O extrangeiro seguiu a virgem através da floresta.
Quando o sol descambava sobre a crista dos montes, e a rôla desatava do
fundo da mata os primeiros arrulhos, elles descobriram no valle a grande
taba: e mais longe, pendurada no rochedo, á sombra dos altos joaseiros,
a cabana do Pagé.
O ancião fumava á porta, sentado na esteira de carnaúba, meditando os
sagrados ritos de Tupan. O tenue sôpro da brisa carmeava, como frocos de
algodão, os compridos e raros cabellos brancos. De immovel que estava,
sumia a vida nos olhos cavos e nas rugas profundas.
O Pagé lobrigou os dois vultos que avançavam; cuidou vêr a sombra de
uma arvore solitaria que vinha alongando-se pelo valle fora.
Quando os viajantes entraram na densa penumbra do bosque, então seu
olhar como o do tigre, feito ás trevas, conheceu Iracema, e viu que a
seguia um joven guerreiro, de extranha raça e longes terras.
As tribus tabajaras, d'além Ibyapaba, falavam de uma nova raça de
guerreiros, alvos como flôres de borrasca, e vindos de remota plaga ás
margens do Mearim. O ancião pensou que fôsse um guerreiro semelhante,
aquelle que pisava os campos nativos.
Tranquillo, esperou.
A virgem aponta para o extrangeiro e diz:
--Elle veiu, pae.
--Veiu bem. É Tupan que traz o hospede á cabana de Araken.
Assim dizendo, o Pagé passou o cachimbo ao extrangeiro: e entraram
ambos na cabana.
O mancebo sentou na rede principal, suspensa no centro da habitação.
Iracema accendeu o fogo da hospitalidade; e trouxe o que havia de
provisões para satisfazer a fome e a sede: trouxe os restos da caça, a
farinha d'agua, os fructos silvestres, os favos de mel e o vinho de
cajú e ananaz.
Depois a virgem entrou com a igaçaba, que enchêra na fonte proxima de
agua fresca para lavar o rosto e as mãos do extrangeiro.
Quando o guerreiro terminou a refeição, o velho Pagé apagou o
cachimbo e falou:
--Vieste?
--Vim: respondeu o desconhecido.
--Bem vieste. O extrangeiro é senhor na cabana de Araken. Os Tabajaras
tem mil guerreiros para defendel-o, e mulheres sem conto para servil-o.
Dize, e todos te obedecerão.
--Pagé eu te agradeço o agasalho que me déste. Logo que o sol nascer
deixarei tua cabana e teus campos onde vim perdido; mas não devo
deixal-os sem dizer-te quem é o guerreiro, que fizeste amigo.
--Foi a Tupan que o Pagé serviu: elle te trouxe, elle te levará.
Araken nada fez pelo hospede; não pergunta d'onde vem, e quando vae. Se
queres dormir, desçam sobre ti os sonhos alegres: se queres falar, teu
hospede escuta.
O extrangeiro disse:
--Sou dos guerreiros brancos, que levantaram a taba nas margens do
Jaguaribe, perto do mar, onde habitam os Pytiguaras, inimigos de tua
nação. Meu nome é Martim, que na tua lingua diz como filho de
guerreiro; meu sangue o do grande povo que primeiro viu as terras de tua
patria. Já meus destroçados companheiros voltaram por mar ás margens
do Parahyba, de onde vieram: e o chefe, desamparado dos seus, atravessa
agora os vastos sertões do Apody. Só eu de tantos fiquei, porque
estava entre os Pytiguaras de Acaraú, na cabana do bravo Poty, irmão
de Jacaúna, que plantou commigo a arvore da amizade. Ha tres sóes
partimos para a caça; e perdido dos meus vim aos campos dos Tabajaras.
--Foi algum máu espirito da floresta que cegou o guerreiro branco no
escuro da mata: respondeu o ancião.
A cauâm piou, além. na extrema do valle. Cahia a noite.