Exploração entre o rio Negro e os Morros

No dia 25 de Fevereiro, passando o rio Negro n'uma pelota,

transportámo-nos para a sua margem esquerda, baixa, paludosa e coberta

da mesma vegetação que já tinhamos achado do outro lado. Por espaço de

um quarto de legoa lutámos n'ella com os obstaculos provenientes das

enchentes do rio, sendo obrigados a novas passagens, em pelota, de

corixas cheias e pyrisaes (lugares inundados) e á marcha em terreno

sempre humido e atoladiço. Abre-se depois o campo com cerrados ao longe,

e achámo-nos na base da serra de Maracajú, que era o nosso unico meio de

direcção na procura da trilha, que dizião ter sido aberta pelos

fugitivos de Miranda, na invasão d'este districto no anno passado. Com

effeito avistavamos uma longa e continuada serrania que tinhamos de

deixar á esquerda, fraldejando a sua aba e fugindo ás aguas que cobrião

a estrada seguida no tempo secco até o rio Aquidauana.

A questão era examinar a qualidade de terreno, em que tinhamos de

marchar e saber das vantagens da abertura de um caminho para a força nos

seus primeiros movimentos para o Baixo-Paraguay.

Seguindo pois o rumo S., desde as primeiras horas de marcha,

reconhecemos as difficuldades que tinhamos de vencer na procura

d'aquella supposta trilha e dos vestigios da passagem, bem que recente,

de um homem a cavallo, apagadas de todo ou pelas chuvas ou pelas pégádas

do gado que vaguêa pelos campos, indo a final esbarrar em uma mata tão

cerrada que roubou-nos boa porção do dia, não nos permittindo caminhar

mais de legoa e meia. No pouso verificámos que a carne secca, que

haviamos preparado no Potreiro para a nossa viagem, calculada em oito

dias, pelas passagens nas corixas e pela muita chuva dos dias

anteriores, achava-se de todo deteriorada. A impossibilidade de termos

recursos d'aquelle lugar, pois que a ultima porção de gado recolhido,

fôra levado da fazenda do Retiro para o Coxim e a esperança de podermos

matar alguma das rezes que encontravamos, não nos permittírão duvida

sobre o que deviamos resolver. Dous dias depois caminhando sempre, ora

em terreno pantanoso e atoladiço, até a fralda da serra, ora em cerrados

de difficultosa passagem, achavamo-nos com todos os recursos de boca

completamente esgotados e com a certeza desesperadora da quasi

impossibilidade em matarmos á bala rezes, completamente selvagens e

ariscas.

Os nossos males crescêrão com a fuga de todos os animaes, o que nos

reteve nas mais crueis necessidades, junto ao corrego da Afflicção,

durante dous dias nos quaes sustentámo-nos de fructos silvestres, que os

soldados podérão colher. Conseguindo no terceiro dia alguns dos animaes,

proseguimos viagem deixando quatro d'elles perdidos e canastras

escondidas na mata proxima, alimentando-nos desde então por oito dias de

miôlo de palmeiras e de alguns fructos do mato, soffrendo sempre chuvas

torrenciaes e contrariedades. Em todo este tempo fizemos apenas 11

legoas, apezar de andarmos dias inteiros, ora rodeando charcos

perigosos, ora abrindo picadas em cerrados de intrincadissima taquára.

Em parte alguma viamos uma trilha seguida: quando nos suppunhamos

perdidos, deparavamos algum rancho abandonado, uma arvore cortada, um

signal que indicava acharmo-nos no rumo seguido pelos fugitivos, os

quaes, sem duvida, tiverão interesse em occultar os seus vestigios,

acoçados dos paraguayos, que demandavão o mesmo caminho, como o vimos

pelos signaes de acampamento de forças. Tomando afinal o rumo O. fomos

trilhar a parte, transitavel hoje, do caminho do pantanal, onde podémos

dar fim aos nossos soffrimentos, conseguindo carnear uma rez. No dia 10

passámos o rio _Tabôco_ que achámos de nado e, visitando no dia seguinte

o aldeamento dos indios na Piranhinha, chegámos no dia 11 ao

arranchamento do cidadão João Pacheco de Almeida, onde tivemos

recebimento hospitaleiro e sympathico e onde nos achamos agasalhados.

Scenas de viagem Exploração entre os rios Taquary e Aquidauana no districto de Miranda : memoria descriptiva · 第 43 / 64 题