NOTICIA BIOGRAPHICA

José Martiniano do Alencar. Este grande escriptor brazileiro, mais

conhecido pelo nome de José de Alencar, nasceu no Ceará no dia 1 de

janeiro de 1829, sendo filho, ao que parece, do illustre politico do

mesmo nome. Dizemos "ao que parece" porque nas biographias d'este grande

escriptor, que temos presentes, não se accusa a sua filiação. Pode

ser lapso, pode ser outro motivo qualquer que não precisamos de apurar.

O que é certo é que José Martiniano d'Alencar mostrou desde creança

um grande engenho. Tinha 17 annos quando em 1840 se matriculou na

faculdade de direito de S. Paulo para tomar, como tomou, o grau de

bacharel, tendo ido porém em 1848 concluir os seus estudos juridicos e

formar-se na eschola de Olinda.

Em S. Paulo começou a manifestar-se o seu talento litterario,

publicando varios artigos n'um periodico intitulado: _Ensaios_, e

redigido pelos estudantes da Faculdade, que appareceu em S. Paulo nos

annos de 1840 a 1848.

Em 1851 concluiu Alencar o seu curso, e veiu logo para o Rio de Janeiro,

entregando-se então com mais desafogo aos trabalhos litterarios.

Estreiou-se na capital do imperio escrevendo no _Correio Mercantil_ um

artigo de critica acerca das _Poesias_ de Augusto Zaluar. N'esse mesmo

anno, como que para mostrar que as suas preoccupações litterarias o

não desviavam de estudos mais áridos, escreveu alguns artigos sobre a

reforma hypothecaria, e em seguida começou a escrever, sempre no

_Correio Mercantil_ umas revistas semanaes, intituladas: _Ao correr da

penna_ assignadas com a sigla _Al_.

Em julho de 1855 sahiu da redacção do _Correio Mercantil_, e passou a

collaborar no _Jornal do Commercio_, onde escreveu, entre outros

artigos, um a respeito de Thalberg, outro a respeito do _Othello_ e

outro ácerca do padre Mont'Alverne. Em outubro de 1855 assumiu a

direcção do _Diario do Rio de Janeiro_, que conservou até 1858.

Em 1856 publicou o seu primeiro folheto, que devia ser seguido por

tamanho numero de volumes. Esse folheto intitulava-se: _Cartas sobre a

confederação dos Tamoyos_, e era uma collecção de folhetins que

haviam sido publicados no _Diario do Rio de Janeiro_, e em que se fazia a

critica do celebre poema de Gonçalves Dias.

Em 1857, finalmente, sahia o _Guarany_ o famoso romance brazileiro, que

produziu um verdadeiro enthusiasmo, e que deu a José d'Alencar os

fóros, emquanto a nós merecidissimos, de primeiro romancista

brazileiro. Alguns criticos rabujentos notavam que aquelles Indios de

José de Alencar eram _plus beaux que nature_, que eram uns Indios

ideaes, muito diversos das creaturas porcas, rebaixadas e deprimidas que

representam na actual civilisação brazileira o elemento indigena.

Esses criticos porém esqueciam-se de uma cousa: de que os Indios

actuaes não são os Indios que viviam livremente na floresta, na

plenitude da sua força e da sua independencia, e tambem de que, se os

guaranys de Alencar são pelo menos Indios de excepção, Indios de

excepção eram tambem de certo aquelle suave Uncas, o ultimo dos

mohicanos, e o pensativo Chingachgook, que viviam em tão santa harmonia

com o Longa Carabina, aquelle Nathaniel Bempo, personagem querido de

Fennimore Cooper.

Mas os protestos, se os houve, desappareceram no meio do coro unisono

dos applausos. O Brazil tinha finalmente uma litteratura sua, bem sua,

romances que se não modelavam pelas formas velhas e gastas dos romances

europeus. A America do Sul tinha emfim o seu Cooper.

Pery, Izabel, Alvaro, Ayres Gomes foram personagens que ficaram, para

sempre gravados no espirito do publico brazileiro, e, para mais se

consagrar a gloria do _Guarany_, até o grande maestro brazileiro Carlos

Gomes escolheu este formoso romance para d'elle se extrahir o _libretto_

da sua opera o _Guarany_, que é a sua obra prima, a obra prima da

musica brazileira, e uma das notaveis operas do nosso tempo, que já

hoje tem fama universal, e é representada com applauso em todos os

theatros do mundo.

O que, porém, sobretudo se apreciava no _Guarany_, e a esse respeito

não havia diversidade de opiniões, era a belleza incomparavel do

estylo, a magnificencia das descripções da natureza.

Ao mesmo tempo tentava José de Alencar o theatro, e, depois de fazer

representar uma comedia de valor secundario _Verso e reverso_, dava ao

theatro a sua obra prima, tambem uma das obras primas do theatro

brazileiro, _O Demonio familiar_. É esta comedia um magnifico estudo

dos costumes brazileiros, e foi decerto um profundo golpe vibrado á

escravatura, porque o seu entrecho se cifra principalmente na

demonstração da influencia nefasta do _moleque_ na familia brazileira.

_O Demonio familiar_ é esse moleque, elemento permanente de discordia e

de desmoralisação.

O _Guarany_ e o _Demonio familiar_ bastavam para assegurar a gloria de

um escriptor; mas José de Alencar foi sempre consummido por uma sede

insaciavel de escrever. Trabalhava com uma rapidez tal que isso

prejudicava muitas vezes o acabado das suas obras, e impedia-o de lhes

fazer attingir a perfeição, a que poderiam aliás ter chegado tanto

quanto isso é possivel a obras humanas.

No theatro, pois, ao _Demonio familiar_ e ao _Verso e reverso_

seguiram-se o _Credito_, e os _Jesuitas_, drama que foi retirado de

scena, porque o publico abandonou por tal forma o theatro em que elle se

representava que diz um critico de Alencar, que talvez no Rio de Janeiro

não fosse visto por um cento de pessoas. Esta ausencia do publico

indignou muito José de Alencar que, publicando o drama, o precedeu de

um prefacio em que diz que dava o drama á luz publica, só para que se

visse que, se o theatro brazileiro não existia, não era por falta de

bons auctores, nem de boas peças, mas sim pelo inqualificavel

retrahimento do publico. Este accesso de vaidade não era permittido a

um homem de tão verdadeiro merecimento como era José de Alencar.

Effectivamente não tinha razão alguma: o drama os _Jesuitas_ era

detestavel, pueril, sem caracteres bem desenhados, sem acção logica,

sem cousa alguma do que constitue verdadeiramente o merito de uma obra

litteraria.

Não desanimou Alencar, e deu á scena as _Azas de um Anjo_, drama que

se modelava um pouco pela _Dama das Camelias_, com a excepção de que

no fim Margarida Gautier casa com Armand Duval. Um critico brazileiro

muito divertido, que assigna com as iniciaes J. S. uma obra

verdadeiramente inepta intitulada _Manual de litteratura_, diz a respeito

das _Azas de um Anjo_ o seguinte:

"É uma tocante oração em favor da perdida.

"No fim, sobretudo, no casamento d'esta com Luiz, nada ha de francez. É

um traço de bondade e abnegação, proprio do caracter brazileiro, que

o francez não approvaria."

Esperamos ainda assim que no Brazil não sejam extremamente vulgares

esses actos de abnegação e de bondade, porque a geração que

resultasse d'estes actos de bondade podia ser exquisitamente

qualificada.

Mas o que é curioso é que, apesar d'esta peça ser a apotheose do

caracter brazileiro, a auctoridade prohibiu que se representasse, e

_J.S._ acha muito justa a prohibição. Já se vê que não quer que no

theatro se ponham em relevo para ensinamento do publico a bondade e a

abnegação tão proprias do caracter brazileiro.

José de Alencar acudiu em defeza da sua peça na imprensa, e outros

escriptores o apoiaram. Effectivamente a pudibunda censura brazileira

mostrou-se muito mais transigente com peças de um valor muito inferior

ao das _Azas de um Anjo_.

A ultima peça de José de Alencar foi a _Mai_, representada em 1860.

N'esse mesmo anno era elle nomeado consultor do ministerio da justiça,

e recebia a carta de conselho.

José de Alencar, ao passo que ia ganhando um brilhante nome litterario,

não abandonava a politica nem descurava as cousas praticas da vida.

Fôra, havia muito, nomeado professor de direito mercantil no _Instituto

Commercial_ do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo entrava como deputado na

camara, pertencendo, porém, ao grupo conservador, em vez de se

enfileirar, como o outro José Martiniano de Alencar, nas phalanges do

partido liberal. Na sua carreira de empregado publico foi tambem, além

de consultor do ministerio da justiça, director de secção.

A acção da politica no litterato sente-se na _Guerra dos Mascates_,

romance em dois volumes, que elle publicou a bastante distancia de tempo

um do outro, cujo enredo se trava em 1710 no tempo das desavenças dos

moradores de Olinda com os do Recife, mas que tem apenas por intento

fazer retratos contemporaneos com os nomes do seculo XVIII. Esta

intenção era por tal forma transparente que no parlamento lh'o

lançaram em rosto, porque effectivamente Alencar não se contentava com

o desenho moral dos personagens, fazia o retrato physico tanto ao vivo

que ninguem podia deixar de reconhecer o retratado. Assim o governador

de Pernambuco D. Sebastião de Sousa Caldas é evidentemente o imperador

D. Pedro II, o secretario Barbosa Lima é o visconde do Rio Branco,

outro personagem é o marquez de S. Vicente, outro o barão de

Inhomerim, etc., etc.

O retrato do imperador não está muito lisongeado, e não devia agradar

ao personagem escolhido para modêlo, que se podia até considerar como

injuriado positivamente. Comtudo, isso não obstou a que o imperador, em

1868, quando se formou o ministerio conservador, acceitasse a entrada de

José Martiniano de Alencar para a pasta da justiça. Esteve porém

pouco tempo no ministerio. Uma dissidencia no seio do partido

conservador fêl-o sahir do governo, levando-o a ir sentar-se na camara

ao lado dos dissidentes.

Continuando, porém, a apreciar o litterato, o romancista, citemos ainda

dois dos seus melhores romances: o _Gaúcho_ e _Iracema_. O caracter do

gaúcho, que adora a sua egua _Morena_, que a entende, que lhe fala e

que a escuta, está traçado com uma rara perfeição. _Iracema_ é

sobretudo um romancinho adoravelmente escripto. Nunca o estylo de

Alencar attingiu tão delicada suavidade. Exhala-se de cada periodo como

que o perfume das flores com que se elabora o mel das suas palavras. O

sr. Pinheiro Chagas teve occasião de prestar a este livro a merecida

homenagem. Fez porém algumas observações relativas á mania que teem

alguns escriptores brazileiros, e um d'elles era Alencar, de pretenderem

modificar as formas grammaticaes da lingua. Alencar entendeu dever

responder na segunda edição do seu romance á critica do escriptor

portuguez. Essa replica parecia-se um pouco com o prefacio dos

_Jesuitas_. Manifestava uma grande vaidade realmente inadmissivel em

escriptor de tão elevado merito, e mostrava um desprêso completo pelas

regras mais elementares da philologia.

As _Minas de prata_ passam por ser um dos seus menos bons romances;

encerra comtudo algumas scenas primorosas. Queixam-se os paulistas de

que as paizagens da sua provincia descriptas no _Til_, são

perfeitamente phantasistas; _Ubirajara_, _A pata da Gazella_, _O tronco

do ipê_, se não augmentaram a reputação do grande romancista não a

prejudicaram tambem. O _Sertanejo_, muito criticado por alguns,

parece-nos comtudo um dos seus bons romances. As paizagens que elle

descreve são as paizagens da sua provincia natal, que elle conhece

perfeitamente, e o typo do vaqueiro que ama em silencio a filha do seu

patrão e que procura, com uma raiva intima, afastar todos aquelles que

ella possa amar, está traçado com vigor.

Os seus romances de côrte, se assim nós podemos exprimir, são

inferiores aos seus romances do sertão. Nem firmou alguns d'elles com o

seu nome, _Diva_ e _Luciola_, romances moldados pela comedia _Azas de um

Anjo_ tratam da rehabilitação de peccadoras; _Cinco minutos_, uma das

suas primeiras obras e a _Viuvinha_ são romances ligeirissimos,

graciosamente desenhados; a _Senhora_ encerra uma situação fortemente

dramatica, mas mal desenvolvida. Trata-se de um homem de vis

sentimentos, que despreza uma rapariga pobre que o adorava e despreza-a

por ella ser pobre. Tempos depois, acceita o casamento com uma mulher

deshonrada por outro homem, porque este lhe paga por uma avultada somma

a venda do seu nome. Ora essa mulher é a tal que elle desprezara e que

o seu desprêso arrojara pelo caminho da prostituição. O assumpto

prestava-se, como vêem, ás mais dramaticas situações.

No genero de pamphletos, e obras politicas, etc., escreveu ainda José

de Alencar, que sempre se mostrou hostil ao imperador, a _imagem

imperial_, e as _Cartas de Erasmo_. Publicou em volume os seus discursos

parlamentares de 1809, e os de 1871. É tambem sua, uma obra intitulada

_Estatistica da provincia do Ceará_.

José de Alencar veiu á Europa em 1870. Voltando ao Brazil, foi

inesperadamente colhido pela morte no anno de 1877, quando acabava de

completar 48 annos, e quando se achava portanto na força da vida. A sua

morte enluctou a litteratura brazileira e aquelles mesmos que tinham

combatido _Senio_, pseudonymo querido de José de Alencar, foram os

primeiros a render homenagem ao grande vulto, logo que elle desappareceu

da scena publica.

(Do _Diccionario Popular_).

Iracema com uma noticia biographica do auctor · 第 16 / 60 题