III. _Ocara._--praça circular que ficava no centro da taba, cercada
pela estacada, e para a qual abriam todas as casas. Composto de _oca_,
casa e a desinencia _ara_, que tem; aquillo que tem a casa, ou onde a
casa está.
IV. _Potyuara._--comedor de camarão; de _poty_--e _uara_. Nome que por
desprêso davam os inimigos aos Pytiguaras, que habitavam as praias e
viviam em grande parte de pesca.
Este nome dão alguns escriptores aos Pytiguaras. porque o receberam de
seus inimigos.
Pag. 28.--I. _Pocema._--grande alarido que faziam os selvagens nas
occasiões solemnes, como em começo de batalha, ou nas expansões da
alegria; é palavra adoptada já na lingua portugueza e inserida no
diccionario de Moraes. Vem de _po_-mão e _cemo_ clamar; clamor das
mãos, porque os selvagens acompanhavam o vozear com o bater das palmas
e das armas.
II. _Andira._--morcego: é em allusão a seu nome que Irapuam dirige
logo palavras de despreso ao velho guerreiro.
Pag. 29.--_Aracaty._--Significava este nome bom tempo de _ara_ e
_catú_. Os selvagens do sertão assim chamavam as brisas do mar que
sopram regularmente ao cahir da tarde, e correndo pelo valle do
Jaguaribe se derramam pelo interior e refrigeram da calma abrasadora do
verão. D'ahi resultou chamar-se _Aracaty_ o logar de onde vinha a
monção. Ainda hoje no Icó o nome é conservado á brisa da tarde, que
sopra do mar.
Pag. 32.--I. _Afflar._--Sobre este verbo que introduzi na lingua
portugueza do latim _afflo_, já escrevi o que entendi em nota de uma
segunda edição da _Diva_ que brevemente ha de vir á luz.
II. _Anhanga._--Davam os indigenas este nome ao espirito do mal;
compõe-se de _anho_ atrito, só e _anga_ alma. Espirito só, privado do
corpo, phantasma.
Pag. 36.--I. _Camocim._--vaso onde encerravam os indigenas os corpos dos
mortos e lhes servia de tumulo; outros dizem _camotim_, e talvez com
melhor orthographia, porque se não me engano o nome corrupção da
phrase _co_ buraco, _ambyra_ defuncto, _anhotim_ enterrar--buraco para
enterrar o defuncto--_c'am'otim_. O nome dava-se tambem a qualquer pote.
II. _Guabiroba._--Deve ler-se _Andiroba_. Arvore que dá um azeite
amargo.
III. _Cabellos do sol._--Em tupy _guaraciaba_. Assim chamavam aos
europeus que tinham os cabellos louros.
Pag. 38.--I. _Moquem._--Do verbo _mocaém_ assar na labareda. Era a
maneira por que os indigenas conservavam a caça para não apodrecer,
quando a levavam em viagem. Nas cabanas a tinham ao fumeiro.
II. _Senhor do caminho._--assim chamavam os indigenas ao guia--de
_py_, caminho e _guara_, senhor.
Pag. 39.--I. _O dia vae ficar triste._--Os tupys chamavam a tarde
_carúca_, segundo o diccionario: Segundo Lery, _che caruc
acy_, significa--"estou triste." Qual d'estes era o sentido figurado da
palavra? Tiraram a imagem da tristeza, da sombra da tarde, ou a imagem
do crepusculo do torvamento do espirito?
II. _Jurupary._--demonio; de _juroboca_ e _apara_ torto, aleijado. O
bocca torta.
III. _Ubaia._--fructa conhecida da especie engenia. Significa fructa
saudavel, de _uba_-fructa e _aia_ saudavel.
Pag. 41.--I. _Jandaia._--Este nome que anda escripto por diversas
maneiras _nhendaia_, _nhandaia_ e em todas alterado é apenas um
adjectivo qualificativo do substantivo _ará_. Deriva-se elle das
palavras _nheng_--falar--_antan_, duro, forte, aspero, e _ara_
desinencia verbal que exprime o agente--_nh' ant' ara_; substituido o
_t_ por _d_--e o _r_ por _i_, tornou-se nhandaia, d'onde jandaia, que se
traduzirá por periquito grasnador.
Do canto d'esta ave, como se viu, é que vem o nome de Ceará, segundo a
etymologia que lhe dá a tradicção.
II. _Inhuma._--Ave nocturna palamedea. A especie de que se fala aqui é
a palamedea chavaria, que canta regularmente á meia noite. A
orthographia melhor creio ser _anhuma_, talvez de _anho_, só, e _anum_,
ave agoureira conhecida. Significaria então assim _anum solitario_,
assim chamado pela tal ou qual semelhança do grito desagradavel.
Pag. 42.--_Inubia._--Trombeta de guerra. Os indigenas, segundo Lery, as
tinham tão grandes que mediam um diametro na abertura.
Pag. 43.--_Guará._--Cão selvagem, lobo brazileiro. Provêm esta
palavra do verbo _u_ comer, do qual se forma com o relativo _G_ e a
desinencia _ara_ o verbal _g-u-ára_ comedor. A syllaba final longa é a
particula propositiva _ã_ que serve para dar fôrça á palavra.
_G-u-ára-ã_ realmente comedor, voraz.
Pag. 44.--I. _Jiboia._--Cobra conhecida: de _gi_ machado e _boia_ cobra.
O nome foi tirado da maneira porque a serpente lança o bote, semelhante
ao golpe do machado; pode traduzir-se bem cobra de arremesso.
II. _Sucury._--A serpente gigante que habita nos grandes rios e engole
um boi. De _Suu_, animal e _cury_ ou _curu_ roncador. Animal roncador,
porque de feito o rouco da sucury é medonho.
III. _Se é que tens sangue e não mel._--Allusão que faz o velho
Andira ao nome de Irapuam, o qual como se disse significa mel redondo.
IV. _Ouve seu trovão._--Todo esse episodio do rugido da terra é uma
astucia, como usavam os pagés e os sacerdotes de toda a nação
selvagem para imporem á imaginação do povo. A cabana estava assentada
sobre um rochedo, onde havia uma galeria subterranea que communicava com
a varzea por estreita abertura; Araken tivera o cuidado de tapar com
grandes pedras as duas aberturas, para occultar a gruta dos guerreiros.
N'essa occasião a fenda inferior estava aberta e o Pagé o sabia;
abrindo a fenda superior, o ar encanou-se pelo antro espiral com
estridor medonho, e de que pode dar uma idéa o sussurro dos
caramujos.--O facto é pois natural; a apparencia sim maravilhosa.
Pag. 45.--_Abaty n'agua._--Abaty--arroz; Iracema serve-se da imagem do
arroz que só viça no alagado, para exprimir sua alegria.
Pag. 53.--I. _Ubiratan._--Páo ferro, de _ubira_--páo e _antan_ duro.