A HOLLANDA

Desde que eu li a _Hollanda_, e devo ao auctor a immerecida e lisonjeira

distincção de ter podido ler um dos primeiros volumes publicados--desde

que li d'um folego este livro, verdadeiramente encantador, sinto em mim

o desejo, quasi que a necessidade de fallar a respeito d'elle.

Será que eu julgue auctorisada e util a minha apreciação?

Não, decerto.

O que eu tenho é o irresistivel desejo de conversar com esse numero mais

ou menos restricto de amigos desconhecidos, que todo o escriptor, por

modesto e humilde que seja, tem a certeza, de possuir, ácerca d'essa

obra superiormente bella, e que, apezar d'um tanto phantasista me parece

consoladora e sã, fortificante e boa.

Mas, se eu sentia em mim essa vontade persistente e tenaz, porque é que

a não tenho realisado ha mais tempo?

Simplesmente pelo motivo, porque hoje mesmo hesito em o fazer.

Ha receios, que se não vencem senão a muito custo, tanto mais teimosos,

quanto mais prolongado foi o tempo em que os deixamos actuar sobre o

nosso espirito.

Depois ha livros _suggestivos_, que fazem pensar; que despertam em nós

um turbilhão de idéas, de pensamentos difficeis de definir e de fixar

bem, mas que tambem nos acordam contradicções que talvez pareçam

ousadias, criticas que talvez o publico julgue pouco auctorisadas e, por

isso mesmo, imperfeitissimas.

Estes livros seduzem-nos, captivam-nos, mas assustam-nos um pouco, como

alguma coisa de poeticamente concebido e realizado, que fica para álem

dos dominios reaes em que nos sentimos á vontade. A _Hollanda_ pertence

a este numero de trabalhos, felizes e perigosos, encantadores e um pouco

falsos.

Parece um bom companheiro de jornada que nos arrasta, abrindo-nos a cada

instante horizontes intellectuaes só intrevistos de muito longe,

rasgando-nos amplas janellas para o claro espaço, despertando-nos, com

as suas observações quotidianas, um mundo inteiro de sensações

adormecidas, mas ao pé dos quaes uma pessoa se sente desconfiada,

temendo o demasiado prestigio, de imaginação, o optimismo excessivo do

viajante...

E no emtanto não é como muitos julgarão, uma simples narrativa de

viagem; é uma obra de arte e de moralidade.

E n'este momento dubio e _atormentado_ da nossa nacionalidade, momento

que uns julgam de irremediavel decadencia, outros de vigoroso

renascimento mental, este livro que nos conta com a magia incomparavel,

estranha e captivante do seu estylo, a historia d'esse pequeno povo,

muito mais pequeno do que o nosso, que á sua poderosa força de

resistencia, que á sua intemerata energia deveu o grande papel que

representa na historia da Civilisação, este livro d'uma factura tão

magistral, affigura-se-me, apezar dos seus pontos de vista, nem sempre

rigorosamente justos, uma obra eminentemente e grandiosamente

patriotica, uma fecunda lição indirecta, um appello ao que ha de mais

nobre e de mais reconditamente sagrado na alma de uma collectividade

nacional.

É sob estes diversos aspectos que elle tem de ser julgado pela critica.

Eu, porém, não venho julgal-o, o que seria pretenção; venho

simplesmente, como já disse, conversar a respeito da impressão luminosa

e profunda que elle deixou em mim.

Ha muito que Ramalho Ortigão é considerado um dos melhores criticos de

costumes, um dos melhores coloristas da moderna arte; sabia-se que a sua

faculdade predominante, essa faculdade da qual, no artista, todas as

outras derivam, e na qual todas as outras se filiam, era a de _ver_ o

aspecto exterior das coisas com uma nitidez, uma precisão, uma

minudencia e ao mesmo tempo uma largueza de observação, que podem

chamar-se verdadeiramente geniaes.

Ora _ver_ em todas as suas formas multiplas, sob todos os seus aspectos

variados, na complexidade das suas linhas, no relevo dos seus contornos,

na harmonia da sua côr, uma porção de arte ou uma porção de natureza; e

saber transmittir vigorosamente, originalmente as infinitas impressões

recebidas pelos olhos ao espirito de quem o lê,--esta faculdade tão rara

e tão estranhamente difficil, que constitue talvez um dom de

temperamento impossivel de adquirir-se pelo estudo ou pela vontade,

basta só por si para singularisar e caracterisar um artista, e é esta,

sem duvida, a grande faculdade de Ramalho.

Nunca, porém, as suas qualidades de estylo se revellaram tão largamente,

a uma luz mais ampla, mais bella, mais intensa, do que n'este livro que

em todas as litteraturas seria justamente considerado uma obra bella, e

que hoje, na nossa, é um verdadeiro milagre.

Na _Hollanda_ o paysagista, o pintor que fixa na tela, com realidade

triumphante, as suas impressões ainda as mais rapidas, o coração honesto

e enthusiasta, que vibra, apaixonado, ao contacto de todos os bellos,

grandes e puros ideaes humanos; o artista que se embriaga com os

espetaculos sempre novos da Natureza, revellam-se egualmente com a mesma

felicidade e com a mesma pujança dominadora.

O humorismo tão singular, d'uma tão contagiosa e communicatica

influencia, que transparece habitualmente em todos os trabalhos de

Ramalho Ortigão, esse não faz mais do que polvilhar finamente, aqui e

acolá, com uma poeira diamantina e translucida, as paginas d'este livro,

que marca uma hora de enternecimento dôce e de viril enthusiasmo na vida

do escriptor.

Como faz bem ao espirito desconsolado pelo espectaculo do cynismo

universal, da indifferença dissolvente, ironica e desdenhosa, esta nobre

explosão de fecunda sympathia, esta nota de commoção penetrante, que se

levanta, n'uma especie de impulso heroico, convidando á lucta,

convidando ao trabalho, convidando aos gosos austeros que dá o accordar

da consciencia, e tendo apenas a _felix culpa_ de exaggerar um pouco o

bem que viu, e talvez de carregar em demasia o mal que se presenceia

diariamente na nossa pobre patria, bem digna de melhor sorte...

A ironia de Ramalho Ortigão, d'um relevo poderoso, d'uma subjugadora e

victoriosa alegria, todos nós a conhecemos desde muito.

D'essa ironia, de que chispam relampagos multicores, fez elle a sua

melhor arma de combate, contra a tolice, contra o erro, contra a

vulgaridade, contra o ridiculo.

O que nós não sabiamos porém, é que elle, que pode rir assim, podia

egualmente arrancar, pela commoção communicativa da sua palavra, em que

o enternecimento põe modulações deliciosas, lagrimas aos nossos olhos,

flores de poesia ao nosso coração.

* * * * *

Antes de mais nada, eu devo confessar que o meu temperamento, a minha

indole, o feitio especial da minha imaginação, me tornariam

absolutamente inapta para comprehender e admirar a nação hollandeza,

senão vista e descripta pelos olhos peninsulares e pela phantasia tão

eminentemente latina, tão colorida e illuminada, de Ramalho Ortigão.

Se eu fosse á Hollanda, voltava de lá, estou certissima, sem ter visto

coisa nenhuma do que o illustre escriptor lá viu, a não serem, talvez,

alguns d'aquelles _primeiros aspectos_, tão adoravelmente descriptos por

elle, e em que, mais d'uma vez, a sua ironia deliciosa espreita

sorrateiramente o leitor, como a avisal-o de que é necessario, apesar de

tudo, contar sempre um bocadinho com ella, de que pode estar um pouco

adormecida, levemente anesthesiada... mas que, emfim, está muito viva,

graças a Deus, e não espera morrer tão cedo.

Cada vez me convenço mais de que ha antagonismos de raça ineluctaveis,

visto que eu, depois de ter lido, verdadeiramente vibrante da feliz

sensação de _admirar_, n'esse prazer de intelligencia que uma bella obra

de arte nos produz, o livro de Ramalho Ortigão, me não decidi a fazer a

minha malla, a pegar nos meus dois filhos pela mão, e a ir viver para

todo o sempre na Haya ou em Amsterdam...

Não me decidi, não; não me decido, e era capaz de apostar que Ramalho

Ortigão, apesar de ter voltado da Hollanda, como incontestavelmente

voltou, moralmente fortalecido e engrandecido intellectualmente, rico de

preciosissimas acquisições novas, que definem e accentuam largamente o

seu progresso mental, ainda assim não deixaria, por ella, o nosso céo

azul d'uma luz tão suave, o nosso clima amollecido e doce, a preguiçosa

facilidade com que a vida nos emballa n'este cantinho de terra abençoado

pela natureza, que o Oceano beija, lambe e acaricia, em cujas praias de

areia dourada elle canta o seu grandioso canto de liberdade, mas contra

o qual elle não investe em furia, obrigando o homem á eterna

resistencia, á eterna lucta, á eterna e fatigante heroicidade...

O Oceano não foi para nós o mestre rigoroso, severo, exigente,

implacavel, que disciplinasse a nossa alma e o nosso corpo no exercicio

permanente de uma força e de uma tenacidade mais que humanas!

Elle imprimiu á nossa imaginação, ondulante e scismadora, a mysteriosa

saudade que das suas profundezas desconhecidas se evola, com um effluvio

de sonho!

Elle fez-nos os poetas de uma epopeia rapida, os aventureiros

inconstantes de uma phantasiosa conquista.

Tambem a _griffe_ d'esse leão indomado pousou na nossa alma nacional,

mas que diverso o modo porque elle influiu em nós!

Bem sei que moralmente valem mais, incomparavelmente mais, as nações e

os individuos que fazem o seu destino, que o subjugam, que o

transformam, que o modificam, que o dominam, do que aquelles que o

acceitam passivamente, n'uma inercia inutilmente contemplativa.

Mas, sob o meu ponto de vista feminino, que de certo não é o mais

intrepido, que melhor não é deitar-se a gente ao sol, na areia luminosa,

emquanto a vaga azul, coroada de espumas brancas, vem espreguiçar-se

humilde aos nossos pés, vem lamber, vencida e cariciosa, a orla dos

nossos vestidos, do que ter dia a dia, hora a hora, momento a momento,

de disputar ao _grande inimigo_ torvo, mysterioso, sombrio, que uiva,

eternamente agonisante, a sua lamentação tragica, o sólo movediço e

traidor sobre o qual construimos o nosso lar sagrado!...

É enorme, porém, bem o sei, a lição dada ao mundo por essa raça

athletica e fleugmatica que a natureza educou, fortificou moralmente, e

que ao mesmo tempo livrou do erro sympathico de ser imaginativa e

cogitadora como nós.

Se ella, em vez de luctar com as temerosas ondas, se pozesse a

contemplal-as de braços cruzados; se ella, em vez de indagar

scientificamente os meios mais proficuos de vencer a permanente invasão

das aguas, e de as aproveitar na cultura especial dos seus campos, se

lembrasse apenas de fazer ao mar as odes mais soberbas e inspiradas, não

existia já decerto, ou, se existisse, não tinha nem uma só das fortes

qualidades que distinguem essa honesta, essa trabalhadora, essa robusta,

séria e pezada Hollanda!

As nações são aquillo que as fazem as condições do seu sólo, os

phenomenos do seu clima, a sua structura geographica, o temperamento e a

origem da sua raça.

A Natureza, hostil, ensinou a esta o calculo, a previdencia, a

tenacidade inquebrantavel, e tambem, deixem-me accrescentar, o frio e

arido egoismo nacional; a humida vaporação eterna dos seus canaes e dos

seus rios deu-lhe o amor intelligente dos _interiores_ confortaveis,

commodos e aquecidos, em que a Arte põe a sua nota soberba e luminosa,

ou a bonhomia intima e doce dos seus aspectos; a lucta continua e

ininterrupta para salvar do perigo a familia perpetuamente ameaçada,

levou-a a sentir por esta um amor mais vivo, mais profundo, mais

recatado e penetrante, ungido de protecção enternecida e de casto

embevecimento, mas tambem um d'estes amores absorventes que não deixam

logar para a sympathia universal, de que outras raças são superiormente

inspiradas!

Todas as virtudes e energias, todas as bellas qualidades _humanas_ e

sympathicas, de que Ramalho Ortigão nos faz no seu livro a attrahente

pintura, todos os defeitos tão graves que não quiz vêr, mas que existem

n'ella, deve-os a raça neerlandeza justamente a essa tensão de vontade

que ella exerce incansavelmente desde seculos, e que tanto lhe modificou

a indole primitiva.

E apesar de eu sentir que ella nos é superior em tanta maneira, porque é

que me não resolvi ainda a ter-lhe um bocadinho de affecto?

Não sei! É talvez um capricho de mulher, indigno de manifestar-se á luz

do dia, _irracional_, como tanta cousa feminina; mas que eu teria

escrupulo de não confessar aqui, com intrepidez heroica.

Não é na verdadeira Hollanda--não direi na Hollanda em _carne e osso_,

mas em agua e lodo!--que eu gostaria nunca de viajar.

Na outra, sim. Na _Hollanda_ de Ramalho Ortigão, n'essa fulgurante e

magnifica _Hollanda_, tão deliciosamente phantasista, perco-me eu a cada

instante n'um enlevo de admiração sentida, e é das suas paginas,

coloridas como um quadro de Rembrandt, que eu tento dar, aos que as não

leram ainda, uma idéa, posto que imperfeita, remota, incompletissima.

* * * * *

O estylo d'este livro é uma verdadeira festa para o ouvido, e direi

mesmo para os olhos; tanto as palavras teem n'elle uma côr, um relevo,

um encanto, estranhos e indiziveis. Ha periodos que são quadros.

Parece que o escriptor poz na sua palêta todas as côres, na sua pintura

todos os tons, toda a luz do sol no objecto que contemplou.

Nunca a lingua portugueza adquiriu flexibilidade mais ondeante, energias

mais dominadoras, graça mais sinuosa e mobil, ondulações mais

serpentinas, rythmo mais harmonioso, poder mais intenso, vitalidade mais

estranha.

Esta lingua, que modernamente poucos operarios teem affeiçoado para as

exigencias multiplas e caprichosissimas da Arte contemporanea, tem nas

mãos de Ramalho Ortigão umas docilidades de mulher do Oriente, uns

langores submissos de escrava creoula, uma energia mascula, uma limpidez

matinal, uma intrepidez heroica, um sabor vivo e são das coisas, que

penetra o leitor do mais requintado goso intellectual.

Ha todas as notas n'esta orchestração soberba.

Dir-se-hia que esta prosa tem a cadencia melodiosa, o movimento rythmico

do verso mais cinzelado e mais perfeito, do verso de Heine ou de Victor

Hugo.

Como apropriadamente e obedientemente ella se cinge aos milhares de

assumptos que trata e revolve! Philosophia, historia, politica,

religião, costumes domesticos, costumes publicos, a Arte em todas as

suas manifestações, a Natureza em todos os seus aspectos--tudo ella

toca, tudo descreve e pinta, abraça, penetra e faz comprehender.

É simples e é pittoresca; é grave, comica e enternecida; é apaixonada e

austera; tem a poesia meiga das coisas intimas; tem a adjectivação

opulenta das descripções pomposas; tem a riqueza decorativa e a

suavidade recolhida e casta; é transparente como uma renda de Malines ou

de Alençon; é translucida como um diamante ou como uma saphyra; é fresca

e diaphana como a neblina da madrugada; é perfumada como um cacho de

lilazes; é rendilhada como uma joia da Renascença.

Ri, canta, chora, pinta, descreve, raciocina, fustiga; e sempre faz

pensar, acordando dentro de nós o bando das idéas mal definidas e

informes, que dormem, como pombas cançadas, no espirito de todo o ser

que pensa e que soffre.

Eu tenho pena de não poder arrancar das paginas do volume alguns

periodos, alguns trechos de prosa que me ficaram vibrando cá dentro como

a melhor das musicas.

O livro abre com um capitulo de historia, intitulado--_As origens_.

Destaca-se d'elle, com uma nitidez viva de contornos, a figura poderosa

e sympathica do grande revolucionario hollandez Marnix de Sainte

Aldegonde, a quem, juntamente com Guilherme de Orange, o _Taciturno_, se

deveu a definitiva formação e a independencia da patria, o homem que á

frente da _Liga dos Maltrapilhos_ resistiu a Filippe II, e impelliu a

Hollanda no caminho da sua libertação nacional e religiosa, fazendo

d'este pequeno paiz, d'uma heroicidade séria e reflectida, uma especie

de vanguarda dos exercitos revolucionarios que conquistaram mais tarde,

com tanto sangue e tanto martyrio, a liberdade do seu governo interno e

a liberdade da sua consciencia.

Veem depois _Os primeiros aspectos_, a que eu já me referi. A _verve_

encantadora de Ramalho esmalta adoravelmente algumas d'estas paginas.

Estes _primeiros aspectos_ tem coisas engraçadissimas e que não esquecem

mais.

Lembro-me de um verdadeiro drama que podia intitular-se a _Venda de um

repolho_, passado entre uma creada de Amsterdam e um vendedor ambulante

de hortaliças, em que a phrase, o movimento e a acção comica são

incomparaveis.

Todo o feitio de observação especial de Ramalho se revela n'este

capitulo caracteristico e _vivido_, para fallar á moda.

Os espantos do viajante recem-chegado são tão legitimos, nós

partilhamol-os tão do intimo d'alma, que nos movem tambem, que nos

agitam, que nos fazem morrer a rir. É toda uma Hollanda _ratona_, que

surge, á flor da nossa imaginação.

O escriptor estava-a então vendo com os olhos do seu corpo. O

sentimento, o raciocinio, a admiração despertada por uma longa serie de

virtudes,--de virtudes moraes, de virtudes civicas, de virtudes

patrioticas, de virtudes de toda a especie,--não tinha ainda irrompido

violentamente de dentro do moralista que ha em Ramalho, tornando-o cego

para todos os ridiculos, surdo para todas as notas discordantes. E os

quadros succedem-se com uma vivacidade triumphadora, e a gente segue-os

espantada do poder de realidade palpavel, que uma penna, correndo sobre

uma folha de papel, pode ás vezes attingir.

Pouco a pouco, os olhos namoram-se da estranhesa imprevista de todos

aquelles aspectos. O artista entrega-se inteiramente á novidade, á graça

especial e desusada de que elles lhe apparecem impregnados; a

curiosidade do espirito, eminentemente observador, acorda, atrahida por

tantas revelações subitas d'um modo de vêr, de viver, de sentir, tão

diverso do que elle conhece desde a infancia; e então o pintor,

abstrahindo de comparações, de philosophias, de ideas complexas, que lhe

transtornariam a limpidez perfeita do seu apparelho optico, pega da

palêta, põe n'ella as côres mais finas, mais ideaes, mais delicadas,

d'um esbatido mais doce, d'uma suavidade mais penetrante, d'uma

fulguração mais radiosa e mais deslumbradora, e começa a pintar, á luz

do céo da Hollanda, aquosa e esmaecida, as raças, as physionomias, os

trajos, as figuras que destacam n'um meio pittoresco e caracteristico,

os grupos que passam enlaçados, essa festiva, essa apparatosa procissão

d'um povo em festa!

Vejam, por exemplo, este fragmento d'uma pagina consagrada ás mulheres

da Frisa, que fica cantando no ouvido, como a estranha musica em que se

fundem todas as graças melodicas de uma lingua opulentissima.

«As mulheres da Friza são de um encanto estranho. Muito altas, direitas,

serias, caminham todas--as mais humildes, as mais obscuras--com uma

magestade simples de princezas, e teem nas maneiras uma graça altiva,

casta, ondulante e fria, que lembra a origem aquatica que se lhes

attribue, como filhas de antigas sereias do Mar do Norte. Os pés

estreitos, as mãos longas e afiladas, o pescoço alto, o busto vigoroso,

o vestido preto, que todas usam, liso, cingido ao corpo, comprido, de

mangas justas e curtas, completam a expressão eminentemente

aristocratica d'estas figuras sacerdotaes de uma belleza quasi sagrada,

como a dos marmores classicos da esculptura antiga.

«O toucado frisão de uma retrospectividade bysantina, envolvendo-lhes a

cabeça em rendas e em placas d'oiro polido, imprime-lhes uma feição

cultual, uma vaga analogia de sacrario e de altar. O tradiccional

capacete, casco d'oiro em duas peças, semelhantes na forma a uma dupla

cobertura destinada aos dois hemispherios do cerebro, cobre-lhes

inteiramente o craneo; escondendo o cabello com uma austeridade

guerreira, deixando apenas desvestido o espaço da fronte e o alto da

cabeça envolto em renda branca. Algumas d'estas physionomias de

donzellas são inteiramente insexuaes, de grandes olhos suaves, o rosto

do mais correcto oval, o nariz longo e fino, a boca cortada n'um traço

recto, innocente e calmo, sem vestigio algum do movimento e qualquer

musculo em que vibrasse a malicia, o apetite ou o desdem, bellezas de

uma serenidade gothica, não contaminadas pela nevrose dos seculos da

analyse, errantes n'uma especie de somnambulismo nostalgico e

anachronico, entre as paixões modernas, taes como os poetas

contemporaneos poderiam apenas imaginal-as, brancas e frias, coroadas de

boninas, com um livro na mão, esculpidas em alabastro e deitadas sobre

um tumulo feudal, ou de escapulario de monjas, com a cabeça aureolada

por um disco de luz, n'uma vidraçaria de cathedral entre as companheiras

de Santa Ursula.»

Momentos antes--vejam o contraste!--Ramalho referindo-se á extravagante

meticulosidade do aceio hollandez, tinha-nos feito, com a riqueza de

vocabulario mais atroadora, uma descripção de todas as vassouras,

espanadores, utensilios de limpeza que são indispensaveis ao mais

humilde dos _ménages_, descripção que deve ficar positivamente como um

modelo do genero!

É assombroso todo este capitulo, d'uma variedade de kaleidoscopo, ao

mesmo tempo comico e pathetico, enternecido e alegre, pittoresco e

philosophico, fazendo desfilar deante do nosso deslumbrado olhar, n'um

delicioso capricho de magica, todas as scenas, todos os quadros, todas

as visões e todas as idéas!

Nos _Campos e Aldeias_ está na sua verdadeira especialidade o

paysagista, o pintor, o homem que sabe vêr melhor tudo o que vê.

Eu, por exemplo, ia aos campos da Hollanda, e sahia de lá com a

impressão indefinida, confusa e tristonha, de ter visto uma enorme

planicie chata e verde,--um gigantesco prato de espinafres--sem

accidentes de terreno, sem caprichos imprevistos de scenario, com muitos

moinhos a cercarem-n'a e muitos rêgos de agua mais ou menos largos, mais

ou menos profundos a desenharem por toda ella os seus xadrezes, d'onde

se levantam, de madrugada e ao pôr do sol, humidas vaporações

insalubres.

Ramalho Ortigão vê e faz-nos vêr, pelo encanto magico da sua penna que é

um pincel, tudo que alli viram de vago e simples, de indefinido e

penetrante, de terno e de melancolico, os grandes artistas hollandezes,

os mestres incontestados e inexcediveis de toda a moderna escola de

paisagem.

E o seu estylo opulento pinta as metamorphoses, as variações infinitas

d'essa luz, as colorações prysmaticas d'esse ceu cheio de neblinas

transparentes, as decomposições phantasticas das nuvens, a admiravel

riqueza sintillante e tremelusente que os espelhamentos do sol põem nos

lagos tranquillos e nos lympidos canaes, as harmonias do tom, as

gradações infinitas do eterno verde, a calma doçura tranquilla,--tudo

emfim que aos seus grandes amigos sinceros e eloquentes a velha natureza

inspira, em todas as suas apparencias multiplas, em todas as suas

transfigurações multiformes.

Ha n'este capitulo uma comparação entre a velha barca hollandeza, que

elle chama o _phantasma benigno da patria_, a aquatica alma _errante do

paiz_,--essa barca onde o hollandez navega paxorrentamente, levando

comsigo a mulher, a pequenada, o gato, o cão e os passaros--e a nossa

pittoresca e extincta falua do Tejo e do Douro, que me pareceu

verdadeiramente encantadora.

E ainda aqui--que a Hollanda me perdoe!--eu prefiro a nossa falua, a

nossa alegre falua, que a civilisação afugentou e inutilisou, essa falua

onde tudo era pittorescamente meridional, e onde o arraes contava

historias picarescas que faziam rir os passageiros, e lhes aligeiravam

as horas de longa jornada, feita sem commodos de especie alguma, mas com

luz, mas com sol, mas com a farta alegria da natureza a envolver e a

illuminar por dentro a alma de uma pessoa.

A mim, valha a verdade, não me seduz muito nem a barca nem a falua, a

não ser como ornato decorativo da paisagem. Mal por mal, em todo o caso,

antes a falua, por que essa ao menos é animada e palreira, jocosamente

expansiva!

Nas _Cidades_ hollandezas, de um luxo tão intelligente, de uma riqueza

tão racionalmente distribuida, em que a arte accumula os seus thesouros,

a beneficencia as suas admiraveis instituições, a solida e bem entendida

civilisação as suas escolas, as suas universidades, os seus institutos,

os seus lyceus, as suas bibliothecas e museus, os seus jardins botanicos

e de acclimação, os seus estabelecimentos de instrucção, de sciencia, de

caridade, de commercio, de industria e de recreio, n'essas _Cidades_ em

que se condensa toda a vida intellectual da livre e laboriosa Hollanda,

a alma do escriptor, tão moderno nas suas aspirações e nos seus ideaes,

dilatou-se n'um impulso de robusta e fecundante alegria! Vê-se que elle

admira aqui, sem esforço, sem idéa reservada ou preconcebida, a enorme

expansão moral, mental, economica e artistica, d'este povo que merece um

logar de honra incontestavel entre os povos modernos da Europa, d'este

povo que, depois de crear pelo trabalho incessante, a sua riqueza

enorme, fez d'ella um elemento de civilisação, de moralisação, de

desenvolvimento nacional, de felicidade e de paz interior.

A pintura feita pelo brilhante escriptor de todas as instituições, pela

existencia das quaes a Hollanda affirma a sua extraordinaria

superioridade, como nação educada, como nação caridosa, como nação

artistica,--é de fazer chorar de tristeza, de desalento e de inveja todo

o portuguez que tenha um bocadinho de coração.

Comparar o que nós fazemos com o que esse povo tem feito, horrorisa!

Mas por doer, a lição nem por isso deixa de ser proficua.

Agradeçamos a quem nos aponta implacavelmente, serenamente, o pouco que

nós somos ante a Civilisação, ante o moderno Ideal, e o muito que

precizamos caminhar, para merecermos o nome a que ouzada e

immerecidamente aspiramos.

Não é quem nos emballa e adormece com lisonjas banaes, tão mentirosas

quanto inuteis, que é nosso amigo, e nos presta um leal serviço.

Ramalho Ortigão com este livro, que é um exemplo e um castigo, que é um

incentivo, que é um grito de alarme lançado em meio da nossa preguiça,

da nossa indolencia, da nossa empavezada e burgueza vaidade, fez, como

eu já disse, mais do que uma obra bella, fez uma obra boa, de que nos

cumpre aproveitar a utilidade immensa.

No meio das paginas inteiramente consagradas pelo auctor á descripção e

á enumeração de todas as coisas feitas pela raça neerlandeza em favor do

seu proprio engrandecimento, e da sua propria illustração, paginas que

parecem escriptas por um Taine com entranhas e com alma, Ramalho

interrompe-se por momentos, e n'uma lingua idylica e harmoniosa, n'uma

lingua em que ha eccos de Shakespeare e visões de Ariosto, n'uma lingua

que parece feita de gotas de luar e de raios do sol, de aromas

indefinidos, de vagas scintillações fatuas, de vibrações de harpa eolia

occulta entre os salgueiros, faz-nos a pintura palpitante, luminosa,

musical, colorida, da _Floresta da Haya_, d'esse bosque sagrado que elle

julga proprio para abrigar, na sombra estranha e dôce da sua densa

ramaria mysteriosa, os amores profundos e tragicos, as sublimes paixões

heroicas da lenda e da historia, o somno esquecido e calmo dos grandes

deuses mortos, os divinos dialogos ardentes que os poetas puzeram na

bocca dos seus amantes immortaes.

As _casas_ e os _individuos_ revellam-nos a delicada e fina

efflorescencia que brota naturalmente do ideal religioso, moral,

politico e artistico da raça hollandeza. Tal é o paiz, tal a familia.

Esta é sempre o reflexo do modo de sentir e pensar collectivo; e nunca á

nação moralisada e instruida, livre, conscia e sabedora dos seus

direitos e dos seus deveres, correspondeu outra coisa que não fosse a

familia fortemente constituida, vivendo na ordem e no equilibrio dos

sentimentos e das faculdades.

N'este ponto são bem mais felizes as nações protestantes, as raças

saxonia e germanica, do que a nossa raça latina tão profundamente eivada

da mais esterilisadora decadencia.

É que n'essas raças não existe tão profundamente accentuado o divorcio

religioso entre o homem e a mulher; ahi, como frisantemente o faz notar

o escriptor da _Hollanda_, embora, mais tarde, no seu livro de _John

Bull_ se contradiga n'este ponto, a religião é o _facto culminante da

familia_.

A sagrada communhão do espirito existe entre todos os membros da mesma

familia, entre todos os que se reunem, penetrados de affecto, ternamente

aconchegados em torno do mesmo lar.

O chefe de familia tem, por assim dizer, a direcção espiritual de todos

os seus; e elles acceitam livremente essa lei religiosa que lhes foi

ensinada, d'um modo tendente a desenvolvel-os, não a amesquinhal-os e a

a entenebrecel-os para sempre.

D'aqui provém a logica simples e sympathica de todos os seus actos e

sentimentos. O drama deixa de existir como elemento natural da nossa

alma e da nossa imaginação. O peccado não tem as mesmas excitações

sensuaes, o cumprimento do dever é alguma coisa de mais serio, de mais

sagrado e de menos complicado e contradictorio do que nos paizes

catholicos, onde o padre, orgão da lei divina, ordena em geral o

contrario do que o marido, orgão da lei social, exige e faz cumprir;

onde a alma feminina vive entre a satisfação do desejo e os ardores do

arrependimento, sempre oscillante, sempre inquieta, no eterno

desiquilibrio, e na eterna vacillação enfraquecedora entre o bem e o

mal, entre a culpa e a penitencia, entre o pequenino goso irritante de

desobedecer, e o extase soluçante do confissionario, onde tudo se lava e

se perdoa...

Ramalho Ortigão deixa entrever tudo isto sem o accentuar demasiadamente,

limitando-se a fazer-nos entrar com elle em dois ou tres _interiores_

que se lhe franquearam, e que elle pôde observar com a sua poderosa

faculdade critica.

São adoraveis de bondade simples, de feliz contentamento, de paz serena

e doce, estes interiores hollandezes, e ainda aqui, perante a

superioridade da nação que estamos estudando, a nossa consciencia se

curva humilhada, e a nossa alma se penetra de salutar inveja.

Todavia não nos deixemos ir completamente atraz do enthusiasmo, que

tenta avassallar-nos diante d'estes quadros d'uma felicidade sem

sombras, d'uma perfeição sem macula.

As paginas do humorista hollandez Dowes Slekker, que Ramalho

cita,--talvez movido pelo remorso, que no fim de contas o punge de

admirar sempre, de admirar incondicionalmente,--as paginas em que

aquelle escriptor, mais na intimidade do seu paiz, da sua raça e do seu

meio, do que o viajante que passa impressionado simplesmente pela

seducção dos aspectos exteriores, escalpelliza duramente, e ferozmente

os ridiculos e os vicios dos seus concidadãos, essas dão-nos a certesa

consoladora ou cruel, consoante o ponto de vista em que nos collocarmos,

de que a absoluta perfeição humana não é mais que um sonho radioso em

que se entretem por momentos a nossa ambiciosa phantasia.

Em toda a parte a burguesia enriquecida e triumphante--e onde é ella

mais triumphante e mais enriquecida que na Hollanda?!--hade ter os

mesmos vicios, o mesmo egoismo desolador, a mesma ultrajante prerogativa

de gosar, esquecida de todos os que soffrem!

Nas _colonias_, a fóra a parte technica, util pelas informações, pelos

factos e pelos documentos de comparação que fornece aos competentes, o

que a mim me agradou como artista foi a pintura da Batavia, foi essa

invasão luxuosa e violenta da vida dos tropicos, da sua paisagem, da sua

flora e da sua fauna; do ar feito de chammas, da vegetação monstruosa,

da implacavel, soberba, subjugadora e invencivel natureza d'esses climas

de mortifero encanto!

O ultimo capitulo da Hollanda intitula-se _A Arte_, e assim devia ser.

E pela arte que esse paiz tem principalmente direito a viver, venerado e

querido, no espirito dos que pensam, e na alma dos que sentem. A arte é

o disco luminoso que o cerca, é o nimbo em que elle nos apparece

idealisado e engrandecido. A arte é a coroa suprema da sua realesa.

E depois a patria de Rembrandt e de Franz Halz justifica e faz

comprehender a apotheose, o hymno de admiração enternecida que é este

livro, elle proprio uma obra de arte, muito mais do que uma obra de

critica.

Ninguem estava no caso de apreciar e de sentir melhor a arte

hollandeza,--essa arte que teve, como nenhuma, a perfeição do detalhe na

harmonia do conjuncto, a nota exacta na comprehensão larga,--do que

Ramalho Ortigão, o escriptor que, no seu processo, realisa tão

adoravelmente a formula naturalista d'essa inspirativa e grande escola,

ante a qual os modernos se sentem ultrapassados e excedidos.

Pontos de vista notaveis, observações finas, analyse penetrante do

assumpto, intuição maravilhosa de todos os segredos da arte--eis o

capitulo que remata soberbamente este bello livro, d'um largo folego,

d'uma ampla e serena inspiração.

O assumpto arrastou-me. Fui mais extensa do que tencionava, e ha n'esta

critica um _não sei quê_ audacioso na contradicção que a mim propria me

espanta.

Julgarão os leitores menos benevolos que eu me arrogo os direitos de

critica em assumptos de viagem e de arte que me são quasi extranhos.

E, no emtanto, no silencio do paiz, em face dos que tentam levantal-o

trabalhando, ha uma desconsolação tão intima para a alma do escriptor,

que a minha voz, por obscura que seja, tem, n'esta mudez geral, uma nota

de sinceridade, uma aspiração de justiça, uma intenção de applauso,

merecedôra d'uma certa indulgencia.

Não me arrependo de fallar, visto que se callam tantos que tinham

direito de applaudir em alto e bom som.

Concluindo, repito o que já disse no principio do meu defeituosissimo

esboço critico. Porque será que, apezar de tanta virtude sympathica e de

tão nobre e levantado ideal, a Hollanda me impõe admiração sem me

inspirar ternura absolutamente nenhuma?!

É porque sou meridional de mais para comprehender essa raça persistente,

fria, fleugmatica e pesada, incapaz de expansão, incapaz de altruismo

generoso, incapaz do dilettantismo intelligente, que eu tanto aprecio

nos individuos e nas nações!

O que a elles, os bons hollandezes, lhes falta para me seduzirem, é a

_pontinha de febre_, o grão de loucura, a chamma iriada e multicor que

nós, a velha raça gasta nas exaltações e nos sobresaltos convulsos da

nevrose que nos exhauriu a seiva, conservamos ainda na velhice que nos

prostra... á sombra dos loureiros de outr'ora!

Elles teem a virtude e a força que dão a serena placidez, nós temos a

agitação eterna e dilaceradora, á custa da qual se compram os

requintados supplicios e as delicias de uma volupia morbida.

Nós conhecemos todos os martyrios, mas tambem todos os inebriantes gosos

que dá a Imaginação. Nós buscamos na Dôr a suprema voluptuosidade

sagrada, com que ella exalta e unge os seus dilectos, e não a trocamos

pelas calmas e tranquillas alegrias d'essa boa gente pacata,

pachorrenta, reflectida, egoista e séria, para quem a vida é um grato

dever, para quem as scismas, as contemplações, as duvidas, os terrores

phantasticos, são um accessorio inteiramente inutil, para quem o

mysterioso _alem-tumulo_, que nos irrita e nos perturba, e nos chama, e

nos allucina, e nos enche os labios de ironias blasphemas, e a alma de

anciosas e ardentes interrogações, é uma certeza firme, accentuada,

perfeitamente em regra, como um ramo de escripturação commercial?.....

O incognoscivel, que é a enorme região sombria, onde a nossa mente

divaga attonita e deslumbrada, a elles nem os afflige, nem os preoccupa!

São felizes, no positivismo chato das suas ideias e das suas occupações!

Nós somos os eternos mergulhadores do sonho, os eternos amantes da

Visão! São felizes, nós somos loucos! mas eu amo a loucura com

intermittencias geniaes, esta loucura com fecundos arrojos rapidos e

apaixonadas ancias de um bem desconhecido, que escala o céu como o

Prometheo do mytho hellenico, ou que se atira ao inferno, como o poeta

que resume em si toda a sombria Edade Média!...

_RAMALHO ORTIGÃO_

Alguns homens do meu tempo: impressões litterarias · 第 14 / 32 题