suava-se a valer. Imagine-se: embaixo, no porão, as fornalhas

accesas, e em cima o sol ardente, o medonho sol do equador, cahindo como

um caustico sobre o navio.

Á tardinha incendiavam-se os horisontes de um colorido rubro,

ensanguentado, de magica, reflectindo-se no espelho do mar tranquillo

como num grande lago de crystal...

Demos graças a Deus quando nos vimos fóra de tão desagradaveis regiões.

No dia 11 avistámos terra de Barbados, uma das mais prosperas colonias

inglezas das Antilhas. Era o primeiro porto extrangeiro do intinerario.

O Capitão do Porto foi o primeiro personagem que pisou a bordo: um

inglez de aspecto duro como em geral o de todo inglez, olhando atravéz

de uns grandes oculos azues e ostentando fleugmaticamente um par de

soiças ruivas. Trajava _dolman_ branco, muito justo ao corpo, calças de

panno preto e chapéo de cortiça branco, de grandes abas, tombado para a

nuca.

Fez a visita sacramental e poz-se ao fresco em menos de dois minutos,

depois de um fortissimo _shake-hand_.

A ilha de Barbados vista de bordo é de uma nudez quasi completa: nenhuma

vegetação cobre as vastas planicies que primeiro ferem a retina do

observador. Ao approximar-se-lhe, porém, novas paisagens de effeitos

cambiantes vão-se desenrolando á maneira de cosmorama. Moinhos rodam ao

sopro do vento que ordinariamente é fresco ahi, casas de campo

confortaveis, arvores, chaminés fumegantes, tudo isso vai apparecendo á

medida que nos approximamos, até que, com verdadeira surpresa, surge-nos

toda a cidade de Bridgetown e então basta um golpe de vista largo para

abrangel-a.

Á distancia Bridgetown semelha uma pobre cidade deshabitada, sem indicio

de civilisação. A surpreza que experimenta o viajante é completa depois.

Alguem que ahi esteve annos antes admirou-se da enorme quantidade de

embarcações inglezas surtas no porto. Entre estas contavam-se quatro

encouraçados, bonitos vasos que honram a Inglaterra affirmando o grande

poder maritimo desse paiz, cuja esquadra ainda hoje não tem rival no

mundo.

Um dia e meio--eis todo o tempo de nossa demora em Barbados, tempo

sufficiente para conhecermos a ilha a _vol d'oiseau_.

A população, na maior parte negra, é composta de gente de baixa classe e

geralmente intratavel.

Abundam os _ciceroni_, especie curiosissima de especuladores, que

perseguem os viajantes de uma maneira barbara. Querem, á fina força,

ensinar-lhes as ruas, os hoteis, e não os largam emquanto não satisfazem

a sua ambição, cobrando, no fim de contas, certo numero de _shillings_.

Falam um _patois_ detestavel; ninguem os entende com facilidade.

Imagine-se um pobre diabo acompanhado d'uma multidão que grita e fala

idioma desconhecido a repetir-lhe alto aos ouvidos:--_Came hear! came

hear!_ discutindo, altercando-se de cacete em punho. O misero julga-se

por um momento transportado, como por encanto, ás costas d'Africa, fecha

ouvidos á grita dos importunos _ciceroni_, brada mil vezes _no, no,

no_..., e não tem remedio senão deitar a correr como um possesso,

perseguido sempre pela turba multa de vadios, até que, depois de uma

lucta incrivel, esguedelhado, offegante, pallido, embarafusta pela porta

d'um hotel escorrendo suor, esfalfado, morto de cansaço!

E ainda por cima vociféra a legião faminta dos negros!

Nao exagéro. Parece realmente um paiz semi-barbaro aquelle, e ai! de nós

si não fossem os _policemen_, activos e energicos guardas da vigilancia

publica, que a um simples franzir de sobr'olhos fazem desapparecer a

medonha horda de capadocios, ou que melhor nome tenham esses turbulentos

demonios.

É espantosa a ambição do povo por dinheiro.

Ao tilintar do _money_ surgem de repente vinte, trinta cabeças negras,

cada qual mais negra, disputando a posse do precioso metal.

Basta dizer que ainda não tinhamos fundeado e já grande numero de

pequenas embarcações á vela e a remos,--_fly boats_,--approximavam-se do

navio, cortando-lhe a prôa com risco de serem espedaçadas. Ouvia-se,

então, de todos os lados vozes que gritavam:--_I am pilot! I am pilot!_

Embalde procuravamos persuadir áquelles esfaimados de dinheiro que não

precisavamos de pratico, pois a bahia de Bridgetown é bastante espaçosa

e offerece entrada franca.

Davamos com o lenço, mandando-os embóra--que não! mas os gritos

repetiam-se:--_I am pilot! I am pilot!_

Todos queriam, a troco de dinheiro, conduzir o navio extrangeiro ao

ancoradouro e para isso exigiam um preço fabuloso.

Formidaveis importunos os taes negros de Barbados!

A edificação de Bridgetown, puramente ingleza, é curiosa, pittoresca

mesmo, si bem que uniforme.

As casas, baixas quasi todas, geometricamente dispostas, alpendradas na

frente, simples e elegantes na sua architectura, são confortaveis e

convidam ao _far-niente_.

As ruas, porém, estreitas e mal calçadas, são, por assim dizer,

intransitaveis, em consequencia do poeiral que sobe, como fumaça, ao

rosto dos transeuntes.

No que respeita a estabelecimentos importantes, vimos a--_St. Leonard's

School_ e uma igreja-cemiterio.

A estatua de Nelson, o heroe de Trafalgar, ergue-se, em bronze massiço,

n'uma das melhores praças do logar--_Nelson's square_, si me não engano.

Os poucos hoteis que existem na ilha são vastos e offerecem o necessario

conforto ao viajante: boa mesa, bons petiscos, magnifico vinho,

deliciosos sorvetes--_ice-cream_--e, finalmente, boas camas e muito

aceio.

O brazileiro que viaja, com raras excepções, tem necessidade

imprescindivel de duas cousas que elle julga essenciaes ao seu bem

estar: café e cigarros.

_Spleen_ e charutos--são cousas inseparaveis de um inglez da Inglaterra;

café e cigarros--eis o que um brazileiro não dispensa.

Infelizmente para nós, o café, tal qual se prepara em Barbados, é um

licor detestavel composto de muito pó e pouca agua, que os naturaes

mixturam á guisa de chocolate, mas de um sabor desagradavel, repugnante.

Duas linhas de bonds percorrem a capital d'um extremo a outro.

A ilha é circumdada por uma via-ferrea.

De resto, é admiravel senão assombroso o progresso d'essa colonia,

relativamente pequena e tão longe da metropole.

E, note-se, de vez em quando atravessam aquellas regiões terriveis

cyclones produzindo estragos incalculaveis em toda a extensão da ilha.

Innumeras embarcações, algumas de grande porte, têm sido arrojadas á

costa por esses formidaveis meteóros. O ultimo cahiu em 1851 e figura

nos annaes da navegação como um dos grandes desastres maritimos do

Atlantico.

III

Na manhã do dia 13 suspendemos ancora em direcção á ilha da Jamaica,

fundeando no mesmo dia na bahia de Port-Royal.

Denso nevoeiro envolvia, como uma gaze alvissima, as altas montanhas que

orlam magestosamente a antiga colonia hespanhola.

Ao approximarmo-nos da pequena e elegante cidade de Port-Royal, pedimos

pratico o qual nos levou á Kingston.

O brazileiro que, depois de longa ausencia do Brazil, chega á Jamaica

sente logo um prazer especial, um fremito de patriotismo, ao contemplar

as soberbas montanhas da ilha, tanto ellas lembram a natureza do nosso

paiz. A bahia, salpicada de interessantes ilhotas de verduras,

verdadeiras ilhas fluctuantes, em cujas aguas immoveis bandos de aves

ribeirinhas ostentam sua plumagem garrída e multicolor, voando d'uma

margem á outra n'uma contradansa animada, offerece aspectos lindissimos.

Jamaica parece um pedaço do Brazil transplantado para as Antilhas, tal a

opulencia da sua natureza.

É a maior e a mais florescente das colonias inglezas da America depois

de Barbados. Mede approximadamente quarenta leguas de comprimento.

Kingston não é uma cidade como Bridgetown, onde a cada passo depara-se

com uma prova de adiantamento material. É, por assim dizer, uma capital

morta, quasi sem commercio, mas, em compensação, muito mais pittoresca

que a capital de Barbados. Os habitantes são morigerados, e uma paz

religiosa parece reinar no seio de cada familia.

Ha mais pobresa, é certo, mas incomparavelmente o povo é mais educado,

mais pronunciado o instincto de civilisação.

Muitas estatuas. Vimos as de Lewis Quier Bower Bonk, nascido em 1815,

Edward Jordon, um dos principaes fundadores da--_Jamaica Mutual Life

Assurance Society_, Sir Charles Theophilus Metcaf, governador em

1845--todas ao redor de um parque. Isso prova quanto respeito infunde ao

inglez o nome de um compatriota celebre.

Um brazileiro estabelecido em Kingston disse-nos ser o _Almirante

Barroso_ o primeiro navio brazileiro que ahi aportava desde 1871.

Nossa demora em Jamaica foi rapida como em Barbados. Telegrammas

officiaes do Rio apressavam-nos cada vez mais. Já se havia inaugurado a

Exposição de Nova Orleans; era-nos forçoso assistir ao menos o

encerramento. Estavamos convictos de que o cruzador brazileiro ia

figurar com brilho no importante certamen americano. Tanto em Bridgetown

como em Kingston não lhe faltaram elogios de pessoas competentes.

Todos anceavamos pela chegada ao paiz maravilhoso dos _yankees_, ao

berço da electricidade, todos queriamos conhecer _de visu_ o celebrado

paiz das descobertas engenhosas.

Desde logo entrámos, de combinação, em «serios» estudos do idioma inglez

praticando uns com os outros, compulsando manuaes de conversação,

decorando significados, preparando-nos, emfim, da melhor forma, para

retribuir gentilezas, captar amizades, responder a todas as perguntas

que nos fossem feitas á queima roupa. Sim, porque tudo quanto haviamos

aprendido theorica e praticamente na Escola, não era bastante.

Faltava-nos a facilidade, o traquejo da palavra extrangeira, que

haviamos de adquirir á força de vontade e applicação assidua.

Alguns officiaes, entre os quaes o commandante, riam-se do nosso apuro,

e, de vez em quando, atiravam-nos de surpreza uma pergunta em inglez.

Quanto disparate, quanta tolice a principio! O certo é que depois, com o

tempo, já nos entendiamos soffrivelmente. _Noblesse oblige_...

IV

A hospitaleira sociedade de Jamaica havia-nos conquistado a sympathia.

Todos sentimos deixar tão cedo aquella encantadora ilha, cujos

habitantes nos tinham prodigalisado tão generoso acolhimento. Lenços

ascenavam para bordo ao deixarmos o ancoradouro ás 5 horas da tarde de

21, despedindo-nos talvez para sempre d'essa boa gente.

Durante os dias 22 e 23, mar e vento rebellaram-se contra o navio.

Navegavamos á bolina, sempre á vela e a vapor, amurados por bombordo.

Grandes rajadas frias sopravam do norte, cantando nos cabos da

mastreação, sacudindo-os com violencia.

O thermometro baixara sensivelmente, e a columna barometrica punha-nos

calefrios...

O mar quebrava-se de encontro ás bochechas do cruzador desafiando-lhe a

resistencia colossal.

Sabiamos que a latitude em que navegavamos, nas Antilhas, era muito

frequentada pelos cyclones, esses terriveis inimigos dos navegantes, que

arrastam em sua cauda milhares de vidas. Receiavamos esses phenomenos

tanto mais porque os seus effeitos fazem-se sentir a grandes distancias.

Os symptomas visiveis, si não eram evidentes, approximavam-se das

descripções de navegantes experimentados. O céo estendia-se limpo, como

um largo pallio azul esbranquiçado; apenas no horisonte fluctuavam

pequenos _stratus_ em fórma de rabo de gallo e algumas estrias

avermelhadas, escarlates, despertavam-nos a attenção.

Ao meio-dia o sol tinha uma côr baça, com um disco azulado ao redor.

E crescia o mar em vagalhões medonhos e esfusiava o vento no cordame.

O navio caturrava e arfava morosamente; ouvia-se o barulho do helice

trabalhando fóra d'agua.

Pela madrugada de 24 lobrigámos por boréste o pharol da ilha de Cuba, de

luz muito branca, e no dia seguinte sulcavamos o golfo do Mexico.

Poucos dias restavam para alcançarmos Nova-Orleans.

E nada do supposto cyclone!

Por via de duvidas, como o tempo continuasse borrascoso, ferrámos a

maior parte do panno, conservando apenas as gaveas risadas nos

_terceiros_ e a mezena de capa.

Capeámos tres dias consecutivos, sem que apparecesse o medonho

visitante.

No quinto dia o vento amainou rondando para nordeste e o mar, por força

das circumstancias, tambem acalmou-se. Ferrámos o resto do panno,

navegando só a vapor.

A idéa da chegada preoccupava todos os espiritos. Os Estados-Unidos eram

o assumpto de todas as conversações.

Cedo tratou-se da limpeza do navio.

Cada qual tratou de si, de sua roupa, de seus objectos que o mar

sacudira de um lado a outro dos camarotes. Os alojamentos apresentavam o

curioso aspecto de um campo de batalha; malas confundiam-se umas sobre

outras formando empilhamentos, a roupa branca usada andava de mixtura

com os fatos novos de panno; livros, papeis--tudo quanto era de uso

quotidiano estava espalhado no convéz, como si andasse por ali alguma

creança traquinas.

Guerra ao môfo! Roupas ao sol! Ninguem se fez esperar. Começaram as

arrumações, uma faina açodada, durante a qual soaram boas gargalhadas

filhas de inalteravel bom humor.

Os guardas-marinha alojavam-se á pôpa n'um acanhadissimo compartimento

que mal os comportava. Ahi tinham suas camas, suas malas, seus livros.

Quantos prejuizos! Quantas decepções!

E todos acocorados, arrumando e desarrumando, n'uma confusão burlesca,

maldiziam o mar e apostrophavam o vento. Neptuno e Eolo nunca receberam

tantas manifestações desairosas. Pois não! Ninguem tem suas cousas para

vel-as de um dia para outro arruinadas, inutilisadas pelos caprichos

incoerciveis do mar e do vento.

Finalmente, como nada ha melhor que um dia depois de outro, veio o dia

29 de Março em que dos váos do joanete de prôa o gageiro

annunciou--terra!

Continuava, entretanto, incessantemente, a asáfama. A guarnição da

bateria occupava-se da limpeza das peças, collocando-as em posição,

abrindo e fechando culatras, lixando-as, lubrificando-as emquanto o fiel

ia distribuindo o cartuxame.

Havia uma alegria geral a bordo e sentia-se um vago odor de tintas, como

ao entrar-se n'uma casa nova, pintada de fresco.

Já era tempo de repousarmos das fadigas da viagem.

V

Ninguem póde imaginar o que é a chegada de um navio de guerra a porto

extrangeiro depois de uma tempestade ou mesmo depois d'uma ameaça de

temporal. A faina tor-na-se geral e o ruido inevitavel. É de ver-se a

promptidão, a rapidez com que se executam as ordens. Como que ha mais

vontade para o trabalho, desenvolve-se logo um contagioso bem estar,

ninguem foge ao serviço.

Tezar cabos de laborar, baldear o convez a ficar alvo e polido, como uma

sala de visitas, limpar, areiar os metaes amarellos até ficarem

relusentes como ouro de lei, ferrar o panno a capricho, cuidadosamente,

de modo a confundil-o com as vergas e os mastros, preparar os

escaleres--tudo isso é cousa d'um abrir e fechar d'olhos.

A guarnição do _Almirante Barroso_, disciplinada e obediente como todas

as que serviam sob as ordens do commandante Saldanha, primava pelo

aceio, pela ordem, pela destreza e pela actividade. Não se lhe póde

fazer maior elogio. Cada marinheiro era como uma machina prompta sempre

ao menor impulso.

A chibata era n'esse tempo, como ainda hoje o terror das guarnições da

armada.

Sempre manifestei-me contra esse barbaro castigo que avilta e corrompe

em vez de corrigir. Um castigo de chibata é a cousa mais revoltante que

já tenho visto, mormente quando é mandado applicar por authoridade

deshumana, sem noções do legitimo direito que a cada homem assiste, quem

quer que elle seja soldado ou pariá.

O meu primeiro passo ao deixar a Escola e envergar a farda de

guarda-marinha foi publicar um protesto contra essa pena infamante, e

fil-o desassombradamente, convicto mesmo de que sobre mim ia cahir a

odiosidade de meus superiores em geral apologistas da chibata.

A primeira vez que minha posição official obrigou-me a assistir um

desses castigos, tive impetos de bradar com toda a força dos pulmões

contra semelhante attentado á natureza humana.

Quem já assistiu uma d'essas pavorosas scenas do eito, magistralmente

descriptas por Julio Ribeiro na sua obra _A Carne_, póde fazer idéa do

que seja o castigo da chibata.

Despir-se a meio corpo um pobre homem, um servidor da patria, pés e mãos

algemados, muita vez depois de trez dias de _solitaria_ a pão e agua, e

descarregar-se-lhe sobre a espinha, sobre as espaduas, sobre o peito,

sobre o ventre, na cara mesmo, em todo o corpo cincoenta, cem, duzentas

chibatadas, em presença de todos os seus companheiros, me parece indigno

d'uma geração que se préza, de uma sociedade de homens civilisados, de

cidadãos, de cavalheiros que ostentam triumphalmente galões dourados na

farda--na farda, que significa a nobreza, a coragem, o patriotismo e a

honra d'uma nação.

Revoltei-me contra semelhante barbaridade inquisitorial, como quem tem

consciencia de que está praticando uma acção justa e honrosa. Doía-me

por um lado pertencer a uma classe nobre por tantos titulos, é certo,

mas em cujo seio era permittido a chibata e, o que é mais, o seu abuso.

A esse tempo a _Gazeta de Noticias_ do Rio de Janeiro publicava

semanalmente um boletim litterario no louvavel intuito de estimular os

incipientes das letras. Offerecia-se-me opportunidade para um conto

maritimo, cujo assumpto fosse a chibata.

Escusado é dizer que o meu artigo provocou o despeito dos culpados

indirectamente feridos no seu amor proprio. Embora! Fiquei satisfeito,

como si tivesse sacudido para longe um fardo pesadissimo; e, é preciso

dizer, não hesitei em declarar-me autor do conto que vinha firmado por

meu nome, então desconhecido na armada.

Alguns de meus companheiros taxaram-me de imprudente e «indiscreto».

Outros levaram seus conselhos até á minha _inexperiencia de adolescente

indisciplinado_.

Todo o mundo julgou-se com direito a censurar meu procedimento: «que

roupa suja deixa-se ficar em casa; que a chibata era um castigo

imprescindivel», e outros arrasoados soffrivelmente banaes.

Meu consolo é que d'entre aquelles que preconisavam os effeitos

prodigiosos da chibata n'outros tempos, muitos concorreram em demasia

para a sua extincção.

Dei parabens á patria e á humanidade.

VI

Como militar e disciplinador o commandante Saldanha da Gama

distinguia-se por sua inflexibilidade porventura exagerada,

especialmente para com as guarnições sob seu zeloso commando.

Temperamento atrabiliario, sanguineo-nervoso, sujeito a transições

bruscas, inesperadas, impetuosas e violentas, o illustre marinheiro,

espirito eminentemente illustrado, não sabia, entretanto, guardar a

necessaria calma quando devia applicar as penas do codigo. Essas penas,

como se sabe, acham-se perfeitamente explicitas, precisamente formuladas

de modo a não deixar duvida nos espiritos rectos e amigos da lei. Entre

os artigos que constituem o codigo penal militar existe um que limita o

numero de chibatadas, o qual não deve, em caso algum, exceder de vinte e

cinco por dia.

Pois bem, o commandante Saldanha pouquissimas vezes castigava conforme a

lei. Collocava acima d'ella seus caprichos inexplicaveis, sua natureza

rancorosa, sua vontade suprema. Nao trepidava, e isto é sabido, em

mandar açoitar com duzentas chibatadas uma praça qualquer, tal fosse o

delicto commettido. A um simples olhar seu as guarnições tremiam como

caniços. A qualidade caracteristica d'esse illustre official era ser

arbitrario e prepotente. Por isso a guarnição do _Almirante Barroso_

corria a seus postos, em occasião de manobra, com a velocidade d'uma

setta.

Estavamos quasi á entrada do Mississipe, a grande arteria fluvial da

America do Norte, que nós imaginavamos um colosso talvez superior em

volume d'agua ao Amazonas,--o Mississipe, decantado pelo autor dos

_Natchez_, e em cujas margens fica a cidade de Nova Orleans nosso ponto

de chegada.

Ninguem pensava mais no Rio de Janeiro para só se lembrar de Nova

Orleans, a _Cidade Crescente_, como a denominam os americanos.

Trez horas da tarde, mais ou menos. Embarcações á vela e vapores

bordejavam fóra da barra á espera de pratico, sem o qual era impossivel

a entrada. Mar calmo, com uma côr esbranquiçada, lembrando na sua

quietação dormente um vasto lago estagnado. Em frente, muito longe

ainda, mal distinguiamos com o binoculo o pharol, microscopica torre

branca, invisivel quasi.

Envolvidos em grossas capas de lã, abotoados até o pescoço ao abrigo do

frio que se tornava insupportavel para nós da zona torrida, de pé no

tombadilho, machina a um quarto de força, bandeira nacional desfraldada

na carangueja do mastro de ré, esperavamos tambem o _pilot_ que nos

devia conduzir á Nova Orleans, 110 milhas da foz do Mississipe.

O Mississipe! Dentro em pouco sulcavamos a grande corrente.

Não tardou muito o pratico, por cujo intermedio tivemos noticia da

estrondosa manifestação com que os habitantes da cidade americana

aguardavam a chegada do cruzador brazileiro.

Bella surpreza essa! Cresceu o enthusiasmo entre os noveis officiaes.

Entrámos. Durante o nosso trajecto pelo Mississipe a anciedade a bordo

tocou o seu auge. Queriamos, todos a um tempo, avistar as embarcações

que, dizia-se, vinham nos receber.

O autor d'estas simples notas de viagem, que admira os Estados-Unidos

como uma segunda patria, porque ali moram juntas todas as liberdades e

florescem prodigiosamente todas as nobres idéas civilisadas, de braços

cruzados estendia o olhar cheio de admiração, cheio de deslumbramento

por cima das extensas planicies das margens do grande rio.

O pôr do sol entre a neblina que cobria os horisontes fazia lembrar as

paginas de Chateaubriand na sua _Voyage en Amérique_, paginas

esculpturaes e cheias da commovida nostalgia dos que se vão da patria...

Quanta verdade nas sumptuosas descripções do poeta! Quanta poesia

n'aquellas paragens desertas da foz do Mississipe,--Sahara de neve

estendendo-se a perder de vista nos horisontes sem fim! Que de

maravilhas occultavam-se por traz d'aquellas planicies, lá onde o olhar

não attingia!

Eram Ave-Marias. Lembrei-me do Brazil, dos sertões de minha terra natal,

da torresinha branca do Senhor do Bomfim badalando o _terço_ das almas,

justamente aquella hora, quando as boiadas recolhiam mugindo, pesadas e

melancolicas...

Ave-Marias!... Mesmo quando não se é crente, áquella hora da tarde o

coração fica cheio de não sei que terna e piedosa uncção mystica...

Fundeámos no ponto em que o rio se divide em dois braços ou pequenos

confluentes, e ahi passámos a noite inteira, essa longa e tristissima

noite de inverno.

Frio de rachar. As aguas do rio, pardas e barrentas, estavam quasi

geladas.

As margens do Mississipe, em varios pontos, são, no inverno, verdadeiras

planicies, onde apenas medra a herva rasteira. Á distancia, pobre alma

perdida no descampado, ergue-se ás vezes uma arvore muito esguia, como

um phantasma de braços abertos para o céo. De quando em quando atravessa

a solidão uma ave desconhecida batendo as azas, como um agouro.

N'outros logares, porém, vêm-se rebanhos pastando silenciosamente,

plantações verdejantes, casas de campo, postes de correio, em cujas

portas destacam-se em caracteres maiusculos as palavras--_Post office_.

O povo parece viver satisfeito no meio de suas plantações e de seu gado,

entregue á cultura e á creação.

Nuvens de mosquitos atordoaram-nos toda a noite. «--Caramba! exclamava o

barbeiro de bordo, um estimavel hespanhol que traziamos do Rio de

Janeiro. Caramba! Mosquitos por mosquitos me gustam mas los del Brasil!»

E tinha razão o nosso companheiro. Os mosquitos do Mississipe são muito

capazes de dar cabo d'um pobre homem. E que medonha orchestração nos

ouvidos da gente?

Felizmente na manhã do dia seguinte levantámos ferro.

O navio estava completamente prompto a fazer sua entrada em Nova

Orleans. Durante quasi toda a noite a guarnição occupara-se em colher

cabos, esfregar a amurada e baldear o costado.

Como passatempo liamos os jornaes que o pratico trouxera, os quaes

noticiavam a recepção popular e official que se nos preparava.

Dois hiates a vapor--o _Cora_ e o _Pansy_--propriedade de Mr. Morris,

largariam de Nova Orleans a nosso encontro, embandeirados, com bandas de

musica, commissões de senhoras, representantes do commercio e d'outras

classes sociaes.

Ou fosse a natural affinidade que existe entre as duas nações

americanas, ou fosse o facto de ir a bordo do cruzador brazileiro um

representante da familia imperial do Brazil, o certo é que durante nossa

travessia da foz do Mississipe á cidade fomos constantemente saudados de

ambas as margens do rio a tiros de espingarda e a lenços que nos

acenavam de longe.

E o _Almirante_ seguia devagar, alvo de mil olhares curiosos.

Ao meio-dia ouvimos as notas de uma musica alegre que se approximava, e

em breve surgiram n'uma curva do rio os dois magnificos hiates--o _Cora_

e o _Pancy_--apinhados de gente, enfeitados de galhardetes de côres

variadas, em cujos mastros tremulavam as duas bandeiras amigas.

De ambos os lados, no cruzador e nos hiates, hurrahs confundiam-se no

ar.

Em viva effusão de inexprimivel jubilo patriotico estreitavam-se as duas

grandes potencias da America; a mesma brisa balouçava simultaneamente os

dois gloriosos pavilhões.

A gente do _Barroso_ subiu ás vergas accelerada, e, acenando com os

lenços e os bonés, saudava com vivas estrepitosos e delirantes

acclamações aos Estados-Unidos, ao mesmo tempo que das duas embarcações

partiam ruidosas manifestações ao Brazil.

Fardada em segundo uniforme, espada e dragonas, a officialidade do

cruzador brazileiro, em pé no tombadilho, vivamente commovida,

descobria-se a todo instante risonha e feliz.

Sentiamos a falta de uma banda de musica bem organisada, que n'aquelle

momento, verdadeiramente solemne, entoasse o hymno da republica a bordo.

Passado o primeiro momento de delirio, approximaram-se os dois hiates

que nos acompanhavam e o cruzador diminuiu a marcha. Ficámos borda á

borda. N'um instante toda aquella gente que vinha nos vaporesinhos,

passou para o _Barroso_.

Houve um silencio respeitoso de parte a parte e começaram os abraços.

O consul geral brazileiro, Sr. Dr. Salvador de Mendonça, tão conhecido

entre nós por seu talento e por sua illustração, como homem de letras e

diplomata, juntamente com Mr. Eustis, consul em Nova-Orleans, foram

recebidos no portaló pelo commandante e officiaes com todas as honras

que lhes eram devidas. Seguiram-se os representantes da imprensa, do

commercio, etc.

Conduzidos á camara, desde logo estabeleceu-se entre brazileiros e

americanos uma camaradagem franca, uma corrente communicativa de

affabilidades, como si já fossemos conhecidos velhos. As taças de

_champagne_ chocavam-se, vivas succediam-se, levantavam-se _toasts_ ás

duas nações, trocavam-se os mais espontaneos comprimentos.

A viagem continuou ao som da musica do _Cora_ e do _Pansy_.

Ás 4 horas da tarde largámos ferro defronte da antiga capital da

Luiziania.

VII

Nova-Orleans é, talvez, a cidade mais importante do sul dos

Estados-Unidos.

Nosso primeiro cuidado, como era natural foi desembarcar, «ir á terra»,

ceiar bem e dormir tranquillamente um somno bom e reparador. Nao nos

faltariam esplendidos hoteis e magnificos _rooms_ onde podessemos, á

vontade, descansar dos trabalhos da viagem.

Nossa demora devia prolongar-se ahi mais do que em qualquer outro porto,

por causa da Exposição e a instancias dos habitantes da cidade, que nos

preparavam deliciosas surprezas.

Tinhamos tempo bastante para ver Nova-Orleans, para observar os costumes

americanos e fazer um juizo mais ou menos approximado d'aquelle bello

povo.

O porto estava atulhado de barcas de commercio--vastas embarcações de

dois e trez pavimentos, duas e trez chaminés negras a deitar fumaça

n'uma actividade constante, rodas na pôpa, muito mais amplas que as

nossas barcas Ferry do Rio de Janeiro. Atopetadas de saccas de algodão e

outros generos do paiz, esperavam o momento preciso e regulamentar de se

fazerem ao largo.

Emquanto esperavamos, vivamente anciosos, o escaler que nos devia

conduzir ao caes, assestavamos o oculo para a cidade quasi silenciosa

áquella hora, e cujas ruas não tardariamos a conhecer. Accendiam-se os

primeiros bicos de gaz. Ao longe, n'alguma egreja remota, badalava um

sino triste. Já não se ouvia quasi o brouhaha quotidiano. Numerosas

embarcações cruzavam-se no rio. Ouviamos guinchos de locomotivas e o

surdo ruido de carros que ainda labutavam.

Alguns officiaes deixaram-se ficar aguardando o dia immediato para mais

commodamente satisfazerem sua curiosidade de viajantes em terra

extrangeira.

[Figura: ENTRADA DE NOVA-ORLÉANS]

Era fim de inverno. Ameaçava chover. O frio continuava bastante forte

ainda e os camarotes do _Barroso_ offereciam, nessas condições, agasalho

confortavel aos mais friorentos.

Na manhã seguinte, grupos de officiaes brazileiros, uns fardados, outros

á paisana, percorriam Nova-Orleans.

O _St. Charles Hotel_, um dos melhores estabelecimentos da cidade, e o

_Royal Hotel_--primeiro em luxo e ornamentação--eram procurados

avidamente.

Os jornaes davam noticias circumstanciadas de nossa chegada e

annunciavam festas em homenagem ao Brazil.

Uma vez installados nos hoteis, cada um de nós em seu vasto aposento,

onde nada faltava, tão differente dos estreitos camarotes de bordo,

dividimo-nos em grupos.

Quanto a mim, o meu primeiro cuidado foi munir-me de um guia da cidade,

especie de _pocket-book_ muito commodo, registrando indicações uteis de

estabelecimentos e logares principaes.

Meu quarto ficava no segundo andar do _St. Charles Hotel_ com frente

para a rua do mesmo nome--uma saleta mobiliada com a maxima sobriedade,

sem luxuosas decorações, contendo apenas os moveis indispensaveis a um

rapaz solteiro, e o fogão a um canto.

Depois de magnifico banho morno em bacia de marmore (perdôem-se-me estas

innocentes confidencias, aliás de bom gosto) seguido de um valente

almoço de ostras crúas, as melhores que eu tenho provado, regadas á

Sauterne, mastigando (é o termo, porque não sou lá muito admirador de

charutos) mastigando um charuto, que não sei bem si era de Havana, sahi

a fazer meu primeiro passeio, minha _promenade_ matinal, começando pela

Canal Street, a rua mais importante de Nova Orleans, que a divide em

dois grandes bairros--o francez e o hespanhol.

No cruzamento das ruas de St. Charles e Canal erguia-se a estatua de

Clay. É esse o ponto principal da cidade e o de maior movimento nos dias

uteis.

Parei defronte do monumento e consultei meu alcorão, quero dizer meu

guia manual.

«_Estatua de Clay_--Inaugurada solemnemente no dia 12 de Abril de 1860.

Joêl T. Harl, de Kentucky, o artista que deu forma e proporções á

estatua, assistiu ao acto. O orador official foi Wen H. Hemt.».

Maldito laconismo! Pouco adiantei com as explicações do livrinho.

No Paiz dos Yankees · 第 1 / 6 段