IX

Foi recebida por Nicolao com um grito de mal contida inquietação.

--Sabe? O Iégor está muito mal! Levaram-no para o hospital; a Lioudmila

veio cá pedir que fôsse ter com ella.

--Ao hospital?

Nicolao, depois de ter ajustado os oculos, em movimento nervoso,

ajudou-a a vestir um casaco, apertou-lhe a mão entre as suas, seccas e

febris, e, em voz trémula:

--Sim! Leve este embrulho comsigo. O Vessoftchikof ficou em segurança?

--Sim, tudo vae pelo melhor...

--Tambem hei de ir vêr o Iégor...

Pelagué estava tão cansada, que sentia a cabeça a andar-lhe á roda; a

inquietação de Nicolao dava-lhe a presentir um drama.

--Vae morrer!... Vae morrer! dizia comsigo; e esta sombria idéa

martelava-lhe no cerebro.

Mas quando entrou no quartosinho alegre e muito aceiado do hospital e

viu o Iégor a rir de manso, sentado em meio d’um montão de almofadas

brancas, socegou de pronto. Parou á porta a sorrir-lhe e ouviu o doente

dizer ao medico:

--O remedio, é uma reforma!

--Não diga tolices, Iégor! obtemperou o doutor em tom appreensivo.

--E eu, que sou revolucionario, detesto as reformas!...

Certamente, o medico tomou a mão do doente e collocou-lha sobre o

joelho; em seguida, levantou-se, poz-se a puxar pelas barbas, emquanto

ia apalpando com um dedo os entumecimentos do rosto de Iégor.

Pélagué conhecia bem o doutor por ser um dos melhores camaradas de

Nicolao. Approximou-se de Iégor, que, ao vel-o, lhe deitou a lingua de

fóra. O medico voltou-se.

--Ah, é vocemecê?... Viva!... Sente-se. Que traz ahi?

--Livros, parece-me.

--Não póde ler declarou, o medico.

--Quer que eu fique parvo de todo! choramigou Iégor.

--Cala-te! ordenou. E poz-se a escrever qualquer coisa na carteira.

Do peito do doente exalavam-se breves suspiros forçados, de mistura com

saliva, n’um estertor, violento; tinha o rosto coberto de camarinhas

de suor, que elle enxugava de vez em quando, erguendo muito devagar as

pesadas mãos, quasi inconscientes. A singular immobilidade das faces

inchadissimas descompunha a expressão de bonhomia da sua ampla cara,

onde as feições haviam desapparecido sob uma mascara cadaverica; e só

os olhos, profundamente cavados entre os inchaços, conservavam um olhar

puro e sorriam com condescendencia.

--An?! Esta sciencia!... Já não posso mais... Deito-me, doutor?

perguntou elle.

--Não! respondeu com brevidade o medico.

--Então deito-me quando tu te fôres embora!

--Não lh’o consinta, mulhersinha. Arranje-lhe as almofadas. E tome

muito cuidado, não o deixe falar, peço-lhe; faz-lhe muito mal.

Pélagué fez um aceno. O medico saíu em passinhos rapidos. Iégor deitou

a cabeça para traz, fechou os olhos e ficou sem movimento; só os dedos

se lhe agitavam um pouco. Das paredes brancas da cellasinha exalava-se

um frio secco e uma tristeza velada e pálida. Pela alta janella

divisavam-se os cumes ondulados das tilias; por entre a folhagem

poeirenta e sombría destacavam-se vivamente manchas amarellas: eram as

frias primicias do outomno, que chegava...

--Vem para mim a morte, devagar, como que sem vontade! disse Iégor, sem

bulir e sem abrir os olhos. Parece que tem pena de mim!... Pois se eu

era um bom rapaz, de bom genio!...

--Cala-te, Iégor! supplicou Pélagué, afagando-lhe a mão ternamente.

--Espere um pouco, mãesinha, eu vou-me calar...

E, offegante, continuou com esforço immenso a articular palavras

entrecortadas de longas pausas:

--Gosto muito que vocemecê esteja comnosco, mãesinha... É-me muito

agradavel ver a sua fisionomia, os seus olhos tão vivos, a sua

candura... Quando a vejo, pergunto a mim mesmo: «Como irá ella acabar?»

E fico triste, a pensar que a espera a cadeia, ou o degredo, toda a

especie d’abominações... como os outros... Não tem medo da prisão?

--Não! respondeu ella com simplicidade.

--Está claro!... E, comtudo, a prisão... é nojenta coisa... foi ella

que me matou... Porque, para falar com franqueza, eu não tenho vontade

de morrer.

Ella sentiu desejo de responder: «Talvez não morras ainda,» mas

calou-se e ficou a olhar para elle.

--Podia ainda fazer alguma coisa pelo bem do povo... Mas quando a gente

já não póde trabalhar, é impossivel viver, é uma estupidez!

Á memoria da velha accudiram então estas palavras de André: «Isso é

verdade, mas não é consolador!» Suspirou. Sentia-se fatigadissima e

com fome. O murmurar monotono e rouco do doente resoava triste pelo

quarto, como que rastejando, impotente, por sobre a lisura das paredes.

A folhagem das tilias fazia pensar em nuvens que tivessem descido

á terra, e impressionava pelo seus tons carregados e melancolicos.

Tudo, em volta, se congelava singularmente em tristonha immobilidade,

n’aquella desconfortante espectativa da morte.

--Como me sinto mal! disse Iégor. E calou-se, fechando os olhos.

--Dorme! aconselhou ella. Talvez te faça bem.

Apurou por alguns instantes o ouvido para a respiração do doente e

relanceou o olhar em torno de si. Invadida por glacial tristeza, entrou

a dormitar.

... Despertou-a um ruido de vestidos roçagantes. Estremeceu ao ver

Iégor accordado, com os olhos muito abertos.

--Deixei-me dormir... desculpa! disse em voz baixa.

--E tu, tambem, perdôa-me! replicou elle igualmente n’um murmurio.

Pela janella, entrava o crepusculo; um frio nevoento opprimia a vista;

tudo se fundia em singular opacidade; o rosto do doente tomava tons

mais sombrios.

De novo se ouviu um roçagar de saias e logo depois a voz de Lioudmila,

dizendo:

--Então, aqui ás escuras, a tagarelar?... Onde fica o botão da luz?

E de subito, uma claridade branca e desagradavel innundou o quarto.

Lioudmila estava de pé, alta, toda vestida de negro.

Iégor teve um grande estremecimento por todo o corpo e levou a mão ao

peito.

--O que é? exclamou Lioudmila, correndo para elle.

Fixou na velha um olhar demorado; parecia ter os olhos enormes, com um

brilho estranho.

--Espera... balbuciou o enfermo.

Abriu muito a bocca, ergueu a cabeça e estendeu o braço para diante.

Pélagué tomou-lhe a mão com cuidado extremo e fitou-o, contendo a

propria respiração. Em movimento convulso e vigoroso, elle projectou a

cabeça para traz e disse em alta voz:

--Deixei de existir... está acabado...

Percorreu-lhe o corpo ligeira contracção, a cabeça rolou-lhe lentamente

no hombro, e, nos seus olhos esgazeados, a luz da lampada collocada por

sobre o leito, espelhou-se com um reflexo frio...

--Meu amigo!... murmurou Pélagué.

Lentamente, Lioudmila afastou-se do leito; parou junto da janella a

olhar para fóra e disse n’uma voz singular e sonora, que Pélagué nunca

lhe tinha ouvido:

--Morreu...

Ella inclinou-se, apoiou-se á mesinha de cabeceira e entrou de

balbuciar com a voz a tremer:

--Morreu... socegadamente... corajosamente... sem um queixume...

E de repente, como se lhe tivessem dado uma pancada na cabeça,

deixou-se caír de joelhos, sem forças tapou o rosto com as mãos, e

desatou em soluços abafados.

Depois de ter cruzado os braços pesados do morto, sobre o peito e de

lhe ageitar nas almofadas a cabeça, extraordinariamente quente, Pélagué

avisinhou-se de Lioudmila, curvou-se para ella e afagou-lhe docemente

os espessos cabellos, ao mesmo tempo que enxugava as proprias lagrimas.

Esta ultima voltou com lentidão para ella os olhos dilatados, febris e

balbuciou por entre os labios trémulos:

--Havia muito que o conhecia... Estivemos juntos no degredo, estivemos

nas mesmas prisões... Ás vezes, aquella tortura era insupportavel,

horrorosa; muitos d’entre nós perdiam o animo e alguns endoideciam...

Comprimiu-lhe a garganta um espasmo violento; dominou-se com esforço, e

em seguida, avisinhando do rosto da velha o seu rosto, a que uma nevoa

de ternura dolorida dava desconhecida suavidade que o rejuvenescia,

proseguiu em rapido murmúrio, com um soluçar sem lagrimas:

--E elle, elle sempre, sempre, andava alegre; nunca se cansava de

gracejar, de rir, occultando corajosamente o seu soffrer, esforçando-se

por reanimar os fracos... era tão bom, tão sensivel, tão meigo!... Na

Siberia, a inacção em que se vive, deprava o espirito e faz nascer

maus instinctos. Como elle os sabia combater!... Que companheiro

aquelle era; se soubesse! a sua vida particular foi árdua, dolorosa...

mas--sei-o bem--nunca ninguem o ouviu queixar... ninguem, nunca! Assim,

eu, que era sua intima amiga, devo muito ao seu coração e recebi do

seu espirito tudo o que podia dar-me; vivia triste, solitário e, no

emtanto, nunca elle me pediu nada em paga, nem carinhos, nem disvelos...

Foi até junto do morto, curvou-se e beijou-lhe a mão.

--Companheiro, meu querido e amado companheiro, disse ella n’uma voz

sumida e cheia de desconsolo, agradeço-te de toda a minha alma...

Adeus! Trabalharei, como tu fizeste... sem me cansar... sem duvidar...

toda a minha vida... pelos que soffrem... Adeus!

Todo o corpo lhe foi saccudido por violentos soluços e, offegante, a

cabeça descaíu-lhe sobre o leito, aos pés de Iégor.

Derramava Pélagué bastas lagrimas que lhe queimavam as faces.

Procurava retel-as, pois o seu desejo era consolar Lioudmila com um

affago especial e animador, falar-lhe do morto com boas palavras

repassadas de amor e de tristeza. Por entre o pranto, distinguia o

rosto entumecido do defuncto, os olhos fechados, os labios negros,

confrangidos em leve sorrisos... Reinava um silencio profundo em meio

d’aquella claridade que opprimia.

O medico entrou em passinhos apressados, como sempre; parou bruscamente

a meio do quarto, enterrou em rapido gesto as mãos pelas algibeiras e

perguntou com voz nervosa e sonora:

--Ha muito tempo?

Ninguem lhe respondeu. Bamboleou-se nas pernas e approximou-se de

Iégor, enxugando o suor da testa; apertou a mão do morto e afastou-se

novamente.

--Não é para admirar... em vista do estado do coração... Isto já devia

ter acontecido ha seis mezes... pelo menos... Sim, com certeza!...

Mas aquelle tom agudo da voz em que a placidez era forçada e a

sonoridade fóra de proposito, logo se lhe velou. Encostou-se á parede e

poz-se a passar os dedos rapidamente pela barba, olhando alternadamente

para as duas mulheres e para o morto, com os olhinhos piscos.

--Mais um!... concluiu brandamente.

Lioudmila ergueu-se e foi abrir a janella. Pélagué como que accordou

áquelle ruido e olhou em torno, com um gemido. E um instante depois,

o doutor, ella e Lioudmila encontravam-se reunidos no vão da janella,

apertados uns contra os outros, a contemplarem o aspecto sombrio

d’aquella noite de outono. Por cima do arvoredo, scintillavam as

estrellas e pareciam recuar, perdendo-se no negro infinito dos ceus.

Lioudmila envolveu o braço de Pélagué com o seu e descansou-lhe a

cabeça no hombro, sem uma palavra. O medico limpava a luneta com o

lenço. Fóra, os ruidos nouturnos da cidade morriam, abafados, o fresco

da noite regelava as faces e agitava os cabellos. Lioudmila sentia

arrepios; e as lagrimas escorriam-lhe pelo rosto. Nos corredores

do hospital, vagueavam ruidos amortecidos, assustados, passadas

pressurosas, gemidos, murmurios desconsolados. Immoveis, á janella, os

trez sondavam as trevas, em silencio.

Pélagué sentiu que era ali de mais e, depois de soltar com brandura

o braço do da joven senhora, dirigiu-se para a porta, não sem que se

inclinasse, ao passar, perante o morto.

--Vae-se embora? perguntou baixo o medico, sem se voltar.

--Vou.

Pela rua fóra, ia pensando em Lioudmila. «Nem ao menos sabe chorar!»

dizia ella comsigo, recordando-se da parcimonia das suas lagrimas.

E as ultimas palavras de Iégor voltavam-lhe á memoria; faziam-na

suspirar. Caminhando a passo vagaroso, revia em mente os olhos vivos de

Iégor, os seus gracejos, as suas opiniões sobre a vida.

--Para a gente proba, a existencia é penosa e a morte leve... Como

morrerei eu?

Em seguida, o pensamento representou-lhe Lioudmila e o doutor de pé,

junto da janella, n’aquelle quarto muito branco e cruamente illuminado,

os olhos embaciados de Iégor; e, invadida por um sentimento oppressor,

de compaixão, suspirou profundamente e entrou a caminhar mais depressa,

impellida por vago presentimento...

«É preciso marchar para a frente!» pensou sob o impulso de coragem

valorosa e contristada, que lhe subia do coração.

X

O dia seguinte passou-o Pélagué a dispôr tudo para o enterro de

Iégor. Á noite, quando tomava o chá, com Nicolao e Sofia, appareceu

Sachenka, animada e expansiva, o que era para admirar. Vinha com as

faces córadas, os olhos brilhantes, e Pélagué percebeu que ella trazia

qualquer esperança risonha. Este radiante estado de espírito veio

fazer uma irrupção barulhenta e tumultuosa no curso melancolico das

recordações, mas sem o distraír era como uma viva claridade que tivesse

brilhado de súbito n’aquellas trevas e que vinha incommodar a pequena

reunião. Nicolao, pensativo, bateu na mesa:

--Acho-a mudada hoje, Sachenka!...

--Deveras! Póde ser! respondeu com uma risadinha de contentamento.

Pélagué lançou-lhe um mudo olhar de censura. Sofia fez notar,

accentuando as palavras:

--Estavamos falando do Iégor.

--Que bello homem! não é verdade? exclamou Sachenka. Sempre tinha

prontos nos labios um sorriso e um gracejo... Trabalhava tão bem! Era o

artista da revolução; possuia em alto grao a idéa revoluccionaria, como

um verdadeiro mestre! Com que simplicidade mas ao mesmo tempo com que

veemencia elle sabia descrever-nos o homem--o homem falso, perverso e

violento! Muito lhe devo eu!

Dizia isto a meia voz, com um sorriso de reflexão, mas que não lhe

extinguia no olhar o brilho de alegria que era bem visivel e que nenhum

dos trez compreendia. É que nos acontece ás vezes sentirmos prazer

com um pezar, fazermos d’elle um brinquedo torturante que nos roe

o coração. Mas Nicolao, Sofia e Pélagué, esses, não queriam deixar

que se dissipasse a sua tristeza, nem abandonal-a aos sentimentos

despreoccupados que Sachenka viera ali trazer; sem d’isso terem

consciencia, defendiam o seu melancolico direito de se acolherem

á dôr, e tentavam fazer entrar a recemchegada no circulo das suas

preoccupações.

E, afinal, está morto! insistiu Sofia, fitando-a com attenção.

Ella vagueou pelos presentes interrogador olhar e baixou a fronte.

--Está morto?... repetiu em voz alta. Custa-me conformar-me com este

facto.

Entrou a passear a todo o comprimento da sala, e em seguida, estacando

de súbito, proseguiu em tom singular:

--Mas que significa isso: «Está morto?» O que foi que morreu? A minha

estima pelo Iégor, a minha affeição por esse camarada, a memoria do que

a sua intelligencia praticou, tudo isso morreu? A opinião que eu tinha

d’elle--a d’um homem valente e leal--ficou por ventura aniquilada?

Morreu tudo isso? Para mim, tudo isso, a melhor parte d’elle proprio,

nunca ha de morrer, sei-o bem! Parece-me que ha sempre pressa de mais

em se dizer que um homem morreu! Se os seus labios morreram, as suas

palavras estão vivas no coração dos que as escutaram.

Muito commovida, tornou a sentar-se, encostou-se á mesa e continuou com

mais brandura:

--Talvez sejam tolices o que digo, mas olhem, camaradas: creio na

immortalidade da gente de bem!

--Teve alguma novidade? Está tão alegre! perguntou-lhe Sofia, amavel.

--Tive! respondeu Sachenka, confirmando a resposta com um aceno.

Uma novidade muito agradavel, ao que julgo. Falei toda a noite com

o Vessoftchikof. Antigamente não gostava d’elle; achava-o muito

grosseiro, muito ignorante, o que realmente era verdade. Havia n’elle

um mau humor, uma irritação indefinida e continua para com todos;

estava sempre a antepôr-se a tudo com uma insistencia que chegava a

aborrecer, sempre a falar de si mesmo... Aquelle homem tinha o que quer

que fôsse de maldade, que enervava.

Interrompeu-se para sorrir e relanceou em torno um olhar radiante:

--E agora, não: fala já dos seus «companheiros». E se ouvissem como

elle pronuncia esta palavra! Com uma veneração tão terna, com tanta

meiguice, que ninguem o póde intimar! Caíu em si, sabe a força de que

dispõe, sabe o que lhe falta... e hoje, o que sente sobre todas as

coisas é o verdadeiro sentimento de camaradagem, uma immensa dedicação,

capaz de ir ao encontro das maiores provações.

Escutava-a Pélagué, encantada com a alegria d’aquella rapariga, por

hábito tão triste. Mas, ao mesmo tempo, no recondito do seu coração

brotava secreto pensamento de inveja: «E o Pavel, que faz elle no meio

de tudo isto?»

--Só pensa nos camaradas, continuava Sachenka; e sabem o que elle me

persuadiu que fizesse? Que arranjasse uma fuga geral dos presos... É

verdade! Diz que é facil.

Sofia ergueu a cabeça e, em tom de animação:

--E que lhe parece, Sachenka? É uma boa idéa.

A chavena de Pélagué entrou a tremer-lhe na mão; pousou-a sobre a meza.

Sachenka ficou-se um instante calada, de sobrolho franzido, reprimindo

o entusiasmo; depois, muito séria mas com um sorriso radiante,

respondeu com alguma hesitação:

--Certo é que se as coisas são realmente como elle diz, devemos

tentar... é o nosso dever.

Córou, deixou-se caír n’uma cadeira e nada mais acrescentou.

A mãe de Pavel esboçou um sorriso de muita meiguice, dizendo comsigo:

«Querida! Querida da minha alma!» Sofia sorriu tambem; Nicolao soltou

uma gargalhadinha, e attentou na rapariga, bondosamente. Então, ella

ergueu a fronte, olhou em torno com severidade, e, pallida, com os

olhos a faiscar, disse seccamente:

--Riem-se... Percebo porque é. Pensam que sou pessoalmente interessada

no resultado da evasão, não é isto?

--Mas porquê, Sachenka? interrogou Sofia hypocritamente.

E, levantando-se d’onde estava, foi pôr-se ao lado d’ella. Pélagué

achou a pergunta futil e humilhante para Sachenka e assim lho fez

sentir com um olhar.

--Mas, então, não quero tratar de nada! exclamou Sachenka. Não

quero tomar parte na discussão, desde o momento que consideram este

projecto...

--Cale-se, Sachenka! disse Nicolao sem se exaltar.

A mãe de Pavel foi para a rapariga e afagou-lhe brandamente os

cabellos. Sachenka agarrou-lhe logo a mão e voltando para ella o rosto,

onde o sangue affluira, fitou-a, confusa. Sofia arrastou uma cadeira,

sentou-se ao lado de Sachenka, passou-lhe o braço em volta da cinta e

disse-lhe, ao passo que a fitava com curiosidade:

--Que caracter singular o seu!

--Sim, parece-me que disse tolice... mas é que eu gosto das coisas

claras...

Nicolao interrompeu-a para dizer em tom sério e preoccupado:

--Se a evasão é possivel, trate-se d’isso, não temos que hesitar!...

Mas antes de mais nada, é preciso saber se os companheiros encarcerados

estarão d’accordo.

Sachenka curvou a fronte.

--Como se elles pudessem recusar! disse Pélagué, suspirando. O que eu

não creio é que isso se possa fazer!

Todos ficaram calados.

--Deixem me falar com o Vessoftchikof, disse Sofia.

E Sachenka annunciou em voz baixa:

--Bem! amanhã lhe digo onde e quando póde encontral-o.

Nicolao approximou-se da velha, que estava lavando as chavenas.

--Vocemecê vae depois d’amanhã á cadeia; é preciso fazer chegar um

bilhete ás mãos do Pavel. Compreende? É preciso que a gente saiba...

--Compreendo. Compreendo! interrompeu ella com vivacidade. Eu me

encarrego de lho entregar.

--Vou-me embora! declarou Sachenka e, tendo distribuido pelos

companheiros vigorosos apertos de mão, foi-se, sem mais uma palavra.

Poisou Sofia a mão no hombro de Pélagué e a sorrir:

--Queria ter uma filha como esta, Pélagué?

--Meu Deus! Se eu pudesse vel-os casados, ainda que não fôsse senão um

dia! exclamou a bôa mulher quasi a chorar.

--Sim, a felicidade de cada um consiste em ser-se um bocadinho feliz...

Quando essa felicidade é demasiada, tambem é de qualidade inferior.

E Sofia foi para o piano tocar uma musica triste.

A Mãe · 第 44 / 66 题