A atitude da Nação perante os resultados da revolução de 5 de Dezembro
não é nem podia ser aquilo que sonharam os seus autores.
A Nação, perante a revolução de 5 de Dezembro, fez o que é muito próprio
do povo português: deitou foguetes, pôs bandeiras nas janelas, deu
palmas, veio para a rua dizer coisas bonitas,--toda a expansão do
meridional satisfeito. Por toda a parte, a pessoa do Presidente da
República foi festejada. Estabeleceu-se uma alegria tão grande, como se
El-Rei D. Sebastião tivesse voltado...
Eu nunca fui homem que acompanhasse as aclamações da multidão; todavia,
quando o Sr. Sidónio Pais regressou da sua viagem ao norte, fui ver a
sua chegada.
Quando o vi entrar no Rossio, e assisti às aclamações que lhe faziam, eu
senti que era muito melhor que lhas não fizessem, porque o colocavam
tão alto que eu temo pela boa conclusão da sua obra. Não era um simples
oficial de artilharia, comandante de forças revolucionárias, que
chegava: era mais alguém, era personalidade mais majestosa; era quase um
César, faltando-lhe só trazer Afonso Costa preso por uma cadeia, como na
antiga Roma se fazia aos escravos...
Esta altura em que puseram o Sr. Sidónio Pais dá bem a nota do estado de
alma da Nação, da facilidade com que o país se desvaria, e eu receio
muito pelas perturbações nervosas causadas pelas alturas naqueles a quem
as multidões tão alto erguem...
Esse entusiasmo indescritível era meramente teórico e não passou disso;
mas, repito, não é só de aclamações, vivas, lenços e flores, que os
governos necessitam para realizarem a sua obra com energia e decisão.
A Nação deve pensar bem que não é desta forma que se resolvem as
questões pendentes, não é desta forma que se resolve o problema da
nacionalidade a que logo me referirei.
Longe de mim a intenção de empanar a obra gloriosa de 5 de Dezembro,
tanto mais que nunca será suficientemente grande a gratidão que possamos
e devemos afirmar ao homem que conseguiu fazer uma coisa que até ali
ninguém tivera a coragem de realizar: arrostar com Afonso Costa.
A situação era assim parecida com a que nos oferece uma larga praça onde
numerosa garotada se apedrejasse e apedrejasse os transeuntes pacíficos
e indefesos. Não podíamos atravessar essa praça sem correr o risco de
sermos atingidos pelas pedras. Havia, é certo, uma esquadra de polícia;
mas os seus agentes não se arriscavam a pacificar a praça e a garantir a
integridade da cabeça aos que passavam. Por fim, aparece um mantenedor
da ordem com seus agentes: é o Sr. Sidónio Pais: corre, afasta, domina a
garotada. Ela, porém, existe ainda, embora longe, para lá das
embocaduras das ruas... Só quando ela desaparecer, se poderá então dizer
que a ordem está completamente mantida.
O prestigio do Sr. Sidónio Pais apoia-se num facto puramente negativo: o
terror do democratismo. A sua situação por ora é apenas a de um
mantenedor da ordem que nos guarda, e a quem defendemos para que nos
guarde.
Ora não há só o problema da ordem a resolver: há o problema financeiro,
o problema económico e o problema internacional que é gravíssimo. Pode o
Sr. Sidónio Pais resolvê-los ou resolver algum deles? Não sei; mas só a
resolução certa de todos eles ou de alguns lhe dará a categoria de
estadista, e colocará legitimamente num alto pedestal a quem o
conseguir. Para esse desiderato, devemos reservar todas as nossas energias.
Somos um povo messiânico... Mas porque não pôde ainda ser outro o apoio
da Nação? Porquê? Vamos vê-lo.