Certo domingo, uns quinze dias depois da morte do pae, Pavel entrou em
casa embriagado. Parou cambaleando na primeira divisão, e gritou para a
mãe, dando um murro na meza, como fazia Mikhaíl:
--A ceia!
Pélagué approximou-se, assentou-se ao seu lado; enlaçando-o com
os braços, puxou para o peito a cabeça do filho. Elle repelliu-a,
pondo-lhe o braço no hombro, e disse:
--Depressa, mamã!
--Patetinha! respondeu ella com voz triste e carinhosa.
--Tambem quero fumar! Dá-me o cachimbo do pae... rosnou, movendo a
custo a lingua rebelde.
Era a primeira vez que se embriagava.
O alcool tinha enfraquecido o seu corpo, mas não lhe extinguira a
consciencia; perguntava a si proprio:
--Estou bêbedo?... Estarei bêbedo?
As caricias da mãe vexavam-no; estava commovido pela tristeza do olhar
d’ella. Tinha vontade de chorar; e para vencer este desejo fingiu-se
ainda mais embriagado.
E a mãe acariciava-lhe os cabellos em desordem e cobertos de suor,
dizendo suavemente:
--Não devias ter feito isso...
Pavel começava a sentir nauseas.
A seguir aos vomitos, foi levado para a cama pela mãe, que lhe collocou
uma toalha humida na fronte pálida. Repoz-se um pouco; mas tudo lhe
andava á roda; as palpebras pezavam-lhe; tinha na bôca um gôsto
repugnante e amargo; olhava para o rosto da mãe e tinha pensamentos sem
nexo.
--É ainda cedo para mim... Os outros bebem sem ficarem doentes; eu
tenho nauseas.
A doce voz da mãe chegava-lhe aos ouvidos como se viesse de muito longe:
--Como poderás sustentar-me, se te entregas á bebida?
Respondeu, fechando os olhos:
--Todos bebem...
Pélagué suspirou profundamente. O filho tinha razão. Ella bem sabia
que os homens não encontrariam outro sitio senão a taverna para se
divertirem, que não tinham outro prazer senão o alcool. No entretanto,
retorquiu:
--Tu não precisas de beber! O teu pae bebeu á farta por ti; e bastante
me atormentou... Deves ter piedade da tua mãe.
Ouvindo estas palavras melancólicas e resignadas, Pavel pensou na
existencia silenciosa e apagada d’aquella mulher, esperando sempre os
espancamentos do marido. Nos ultimos tempos, Pavel pouco se demorava em
casa, para não ver o pae; desprezava um tanto a mãe; regressando ao seu
estado normal, examinava-a.
Era alta e levemente corcovada; o seu corpo pesado, abatido
por incessante trabalho e por maus tratos, movia-se sem ruido,
obliquamente, como se ella receasse topar n’alguma cousa. O largo rosto
oval, sulcado de rugas e ligeiramente empapuçado, tinha a dar-lhe
brilho uns olhos negros, de uma expressão triste e inquieta como o
de quasi todas as mulheres do bairro. Na testa uma cicatriz profunda
fazia-lhe subir um pouco o sobrolho direito; parecia tambem que a
orelha direita estava mais acima do que a outra, o que dava ao rosto
um ar receoso. Tinha no cabello espesso e negro madeixas grisalhas
semelhantes a nodoas resultantes de violentas pancadas. Toda ella
transpirava suavidade, uma resignação dolorosa.
E ao longo das faces corriam-lhe lentamente as lagrimas.
--Olha! não chores! supplicou Pavel em voz baixa. Dá-me de beber!
--Vou buscar agua gelada...
Quando voltou, elle dormia. Ficou immovel por um instante, retendo a
respiração; a bilha tremia-lhe nas mãos, os pedaços de gelo tintilavam
dentro. Depois de collocal-a na meza, Pélagué ajoelhou diante das
imagens santas e orou silenciosamente. Os vidros das janellas tremiam
sob as ondas sonoras da vida obscura e alcoolica do exterior. Nas
trevas e na humidade d’aquella noite d’outomno, ouviam-se os rangidos
de um harmonio; alguem cantava de guella aberta; passavam nas ruas
palavras abjectas e obscenas; vozes de mulheres vibravam, assustadiças
ou irritadas.
* * * * *
Na pequena habitação de Vlassof, a vida decorria uniforme, mas mais
tranquilla e em paz do que outrora, distinguindo-se assim da existencia
geral do bairro. A casa era situada na extremidade da rua direita, no
cimo d’um pequeno alto, nos baixos do qual havia um pantano.
A cozinha occupava o terço da habitação; um delgado tabique, que não
chegava ao tecto, separava-a de um pequeno quarto onde dormia a mãe.
O resto formava uma casa quadrada, com duas janellas; a um canto, a
cama de Pavel, no outro, dois bancos e uma meza. Algumas cadeiras, uma
comoda onde guardavam a roupa, um pequenino espelho, uma mala para o
fato, um relogio e duas imagens de santos, era tudo.
Pavel tentava viver como os outros. Fazia quanto era proprio a um
rapaz; comprou um harmonio, uma camisa de peitilho engomado, uma
gravata vistosa, galochas e capa de borracha, e uma bengala. Na
apparencia assemelhava-se a todos os adolescentes da sua idade. Ia ás
reuniões, aprendia a dançar a quadrilha e a polka; ao domingo entrava
em casa embriagado. Nas manhãs seguintes, doia-lhe a cabeça, a febre
consumia-o, o seu rosto estava palido e desfigurado.
Um dia, a mãe perguntou-lhe:
--E então, divertiste-te hontem á noute?
Respondeu com sombria irritação:
--Aborreci-me atrozmente! Os meus companheiros são umas maquinas!...
Prefiro ir á pesca ou comprar uma espingarda.
Trabalhava com zelo; nunca era multado, nem gazeteava. Andava
taciturno. Os seus olhos azues, grandes como os da mãe, tinham uma
expressão de descontentamento. Não comprou a espingarda nem foi á
pesca; mas abandonou o caminho que seguiam os companheiros, frequentava
cada vez menos as reuniões, e, embora continuasse a sahir ao domingo,
voltava para casa em seu juizo. Pélagué observava-o sem dizer palavra
e via o rosto moreno de Pavel tornar-se dia a dia mais magro, o olhar
sempre mais grave e os labios cerrarem se com aspera severidade.
Parecia soffrer de qualquer doença ou de qualquer colera misteriosa.
Antigamente, os companheiros visitavam-no, mas como elle deixara de
permanecer em casa, não voltavam. A mãe via com prazer que o filho não
imitava os rapazes da fabrica; mas quando notou aquella obstinação
em afastar-se da torrente obscura da vida monotona, a sua alma foi
invadida por vaga inquietação.
Pavel trazia livros para casa; a principio, tentava lel-os a occultas.
Por vezes, copiava alguns trechos n’um pedaço de papel.
--Não andas bem, meu filho? perguntou-lhe uma vez Pélagué.
--Vou bem, vou! respondeu.
--Estás tão magro! suspirou ella.
Ficou silencioso.
Falavam pouco, e apenas se viam. Pela manhã, o rapaz tomava em silencio
o chá e ia para o trabalho; ao meio-dia vinha jantar; á meza não
trocavam mais do que palavras insignificantes; depois desapparecia até
á tarde. Findo o dia, lavava-se cuidadosamente, ceava e lia os seus
livros. Ao domingo, sahia de manhãsinha e só voltava á noite. A mãe
sabia que elle passeava na cidade, que ia ao theatro; mas da cidade
ninguem vinha vêl-o. Parecia-lhe que, quantos mais dias passavam, menos
o seu filho lhe dirigia a palavra; e ao mesmo tempo notava que dia a
dia maior era o numero de termos novos, incomprehensiveis para ella, e
que Pavel empregava em substituição das expressões grosseiras, outrora
habituaes no seu falar.
Passára a ligar mais cuidado ao asseio do seu corpo e do seu fato;
movia-se com mais ligeireza e facilidade; tornou-se mais simples
na apparencia, mais docil; preoccupava-se de sua mãe. Tratava-a de
uma maneira nova; ás vezes, varria o sobrado do quarto, fazia elle
mesmo a sua cama, ao domingo; em geral, sem frases, sem ostentação,
diligenciava auxiliar a mãe no trabalho caseiro. Ninguem fazia isto lá
no bairro...
Um dia, trouxe comsigo um quadro que pendurou na parede e que
representava trez personagens tendo impressas nas feições a resolução,
a coragem.
--É o Christo ressuscitado dirigindo-se a Emmaús! explicou.
O quadro agradou a Pélagué; ella pensou porem:
--Respeitas o Christo e não vaes á egreja...
Depois vieram mais quadros adornar as paredes, o numero de livros
augmentou na prateleira ali collocada por um marceneiro, companheiro de
Pavel. O quarto ia tomando um aspecto agradavel.
O rapaz dizia a miudo «a sr.ᵃ» quando se dirigia á mãe, a quem tambem
chamava «mamã». Era até mais prodigo em palavras, embora breves.
--Mãe, não fique em cuidado, peço-lhe; esta noite venho tarde.
E ao ouvil-o assim, ella sentia que se passava o que quer que fosse
forte e serio, que lhe agradava.
Mas a sua anciedade augmentava dia a dia, e como não entrava em
explicações com Pavel, adquiria o presentimento de alguma coisa
extraordinaria que lhe apertava o coração. Pensava até:
--Os outros vivem como creaturas humanas, mas elle é como um frade...
Tão grave!... Não é proprio da sua idade...
Perguntava a si mesma:
--Terá uma amiga?
Mas para ser amado pelas pequenas, é preciso dinheiro, e elle
entregava-lhe quasi toda a feria.
Assim se passaram semanas, mezes, quasi dois annos, n’uma vida
extravagante, cheia de pesares, de vagos receios cada vez maiores.