Iracema cuidou que o seio se lhe rompia: e buscou a margem do rio, onde
crescia o coqueiro.
Estreitou-se com a haste da palmeira. A dôr lacerou suas entranhas;
porém logo o choro infantil inundou todo o seu ser de jubilo.
A joven mãe, orgulhosa de tanta ventura, tomou o tenro filho nos
braços e com elle se arrojou ás aguas limpidas do rio. Depois
suspendeu-o á teta mimosa; seus olhos então o envolviam de tristeza e
amor.
--Tu és Moacyr, o nascido de meu soffrimento.
A ará, pousada no olho do coqueiro, repetiu Moacyr; e desde então a
ave amiga em seu canto unia ao nome da mãe, o nome do filho.
O innocente dormia; Iracema suspirava.
--A jaty fabrica o mel no tronco cheiroso do assasfraz; toda a lua das
flores vôa de ramo em ramo, colhendo o suco para encher os favos; mas
ella não prova sua doçura, porque a irara devora em uma noite toda a
colmeia. Tua mãe tambem, filho de minha angustia, não beberá em teus
labios o mel do sorriso.
A joven mãe passou aos hombros a larga faxa de macio algodão, que
fabricara para trazer o filho sempre unido ao flanco; e seguiu pela
areia o rastro do esposo, que ha tres sóes partira. Ella caminhava
docemente para não despertar a creancinha adormecida como o passarinho
sob a aza materna.
Quando chegou junto ao grande morro das areias, viu que o rastro de
Martim e Poty seguia ao longo da praia; e adivinhou que elles eram
partidos para a guerra. Seu coração suspirou; mas seus olhos sêccos
buscaram o semblante do filho.
Volve o rosto para o Mocoribe.
--Tu és o morro da alegria; mas para Iracema tu não tens senão
tristeza.
Tornando, a recente mãe pousou a creança sempre dormida na rêde de
seu pae, viuva e solitaria em meio da cabana; ella deitou-se ao chão,
na esteira onde repousava, desde que os braços do esposo se não tinham
aberto mais para recebel-a.
A luz da manhã entrava pela cabana, e Iracema viu entrar com ella a
sombra de um guerreiro.
Cauby estava em pé na porta.
A esposa de Martim ergueu-se de um impeto e saltou ávante para proteger
o filho. Seu irmão levantou da rêde a ella uns olhos tristes, e falou
com a voz ainda mais triste:
--Não foi a vingança que arrancou o guerreiro Cauby aos campos dos
Tabajaras; elle já perdoou. Foi a vontade de ver Iracema, que trouxe
comsigo toda a sua alegria.
--Então bemvindo seja o guerreiro Cauby na cabana de seu irmão:
respondeu a esposa abraçando-o.
--O nascido de teu seio dorme n'essa rede; os olhos de Cauby gostariam
de vêl-o.
Iracema abriu a franja de pennas; e mostrou o lindo semblante da
creança. Cauby depois que o contemplou por muito tempo, entre risos,
disse:
--Elle chupou tua alma.
E beijou nos olhos da joven mãe, a imagem da creança, que não se
animava tocar com receio de offender.
A voz tremula da filha resoou:
--Ainda vive Araken sobre a terra?
--Pena ainda; depois que tu o deixaste sua cabeça, vergou para o peito
e não se ergueu mais.
--Dize-lhe que Iracema é morta já, para que elle se console.
A irmã de Cauby preparou a refeição para o guerreiro, e armou no
copiar a rêde da hospitalidade para que elle repousasse das fadigas da
jornada. Quando o viajante satisfez o appetite, ergueu-se com estas
palavras:
--Dize onde está teu esposo e meu irmão, para que o guerreiro Cauby
lhe dê o abraço da amizade.
Os labios suspirosos da misera esposa moveram-se como as petalas do
cacto que um sopro amarrota, e ficaram mudas. Mas as lagrimas debulharam
dos olhos e cahiram em bagas.
O rosto de Cauby annuviou-se:
--Teu irmão pensava que a tristeza ficara nos campos que abandonaste;
porque comtigo trouxeste todo o riso dos que te amavam!
Iracema seccou os olhos:
--O esposo de Iracema partiu com o guerreiro Poty para as praias do
Acaraú. Antes que tres sóes tenham allumiado a terra elle voltará e
com elle a alegria á alma da esposa.
--O guerreiro Cauby o espera para saber o que elle fez do sorriso que
morava em teus labios.
A voz do tabajara enrouquecera; seu passo inquieto volveu a esmo pela
cabana.