O dia decorreu lentamente, seguido de uma noite sem somno. O dia
seguinte pareceu-lhe ainda mais comprido. Esperava não sabia o quê, mas
ninguem veio. Caíu a tarde, depois a noite. A chuva glacial tombava
roçando pelas paredes, o vento soprava pela chaminé, o madeiramento
da casa rangia. Ouvia-se apenas a melodia melancólica e dolorosa das
gottas d’agua caíndo do telhado, como lagrimas. Parecia que toda a casa
vacilava e que uma surda angustia gelava o ambiente.
Bateram de manso á vidraça. Pélagué estava acostumada a este
signal; não se assustou; estremeceu como se lhe tivessem despertado
bondosamente, o coração. Vaga esperança fêl-a levantar-se de prompto.
Atirando um chale para os hombros, abriu a porta. Samoílof entrou,
seguido d’outra pessoa que occultava a cara na gola erguida da capa;
tinha o boné descaído para os olhos.
--Viemos accordal-a? perguntou Samoílof sem mais cumprimentos.
Fóra do costume, o seu ar não era tranquillo.
--Não; eu não estava a dormir.
E olhou inquiridoramente para os recemchegados.
Com um suspiro abafado e profundo, o companheiro de Samoílof tirou o
boné e estendeu a Pélagué a mão forte e de dedos grossos.
--Bôa noite, mãesinha! Não me reconheceu? disse-lhe amigavelmente como
a um velho conhecimento.
--Ora?! exclamou ella com alegria. Iégor Ivanovitch! o sr.?!
--Eu, sim!
Tinha o cabello comprido como um menino de côro. Illuminava-lhe a
fisionomia um sorriso de bondade; os seus olhitos pardos fitavam-se em
Pélagué com expressão carinhosa. Assemelhava-se a um samovar no seu
corpito redondo, no pescoço grosso e nos braços curtos. A pelle da cara
reluzia; no seu peito parecia pesar e rostilhar alguma coisa...
--Vão para aquelle quarto; eu vou vestir-me! propôz ella.
--Temos que dizer-lhe! respondeu Samoílof, preoccupado e olhando-a de
soslaio.
Iégor passou para a divisão do lado, dizendo:
--Mãesinha, esta manhã um dos nossos amigos saíu da cadeia, onde esteve
trez mezes e onze dias. Viu por lá o russo-menor e Pavel que lhe envia
muitas recommendações; o seu filho pede-lhe que não se apoquente por
causa d’elle, e manda-lhe dizer que no caminho que elle escolheu, a
cadeia é o logar que serve para o descanço; assim o resolveram as
nossas auctoridades sempre interessadas pelo nosso bem-estar... Vamos
agora ao que importa: Sabe quantas pessoas foram presas hontem?
--Não. Pavel não foi o unico?
--Foi o quadragesimo nono... declarou Iégor tranquillamente. E
espera-se que ainda sejam presos uns dez... Entre outros este
cavalheiro aqui presente.
--Eu mesmo! disse Samoílof, sombrio.
Pélagué respirava mais facilmente.
--Não está então sosinho!...
Quando acabou de vestir-se, passou ao outro quarto, sorrindo, bem
disposta.
--Não os conservarão presos por muito tempo se elles são muitos.
--Diz bem! E se conseguirmos torcer o jogo dos nossos adversarios, não
terão adiantado mais do que d’antes. Se deixarmos de propagar agora os
nossos folhetos, os patifes da policia notarão o caso, e perceberão
que a propaganda era feita pelo Pavel e pelos companheiros, agora seus
companheiros na cadeia.
--Como? não percebo...
--Nada mais simples, mãesinha. Ás vezes a gente da policia chega a
raciocinar com acerto... Repare: emquanto o Pavel era livre appareciam
os folhetos; mettido na cadeia, desappareceram. Logo era elle quem os
espalhava.
--Percebo!... murmurou ella tristemente. Que fazer? Ah! Deus do ceo!
A voz de Samoílof veiu da cosinha:
--Diabos me levem! Prenderam quasi todos os nossos! É preciso continuar
a trabalhar como d’antes, não só pela nossa causa, mas tambem para
salvar os companheiros.
--E ninguem para trabalhar!... suspirou Iégor. Temos folhetos
magnificos... Fui eu mesmo que os fiz. Mas como introduzil-os na
fabrica? Eu cá não sei:
--Agora, toda a gente é revistada á entrada... explicou Samoílof.
Pélagué adivinhava que lhe queriam alguma coisa.
--Então que fazer? perguntou vivamente.
Samoílof parou e perguntou:
--Pélagué Nilovna, conhece a vendedeira Korsounova?
--Conheço. Porquê?
--Fale-lhe. Talvez que ella se encarregue dos nossos folhetos.
Ella ergueu logo o braço n’um movimento negativo:
--Ah! não! É uma tagarella! Não! Saber-se-ia logo que fui eu... que foi
coisa vinda da nossa casa... Não!
E de subito, illuminada por uma idéa repentina, exclamou com alegria:
--Dêem-me os folhetos! Dêem-mos! Eu acharei um meio... Deixem isso por
minha conta! Pedirei á Maria que me tome ao seu serviço. Tenho que
trabalhar, se quizer comer. Levarei tambem os jantares á fabrica, aos
operarios... Deixem isso por minha conta.
Com as mãos unidas no peito, affirmava que saberia proceder sem que a
descobrissem, e concluiu com uma exclamação triunfante:
--Ah! Hão de ver que mesmo com Pavel na cadeia, a sua mão os attinge!
Todos trez se sentiam de novo animosos. Iégor sorria, esfregando
rapidamente as mãos, dizendo:
--Bravo, mãesinha! Se soubesse como isso lhe fica bem! como é para
enthusiasmar!
--Se fôr bem succedida, sentir-me-ei tão feliz na cadeia como se
estivesse sentado n’uma cadeira estofada! declarou Samoílof, rindo:
--É um thesouro, mãesinha! exclamou Iégor roufenhamente.
Pélagué sorriu. Era simples: se conseguisse introduzir na fabrica os
folhetos, diriam que não era Pavel quem os distribuia. Sentindo-se
capaz de desempenhar-se de tal compromisso, Pélagué estremecia jubilosa.
--Quando fôr visitar o Pavel, diga-lhe que elle tem uma boa mãe!
--Hei de vêl-o mesmo antes do dia da visita! prometteu Samoílof,
sorrindo.
--Diga-lhe abertamente que hei de fazer quanto fôr necessario. Que elle
o fique sabendo!
--E se o Samoílof não fôr preso, como ha de sabel-o o Pavel? perguntou
Iégor.
--Paciencia! Temos que nos resignar!
E ambos entraram de rir. Quando ella compreendeu a sua tolice, riu
tambem, mas um tanto contrafeita.
--Quando olhamos para os nossos, não vemos bem os que lhe ficam por
detraz... murmurou ella, a justificar-se.
--É natural! concordou Iégor. A proposito de Pavel: não se inquiete nem
se entristeça. Ha de saír da cadeia ainda melhor do que quando para lá
entrou. Por lá descansa-se, ha tempo para adquirir instrucção, o que
não nos acontece quando estamos á solta. Estive preso tres vezes, sem
grande vontade, mas o meu coração e a minha razão aproveitaram sempre...
--Custa-lhe respirar... disse Pélagué olhando para elle affectuosamente.
--Por motivos especiaes... respondeu levantando um dedo para o ar.
--Portanto, está combinado, mãesinha. Ámanhã trazemos-lhe o que sabe, e
outra vez entrará em movimento a roda que aniquila as trevas seculares.
Viva a liberdade da palavra, mãesinha! e viva o coração materno! Até
ámanhã!
--Até ámanhã! disse tambem Samoílof apertando com força a mão de
Pélagué. Eu não posso dizer palavra d’isso tudo á minha mãe.
Quando elles saíram, Pélagué fechou a porta e ajoelhando-se no meio do
quarto, pôz-se a resar, ao ruido da chuva. Rezou sem soltar dos labios
uma só palavra; era como um pensamento muito longo e intenso; rezou
por todos aquelles que Pavel associára á sua vida. Via os passar entre
ella e as imagens dos santos; eram simples, tão extraordinariamente
approximados uns dos outros, e tão isolados na vida.
Logo muito cedo, foi a casa de Maria Korsounova.
A ruidosa vendedeira, com o fato engordurado como sempre, acolheu-a
compassivamente:
--Aborreces-te? perguntou, batendo-lhe com a mão no hombro. Consola-te!
Agarraram-no, levaram-no? Grande coisa! Que mal ha n’isso? D’antes
mettiam uma pessôa na cadeia, quando roubava; agora é quando se diz
a verdade. Pavel disse naturalmente coisas que não se devem dizer.
Mas foi para defender os companheiros, e isto toda a gente o percebe.
Não tenhas medo. Todos sabem que elle é um bello rapaz... embora não
o digam. Eu queria ir a tua casa, mas não tive tempo. Estou sempre a
cosinhar, esgótto o meu artigo, e afinal estou certa de que virei a
morrer pobre. Os amantes arruinam-me! os sacripantas! Comem! comem!...
parecem baratas a devorar um pão. Apenas tenho uns dez rublos,
apparece-me um d’esses hereticos e rouba-mos! É isto! Má coisa ser
mulher! que estupida vida! É difficil viver só, e ainda mais viver
acompanhada!
--Pois olha eu vim pedir-te que me acceites como ajudante... disse
Pélagué, pondo um dique á catadupa das palavras.
--O quê?!
Mas quando a sua amiga lhe expoz todo o seu pensamento, meneou a cabeça
em signal de approvação.
--Está dito. Lembras-te quantas vezes me déste esconderijo quando o
meu marido andava á minha procura? Pois serei eu agora que te furtarei
á miseria. Cada qual deve correr em teu auxilio porque o teu filho
está soffrendo por causa de todos. É um bom rapaz! toda a gente o
diz; e todos o lastimam. Eu, cá por mim, penso que estas prisões não
trazem nenhum bem á fabrica. Se soubesses o que por lá se diz!... Os
chefes imaginam que não ha de ir longe o homem que elles morderam no
calcanhar. Mas por cada um que elles atacam, ha cem que se revoltam.
Deve-se ter cuidado quando se quizer tocar no povo, porque elle vae
aturando por muito tempo, mas, n’um bello dia, estoira!