O fabricante inglez chamou-lhe: «_Master Nicoláo de Mesquita._»

Ernesto, como se lhe dessem com uma bala na face esquerda, voltou a

cabeça á direita, e perguntou em inglez:

--É de Portugal este _a knight_ (cavalheiro)?

--Sim, das visinhanças do eden do vinho--respondeu o industrial.

Mediu-o de alto a baixo.

Nicoláo estremeceu involuntariamente, e perguntou:

--É inglez, o senhor?

Ernesto não respondeu. O britanico é que disse:

--É francez. E eu lhe apresento mr. Ernesto Froment, honrado mercador

de algodões.

Nenhum dos apresentados se moveu. O inglez espantou-se, e disse entre

si: «_Inelegancy! improper!..._»

Ernesto Froment saíu, sem inclinar a vista a Nicoláo.

Smitt ou John perguntou ao portuguez a significação d’aquella frieza.

Mesquita respondeu com um sorriso, e uma lividez de torvação espavorida.

Subiu com o filho aos aposentos das ladys, e, convulso de lagrimas,

pediu que lhe não desamparassem o filho, se elle morresse.

Alvorotaram-se as senhoras, e a um tempo interrogaram a terrivel

presumpção de morte breve. Nicoláo gelava com a sua taciturnidade.

Cuidaram as damas que o secreto desgosto da existencia d’este homem lhe

transtornára o espirito. Relataram ao honrado velho as lagrimas e rogos

do portuguez.

O commerciante foi procurar Ernesto Froment, e pediu-lhe

encarecidamente o mysterio da sua vida com a de Nicoláo de Mesquita.

O francez fingiu estranhar a desconchavada pergunta; porém, instado

pelo commovido inglez, contou a sua vida, desde a infamissima perfidia

de Nicoláo, seu commensal durante a emigração, até á escaleira de

opprobrios a que descêra, despedaçando o trabalho de seus paes, para

esquecer a affronta.

O inglez chorava, e odiava Nicoláo de Mesquita.

--Qual é agora o seu intento a respeito do portuguez? perguntou o velho.

--Matal-o!

--Oh!...--exclamou Smith ou John.

--Matal-o inevitavelmente!--repetiu Ernesto.

--Oh!...

Passada uma breve pausa, o inglez saíu, dizendo-lhe:--espere-me duas

horas que eu venho.

Antes das duas horas, entrou o inglez no escriptorio de Ernesto

Froment, com um menino de dez annos pela mão, e disse enternecido a

prantos:

--Este menino é filho de Nicoláo de Mesquita, e vem aqui de joelhos

pedir a vida de seu pae.

Martinho ajoelhou. Ernesto levantou a cabeça, estendeu a mão ao

fabricante, e disse em voz tremente:

--As nossas negociações estão fechadas.

--Oh!... porque?

--Porque me retiro ámanhã de Inglaterra.

Assim foi. Ernesto saíu para Italia.

O inglez, porém, procurou Nicoláo, entregou-lhe o menino, e disse-lhe:

--A sua vida não corre perigo, senhor Nicoláo; tenho, porém, a

observar-lhe que não posso ser seu amigo, nem a minha casa póde

recebel-o.

Fez uma breve cortezia, e sahiu.

O esqueleto: Romance · 第 48 / 62 题