O semeador, lançando o grão á terra, commettia a sua subsist

OBRAS COMPLETAS

DE

A. F. DE CASTILHO

--4--

Felicidade

pela Agricultura

[Ilustração]

LIVRARIA BARATEIRA

LISBOA

34-RUA DO DUQUE-36.

Tel. T. 1264

OBRAS COMPLETAS

DE

ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO

VOLUME 4.ᵒ

VOLUMES PUBLICADOS:

I--AMOR E MELANCOLIA.

II--A CHAVE DO ENIGMA.

III--CARTAS DE ECCO E NARCISO.

IV--FELICIDADE PELA AGRICULTURA (1.ᵒ vol.)

NO PRÉLO:

V--FELICIDADE PELA AGRICULTURA (2.ᵒ vol.)

OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO

Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos

IV

FELICIDADE

PELA AGRICULTURA

SEGUNDA EDIÇÃO

VOLUME I

[Ilustração]

LISBOA

EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL

_Sociedade editora_

LIVRARIA MODERNA

_R. Augusta 95_

TYPOGRAPHIA

_45, Rotins, 47_

1903

ADVERTENCIA DOS EDITORES

Pelos bons julgadores foi sempre considerada esta _Felicidade pela

Agricultura_ uma das obras mais cheias de estro e pujança, que sahiram

do cerebro de Castilho.

João de Andrade Corvo costumava dizer:

--Em qualquer pagina que eu o abra, tem sempre este livro o condão de

me entreter, e fazer-me pensar longamente.

Livro que faz meditar um homem da valia de Andrade Corvo, é bom.

Escreveu Castilho tudo isto aos poucos, entre outras variadas tarefas,

para um periodico, que redigia em Ponta-Delgada: _O Agricultor

Michaelense_.

Na solidão do seu viver, então muito incerto e cheio de saudades,

entre um rancho de cinco filhos pequeninos a pedirem-lhe instrucção

e educação, no meio de um povo amigo predisposto para o bem, e com a

visinhança do mar, que tanto influe a pensamentos sérios, acordaram no

antigo ermitão do Caramulo, no ex-redactor da _Revista Universal_, os

pensamentos rasgadamente humanitarios, que o desvelaram e absorveram

no resto da vida. Orientou-se, sem o suspeitar, no sentido pratico do

bem; e toda a sua alma de homem bom e de poeta vibrou em anhelos de

felicitação publica. Esses anhelos tomaram forma litteraria, e deram a

presente série de artigos, dictados desde Janeiro de 1848 até Dezembro

de 1849.

Via então Castilho a regeneração da Patria, d’esta Patria que elle

tanto amou, consubstanciada n’uma ideia unica: o desenvolvimento da

Agricultura, e da Instrucção popular. ¿Enganar-se-hia?

A campanha que nos annos proximos havia de sustentar, com a penna, com

a palavra, com o amor, com a ira, e com annos de existencia, começou, a

bem dizer, aqui. Este opusculo marca uma epoca da vida de Castilho.

Com os seus alti-baixos de forma, com a sua exuberancia opulenta, com

as suas loucuras sérias tão sublimes, com o seu desalinho familiar,

que por si mesmo consegue impôr-se, são estas paginas o acordado sonho

de um vidente, que adianta tres seculos á sua era. As utopias do autor

encapellam-se, como antecipação grandiosa e gloriosa, que lhe retrata a

indole.

¿São lembranças irrealisaveis algumas para desde já? sel-o hão; mas

dos devaneios e aspirações dos homens de alma tem a Humanidade lucrado

sementes de muitos bens. Lançadas á terra intellectual, veem a final a

germinar, e a desatar-se em flores e frutos.

Deixar devanear estes grandes sonhadores, cuja região se libra a

meio-caminho entre o presente e o futuro, entre o real e o ideal, entre

a terra e o ceo. Escutemol-os, que para algures, não sonhado de nós

outros, nos levam estas sereias do bem:

Preciosas revelações auto-biographica: se nos deparam no livro a cada

passo, aproveitadas já, e detidamente explicadas (quanto o podem ser)

nas suas _Memorias_.

Pobre e desajudado, pugnou, quanto soube e poude, em favor de uma

ideia, que o alimentou e o aniquilou: a civilisação da sua terra.

É um livro singular este, que se não pode ler sem respeito e commoção.

O pensador transparece no poeta. O lyrico devaneador completa-se no

philosopho. O patriota realça-se pelo christão.

Exhala-se de cada paragrapho um vago perfume campestre, que é

verdadeira delicia: a mente do escritor foge, sempre que pode, para

as solidões das hortas e dos casaes; as metaphoras são tomadas quasi

sempre ao viver rural; a linguagem, portugueza de lei, sabe ao bom

falar dos montanheiros.

Se elle tivesse refundido a obra, deixal-a-hia de certo mais perfeita;

mais sincera não a podia deixar. ¿E que melhor prenda do que a

sinceridade?

_Ao meu amigo_

_o Ex.ᵐᵒ Snr._

José Silvestre Ribeiro

_em penhor de admiração, respeito,

e affecto_

_Antonio Feliciano de Castilho_.

ADVERTENCIA

Reuni para este livrinho algumas das minhas utopias, já publicadas em

um pequeno, mas bonissimo, periodico mensal provinciano, _O Agricultor

Michaelense_, a fim de que o outono, que tão cedo vem ás folhas

periodicas, não destruisse com ellas os meus pensamentos de amor dos

homens. A esses artigos, alguns outros, ainda que poucos, ajuntei de

identica natureza.

Diz-me a consciencia, que a maior parte das minhas esperanças n’estas

paginas vem prematura, e que poucos d’estes bons e santos desejos, ou

nenhuns, se realisarão em vida dos nossos netos.

Á consciencia respondo: que, se eu tivesse de viver duzentos annos

mais, ou se d’aqui a duzentos annos houvesse de renascer, de boa-mente

reservaria para então o que hoje antecipo.

Os intolerantes, os fanaticos de cada parcialidade politica, terão

muito que abocanhar n’este pobre escrito. Pedir-lhes misericordia, ou

mesmo justiça, fôra tempo perdido. Dir-lhes-hei só, que não escrevi

para elles. Os homens bons e sinceros, que são os que me importam,

ainda quando não concordem comigo, louvarão as minhas intenções.

Se, em uma ou outra parte, eu parecer por ventura censor, em demasia

acre, de coisas do meu tempo (de pessoas nunca); se d’ahi quizerem

inferir mexeriqueiros, que as minhas rasões são proclamações, e os meus

entranhados amores de alma, clamores e rebates sediciosos, não lhes

hei-de oppôr (o que aliás fôra verdade, e que de si se apresenta),

que as revoluções não são os livros quem as faz, mas sim as coisas;

as obras, ou a falta de obras, dos poderosos, e não as palavras dos

obscuros e inermes; que as paginas só teem força activa, quando os

actos que n’ellas se tratam lh’a communicam; e que essa força activa,

ainda quando nem uma lettra se escreva, e então muito mais, sempre

existe e sempre actua; que, em summa, o attribuirem ao meu livro

efficacia para concitar as turbas, é fazerem-me ao mesmo tempo honraria

demasiada, e demasiada injuria.

Não amo revoluções, nem as quero, nem creio n’ellas; tenho vivido

este ultimo meio seculo, e não ignoro, de todo, o como doidejaram os

precedentes; mas, ainda que para ahi me fugisse a vontade (que não

foge), faltavam-me a voz e o desembaraço, indispensaveis para o papel,

pelo menos extravagante, de tribuno. Se alguma coisa a tal respeito

pregoei, mais foi contra as insurreições, que a favor d’ellas; mais

foi gritar aos governantes, que se houvessem de collar no officio por

boas obras, do que aos governados, que os derribassem; quando não, é

consultar o livro a cada passo.

Se descreio em algum, ou alguns, dos presuppostos artigos de fé

constitucional, não é culpa minha, nem é culpa; affiro-os pela rasão

pura; avalio-os pelos resultados; comparo-os cá dentro, no meu fôro, já

com as obras inconsequentes, já com os versateis discursos de muitos

dos estadistas, que por elles fazem obra; e digo, com toda a paz da

minha philosophia humilissima, que me parece não seria mau pensarmos

outra vez um pouco em taes artigos. Toda a discussão dá luz; e toda a

luz é creadora. As theses politicas não são porém as minhas; as minhas,

o epilogo do meu livro, a isto se reduzem: temos terra, que pode ser

mais e melhor cultivada; devemos cultival-a; temos alma, que pode ser

mais e melhor allumiada; devemos allumial-a; temos coração, que pode

ser mais puro, mais virtuoso, e mais amante, e mais coração; devemos

aproveital-o.

A terra nos fará ricos; a instrucção, poderosos; a moralidade, unidos.

A riqueza, o poder, a fraternidade, que são a civilisação, felizes.

Quanto á Agricultura, as minhas diligencias não deixaram, talvez, de

contribuir o seu poucochinho, segundo alguem crê, para este promettedor

tráfego de Sociedades agricolas, que hoje vai no Reino.

Quanto á Instrucção publica primaria, ajudei, e continúo a ajudar, a

obra santa, com o que pude e posso; do que, dou por prova o odio e

perseguições, com que os _obscurantes_ me teem honrado.

Quanto á moralidade e fraternidade, esses bens, d’aquelles dois bens

se hão-de filiar; mas ha-de ser tarde. Só quando deixarmos de ser

politicos, principiaremos a ser bons.

Do livro, como producto litterario, não ha por que falemos; foi

escrito de carreira, sem traça prévia, nem plano ordenado. Nem digo bem

«escrito»; foi _conversado_, como quer que as ideias vieram vindo.

Refundira-o eu, se houvesse tempo, ou valesse a pena; decotaria

redundancias: aproximaria pontos homogéneos, que vão separados;

reduziria as doutrinas a um systema, e concatenação severa de

raciocinios. Nada d’isso farei. Apraz-me conservar-lhe o seu caracter

fortuito e desambicioso; só assim, é que me posso n’elle reconhecer.

É uma conversação, com todos os seus altibaixos, com todas as suas

duvidas e incertezas, com todas as suas quebras e digressões, com todo

o desalinho de homem sincero, que antes quer ser amado, e merecel-o, do

que citado e admirado, inda que o podesse.

Páro já, porque estender mais as advertencias sobre coisa tão pequena,

já passaria de ociosidade.

I

Excellencias da vida rustica

SUMMARIO

Os campos são mais nobres que as cidades.--O trato rural produz

tudo.--A Agricultura, com os seus dois filhos, Industria e Commercio,

é a expressão maxima da Munificencia Divina, e o mais claro argumento

da sociabilidade do homem.--As cidades são centros para a circulação

da moeda.--Só um povo agricola é deveras rico.--As honras dadas

á Agricultura assentam em principios muito reaes.--A Biblia, e

Homero.--Os Romanos da Republica.--O que eram as mulheres n’esse

tempo.--A gratidão divinisou entre as gentes primitivas os inventores

industriaes e ruraes. Refutação de um dito de Santo Agostinho.--Origem

das mythologias campestres.--Os deuses rusticos eram uma decomposição

da Providencia. O Christianismo destruiu aquellas risonhas crenças.

O campo tomou outra especie de interesse.--Klopstock e Gessner.--As

sciencias naturaes vieram substituir com vantagem a perdida idealidade

dos campos.--Esboço da grandeza e poder d’estas sciencias.--Confirmar

o lavrador na religiosidade hereditaria.--Excitar os ricos e

poderosos, para que amem o campo e seus cultores.--Elogio moral e

politico do viver campestre.

A arte variadissima de obrigar a terra a produzir tudo, não é uma arte

rude, pois todas as sciencias a cortejam, e a servem; não obscura, pois

é a mais antiga e universal; não vil nem desprezivel, pois só depende

de Deus, em quanto os homens todos dependem d’ella.

As cidades, que affectam desprezar os campos, d’elles nasceram; por

elles vivem e medram, que só lá teem as suas raizes. Transformam-se

ellas, envelhecem, amesquinham-se, doidejam, morrem, e esquecem; em

quanto elles, os campos, permanecem, riem, amam, dão, e promettem de

continuo; coexistiram desde o principio, coexistirão até ao fim, com a

raça humana.

A charrua e o enxadão topam em toda a parte com as ruinas de templos

e palacios. Essas maravilhas ephémeras da Arte pompearam um momento

sobre o solo desvestido, e logo a Natureza as afogou; as recobriu outra

vez com o seu sólo, com a sua vegetação, com os seus frutos, com as

suas fragrancias, com a sua paz, com as suas harmonias, primitivas e

ineffaveis.

¿Ouvis nas cidades grandes aquelle sussurro profundo de mil vozes, como

bramir de Oceano? É o estrépito da industria, o tráfego do commercio, a

ebriedade das mezas, o vozear dos espectaculos.

¿Que Fada produziu e conserva tudo isso? a Agricultura.

Vêde os exercitos, esse espantoso numero de consumidores improductivos,

esses celibatarios ministros da religião da morte.

¿Quem os gerou? ¿Quem os renova? ¿Quem os alimenta? O chão pacifico

da lavoira. O seu pão, a sua carne, o seu vinho, os seus legumes, os

seus vestidos, os seus cavallos, os seus carros, as suas bandeiras, os

seus mil tambores.... tudo por lá se creou. Tudo aquillo, que vôa como

remoinho devastador, que não deixa senão cinzas, sangue, e lagrimas

após si, tudo aquillo nasceu e folgou pelas aldeias e casaes; relinchou

pelas planicies hervosas; mugiu nas leziras encalmadas; trepou e

baliu pelos cerros; ciciou loirejando pelos chãos, como espiga de

alambre; vicejou em florestas; amadureceu reluzindo por entre as parras

movediças dos oiteiros.

¿Que povoação, não creada por Deus, anima, cruza, devassa, todos esses

mares? Esses portentos da sciencia e ousadia do homem, que affrontam

com victoria ventos e ondas, já pelas montanhas vegetaram, floriram,

hospedaram ninhos e musicas. As suas azas candidas, que os levam de

extrema a extrema do globo, as tranças ondeantes das suas enxarcias,...

foram linhares florescentes, onde as virações dos valles se embalavam.

A epiderme grossa e negra, que lhes reveste o corpo, e lh’o torna,

como o dos monstros marinhos, inviolavel á agua, estillou-se do

pinheiro queimado em succo denegrido; gottejou de outros troncos em

rezinas balsamicas; creou-se nos ossos do animal, que arrasta o carro

e o arado; expremeu-se em oiro liquido do fruto luzidio da oliveira.

Os braços, que os domam e os meneiam, como o cavalleiro dirige o seu

corcel a todas as partes, robusteceu-os, quasi todos, o sol dos campos.

¿Que levam ellas, essas cidades sem alicerce, por quem as mais remotas

se communicam, e todos os filhos de Adão não fazem mais que uma

familia? ¿Que levam, que assim vão assoberbadas?

Levam os frutos da cultura do septentrião, aos longinquos moradores do

sul; as producções regaladas do meio-dia, ás praias severas do norte;

os perfumes e sabores do oriente, até ás ultimas orlas das Hespanhas; a

alegria das mezas occidentaes, aos banquetes opíparos dos Chinezes.

¡E é o trabalho de um camponez humilde, de sua mulher e de seus filhos,

o que, sem sahirem do torrão que os brotou por entre as plantas e os

gados, povoou todos esses mares sem limites de celleiros, dispensas,

e adegas fluctuantes, e abasteceu, sem o saberem, ao seu desconhecido

irmão, em paizes de que nunca ouviram o nome, recebendo de lá, em

troca, o que nunca sonharam que a terra procreasse!

* * * * *

Difficilmente, por mais que refujâmos para longe dos campos, e para o

centro do luxo, difficillimamente encontraremos com objecto, que, no

todo ou em grande parte, não devesse o seu ser á industria agricola.

A corporificação mesma d’este pensamento, isto, que estamos escrevendo

agora, isto, que vós amanhan estareis lendo, este nosso aprazivel

praticar entre desconhecidos, este daguerreotypar para os vindoiros um

reflexo passageiro do espirito, ¿a quem o devemos, se não a esta Arte

inexhaurivel? O papel, a penna, a banca, o prelo, as balas, a tinta de

impressão, o alimento que mantém os braços, de que tudo isto se ajuda,

¿quem se não a Agricultura, o deu? ¿Quem se não ella, ou um milagre de

muitos milagres, o podéra dar?

A Agricultura, a velha e robusta mãe dos povos, auxiliada dos seus

dois incançaveis primogenitos, Industria e Commercio, é a bemfeitora

por excellencia; a compensadora unica das differenças das regiões; a

expressão maxima da Divina Munificencia, e o mais claro documento da

nossa social destinação.

Qualquer Sciencia, qualquer Arte, supprimida, deixaria uma falta, mais

ou menos para sentir; mas a falta da Agricultura desataria de repente a

Sociedade, e dentro em pouco extinguiria o proprio homem.

* * * * *

¡Longe de nós o insensato pensamento de negarmos ás cidades a sua

importancia! A baixo das choças aldeanas, nada mais nobre que as

cidades; nada, que as Leis mais devessem favorecer, depois dos campos.

Os metaes preciosos, de que uma invenção profunda, e quasi inspirada,

compôz, por que assim o digâmos, o sangue, que devia circular por todo

o corpo social, necessitavam, como o sangue no corpo de cada individuo,

deposito amplo e energico, para onde confluissem de toda a parte, e que

outra vez para toda a parte os deramasse. A Cidade foi o coração do

paiz agricola, e centro unitivo de sua vida.

Ás cidades, as industrias, secundaria e terciaria; o manufacturar as

materias; o permutar as manufacturas. Aos campos a primaria industria;

o ministrar a omnimoda materia para essas duas outras.

Artes e Commercio encantadores são, que modificam, metamorphoseiam, e

transferem tudo sem cessar; mas só a Agricultura cria, só ella, filha

primogénita da Divinidade, é, sobre a terra, Divindade. Só um povo que

lhe quer, e a quer, e a serve com desenganada preferencia, só esse é

rico; rico sem fausto, mas rico sem receio de empobrecer.

As minas cançam e exhaurem-se; as conquistas levantam-se e fogem; as

fabricas podem cahir, ao erguerem-se novas fabricas n’outras partes;

a grande louca do mundo moderno, a moda, as derriba a cada passo,

roçando-as, ao passar, com o seu vestido novo, ou com os seus novos

enfeites; o mesmo Commercio, no seu carro triumphal de oiro, corre

estrepitoso por cima de alturas resvaladias, por entre despenhos e

rivaes inimigos, que ao primeiro descuido o precipitarão.

Só a terra entretanto se não esgota; só n’ella se podem empregar

beneficios, sem colher ingratidões; só ella pode dizer, como o seu

Creador: «Pedi e recebereis»; só ella pode supprir tudo, sem poder

outra alguma coisa suppril-a.

Quando ella treme, sacode de sobre si, em nuvens de pó, castellos

massiços, paços alterosos, armazens e feitorias de portas chapeadas,

como um leão, com um frémito musculoso das jubas, afugenta os

insectos, que vieram poisar sobre elle em quanto dormia; mas a Queluz

e Versailles do lavrador, a sua choçasinha de palha, essa vacilla

um momento, como as arvores circumstantes; assustou-se, como um

passarinho entre as ramadas; mas fica em pé, e rasserena-se, vendo tudo

em derredor tão arraigado, tão viçoso, tão quieto, como d’antes.

* * * * *

Foi a consciencia d’estas verdades obvias, e que só o excessivo

crescimento do luxo era efficaz para escurecer, foi, dizemos, a

consciencia d’estas verdades, a que fez com que em todos os tempos se

protegesse e honrasse a Agricultura, e em alguns paizes por modo tal,

que aos almiscarados passeadores das capitaes pareceria hoje fabuloso,

ou ridiculo quando menos.

Os dois mais antigos livros, que o mundo velho nos deixou, a _Biblia_,

epopêa de Deus, e Homero, biblia dos poetas, a cada pagina nos

maravilham com o que antes nos devêra servir para sizuda meditação,

e algum exemplo: com a singela pintura do enlace da autoridade com o

trabalho rural.

Reis e Principes homericos, raios de valor nos combates, nos dias da

paz cultivam, e pastoreiam: e mais de um heroe d’esses, ao expirar, dá

a ultima saudade ao pensamento dos bosques da sua infancia.

Os patriarchas da antiga Lei, os juizes, e os Reis do Povo hebreu

(semelhantes n’aquillo aos maioraes de algumas tribus arabias, e aos

regedores de alguns povos simplices da America e da Africa, ainda hoje)

distribuiam a justiça, já á sombra de um carvalho, já sentados, como

em throno, na méda do seu trigo á borda da eira; ou, reclinados entre

os seus rebanhos, ensinavam com apólogos e parábolas campestres, as

virtudes naturaes, a concordia, a rectidão, a beneficencia.

Os Romanos das eras recommendaveis, os Romanos da Republica, essa

gente exemplar, já expurgada da barbaria de sua origem, e ainda não

pervertida pelas riquezas e luxo; equidistantes de Romulo e de Nero;

revolviam com a charrua o chão da Patria, que alargavam com a espada.

Da rabiça, se iam arrancar os generaes para as victorias; do Capitolio

redescendiam, com alvoroço, para se irem concluir a geirasinha largada

em meio.

Então as matronas eram Cornelias; e as donzellas, Virginias. Então era

soberbo epitaphio: «N’este sepulcro não formoso jaz uma formosa mulher.

Governou sua casa; fiou lan.»

Então eram guiões e estandartes magnificos umas paveias de feno no alto

de uma lança.

Então, emfim, podia dizer o Poeta, com verdade: não só que as selvas

eram dignas de consules, se não que eram dignos os aldeãos, dos feixes

e da purpura.

Retraiâmos-nos lançando comtudo um olhar saudoso para aquellas edades

ridentissimas, em que os nomes e feitos memorandos se não escreviam nos

annaes, mas se embalsamavam de poesia para mythos.

* * * * *

¿Qual foi d’essas antigas gentes, fabuladoras por philosophia, a que

não divinisou, e não ergueu sobre aras, para incensos e hymnos da

posteridade, os inventores, introductores, ou aperfeiçoadores, das

diversas Artes prestadias, e da Arte da Agricultura sobre todas?

Cybéle, Osiris, Saturno, Céres, Triptólemo, Fauno, Pales, Baccho,

Pomona, Vertumno, Aristeu, Flora, eis ahi uma parte d’esse Olympo

terrestre, com que as Musas por mais de dois mil annos se inspiraram,

e que, se já hoje não ressôam nos cantos, nem por isso ficaram menos

sacros para os corações agradecidos.

«Demonios são os deuses da gentilidade»--exclamava, no seu enthusiasmo

religioso, o Bispo de Híppona.--«Demonios são, cujos nomes nunca mais

hão-de profanar estes meus labios.»

Enganais-vos, Agostinho, se abrangeis a esses bons deuses rusticos

no vosso anáthema. Desendeusae-os embora; mas, em vez do ferrete de

demonios, decretae-lhes foros de grandes Homens, e grandes Mulheres, já

que de Anjos não pode ser.

Se procuramos, na rasão pura, o que por nenhum documento se rastreia,

o por que os Romanos, apóz os Gregos, os Gregos apóz os Egypcios, e

os Egypcios Deus sabe apóz quem, assim se comprouveram de povoar de

numes e semi-numes indígetes os seus campos, facil se nos depára a

chave do enigma. Obra foi, instinctiva e simultanea, de rusticos, e

philosophos; do povo, e dos agentes da alta Politica dos Estados. O

poder comprehendeu a utilidade de sanccionar culto que nobilitasse

o lavrador, divinisando todos os objectos do seu trato, e a propria

terra: os camponezes, por si mesmos, de motu proprio, coadjuvaram

o poder n’esse mui real empenho seu, com darem largas á propria

phantasia, faculdade sempre tendente para o poetico e maravilhoso.

E de feito, ¿que mais natural erro (se assim nos podemos exprimir),

que abusão mais para desculpas e louvor, do que imaginar o homem, ao

ver-se rodeado de successivos beneficios e presentes da Natureza, que

andavam ahi velando sobre elle, por toda a parte, a todas as horas,

entes beneficos, poderosos e invisiveis, a quem por isso cabiam amor

e agradecimento? Por não abrangerem a Providencia na universalidade,

decompunham-na em mil Providencias; e n’este sentido a idolatria era

ainda um culto ao Supremo Desconhecido, «IGNOTO DEO»; era o matiz

brilhante e confuso, formado de vapores da terra entre ella e o Céo,

como arreboes e aurora do SOL, que estava para nascer.

* * * * *

Além da gratidão, outra causa, se menos sublime, por ventura mais

urgente, levaria os filhos das aldeias a abraçarem na alma, sem

exame, aquellas crenças, logo que referidas na conversação dos velhos

autorisados, ou evangelisadas pelos poetas, por esses engenhos de

eleição, a quem sempre se attribuiram mysteriosas relações com outros

mundos. Esta causa era, no meio da solidão, a tendencia para a

sociabilidade.

O viver semi-eremitico do camponez, e as suas occupações, quasi todas

manuaes, deixavam-lhe alma e coração livres, vazios, carecentes,

avidos de alimento. Nos desenhos do Vaticano se vê, copia de uma pedra

antiga, a imagem da Agricultura representada por uma Psyche, arrimada a

um sacho, e meditabunda.

Então o pastor folgou de cuidar que uma deusa o acompanhava occulta,

e o amava, defendendo-lhe o rebanho; que de dentro de cada arvore,

ao perpassar, lhe sorria uma Nympha; que outra despejava da urna

subterranea as aguas que o dessedentavam; que a aura refrigerativa das

séstas era vivente, e lhe furtava beijos fugindo; que a sua flauta fôra

inventada por Pan em hora de mágoas amorosas, e as suas cantigas eram

repetidas com ternura pela namorada de Narciso.

O semeador, lançando o grão á terra, commettia a sua subsistencia ao

coração maternal de uma beldade; o pomareiro encommendava a outra,

ainda mais beldade, encher-lhe os açafates e cestos para o outono; e o

vinhateiro via um menino, tão gentil como o proprio Amor, e um velho

tão folgasão como esse menino, andarem-lhe brincando por entre as cepas

para florescerem. O dia, derramava-o dos céos o deus da musica e dos

versos. Á scismadora melancolia das noites presidia, lá do carro da

lua, uma virgem candida, que de manhan andára caçando pelos bosques, e

de quem havia segredos... para se contarem ao ouvido das raparigas.

Assim se era amado, porque se amava; e se amava, porque se era amado.

Assim se ganhava animo para supportar a solidão; ou, por melhor dizer,

assim a solidão se transformava em sociedade; sociedade tão numerosa,

tão garrida, tão illustre, tão sensitiva, tão amavel, tão munífica,

sobre tudo, qual nunca jámais a poderiam ter os saráus das maiores

Côrtes, e dos maiores Reis.

* * * * *

Sob o astro esplendido do Christianismo tudo isso passou, como perante

o sol do estio desapparecem as multicores florinhas, que borboleteavam

por valles e oiteiros. O campo desenfeitiçado se consagrou por bellezas

mais severas; mas a solidão reappareceu em grande parte, e quiçá

mais profunda e melancolica, em derredor do camponez. É porque já se

aprendêra do Historiador da Creação, que a fertilidade só nascia do

trabalho, e que o trabalho era castigo da desobediencia; que a terra

não era patria, se não degredo, e a vida não estado, se não caminho por

valle de muitas lagrimas. Os frutos já não foram dádivas de nymphas,

sim esmolas, que a troco de suor e orações se lançavam lá de cima aos

necessitados, para elles as repartirem com os indigentes.

As novas festas campestres, as Rogações de Maio, a procissão das

Alleluias, não compensavam, para os sentidos, as sacras profanidades de

outro tempo.

Acudiram Musas do Cedron e do Jordão, successoras, e não herdeiras,

d’aquellas nove da Castália e Aganippe, e forcejaram por enthronisar no

campo das antigas divindades esvaecidas novos Genios mais formosos,

ainda que menos sensuaes; verdadeiros quanto á existencia, e só quanto

aos attributos fabulosos. Ás Dryades, Oréades, e Faunos, succederam na

tutella das arvores, dos oiteiros, e das planicies, Anjos invocados do

Empyrio pelas harpas germanicas do cantor delicioso de Abel, do cantor

sublime do Messias. Mas esses Espiritos custodios das plantas e das

aguas, das flores e das estrellas, em quem a imaginação creu, talvez,

em quanto ressoavam os accentos d’aquellas harpas, volveram aos Ceos

com Gessner e Klopstock, como os numes haviam volvido ao nada; e a

solidão campestre recomeçou; ou proseguiu.

O ideal da vida agricola achava-se pois abolido, e para todo sempre. A

obra das Musas do Líbano caducára, como a obra das filhas do Parnaso. A

arvore não era mais que um lenho verde; a fonte, agua; a terra, terra.

Acode a Sciencia, para repoetisar tudo.

* * * * *

A Sciencia da Natureza é nos tempos modernos um gigante, animado de

mil espiritos, armado de mil braços, guarnecido de mil azas, dotado

de mil ouvidos e mil olhos; engolfa-se, como aguia, por ceos e ceos;

colhe no vôo os cometas e os planetas, e lhes toma o pezo e a medida;

distingue na atmosphera imperceptiveis e subtilissimos fluidos, e os

senhoreia como a outros tantos Genios poderosos, constrangendo-os a

explicarem-se, e a servil-a; estende a vista senhoril pela superficie

do orbe, e impõe, como o primeiro homem, nome proprio a cada vivente

sensitivo, a cada planta, a cada composto, a cada elemento da materia

bruta e inerte, desde a colossal baleia, até o microscopico infusorio,

desde o giganteo baobab, até o pulverulento lichen, desde os alterosos

Andes, até as parcellas imponderaveis do simples mineral. Entre tantos

milhões de individuos, estabelece os _reinos_, determina as _classes_,

subdivide e forma _ordens_, reconhece os _generos_, caracterisa as

_especies_, e descobre as mutuas relações de nexo ou afastamento. Funda

preciosos inventarios de tantas riquezas, os _methodos naturaes_,

e os _systemas artificiaes_. Abysma-se nas profundezas da terra,

e reapparece com os documentos da historia do Mundo; medita-os, e

prophetisa o que lá vai, já nos incommensuraveis seis _dias_ do

Génesis, já nas eras subsequentes. Interroga a vida em todos os seus

mysterios: na geração, na reproducção, na conservação, no crescimento,

nas metamorphoses; aqui, lhe recebe a confissão de um segredo; além,

lhe arranca outro; conjectura todos; e muitos, por ventura lh’os

adivinha.

Ajudada das artes, filhas suas, nutridas aos seus peitos, entretece

industriosamente todos esses innumeraveis fios de luz, que de cada

ponto da materia lhe ressurtiram, e por suas combinações inesperadas

faz apparecer, de momento para momento, novos recursos para as mesmas

artes, novas forças e vantagens para o homem.

O campo, sondado pela Sciencia em cada camada do seu terreno, em cada

elemento dos seus adubíos, em cada gotta do seu orvalho, em cada

molécula dos seus gazes, em cada póro das suas plantas e animaes, em

cada tácita relação de tudo seu com os meteóros, com a electricidade,

com o frio e calor, com a luz e as trevas, com cada um dos ventos, com

cada uma das quadras, com cada um dos mezes, com cada um dos dias, e

horas do dia, o campo, repetimos, encerra pois mais poesia, poesia mais

bella, mais fecunda, mais vivaz, mais duradoira, que as antigas.

A arvore do pagão fôra nympha; e a do simples christão, simples meza

de caridade. A arvore para o sabio é um microcosmo de maravilhas; é um

pregão, não já mudo, de Sabedoria, de Poder, de Bondade sem limites.

* * * * *

¡Felizes nós, se, interpretando uma ou outra harmonia da Natureza,

podermos confirmar o camponez na sua religiosidade hereditaria!

¡Felizes, não menos, se nos ricos senhores crearmos, ou

accrescentarmos, o amor dos seus campos, e o salutar affecto aos

pobresinhos, que com o seu suor lh’os fertilisam! ¡se, tornando-lhes

aprasivel o rusticar, e descobrindo-lhes com Zimmermann os thesoiros da

solidão, contribuirmos para que alguns vão ser divindades veneradas no

seu torrão, e ensinar com o seu trato polidez aos filhos das aldeias

retemperando-se entre elles, e readquirindo algum pouco d’aquella

innocencia velha foragida das cidades! Que vendo nos seus bosques e

seáras alguma coisa mais que lenha e farinha, sintam que a Agricultura

é o parentesco, a amisade, a intimidade, o trato de mutuos beneficios,

entre o homem e a Terra sua mãe. Que repitam com Bentham: «A classe

dos que trabalham, se é a derradeira no vocabulario dos soberbos, é

no vocabulario da san Politica a primeira». Que muita vez, nos seus

passeios meditativos, exclamem enternecidos, como a Baroneza de Staël:

¡«Pobre gente! ¡meio silvestres, meio civilisados! mas os que d’entre

elles são virtusos, ¡oh! esses teem um genero de innocencia e bondade,

que lá nos mundanos se não acha.» Ou, reclinados ao sol posto no poial

da sua granja, revolvam calados aquellas palavras, com que a Biblia, na

sua maravilhosa simplicidade, nos encarece o viver facil do Povo eleito

no reinado de Salomão: «Comer, beber, e folgar, sem nenhuns medos, cada

um á sombra do seu parreiral e da sua figueira.»

¡Oh! e as mãos do que tudo isto chegar a dizer, ¡que venturas não

dispartirão tacitamente pelas agradecidas choças de tantos, que, em

meio de montes de riquezas, não tinham muitas vezes um pão negro para

os seus meninos!

«Quem faz amar os campos--escrevia Delille--faz amar a virtude.»

¡Oh ricos, ricos! ¡Quão pouco vos custára o ser ditosos, creando nos

outros alegrias para vós mesmos! ¡Quão facil vos fôra acabar com o

antigo pleito, que pende entre a penuria e a opulencia! ¡Quão facil,

e quão glorioso, o fazerdes (e não á vossa custa, se não até com

proveito vosso) com que os filhos, como vós, de uma terra fertil não

fugissem d’ella, para se irem comer pão de escravos, e estalar de

saudades em sertões longinquos!

Se amais o chão onde nascestes, creae e enraizae n’elle verdadeiros

lavradores.

Lavradores verdadeiros não são só os cidadãos mais productivos, mas

tambem os mais pacificos e patrioticos.

Janeiro de 1848

II

Sociedades de Agricultura

SUMMARIO

As associações agricolas hão-de diminuir as aversões publicas, e

restituir o amor do trabalho.--A Sociedade Promotora da Agricultura

Michaelense mostra o que taes sociedades valem.--Vantagens que já

tem dado.--O seu exemplo ha-de ser imitado, mesmo em Portugal.--A

convicção da necessidade de olhar pela Agricultura é já sentida

geralmente.--As regenerações politicas só serão verdadeiras

tendo por base a Agricultura.--Todas as revoluções teem origem

na bolsa.--Tributos devem-se exigir, proporcionando-se meios de

os pagar.--Os poisios deviam repartir-se pelos soldados.--Como

seria um bom Governo.--Aqui não entra «Politica» segundo hoje a

entendem.--Declaração de qual é a do autor.--Como as Côrtes e o

Governo podem felicitar sem custo a Nação.--Se elles o não fizerem,

façam-n-o os particulares, associando se.

Por um interessante periodico do Funchal, O _Madeirense_, vemos com

prazer, que tambem ali se torna a olhar com amor para a terra, _a

grande Mãe_, como philosophicamente lhe chamavam os Antigos.

A terra é o campo neutro, no qual, ainda hoje, se podem congregar

os animos, que as contendas sociaes dissociaram e lançaram a monte.

Não é senão no seio da Natureza immutavel, universal, inexhaurivel,

que os homens podem encontrar novamente a convivencia de ideias, e a

fraternidade, a que os leva o seu instincto, tanto como a sua razão.

Se o trabalho é a condição indispensavel de todos os bens, se a união é

a indispensavel condição de todo o trabalho de veras fecundo, ¿quem não

vê que as Associações agricolas, além do grande beneficio de tornarem

a enfeixar um pouco a familia humana, hão de promover o trabalho, Anjo

custodio de saude e bons costumes? O que as Associações agricolas

estão dando de si nos povos representantes e coripheus da civilisação,

é historia já tão publica e corrente, que ainda aquelles que a não

estudam a sabem pouco mais ou menos. Mas, preterindo, como logares

communs, a França e a Inglaterra, figuras obrigadas em qualquer pagina

dos nossos contemporaneos, como aquell’ outras de Grecia e Roma em cada

escrito dos nossos paes, préguemos á nossa gente com o exemplo, muito

mais persuasivo, dos «santos de casa.»

* * * * *

A Sociedade Promotora da Agricultura Michaelense é a demonstração

viva do que taes corpos valem, e podem, para o aperfeiçoamento dos

lavradores.

Nascida de hontem, se pode dizer, sem amparo algum externo, sem uma

dotação larga, para converter em factos a decima parte dos seus bons

desejos, constantemente a braços com as difficuldades dos tempos,

ainda não apreciada nem comprehendida na propria terra, e com mais

de metade das suas forças intrinzecas desaproveitadas, com um viver

intermittente, reduzida a hibernar por quasi toda a bella estação,

e no inverno mesmo só incompletamente concorrida de seus membros e

sem ouvintes para a animarem recolhendo-lhe o fruto das discussões;

n’uma palavra: não havendo tido, por si até agora mais que tres ou

quatro vontades perseverantes, mas inquebrantaveis, mas inflexiveis,

mas cheias de fé e amor, esta Sociedade contém já nos seus fastos

algumas paginas, que a gratidão da Historia ha-de doirar, e os futuros

lavradores beijar com enternecimento.

O rusticissimo horror das innovações agrarias, esse ridiculo espantalho

millanario de todas as ideias uteis, não se destruiu, porque não pode

destruir-se; mas vai recuando para dentro dos limites de uma prudente e

cautelosa espectativa; isto é: a curiosidade moderada, que não dá passo

sem primeiro palpar o terreno, mas que, apenas o sente solido, adianta

e assenta o pé para não retroceder, occupa já o logar do empyrismo

intolerante e indomesticavel.

Não se instruiu ainda o camponez; a tarefa de seculos não cabe em dias;

mas fez-se-lhe entrever a sua ignorancia; é uma grande passada no

caminho do Progresso. Fez-se-lhe conjecturar, por factos sensiveis, que

havia, fora da sombra do seu campanario, e mesmo dentro nas cidades,

amigos seus e da terra, habilitados pelo estudo para mestres e guias;

que os livros não eram todos sonhos vãos de charlatães, e que de muitos

d’elles sabiam raios, luminosos como os do sol, que fertilisavam a

terra largamente; que não havia sacrilegio em trocar a enxada de Adão

pelo instrumento só de hontem inventado, mas que multiplica as forças,

as horas, os frutos, as moedas, os ocios innocentes, e os praseres.

Insinuou-se a pouco e pouco, e sem rumor, nas praticas do serão da

Aldeia:

primeiro, a crença de que o Mundo era mais amplo que os confins da

parochia ou do municipio, e muita planta boa, e muito animal prestadio

opulentavam outros paizes, que, se viessem ao municipio e á parochia,

lhes accrescentariam os haveres;

que se podia produzir mais e melhor em frutos e materias primas, para

industrias que ao longe se enxergavam;

e que o pretender aperfeiçoar as raças brutas, as manadas, os rebanhos,

e os animaes domesticos, não era absurdo nem impiedade, pois que a tudo

isso se chegava sem mais feitiço que o entendimento que Deus nos deu.

Não queremos affirmar que o poisío secular, sêcco e maninho, dos

espiritos da população rustica se ache já desmoitado. Affirmâmos

porém, e poderia provar-se, que da fundação da Sociedade promotora

data um progresso notavel na Agricultura d’este paiz; que ha hoje ahi

em exercicio muito instrumento moderno de inquestionavel prestimo; que

alguma raça de animaes caminha para o aperfeiçoamento; que as plantas

preciosas estrangeiras são desejadas e bemvindas; que se vai pegando

a curiosidade do experimentar. N’uma palavra: um observador attento

e sagaz sente nas ideias rusticas o que quer que seja de vivaz, de

vegetativo, de medrançoso; semelhante ao que se percebe nas hortas,

de verão, pela calada da noite, quando ao luar se está suavemente

devaneando: um rumor vago e tenue pela folhagem; um cheiro suave de

vitalidade, que é circular de seiva, encorpar de hásteas, desabrolhar

de gomos, explicar de folhas, nascer de botões, abrir de flores,

enchar e amadurecer de frutos; são os fluidos impalpaveis do dia que

passou, que por ali se estão ás escuras corporificando para abundancia;

d’aquelle ruído sem nome, e quasi imperceptivel, é que lá para o

diante se hão-de acogular as eiras, encher os celleiros e os lagares,

assoberbar-se os carros, os portos, e os navios, nutrir-se os homens e

os animaes, as aldeias e as cidades.

Deixae continuar em sua acção a causa impulsiva d’este movimento, que

já se opera nos espiritos camponezes, e vereis as innovações cada vez

menos repugnadas, a sciencia pratica avantajada de anno para anno, e

com ella vir raiando um pouco tambem da sciencia especulativa, unica

fonte dos progressos ulteriores e indefinidos.

* * * * *

Felizmente, este exemplo grande e nobre que a Sociedade Michaelense

está dando a todos os dominios Portuguezes, e á metrópole mesma,

é grão lançado em terreno, que nos parece achar-se já devida e

sufficientemente preparado.

De toda a parte onde ha Portuguezes, isto é: de toda a parte onde

sobre um solo fertil negreja a penuria, saem gritos clamando pela

Agricultura ausente, como pelo ultimo e unico Messias terrestre; e

esses clamores, quando assim se tornam geraes, são sempre prophecia.

A convicção chegou a todos os animos: a uns pelo raciocinio, aos outros

pelo mero instincto; mas em todos está; em quasi todos clama; e já em

muitos se agita insoffrida, para se converter em obras.

Se os commodos da vida, isto é os deleites do corpo, os do coração,

e os do espirito, são o alvo a que tiram de longe, e de encontrados

pontos, todas as opiniões, todos os systemas, todas as parcialidades, a

Agricultura para Portugal deve (e não pode deixar de ser) havida pela

Politica suprema, pela Politica das Politicas; pois quando, renascida

e adulta, a nossa Agricultura nos houver feito laboriosos, abastados,

modestos, bons, unidos, e irmãos, então, e só então, é que as theorias

de _liberdade_ deixarão de fluctuar e transformar-se ao sôpro das

palavras, como as nuvens inconsistentes ao capricho dos ventos.

As instituições sociaes querem todas uma base; e não ha para ellas

alicerce, como é a terra a desentranhar-se em riqueza; tanto assim, que

o proprio regimen absoluto, e ainda o despótico, em quanto não faltam

ao Povo com pão e um pouco de recreio, permanecem, não combatidos,

nem quasi murmurados; ao mesmo passo que as mais philosophicas e

altisonantes constituições em terra faminta, isto é em terra pelos

homens desaproveitada, são victima, muitas vezes innocente, mas sempre

victima, dos irreconciliaveis odios da indigencia.

* * * * *

Não se ha mistér ser profundo sabedor na historia das revoluções, para

reconhecer que todas ellas, proxima ou remotamente, teem na bolsa a

sua origem; assim como é evidente, que em quasi toda a parte é a terra

trabalhada quem enche a bolsa; ou, pelo menos, que é só ella quem,

enchendo-a, pode prometter com affoiteza conserval-a cheia.

Um dos mais deploraveis erros, se não o mais deploravel, é procurar

acudir aos males produzidos pela miseria, extorquindo aos proprios

miseraveis com uma das mãos o que depois, bem ou mal, em todo ou em

parte, se derrama sobre elles. O Thesoiro publico só é abastado, ou,

mais verdadeiramente, só ha Thesoiro publico, onde se não é obrigado a

arrecadar para elle sangue, lagrimas, e maldições.

Os tributos são uma necessidade; mas para os Governos justos e

previdentes não no é menor subministrar aos governados meios de

producção, com que satisfaçam aos tributos.

Facilitae-me encher a minha tulha, e pedi-me embora metade d’ella para

remir o desamparo dos meus visinhos. Mas se pela minha porta aberta não

vedes, em toda a minha poisada terrea, nem lume, nem pão, nem assento,

nem mais vestido que os andrajos que andam no corpo, não me vendais

para o tributo o bercinho nú do filho, e a enxerga desconchegada da

mãe; não m’os vendais que o não quer Deus; não m’os vendais, não m’os

vendais, que por um tostão ou dois os havereis matado a elles e a mim,

e á vossa consciencia tambem; e todos estes mortos se alevantarão á

hora prescrita, para matarem a vossa causa.

Se os haveres são o sangue do corpo social, e se o corpo social jaz por

debilidade, ¿pensaria alguem cural-o abrindo-lhe as veias e as artérias?

Em quanto houver terras devoluto, a dar cardos e urzes em logar de

trigo e azeite; em quanto houver braços com ociosas armas ás costas,

ou encruzados sobre o peito descarnado; em quanto não repartirdes

esses braços por essas terras, e essas terras por esses braços, com um

alvião, um punhado de sementes, dois ou tres cruzados para uma choça

de colmo, um cathecismosinho de Agricultura, e uma boa isenção de

direitos até que a abençoada plantação se desate toda em frutos; em

quanto fordes tolerando que o vicio, o ruim exemplo, a indiligencia,

e a ignorancia, lancem quotidianamente na voragem sempre crescente da

prostituição milhares de moças, nascidas com entendimento e coração

para mães de familias, e a maior parte das quaes o haveriam ido ser, se

o seu hediondo celibato não fôra effeito necessario do celibato forçado

de tantos homens; em quanto, pelo concurso de tamanhos desconcertos,

deixardes que permaneçam estereis, despresadas, e despresiveis, as duas

mais formosas e mais santamente productivas coisas do mundo, a terra,

e o seio da mulher; sereis mendigos a governar mendigos, sereis loucos

a vexar attribulados.

Podereis chamar-vos Governo, segundo o Direito constituido, e pelas

trombetas de uma parcialidade, da vossa; mas pela Natureza, mas pela

philosophia, mas pelo vosso proprio senso intimo... nunca merecereis

tal qualificação.

* * * * *

Damos por superfluo declarar que, se algum nescio, ou maligno, vir

d’isso a que ahi chamam _Politica_ nas poucas linhas que deixamos

escritas, não foi absolutamente nossa intenção, nem o é, nem o será

nunca, descer das alturas serenas e claras do raciocinio até essas

escuras e lodacentas encruzilhadas.

Não processâmos nenhum homem, nenhum bando, nenhum systema; ou

processâmol-os todos.

Hoje (comprazemo-nos de o repetir) não commungâmos senão á Meza

catholica da Philosophia. Todas as variações protestantes da egreja

politica liberal nos são desconhecidas. Lançâmos ao ar e ao vento as

palavras de bom conselho, com hombridade e sem odio, como todos devem;

é a nossa consciencia a respirar alto.

A parcialidade que fizer obra do que nós só fazemos discurso, será

essa a que nós bemdiremos. Os primeiros estadistas, que arvorarem

por estandarte na ponta de sua lança sem ferro a relha da charrua e

o sacco da semente, serão os que nos movam, sem que nol o peçam, a

irmos á urna; e á fé que não votaremos senão por elles, porque esses

nos haverão feito acreditar na edade de oiro. A edade de oiro não está

no passado, como a sonharam os poetas, mas no porvir, e bem proxima se

o quizermos. Não ha de baixar do Ceo com deuses, mas ha-de rebentar

da terra com frutos e creanças, quando os homens se encurvarem para a

invocar.

* * * * *

Segundo os axiomas que deixamos tocados, grandes, imperiosos, e

urgentissimos são os deveres, que ás autoridades executivas e

legislativas incumbem, de remover obstaculos, e proporcionar meios para

que a Agricultura nacional se levante e cresça, com aquella espantosa

rapidez, com aquelle vigor prodigioso, que todas as coisas nobres

assumiram sempre em nossa terra, quando de veras as quizemos.

Legisladores e governantes, dizei «Faça-se»; de todos os cantos da

Monarchia se repetirá em milhões de eccos: «Faça-se». E far-se-ha. E o

Povo Portuguez reapparecerá aos olhos do mundo tão grande e magnifico

nos seus trajos de lavrador, e coroado de oliveira, como outr’ora

soldado e conquistador, coroado de loiros, e cicatrizes; mas com uma

vantagem summa na sua nova transformação: que as conquistas e pelejas

o matavam afogado em oiro e sangue; em quanto a Agricultura o haverá

remoçado como o Esão da fabula, e opulentado do oiro vegetal, unico

oiro que sustenta e se semeia para mais oiro.

Pois se acha emfim conhecido o caminho largo e facil que nos ha-de

levar á felicidade; pois que tantos desejos o devoram já em espirito,

¿por que não nos poremos desde hoje em marcha para a conseguirmos

quanto antes?

Se os Legisladores, se os Governantes, se as supremas Autoridades

não souberem, ou não poderem, ou não ousarem, collocar se á nossa

frente; se houver interesses, que se lhes representem maiores do que o

interesse maximo; saibâmos e ousemos nós, nós os cidadãos, nós o Povo,

nós que o podemos, progredir sem mais impulso que o nosso instincto

salvador, sem mais guia que a razão demonstrada. Tambem uma columna de

luz levou o Povo eleito, atravez do deserto, para a Terra da Promissão.

¿Quem nos dará força? a associação. ¿É ella possivel? facilima.

¿Como se organisará?

Vamos vel-o.

Agosto de 1848.

III

Continuação do assumpto

SUMMARIO

O Jornalismo deve ser prégador da fraternidade agraria, exhortador

e mestre de cultura, sendo o _Diario do Governo_ quem dê o

exemplo.--Como se formou a Sociedade Promotora da Agricultura

Michaelense, podem outras formar-se e imital-a.--Uma Sociedade

Promotora para cada cidade em que houver centro episcopal e

administrativo.--Sociedades filiaes fomentadas por ambos estes

poderes.--Relações mutuas entre as primeiras e as segundas.--Quadro

dos resultados provaveis de tal systema.--Para a sua realisação

bastam os cidadãos, sem auxilio do Governo.--Desenho geral da

proposta machina de Sociedades, e descripção do seu jogo.--Indicação

de meios pecuniarios para a manutenção d’estas Sociedades.--Summa

conveniencia de um Ministerio dos negocios da Agricultura.--O que se

tornaria Portugal, realisados todos estes alvitres.--Deseja-se que no

Parlamento se alevante um homem.

Antes de tudo, é necessario que a Imprensa, representante n’este caso

da opinião publica, tome a si o excital-a ainda mais, o esclarecel-a

sobre os meios, o alvitrar, o discutir, o convencer os incrédulos, o

afervorar os tibios; emfim, que procure compenetrar-se de profunda fé,

para a transmittir egualmente profunda a seus ouvintes; armar se de

constancia, de pertinacia, de _fanatismo_ (se é licito dizel-o) até ver

consumada a regeneração.

Felicidade pela Agricultura (Vol. I) · 第 1 / 10 段