Descamba o sol.
Japy sae do mato e corre para a porta da cabana.
Iracema sentada com o filho no collo, banha-se nos raios do sol e
sente o frio arripiar-lhe o corpo. Vendo o animal, fiel mensageiro do
esposo, a esperança reanimou seu coração; quiz erguer-se para ir ao
encontro de seu guerreiro e senhor, mas os membros debeis se recusaram
á sua vontade.
Cahiu desfallecida contra o esteio. Japy lambia-lhe a mão desfallecida,
e pulava travesso para fazer sorrir a creança, soltando uns doces
latidos de prazer. Por vezes, afastou-se para correr até á orla da
mata, e latir chamando o senhor, logo tornava á cabana para festejar a
mãe e o filho.
Por esse tempo pisava Martim os campos amarellos do Tauape: seu irmão
Poty, o inseparavel, caminhava a seu lado.
Oito luas havia que elle deixara as praias da Jacarecanga. Depois de
vencidos os Guaraciabas na bahia dos papagaios, o guerreiro christão
quiz partir para as margens do Mearim, onde habitava o barbaro alliado
dos Tupinambás.
Poty e seus guerreiros o acompanharam. Depois que transpuzeram o braço
corrente do mar que vem da serra de Tauatinga e banha as varzeas onde se
pesca o piau, viram emfim as praias do Mearim, e a velha taba do barbaro
tapuia.
A raça dos cabellos do sol cada vez ganhava mais a amizade dos
Tupinambás: crescia o numero dos guerreiros brancos, que já tinham
levantado na ilha a grande itaoca, para despedir o raio.
Quando Martim viu o que desejava, tornou aos campos da Porangaba, que
elle agora trilha. Já ouve o ronco do mar nas praias do Mocoribe; já
lhe bafeja o rôsto o sopro vivo das vagas do oceano.
Quanto mais seu passo o aproxima da cabana, mais lento se torna e
pesado. Tem medo de chegar: e sente que sua alma vae soffrer, quando os
olhos tristes e maguados da esposa, entrarem n'ella.
Ha muito que a palavra desertou seu labio secco; o amigo respeita este
silencio, que elle bem entende. É o silencio do rio quando passa nos
logares profundos e sombrios.
Tanto que os dois guerreiros tocaram as margens do rio, ouviram o latir
do cão, que os chamava, e o grito da ará, que se lamentava. Eram mui
proximos á cabana, apenas occulta por uma lingua de mato. O christão
parou calcando a mão no peito para soffrear o coração, que saltava
como o poraquê.
--O latido de Japy é de alegria, disse o chefe.
--Porque chegou; mas a voz da jandaia é de tristeza. Achará o
guerreiro ausente a paz no seio da esposa solitaria, ou terá a saudado
matado em suas entranhas o fructo do amor?
O christão moveu o passo vacillante. De repente, entre os ramos das
arvores, seus olhos viram sentada, á porta da cabana, Iracema, com o
filho no regaço e o cão a brincar. Seu coração o arrastou de um
impeto, e toda a alma lhe estalou nos labios.--Iracema!...
A triste esposa e mãe sôabrio os olhos, ouvindo a voz amada. Com
esforço grande, poude erguer o filho nos braços, e apresental-o ao
pae, que o olhava extactico em seu amor.
--Recebe o filho de teu sangue. Vieste a tempo; meus seios ingratos já
não tinham alimento para dar-lhe!
Pousando a creança nos braços paternos, a desventurada mãe
desfalleceu como a jetyca se lhe arrancam o bulbo. O esposo vio então
como a dôr tinha murchado seu bello corpo; mas a formosura ainda morava
n'ella, como o perfume na flôr cabida do manacá.
Iracema não se ergueu mais da rêde onde a pousaram os afflictos
braços de Martim. O esposo, em quem o amor renascera com o jubilo
paterno, a cercou de caricias que encheram sua alma de alegria, mas não
a poderam tornar á vida; o estame de sua flôr se rompera.
--Enterra o corpo de tua esposa ao pé do coqueiro que tu amaste. Quando
o vento do mar soprar nas folhas, Iracema pensará que é tua voz que
fala entro seus cabellos.
O labio emmudeceu para sempre; o ultimo lampejo despediu-se dos olhos
baços.
Poty amparou o irmão em sua grande dôr. Martim, sentiu que um amigo
verdadeiro é precioso na desventura; é como o outeiro que abriga do
vendaval o tronco forte e robusto do ubiratan, quando o broca o copim.
O camocim recebeu o corpo de Iracema, embebido de resinas odoriferas; e
foi enterrado ao pé do coqueiro, á borda do rio. Martim quebrou um
ramo de murta, a folha da tristeza, e deitou-o no jazigo de sua esposa.
A jandaia pousada no olho da palmeira repelia tristemente:--Iracema!
Desde então os guerreiros pytiguaras que passavam perto da cabana
abandonada e ouviam resoar a voz plangente da ave amiga, se afastavam,
com a alma cheia de tristeza, do coqueiro onde cantava a jandaia. E foi
assim que veiu a chamar-se Ceará o rio onde crescia o coqueiro, e os
campos onde serpeia o rio.