III. _Mundahú._--rio muito tortuoso, que nasce na serra de Uruburetama.
_Mandé_, cilada, e _hu_ rio.
IV. _Potengi._--rio que rega a cidade do Natal, d'onde era filho Soares
Moreno.
Pag. 72.--I. _As saborosas trahiras._--É o rio Trahiry trinta leguas ao
norte da capital. De _trahira_, peixe e _y_, rio. Hoje é povoação e
districto de paz.
II. _Soipé._--paiz da caça. De _Sôo_ caça, e _ipé_ lugar onde.
Diz-se hoje Siupé, rio e povoação pertencente a freguezia e termo da
Fortaleza, situada á margem dos alagados chamados Jaguarassú na
embocadura do rio.
III. _Pacoty._--Rio das pacobas. Nasce na serra de Baturité e lança-se
no Oceano duas leguas ao norte de Aquirás.
IV. _Iguape._--Enseada distante duas leguas de Aquirás. De _Ig_, agua,
_cua_, cintura e _ipé_, onde.
Pag. 73--I. _Mocoribe._--morro de areia na enseada do mesmo nome a uma
legua da Fortaleza; diz-se hoje Mucuripe. Vem de _Corib_ alegrar e _mo_,
particula ou abreviatura do verbo _monhang_ fazer, que se junta aos
verbos neutros e mesmo activos para dar-lhes significação
passiva--exp. _caneon_ affligir-se, _mocaneon_ fazer alguem afflicto.
II. _Rio que forma um braço de mar._--É o _Parnahyba_, rio de Piauhy.
Vem de Pará. mar, _nhanhe_, correr e _hyba_, braço; braço corrente do
mar. Geralmente se diz que _Pará_ significa rio e _Paraná_ mar; é
inteiramente o contrario.
Pag. 74.--I. _Mayr._--cidade. Talvez provenha o nome de _mayr_
extrangeiro, e fosse applicado aos povoados dos brancos em opposição
ás tabas dos indios.
II. _Brancos tapuias._--em tupy, _tapuitinga_. Nome que os Pytiguaras
davam aos francezes para differença-los dos Tupinambás. _Tapuia_,
significa barbaro, inimigo. De _taba_, aldeia e _puyr_, fugir,--os
fugidos da aldeia.
Pag. 75.--I. _Batuireté._--narseja illustre, de _batuira_ e _eté_.
Appellido que tomara o chefe pytiguara, e que na linguagem figurada
valia tanto como valente nadador. É o nome de uma serra fertilissima e
da comarca que ella occupa.
II. _Suas estrellas eram muitas._--Contavam os indigenas os annos pelo
nascimento das pleiades no oriente; e tambem costumavam guardar uma
castanha de cada estação de cajú. para marcar a idade.
III. _Jatobá._--arvore frondosa, talvez de _jetahy_, _oba_, folha e
_a_, augmentativo; jetahy de grande copa. É nome de um rio e de uma
serra em S. Quiteria.
Pag. 76.--I. _Quixeramobim._--segundo o Dr. Martins traduz-se por essa
exclamação de saudade. Compõe-se de _Qui_, ah! _xere_, meus,
_amôbinhé_, outros tempos.
II. _Caminho das garças._--Em tupy _Acarape_, povoação na freguezia
de Baturité a nove leguas da capital.
III. _Maranguab._--A serra de Maranguape distante cinco leguas da
capital, e notavel pela sua fertilidade e formosura. O nome indigena
compõe-se de _maran_ guerrear e _coaub_ sabedor; _maran_ talvez seja
abreviação de _maramonhang_, fazer guerra, se não é, como eu penso,
o substantivo simples guerrear, de que se fez o verbo composto. O Dr.
Martins traz etymologia diversa. _Mara_, arvore, _angai_, de nenhuma
maneira, _guabe_, comer. Esta etymologia nem me parece propria ao
objecto, que é uma serra, nem conforme com os preceitos da lingua.
IV. _Pirapora._--Rio do Maranguape, notavel pela frescura do suas aguas
e excellencia dos banhos chamados da Pirapora, no lugar das cachoeiras.
Provem o nome de _Pira_, peixe, pore, salto: salto do peixe.
Pag. 78.--_O gavião branco_--Batuireté chama assim o guerreiro branco,
ao passo que trata o neto por narseja: elle prophetisa n'esse parallelo
a destruição de sua raça pela raça branca.
Pag. 79. II. _Porangaba._--significa belleza. É uma lagoa distante da
cidade uma legua em sitio aprasivel. Hoje a chamam Arronches: e nas suas
margens está a decadente povoação de mesmo nome.
II. _Jererahu._--rio das marrecas; de _jerere_--ou irêrê, marreca, e
_hu_ agua. Este lugar ainda hoje é notavel pela excellencia da fructa,
com especialidade as bellas laranjas conhecidas por _laranjas de
Jererahu_.
III. _Sapiranga._--lagoa no sitio Alagadiço Novo, a cerca de 2 leguas
da capital. O nome indigena significa olhos vermelhos, de _ceça_, olhos
e _piranga_ vermelhos. Esse mesmo nome dão usualmente no norte a certa
ophtalmia.
IV. _Murytiapuá._--de _murity_--nome da palmeira mais vulgarmente
conhecida por burity, e _apuam_, ilha. Logarejo no mesmo sitio referido.
V. _Aratanha._--de _arára_, ave e _tanha_, dente. Serra mui fertil e
cultivada em continuação da de Maranguape.
VI. _Pacatuba._--de _paca_ e _tuba_, leito ou couto das pacas. Recente,
mas importante povoação, em um bello valle da serra da Aratanha.
VII. _Guayúba._--De _goaia_, valle, _y_, agua, _jur_, vir, _be_ por
onde; por onde vem as aguas do valle. Rio que nasce na serra da Aratanha
e corta a povoação do mesmo nome a seis leguas da capital.
Pag. 81.--I. _Ambar._ As praias do Ceará eram n'esse tempo muito
abundantes de ambar que o mar arrojava. Chamavam-lhe os indigenas, _Pira
repoti_ esterco de peixe.
II. _Coatyá._--pintar. A historia menciona esse facto de Martim Soares
Moreno se ter coatyado quando vivia entre os selvagens do Ceará.
Pag. 82.--_Coatyabo._--A desinencia _abo_ significa o objecto que
soffreu a acção do verbo, e talvez provenha de _aba_, gente, creatura.
Pag. 90.--_Imbú._--Fructa da Serra do Araripe que não vem do littoral.
É saborosa e semelhante ao cajá.
Pag. 93.--I. _Tupinambás._--Nação formidavel, ramo primitivo da
grande raça tupy. Depois de uma resistencia heroica, não podendo
expulsar os portuguezes da Bahia emigraram até o Maranhão onde fizeram
alliança com os francezes que já então infestavam aquellas paragens.
O nome que elles se davam significava--gente parente dos Tupys--de
_Tupy_--_anama_--ba.
II. _Maracatim._--Grande barco que levava na proa _tim_--um _maracá_.
Aos barcos menores ou canoas chamavam _igara_--de _ig_--agua--e _jara_,
senhor; senhora d'agua.
Pag. 95.--_Moacyir._--Filho do soffrimento--de _moacy_, dôr e _ira_,
desinencia, que significa sahido de.
Pag. 96.--_Faxa._--É o que chamam vulgarmente _typoia_; rejeitou-se o
termo proprio do texto por andar degradado no estylo chulo.
Pag. 97.--_Chupou tua alma._--Creança em tupy é _pitanga_, de _piter_
chupar e _anga_ alma; chupa alma. Seria porque as creanças attrahem e
deleitam aos que as vêem; ou porque absorvem uma porção d'alma dos
paes? Cauby fala n'esse ultimo sentido.
Pag. 99.--_Cariman._--Uma conhecida preparação de mandioca. _Caric_,
correr, _mani_, mandioca. Mandioca escorrida.
Pag. 100.--_Tauape_, lugar de barro amarello, de _tauá_ e _ipé_. Fica
no caminho de Maranguape.
Pag. 103.--_Copim._--Insecto conhecido. O nome compõe-se de _co_ buraco
e _pim_ ferrão.
Pag. 104.--_Albuquerque._--Jeronymo d'Albuquerque chefe da expedição
do Maranhão em 1612.
Pag. 117.--_Colibri._--D'esse lethargo do colibri no inverno fala Simão
de Vasconcellos.
Pag. 125--_Mocejana._--Lagoa e povoação a 2 leguas da capital. O verbo
_cejar_ significa--abandonar; a desinencia _ana_ indica a pessoa que
exercita a acção do verbo. _Cejana_--significa o que abandona. Junta a
particula _mo_ do verbo _monhang_, fazer, vem a palavra a significar o
que fez abandonar ou que foi lugar e occasião de abandonar.
CARTA
AO DR. JAGUARIBE
Eis-me de novo, conforme o promettido.
Já leu o livro e as notas que o acompanham; conversemos pois.
Conversemos sem cerimonia, em toda a familiaridade, como se cada um
estivesse recostado em sua rede, ao vaivem do languido balanço, que
convida á doce pratica.
Se algum leitor curioso se puzer á escuta, deixal-o. Não havemos por
isso de mudar o tom rasteiro da intimidade pela phrase garrida das
salas.
Sem mais.
Ha de recordar-se você de uma noite que entrando em minha casa, quatro
annos a esta parte, achou-me rabiscando um livro. Era isso em uma quadra
importante, pois que uma nova legislatura, filha de nova lei, fazia sua
primeira sessão; e o paiz tinha os olhos n'ella, de quem esperava
iniciativa generosa para melhor situação.
Já estava eu meio descrido das cousas, e mais dos homens; e por isso
buscava na litteratura diversão á tristeza que me infundia o estado da
patria entorpecida pela indifferença. Cuidava eu porém que você,
politico de antiga e melhor tempera, pouco se preoccupava com as cousas
litterarias, não por menos preço, sim por vocação.
A conversa que tivemos então revelou meu engano; achei um cultor e
amigo da litteratura amena; e juntos lemos alguns trechos da obra, que
tinha, e ainda não perdeu, pretenções a um poema.
É, como viu o como então lhe esbocei a largos traços, uma heroida que
tem por assumpto as tradicções dos indigenas brazileiros e seus
costumes. Nunca me lembrara eu de dedicar-me a esse genero de
litteratura, de que me abstive sempre, passados que foram os primeiros e
fugaces arroubos da juventude. Supporta-se uma prosa mediocre, e
estima-se pelo quilate da idéa; mas o verso mediocre é a peor triaga
que se possa impingir ao pio leitor.
Commetti a imprudencia quando escrevi algumas cartas sobre a
_Confederação dos Tamoyos_ dizer: "as tradições dos indigenas dão
materia para um grande poema que talvez um dia alguem apresente sem
ruido nem apparato, como modesto fructo de suas vigilias."
Tanto bastou para que suppozessem que o escriptor se referia a si, e
tinha já o poema em mão; varias pessoas perguntaram-me por elle.
Metteu-me isto em brios litterarios; sem calcular das forças minimas
para empresa tão grande, que assoberbou dois illustres poetas, tracei o
plano da obra, e comecei-a com tal vigor que a levei quasi de um folego
ao quarto canto.
Esse folego susteve-se cêrca de cinco mezes, mas amorteceu; e vou-lhe
confessar o motivo.
Desde cedo, quando começaram os primeiros pruridos litterarios, uma
especie de instincto me impellia a imaginação para a raça selvagem
indigena. Digo instincto, porque não tinha eu então estudos bastantes
para apreciar devidamente a nacionalidade de uma litteratura; era
simples prazer que me deleitava na leitura das chronicas e memorias
antigas.
Mais tarde, discernindo melhor as cousas, lia as producções que se
publicavam sobre o thema indigena; não realisavam ellas a poesia
nacional, tal como me apparecia no estudo da vida selvagem dos
autoctonos brazileiros. Muitas pecavam pelo abuso dos termos indigenas
accumulados uns sobre outros, o que não só quebrava a harmonia da
lingua portugueza, como perturbava a intelligencia do texto. Outras eram
primorosas no estylo e ricas de bellas imagens; porém certa rudez
ingenua de pensamento e expressão, que devia ser a linguagem dos
indigenas, não se encontrava ali.
Gonçalves Dias é o poeta nacional por excellencia ninguem lhe disputa
na opulencia da imaginação, no fino lavor do verso, no conhecimento da
natureza brazileira e dos costumes selvagens. Em suas poesias americanas
aproveitou muitas das mais lindas tradicções dos indigenas; e em seu
poema não concluido dos _Timbiras_, propoz-se a descrever a epopea
brazileira.
Entretanto, os selvagens de seu poema falam uma linguagem classica, o
que lhe foi censurado por outro poeta de grande estro, o dr. Bernardo
Guimarães; elles exprimem idéas proprias do homem civilisado, e que
não é verosimil tivessem no estado da natureza.
Sem duvida que o poeta brazileiro tem de traduzir em sua lingua as
idéas, embora rudes e grosseiras, dos indios; mas n'essa traducção
está a grande difficuldade; é preciso que a lingua civilisada se molde
quanto possa á singeleza primitiva da lingua barbara; e não represente
as imagens e pensamentos indigenas senão por termos e phrases que ao
leitor pareçam naturaes na bôcca do selvagem.
O conhecimento da lingua indigena é o melhor criterio para a
nacionalidade da litteratura. Elle nos dá não só o verdadeiro estylo,
como as imagens poeticas do selvagem, os modos de seu pensamento, as
tendencias de seu espirito, e até as menores particularidades de sua
vida. É n'essa fonte que deve beber o poeta brazileiro; é d'ella que
ha de sahir o verdadeiro poema nacional, tal como eu o imagino.
Commettendo portanto o grande arrojo, aproveitei o ensejo de realisar as
idéas que me vagueavam no espirito, e não eram ainda plano fixo; a
reflexão consolidou-as e robusteceu.
Na parte escripta da obra foram ellas vasadas em grande copia. Se a
investigação laboriosa das bellezas nativas feita sobre imperfeitos e
espurios diccionarios exhauria o espirito; a satisfação de cultivar
essas flores agrestes da poesia brazileira, deleitava. Um dia porém
fatigado da constante e aturada meditação ou analyse para descobrir a
etymologia d'algum vocabulo, assaltou-me um receio.
Todo este improbo trabalho que ás vezes custava uma só palavra, me
seria levado á conta? Saberiam que esse escropulo de ouro fino, tinha
sido desentranhado da profunda camada, onde dorme uma raça extincta? Ou
pensariam que fôra achado na superficie e trazido ao vento da facil
inspiração?
E sobre esse, logo outro receio.
A imagem ou pensamento com tanta fadiga esmerilhados, seriam apreciados
em seu justo valor, pela maioria dos leitores? Não os julgariam
inferiores a qualquer das imagens em voga, usadas na litteratura
moderna?
Occorre-me um exemplo tirado d'este livro. Guia chamavam os indigenas,
senhor do caminho, _pyguara_. A belleza da expressão selvagem em sua
traducção litteral e etymologica, me parece bem saliente. Não diziam
sabedor do caminho, embora tivessem termo proprio, _coaub_, porque essa
phrase não exprimiria a energia de seu pensamento. O caminho no estado
selvagem não existe; não é cousa de saber. O caminho faz-se na
occasião da marcha atravez da floresta ou do campo, e em certa
direcção: aquelle que o tem e o dá, é realmente senhor do caminho.
Não é bonito? Não está ahi uma joia da poesia nacional?
Pois talvez haja quem prefira a expressão rei do caminho, embora os
brasis não tivessem rei, nem idéa de tal instituição. Outros se
inclinarão á palavra guia, como mais simples e natural em portuguez,
embora não corresponda ao pensamento do selvagem.
Ora escrever um poema que devia alongar-se para correr o risco de não
ser entendido, e quando entendido não apreciado, era para desanimar o
mais robusto talento, quanto mais a minha mediocridade. Que fazer?
Encher o livro de gryphos que o tornariam mais confuso e de notas que
ninguem lê? Publicar a obra parcialmente para que os entendidos
proferissem o veredicto litterario? Dar leitura d'ella a um circulo
escolhido, que emittisse juizo illustrado?
Todos estes meios tinham seu inconveniente, e todos foram repellidos: o
primeiro afeiava o livro; o segundo o truncava em pedaços; o terceiro
não lhe aproveitaria pela ceremoniosa benevolencia dos censores. O que
pareceu melhor e mais acertado foi desviar o espirito d'essa obra e
dar-lhe novos rumos.
Mas não se abandona assim um livro começado, por peor que elle seja;
ahi n'essas paginas cheias de rasuras e borrões dorme a larva do
pensamento, que pode ser nympha de azas douradas, se a inspiração
fecundar o grosseiro casulo. Nas diversas pausas de suas preoccupações
o espirito volvia pois ao album, onde estão ainda incubados e estarão
cerca de dois mil versos heroicos.
Conforme a benevolencia ou severidade de minha consciencia ás vezes os
acho bonitos e dignos de verem a luz; outras me parecem vulgares,
monotonos, e somenos a quanta prosa charra tenho eu estendido sobre o
papel. Se o amor de pae abranda afinal esse rigor, não desvanece porem
nunca o receio de "perder inutilmente meu tempo a fazer versos para
cabocolos."
Em um d'esses volveres do espirito á obra começada, lembrou-me da
experiencia _in anima prosaico_. O verso pela sua dignidade e nobreza
não comporta certa flexibilidade de expressão, que entretanto não vae
mal á prosa mais elevada. A elasticidade da phrase permittiria então
que se empregassem com mais careza as imagens indigenas, de modo a não
passarem desapercebidas. Por outro lado conhecer-se-hia o effeito que
havia de ter o verso pelo effeito que tivesse a prosa.
O assumpto para a experiencia, de antemão estava achado. Quando em 1848
revi a nossa terra natal, tive a idéa de aproveitar suas lendas e
tradições em alguma obra litteraria. Já em S. Paulo tinha começado
uma biographia do Camarão. A mocidade d'elle, a amisade heroica que o
ligava a Soares Moreno, a bravura e lealdade de Jacaúna, alliado dos
portuguezes, e suas guerras contra o celebre Mel Redondo; ahi estava o
thema. Faltava-lhe o perfume que derrama sobre as paixões do homem a
belleza da mulher.
Sabe você agora o outro motivo que eu tinha de lhe endereçar o livro;
precisava dizer todas estas cousas, contar o como e porque escrevi
_Iracema_. E com quem melhor conversaria sobre isso do que com uma
testemunha de meu trabalho, a unica, das poucas, que respira agora as
auras cearenses?
Este livro é pois um ensaio ou antes amostra. Verá realisadas n'elles
as minhas idéas a respeito da litteratura nacional; e achará ahi
poesia inteiramente brazileira, haurida na lingua dos selvagens. A
etymologia dos nomes das diversas localidades, e certos modos de dizer
tirados da composição das palavras, são de cunho original.
Comprehende você que não podia eu derramar em abundancia essa riqueza
no livrinho agora publicado, porque ellas ficariam desfloradas na obra
de maior vulto, a qual só teria a novidade da fabula. Entretanto ha ahi
de sobra para dar materia á critica, e servir de base ao juizo dos
entendidos.
Se o publico ledor gostar d'essa forma litteraria, que me parece ter
algum attractivo e novidade, então se fará um esforço para levar ao
cabo o começado poema, embora o verso pareça na época actual ter
perdido a sua influencia e prestigio. Se porém o livro fôr acoimado de
serdiço e tedioso, ou se Iracema encontrar a usual indifferença, que
vae acolhendo o bom e o mau com a mesma complacencia, quando não é o
silencio desdenhoso e ingrato; então o auctor se desenganará de mais
esse genero de litteratura, como já se desenganou do theatro; e os
versos como as comedias passarão para a gaveta dos papeis velhos,
reliquias autobiographicas.
Depois de concluido o livro e quando o reli apurado na estampa, conheci
me tinham escapado senões que poderia corrigir se não fosse a pressa
com que o fiz editar; noto algum excesso de comparações, certa
semelhança entre algumas imagens, e talvez desalinho no estylo dos
ultimos capitulos que desmerecem dos primeiros. Tambem me parece devia
conservar aos nomes das localidades sua actual versão, embora
corrompida. Se a obra tiver segunda edição será escoimada d'estes e
de outros defeitos, que lhe descubram os entendidos.
Agosto de 1995.