Poty voltou de perseguir o inimigo. Seus olhos se encheram de alegria
vendo salvo o guerreiro branco.
O cão fiel o seguia de perto, lambendo ainda nos pellos do focinho, a
marugem do sangue tabajara de que se fartára; o senhor o acariciava
satisfeito de sua coragem e dedicação. Fora elle quem salvara Martim,
alli trazendo com tanta deligencia os guerreiros de Jacaúna.
--Os máos espiritos da floresta podem separar outra vez o guerreiro
branco de seu irmão Pytiguara. O cão te seguirá d'aqui em deante, para
que mesmo de longe Poty acuda a teu chamado.
--Mas o cão é teu companheiro e amigo fiel.
--Mais amigo e companheiro será de Poty, servindo a seu irmão que a
elle. Tu o chamarás Japy, e elle será o pé ligeiro com que de longe
corramos um para o outro.
Jacaúna deu o signal da partida.
Os guerreiros pytiguaras caminharam para as margens alegres do rio onde
bebem as garças: alli se erguia a grande taba dos senhores das varzeas.
O sol deitou-se, e de novo se levantou no céo. Os guerreiros chegaram
aonde a serra quebrava para o sertão; já tinham passado aquella parte
da montanha, que por ser despida de arvoredo e tosquiada corno a
capivara, a gente de Tupan chamava Ibyapina.
Poty levou o christão aonde crescia um frondoso jatobá, que affrontava
as arvores do mais alto pincaro da serrania, e quando batido pela rajada
parecia varrer o céo com a immensa copa.
--N'este logar nasceu teu irmão, disse o pytiguara: Martim estreitou o
peito ao tronco enorme:
--Jatobá, que viste nascer meu irmão Poty, o extrangeiro te abraça.
--O raio te decepe arvore do guerreiro Poty, quando seu irmão o
abandonar.
Depois o chefe assim falou:
--Ainda Jacaúna não era um guerreiro, Jatobá, o maior chefe, conduzia
os Pytiguaras á victoria. Logo que as grandes aguas correram, elle
caminhou para a serra. Aqui chegando, mandou levantar a taba, para estar
perto do inimigo e vencêl-o mais vezes. A mesma lua que o vio chegar,
alumiou a rêde onde Sahy sua esposa, lhe deu mais um guerreiro de seu
sangue. O luar passava por entre as folhas do jatobá; e o sorriso pelos
labios do varão possante, que tomara seu nome e robustez.
Iracema aproximou-se.
A rôla, que marisca na areia, se o companheiro se afasta, adeja
inquieta de ramo em ramo e arrulla para que lhe responda o ausente
amigo. Assim a filha da floresta errara pela encosta, modulando o
singelo canto mavioso.
Martim a recebeu com a alma no semblante; e levando a esposa do lado do
coração e o amigo do lado da força, voltou ao rancho dos pytiguaras.