No dia 13 de Fevereiro passámos, defronte do acampamento goyano, o rio
Taquary e margeando-o á esquerda, fomos, pela necessidade de descanço em
consequencia do grande nado a que tinhão sido obrigados os animaes,
pousar junto ao ribeirão da Fortaleza, com 20 minutos em tempo de
distancia percorrida. A sua margem esquerda é escarpada e necessita ser
rampada para a descida de carros; a direita é baixa e arenosa como o
alveo d'este tributario do Taquary, que, depois de grandes chuvas, nega
passagem a váo. Conta de largura 50 palmos, de profundidade 3, 1-{1/2}
por segundo de velocidade e a elle segue-se uma mata onde existem varias
rampas que podem ser facilmente vencidas. Deixando pelo lado esquerdo o
Taquary e seguindo parallelamente ao seu confluente, o Coxim, que, pouco
depois, desapparece, começámos a acompanhar o Taquary-mirim, o qual ora
afasta-se, ora approxima-se muito perto do caminho, transpondo-se com 32
minutos de marcha um pequeno corrego, cujas ribanças necessitão ser
modificadas, e d'ahi a 43 milhas, outro nas mesmas condições. Com mais
41 minutos passámos um ribeirinho cujos barrancos devem ser cortados
para facilitar a passagem, e pouco depois chegámos á cachoeira do
Taquary-mirim (pouso dos Boritys), junto á qual existem vestigios de um
acampamento dos paraguayos e onde pernoitámos.
A distancia percorrida foi sempre em terreno secco, de base
argilo-arenosa, entre cerrados em que predominão _anonaceas_ (araticús
do campo) e varias especies de _byrsonima_: o caminho é uma simples
trilha, muito visivel porém e sempre seguido.
Tempo gasto 4 horas e 32 minutos.
[120]Distancia percorrida 8,265 braças, ou 2-{3/4} legoas proximamente.
Deixando o pouso dos Boritys que offerecerá um acampamento regular para
as forças em marcha, com 36 milhas de marcha fomos ter ao corrego da
Porteira, a 77 minutos do qual passámos outro, chegando ao ribeirão da
Mata depois de caminharmos mais 95 minutos. A 50 braças antes d'esta
corrente, existe um terreno baixo que ha de tornar-se alagadiço com a
continuação de chuvas, podendo ser praticada, n'este caso, uma extensa
estiva pelo muito mato, que cobre as margens do ribeirão.
O leito d'este é arenoso; a largura média de 50 palmos, 2 de
profundidade, chegando a negar váo no tempo de grandes enchentes. Ahi
podérão acampar as forças depois de ter sido facilitada a passagem,
rampando-se a margem esquerda.
Tempo gasto 4 horas 0 minutos.
Distancia percorrida 7,285 braças, ou 2-{8/2} legoas proximamente.
A 16 minutos do ribeirão da Mata, existe uma casa abandonada, proxima a
um capão, denominado Tapera, assim como o corrego, que, pouco adiante,
dirige-se para E. entre margens pouco firmes, permittindo porém a
proximidade do mato fazer-se de prompto uma estiva para a passagem de
cargueiros e carros. D'ahi a 8 minutos passámos um pequeno pantano de 30
braças, que póde dar boa passagem, se as chuvas não augmentarem e o
tempo tornar-se secco; devendo ser este espaço estivado no caso
contrario. Continuando, atravessámos o ribeirão Claro, cujas margens
altas e nemorosas precisão ser melhoradas, com leito pedregoso, largura
de 35 palmos e profundidade de 1-{1/2}. Depois de chuvas continuadas
impede o transito. Depois de 110 minutos chegámos ao ribeirão Verde que
tem margens abruptas, cobertas de mato, leito de grandes lages, váo
pessimo para a passagem de animaes carregados. Tem de largura 65 palmos,
3-{1/2} de profundidade, augmentada porém, durante as aguas, a ponto de
vedar o transito.
A força póde acampar em sua margem direita depois de rampados os
barrancos que encanão este ribeirão.
Tempo gasto 3 horas 0 minutos.
Distancia percorrida 5,463 braças, ou 1-{1/3} legoas proximamente.
Sahindo do ribeirão Verde, passámos com 63 minutos de marcha um bosque e
d'ahi a 30 minutos a mata ou capoeira do Major com abrupta descida que
vai ter a um pantano, em que gastámos 5 minutos, seguindo-se nova mata e
outro almargeal cortado tambem por mato. O terreno começa a subir:
torna-se pedregoso e entra-se no Portão de Roma: pessima e difficultosa
passagem embaraçada com grandes lages e rochas que se achão na trilha
que serve para a viação. As carretas dos paraguayos passárão por este
desfiladeiro: entretanto será necessario um trabalho preliminar ou um
desvio para conseguir-se facil transito. Continuando a caminhar,
margeámos um lugar pantanoso logo abaixo do serrote e com mais 44
minutos fomos pousar no Lageadinho, onde um pequeno lagrimal dá agua em
toda esta estação.
Tempo gasto 3 horas e 49 minutos.
Distancia percorrida 6,951 braças, ou 2-{1/4} legoas proximamente.
Deixando o Lageadinho, passámos um lagrimal depois de 65 minutos de
marcha e com mais 65 o corrego do Castelhano, entrando d'ahi a 15
minutos n'uma mata, atravessada por um filete d'agua, seguindo-se
outras, cortadas, de distancia em distancia, por campos dobrados até o
corrego da Volta, onde poderá formar-se o acampamento das forças.
Tempo gasto 5 horas e 19 minutos.
Distancia percorrida 9,683 braças, ou 3-{3/2} legoas proximamente.
Do corrego da Volta, com 41 minutos de marcha passámos n'um matagal, e
com mais 32 minutos o ribeirão do Perdigão, cujas margens hão de
necessitar de concertos para a facil transposição.
D'este ribeirão, com 44 minutos, entrámos na mata dos Jaós, de 3 minutos
de extensão, onde os paraguayos deixárão uma canôa, que poderá servir
para a passagem do rio Negro, caso seja concertada e transportada para
aquelle ponto. Com 65 minutos chegámos ao corrego da Cachoeirinha, e,
d'ahi ao corrego Fundo, gastámos mais de 40 minutos. Poderá acampar a
força, depois de feita uma estiva nas margens pouco firmes d'este
corrego.
Tempo gasto 3 horas e 46 minutos
Distancia percorrida 6,860 braças, ou 2-{1/4} legoas proximamente.
Com 119 minutos de marcha fomos do corrego Fundo a um pequeno olho
d'agua, d'ahi a 77 minutos a um lagrimal e com mais 81 minutos ao rio
Negrinho, passando antes por um terreno baixo e alagado. O rio dá váo
commodo no tempo secco: n'esta estação, porém, a profundidade é de 7
palmos, sendo a sua largura de 63. Uma arvore cahida, de uma margem á
outra, servio-nos para a passagem das cargas, e com pouco trabalho
ter-se-ha uma boa pinguela. O váo acha-se a 30 braças mais ou menos
acima do lugar em que está a arvore, subindo pela margem esquerda. O
acampamento na margem direita, depois de passar a mata, é melhor, ainda
que mais distante da agua.
Tempo gasto 4 horas e 37 minutos.
Distancia percorrida 8,408 braças, ou 2-{3/4} legoas proximamente.
Deixando a margem esquerda do rio Negrinho, depois de passarmos pela sua
mata (onde existem depressões, chamadas _corixas_, que ficão cheias
d'agua e dão nado durante as enchentes), fomos ter, com legoa e meia de
viagem ao Potreiro, pequeno rancho na fazenda dos cidadãos Antonio Alves
Ribeiro, e Tiberio, onde não encontrámos além do gado, que não póde ser
reunido por falta de cavalhada, recurso de qualidade alguma para a
força, nem pessoal para trabalhar na construcção de canôas para a
passagem do rio Negro. D'este ponto até o rio, o caminho apaga-se quasi
completamente; é apenas uma trilha mal aberta por alguns fugitivos de
Miranda, a qual atravessa grandes pantanaes, duas corixas cheias,
charcos e mata muito cerrada. Se os meios para passar o rio estiverem
promptos, deverá a força ir acampar na margem do rio; no caso contrario,
demorar-se-ha junto ao Potreiro.
Tempo gasto 4 horas e 48 minutos.
Distancia percorrida 8,742 braças, ou 3 legoas proximamente.
A passagem para a infantaria é sempre commoda e facil até o Potreiro;
para os carros, porém, e bagagem será necessario rampar as margens das
correntes que atravessão o caminho e fazer estivados em differentes
pontos. Nas matas, e nos cerrados, ha páos e taquaras que embaráção o
transito; pelo que deverá ir, sempre dianteiro á força, um certo numero
de homens armados de machados e fouces, para removerem estes obstaculos.
Do Potreiro, porém, ao rio Negro, até para homens a pé, o caminho é de
difficil viabilidade, e necessita ser aberto e melhorado para o
transito.
Com excepção do Portão de Roma, proximidades do Lageadinho e margem dos
corregos e ribeirões, os declives do caminho são sempre bons: o leito é
uma estreita trilha, argilo-silicoso, quasi sempre secco até pouco
adiante do Potreiro.
Achamo-nos hoje na margem do rio Negro, sem termos encontrado guia para
o caminho que segue a fralda da serra de Maracajú até a aldêa da
Piranhinha, o qual os soldados desconhecem, e vamos encetar viagem á tôa
e sem indicações certas.
Margem esquerda do rio Negro, 25 de Fevereiro de 1866.