XIV

Os guerreiros tabajaras, excitados com as copiosas libações do

espumante cauim, se inflammam á voz de Irapuam, que tantas vezes os

guiou ao combate, quantas á victoria.

Aplaca o vinho a sêde do corpo; accende outra sêde maior na alma

feroz. Rugem vingança contra o extrangeiro audaz que affrontando suas

armas offende o Deus de seus paes, e o chefe da guerra, o primeiro

varão tabajara.

Lá tripudiam de furor, e arremettem pelas sombras; a luz vermelha do

ubiratan, que brilha ao longe, os guia á cabana de Araken. De espaço

em espaço erguem-se do chão os que primeiro vieram para vigiar o

inimigo.

--O Pagé está na floresta! murmuram elles.

--O extrangeiro? pergunta Irapuam.

--Na cabana com Iracema.

O grande chefe lança o terrivel salto; já é chegado á porta da

cabana, e com elle seus valentes guerreiros.

O vulto de Cauby enche o vão da porta; suas armas guardam deante d'elle

o espaço de um bote do maracajá.

--Vis guerreiros são aquelles que atacam em bando como os caetetús. O

jaguar, senhor da floresta, e o anajê, senhor das nuvens, combatem só

o inimigo.

--Morda o pó a bocca torpe que levanta a voz contra o mais valente

guerreiro dos guerreiros tabajaras.

Proferidas estas palavras, ergue o braço de Irapuam o rigido tacape,

mas estaca no ar; as entranhas da terra outra vez rugem, como rugiram,

quando Araken accordou a voz tremenda de Tupan.

Levantam os guerreiros medonho alarido; e cercando seu chefe o arrebatam

ao funesto lugar e á colera de Tupan, contra elles concitado.

Cauby extende-se de novo na soleira da porta; seus olhos adormecem; mas

seu ouvido vella no somno.

A voz de Tupan emmudeceu.

Iracema e o christão perdidos nas entranhas da terra, descem a gruta

profunda. Subito uma voz que vinha reboando pela crasta, encheu seus

ouvidos:

--O guerreiro do mar escuta a falla de seu irmão?

--É Poty, o amigo de teu hospede: disse o christão para a virgem.

Iracema estremeceu:

--Elle fala pela bôcca de Tupan.

Martim respondeu emfim ao Pytiguara.

--As falas de Poty entram n'alma de seu irmão.

--Nenhum outro ouvido escuta?

--Os da virgem que duas vezes em um sol defendeu a vida de teu irmão!

--A mulher é fraca; o tabajara traidor; e o irmão de Jacaúna

prudente.

Iracema suspirou: e pousou a cabeça no peito do mancebo:

--Senhor de Iracema, cerra seus ouvidos, para que ella não ouça.

Martim repelliu docemente a gentil fronte:

--Falle o chefe Pytiguara; só o escutam ouvidos amigos e fieis.

--Tu ordenas, Poty fala. Antes que o sol se levante na serra, o

guerreiro do mar deve partir para as margens do ninho das garças; a

estrella morta o guiará ás alvas praias. Nenhum tabajara o seguirá,

porque a inubia dos Pytiguaras rugirá da banda da serra.

--Quantos guerreiros Pytiguaras acompanham seu chefe valente?

--Nenhum; Poty veiu só, com suas armas. Quando os espiritos máus da

floresta separaram o guerreiro do mar de seu irmão, Poty veiu em

seguimento do rastro. Seu coração não deixou que voltasse para chamar

os guerreiros da sua taba; mas expediu seu cão fiel ao grande Jacaúna.

--O chefe Pytiguara está só; não deve rugir a inubia que chamará

contra si todos os guerreiros tabajaras.

--É preciso para salvar o irmão branco; Poty zombará de Irapuam, como

zombou quando combatiam cem contra ti.

A filha do Pagé, que ouvira callada, debruçou-se ao ouvido do

christão:

--Iracema quer-te salvar e a teu irmão; ella tem seu pensamento. O

chefe Pytiguara é valente e audaz; Irapuam é manhoso e traiçoeiro

como a acauan. Antes que chegues á floresta, cahirás; e teu irmão da

outra banda cahirá comtigo.

--Que fará a virgem tabajara para salvar o extrangeiro e seu irmão?

perguntou Martim.

--Mais um sol e outro, e a lua das flores vae nascer. É o tempo da

festa, em que os guerreiros tabajaras passam a noite no bosque sagrado,

e recebem do Pagé os sonhos alegres. Quando estiverem todos

adormecidos, o guerreiro branco deixará os campos do Ipú, e os olhos

de Iracema, mas não sua alma.

Martim estreitou a virgem ao seio; mas logo a repelliu. O toque de seu

corpo, doce como a assucena da mata, e quente como o ninho do beija

flôr, espinhou seu coração; porque lhe recordou as palavras terriveis

do Pagé.

A voz do christão disse a Poty o pensamento de Iracema; o chefe

Pytiguara, prudente como o tamanduá, pensou e respondeu:

--A sabedoria fallou pela bôcca da virgem tabajara Poty espera o

nascimento da lua.

Iracema com uma noticia biographica do auctor · 第 29 / 60 题