N’essa noite, já muito tarde, encontrava-se Ignaty n’um subterraneo,
sentado em frente de Vessoftchikof e segredava a este:
--Quatro vezes, na janella do meio...
--Quatro? repetia o bexigoso, com ares de grande concentração.
--Sim; primeiro trez, assim...
E bateu na meza com o dedo dobrado, emquanto contava:
--Uma, duas, trez; e depois, mais uma vez, passado um instantinho...
--Estou percebendo.
--Ha de vir á porta um campónio de cabellos vermelhos, e ha de
perguntar-lhe: «Vem por causa da parteira?» E você responde-lhe: «Sim,
senhor, venho da parte do senhorio!» E não precisa mais, elle logo
percebe do que se trata!
N’este colloquio, approximavam as cabeças; ambos altos e alentados,
falavam baixinho, abafando muito a voz. De pé, junto d’uma mesa, com
os braços cruzados sobre o peito, Pélagué observava-os. Todos aquelles
signaes cabalisticos, aquellas perguntas e respostas convencionadas
d’antemão, lhe davam immensa vontade de rir. E pensava:
«Não passam ainda d’umas crianças!»
Um candieiro seguro na parede illuminava as sombrias manchas do bolor e
as gravuras recortadas de jornaes. Pelo chão jaziam baldes amolgados,
fragmentos de zinco; e divisava-se pela janella, no ceu muito escuro,
uma grande estrella scintillante. Reinava em toda a quadra um forte
cheiro a ferrugem, tintas d’oleo e humidade.
Ignaty ostentava grosso sobretudo pelludo em que muito se comprazia;
Pélagué via-o, volta e meia, acariciar com volupia a manga do espesso
casacão e inclinar com custo o largo pescoço, para melhor se admirar. E
um pensamento cantava no coração de Pélagué:
«Filhos!... meus queridos filhos!...»
--Ora aqui está! disse Ignaty, levantando-se. Então não se esqueça!
Primeiro, ir a casa do Mouratof, perguntar pelo avô...
--Cá estou lembrado! respondia Vessoftchikof.
Mas Ignaty não se dava por crente, repetia-lhe outra vez todos os
signaes combinados e todas as palavras de passe. Por fim, estendeu-lhe
a mão.
--Agora não falta mais nada! Adeus, camarada! Dê-lhes recommendações
minhas! Olhe, diga-lhes assim: «O Ignaty está vivo e passa bem.» É boa
gente, verá!...
Mirou-se satisfeito, passou a mão pelo casacão e perguntou a Pélagué:
--Posso ir-me embora?
--E has de atinar com o caminho?
--Está claro que sim!... Até mais vêr, camaradas!
E lá se foi, aprumado, arqueando o peito, de chapeu novo á banda e
as mãos enterradas nos bolsos. Na testa e nas fontes, os anneis dos
cabellos, loiros e infantis, dansavam-lhe jovialmente.
--Ora até que emfim já tenho tambem trabalho! exclamou Vessoftchikof,
approximando-se da velha. Andava aborrecido; perguntava a mim mesmo
para que tinha saído da cadeia. Não faço senão andar escondido!... Ao
menos, na cadeia, sempre aprendia! O Pavel recheava-nos a cabeça que
era um gosto! E o André tambem nos limpava as idéas, sim senhora!... E
então, sempre se decidiu a fuga? Arranja-se isso?
--Hei de sabel-o depois d’ámanhã! respondeu. E repetiu, suspirando, mau
grado seu.
--Depois d’ámanhã...
O bexigoso approximou-se-lhe, descansou-lhe no hombro a alentada mão e
opinou:
--Podes dizer aos chefes que é coisa facil. Elles hão de dar-te
ouvidos! Ora vê tu mesma: aqui está a muralha da cadeia, ao pé d’um
lampeão. Em frente, ficam umas terras sem cultivo; á esquerda, o
cemitério; á direita, uma rua e o resto da cidade. Vem um accendedor
de candieiros mesmo de dia, dia claro, para limpar o lampeão; encosta
a escada ao muro, sobe, engata ao espigão da muralha os ganchos d’uma
escada de corda que ha de ficar para o lado do pateo, e está prompto!
Elles, na cadeia, já hão de saber a hora combinada, pedem aos presos de
crimes communs que armem qualquer desordem, ou armam-na elles mesmos,
e entretanto, os que estiverem na combinação marinham pela escada e
está tudo feito! E d’ali vem de passeio até á cidade, emquanto elles lá
ficam a procural-os pelo cemitério e nas taes terras de baldio!
Gesticulava com vivacidade, expondo este plano, aos olhos d’elle
simples, claro e de extrema habilidade. Pélagué, que nunca conhecera
n’elle mais que um rapagão tosco e desageitado, admirava-se de vêr
aquelle rosto bexiguento tão cheio de vivacidade e intelligencia.
D’antes, os minguados olhos de Vessoftchikof tudo fitavam com irritação
e desconfiança; agora, era para crêr que outros os haviam substituido,
rasgados e brilhantes de scintillações uniformes e severas que
convenciam e emocionavam Pélagué.
--Pensa bem: de dia é que ha de ser!... Sim, de dia! Quem ha de
imaginar que um preso se atreva a fugir de dia, á vista de todo o
pessoal da prisão?
--E se os fusilassem? lembrou a mãe, horrorisada.
--Quem? Se não ha soldados, e os carcereiros servem se dos revólvers
para pregar pregos!
--Quasi que estou achando tudo isso simples de mais!...
--Pois é como te digo; tu verás! Fala n’isso aos outros. Eu já
arranjei tudo: a escada de corda, os ganchos... Já falei cá com o meu
hospedeiro; é elle que ha de fazer de limpa-candieiros.
Para além da porta, mexia-se alguem entre accessos de tosse; ouvia-se
um ruido de ferros velhos.
--Ahi está elle, o hospedeiro! annunciou o bexigoso.
Pela abertura da porta appareceu uma banheira de zinco, e uma voz
encatarroada praguejou:
--Entra, diabo!
Depois, surgiu uma cara redonda e barbuda, de cabellos grisalhos, sem
chapeu, d’expressão bonacheirona e grandes olhos esbogalhados.
--Vessoftchikof foi ajudar o homem a fazer passar a banheira pela
porta; depois, o recemchegado, grande latagão corcovado, poz-se a
tossir com um grande entumecimento nas faces imberbes, escarrou e disse
na mesma voz rouca:
--Bôa noite!
--Pois agora, pergunta-lhe! convidou o rapaz.
--O quê? Que querem perguntar-me?
--É a respeito da fuga da cadeia.
--Ah, sim! disse o velho, limpando o bigode com os dedos sujos.
--Quer saber, Jacob? Ella não acredita que seja facil arranjar!
--Ah, não acredita? Pois se não acredita, é porque não quer a coisa.
Mas nós dois, que queremos que isso se faça, acreditamos que seja
facil! respondeu serenamente o homem.
Foi tomado d’um accesso de tosse que o dobrou em anglo recto, e em
seguida esteve muito tempo no meio da quadra a aspirar com força o ar
e a esfregar o peito. Fitava Pélagué com olhos de espanto.
--Mas não sou eu quem decide esta questão! observou ella.
--Mas fala lá com os outros; dize-lhes que está tudo arranjado! Ah! se
eu pudesse falar com elles, eu os convenceria! exclamou o bexigoso.
Estendeu os braços em largo gesto e depois apertou-os como para
abraçar qualquer coisa. Vibrava-lhe na voz um sentimento cuja energia
assombrava Pélagué.
--Vejam que mudança fez! pensou ella.
E contestou em voz alta:
--O Pavel e os companheiros é que hão de decidir.
Meditativo, o outro ficou-se de cabeça baixa.
--Quem é esse Pavel? interrogou o velho, tomando logar n’um banco.
--É o meu filho.
--Qual é o nome da familia?
--Vlassof.
Elle abanou a cabeça, puxou pela bolsa do tabaco e, emquanto enchia o
cachimbo:
--Tenho ouvido falar. O meu sobrinho conhece-o. O meu sobrinho tambem
está na cadeia; chama-se Evetchenko. Conhece? Eu chamo-me Gadoune.
D’aqui a pouco, está na cadeia! Então é que a gente ha de viver feliz
e socegada, nós, os velhos! Um, da policia, prometteu que me havia
de pregar com o sobrinho na Sibéria... E ha de cumprir a promessa, o
excommungado!
Entrou de fumar, escarrando para o chão de vez em quando.
--Ah! ella não quer? continuou, virado para o rapaz. Isso é com
ella!... O homem é livre! Quem está cansado, que se sente; quem estiver
cansado de estar sentado, passeie!... Quem fôr roubado, que se cale;
quem fôr tosado, soffra com resignação! E se o matarem, que se deixe
caír!... Sempre é certo isto. Mas eu cá hei de fazer saír o meu
sobrinho da cadeia. Olá, se hei-de!...
Estas expressões incisivas, parecidas com latidos, tornaram Pélagué
perplexa. As ultimas palavras do velho haviam até excitado n’ella uma
tal ou qual inveja.
Pela rua fóra, ao vento gélido e á chuva, ia pensando no Vessoftchikof.
--Como elle está mudado!... Vejam aquillo!
E ao lembrar-se de Gadoune, meditou com um sentimento quasi de
religiosa piedade:
--Ao que parece, não sou só eu que ando n’esta vida de promissão!
Depois, a imagem de seu filho accudiu-lhe ao espirito:
--Se elle consentisse, ao menos!...