Este enorme escandalo estrondeou tres semanas, e caiu á voragem
silenciosa dos factos consummados. Corridos tres mezes, a fugidiça
estava em Lisboa com a mãe; e Raphael Garção, de volta de Hespanha,
entrára ás escondidas em Fayões, e lia romances no seu gabinete. O
coronel, corrido do vexame, pedira transferencia para o Alemtejo.
Raphael tinha pae e mãe, que incessantemente offereciam ao Eterno o
calix de suas dôres em desconto do peccado da má educação, que haviam
dado ao filho. A mãe, temerosa do juramento que o general fizera
de matar Garção com a espada do Bussaco, alternava, com o marido,
sentinella ao filho para elle não sair de casa. O velhaco, assim que
as atalaias, por noite velha descuravam a sobre-rolda e ressonavam,
saltava da janella ás espaduas do criado confidente, e ia refrigerar a
cabeça, exercitar a força musculosa, e beber a sorvos os perfumes da
manhã.
Assim devia presumir-se até de madrugada de um dia em que elle voltou
com as costas crivadas de chumbo e uma orelha farpada. Extrairam-lhe
as balinhas, e cicatrisaram-lhe as orelhas. Passados dias entrou n’um
recolhimento de Villa Real uma filha de um boticario de Fayões, e então
se aventou que Raphael Garção topára no pharmaceutico a fôrma do seu
pé, como lá dizem.
Martinho Xavier foi a Palmeira contar este escandalo supplementar.
Nicoláo riu-se e disse:
--Ha doidos que se fazem perdoar e estimar! As tolices de Raphael têem
graça.
--É preciso ouvir-t’o, para se crer que fallas de Raphael com tão
absurda sympathia!--censurou Martinho.--E jámais, ajuntou a meia voz,
na presença de tua mulher: Isso desauthorisa a gravidade de teus annos
e estado, primo Mesquita!
--Valha-te Deus, Martinho! redarguiu o morgado. Tu vens a ser muito
rabujento, homem! Pareces um ancião com o barbaçudo aprumo de um
patriarcha! És inexoravel com os moços e principalmente com teu
sobrinho!... Quantas capas deixaste tu ficar por mãos impudicas, ha
vinte annos, quando te eu conheci o primeiro casquilho de Chaves e seu
termo?
--Não pratiquei desafôros! Atalhou Martinho.
--Graças á tua boa indole, e ao captiveiro do coração em que te teve
seis annos a minha bella prima com quem casaste. É preciso perdoar
aos rapazes, que não podem reconstruir o seu temperamento, nem
remediar aos vinte e tres annos os vicios da educação. Raphael não é
despresivel, quanto se te figura; é digno de dó. Vem pagar o que eu não
sei bem se é culpa d’elle. Os doidos da bitóla de Raphael teem sempre
o mau sestro de encontrarem doidos da mesma natureza. Cumpre ponderar
esta notavel attenuante, primo Xavier. O mundo não faz d’isto cabedal,
nem desconta. Se Raphael attentasse em mulheres morigeradas, não
descobria a esposa do coronel, nem a filha do boticario.
--Foram seduzidas! bradou Martinho.
--Pois isso é claro! Toda a mulher precisa que a seduzam; e se a não
seduzem, trata ella de seduzir-se a si mesma.
--Regra geral, portanto!
--Regra geral para as mulheres desviadas do caminho da honra.
--E entendes que Raphael tão somente pode perder as desviadas?
--Cuido que sim.
--E as honradas são invulneraveis?
--Como o calcanhar do heroe de Homero.
--Estás gracejando... Chega-me aqui o ouvido.
Nicoláo inclinou-lhe a orelha, e Martinho segredou:
--A Margarida Froment estava desviada do caminho da honra quando a
perdeste?
Nicoláo retraiu de salto a cabeça, e não respondeu.
Beatriz descórou, suspeitando loucamente uma revelação horrivel.
Cessou a polemica.
Estavam no mez de junho.
Beatriz lembrou um passeio á feira annual de Santo Antonio a Villa
Real. Martinho Xavier acompanhou-os.
Nicoláo e a mulher compravam objectos de oiro n’uma barraca. Raphael
Garção passava e viu-os, e parou. Casualmente voltou a face Beatriz, e
expediu um grito. Vira-o, e tremêra no braço do marido. O morgado olhou
em roda de si, e perguntára:
--Que foi?
--Pisaram-me...--disse Beatriz.
--Canalha! bradou rancorosamente o morgado no rosto das pessoas mais
chegadas ao balcão do ourives.
Passaram a outras barracas.
--Espera! disse com alvoroço Nicoláo.--Queres tu vêr o primo Raphel?!
--Onde? perguntou ella serenamente.
--Além! aquelle sujeito de jaqueta de alamares, e botas á Frederico.
--Parece-me que é.
--Vamos ter com elle.
--E se o pai está por ahi?
--Que importa?
--Bem sabes que nos faz um sermão.
--Ouviremos o sermão com devota paciencia. Vamos ouvir este sublime
doido... Elle olha para nós... reconhece-nos...
E chamou-o com um aceno.
Raphael avisinhou-se: faltava-lhe ar, como se o coração, dilatado pelos
arquejos, lhe tomasse todo o peito.
--Venha cá, D. João, venha cá!--disse com alegre sombra Nicoláo--que é
feito de si, homem perdido?
Raphael cortejou grave e cerimoniosamente a prima; abraçou o morgado, e
respondeu solemne:
--_Homem perdido_... é o nome que justamente me frisa. Perdido como
todos os homens que atiraram o coração ás sarças de desesperança.
--Que estylo!--atalhou Nicoláo, e que merencorio gesto você está
fazendo! Tire lá essa mascara dos quarenta annos, e seja rapaz emquanto
seu tio Martinho não apparece por ahi.
--Está cá meu tio?
--Está... respondeu Beatriz, levantando do chão os olhos em que Raphael
viu um vidrado de lagrimas.
--O primo Raphael que faz aqui? perguntou o morgado.
--Nem eu sei, sinceramente lh’o digo.
--Sei eu, e bom será... que o boticario de Fayões o não saiba...
O moço não abriu leve sorriso; abaixou os olhos e murmurou:
--Seja generoso, primo Nicoláo. Eu não espero da sua mão a esponja do
fel. Creia que tenho sido muito desgraçado, e perdoe-me não ter podido
ser feliz.
Apertou a mão da prima, abraçou ligeiramente o morgado, e afastou-se
velozmente.
Nicoláo quedou-se immovel e silencioso.
D’ahi a segundos disse a Beatriz:
--Creio que teu primo é sinceramente desgraçado!...
--Parece... Como está magro e pallido!
--E talvez não tenha um amigo!... um amigo sincero que o defenda de
novos pricipicios... Quem me dera poder vellar o destino d’este rapaz!
--Pobre moço!... murmurou Beatriz, embebendo as lagrimas no lenço.
--Não te afflijas assim, menina. Se eu lhe não fallar, hei de
escrever-lhe. Está em excellente idade para rehaver os creditos
perdidos, e depois, é rico; a riqueza é meia rehabilitação, quando não
é rehabilitação inteira e mais metade.
Caminhando, encontraram Martinho Xavier, que crescia para elles com a
vista derramada, e amarello.
--Que tens? perguntou Nicoláo.
--Nada... respondeu Xavier, ferindo a filha com repetidos olhares
penetrativos.
--Que tens, homem? viste o monstro?
--Que monstro?
--O Raphael, o tigre, a basilisco?--perguntou o morgado, sorrindo.
--Vi... e tu tambem?
--Esteve ainda agora comnosco. Eu queria que tu o ouvisses...
--Para que?
--Está revirado. Falla como um S. João, que vem do deserto ao
povoado prégar o _agite penitentiam_! Confessou os desvarios que o
infelicitaram, e fugiu de nós sem nos dar tempo a consolal-o.
--Faltava-lhe a hypocrisia! atalhou Martinho.--Cerrou a mêda agora, não
tem duvida. O fecho da abobada é a hypocrisia!
--Que inexoravel e cru homem tu és, primo!
--Sou, sou flagello inquebrantavel de infames--bradou Martinho com
espanto dos transeuntes.
--Está bom... disse brandamente Beatriz. Não questionem... Meu pae,
perdoe a quem é infeliz, e despreze-o. Vamos embora d’aqui... As
minhas compras estão feitas. Vamos para Palmeira, Nicoláo.
--Pois não has de ir á noite ao theatro, filha?
--Não... se me amas, partamos já.
Emquanto Beatriz se vestia de amazona para cavalgar, Nicoláo disse ao
sogro:
--Sinto, meu primo e amigo, sinto amargamente a necessidade de te dizer
que me fazes soffrer mais do que pode a minha paciencia por causa de
teu sobrinho. Para mim e para tua filha é extrema a satisfação e honra
que nos dás com a tua convivencia; mas tambem é certo que nos amarguras
com a excessiva intervenção de tua vontade em nossas acções e amisades.
Eu comprehendo bem que aborreças teu sobrinho; porém, confesso-me
insufficiente para avaliar o direito com que tens embaraçado que
eu o receba em minha casa, e lhe prove que o estimo por gratidão e
parentesco. Peço-te encarecidamente que absolvas estas reflexões, e por
tua parte modifiques esse irreflectido zelo de minha casa, onde eu não
receio que entrem homens de costumes soltos, porque sei eu castigal-os,
quando elles se esquecerem do que devem á sua dignidade e á minha.
Martinho Xavier lançara-se sobre uma cadeira, e escondera o rosto entre
as mãos, soltando estas gementes palavras:
--Meu Deus, meu Deus!
--Que tens tu? perguntou Nicoláo commovido.
Beatriz entrou na sala, e viu o pae enxugando as lagrimas, e o marido
inclinado á face d’elle.
--Que é?! disse ella agitada.
--Não sei...
--Vão, e adeus!--murmurou Martinho, erguendo-se com energia.
--Ficas em Villa Real?
--Fico: tenho ahi uns cavallos em ajuste. Só poderei ir ámanhã ou
depois.
--Queres que esperemos, Beatriz? perguntou Nicoláo.
--Esperemos...--respondeu ella desopprimida da abafação do susto.
--Não, que eu vou direito a Chaves--contrariou Martinho Xavier.
--E quando voltas a Palmeira?
--Quando poder.
Saiu adeante d’elles, apertando convulsivamente a mão da filha, quando
se ella inclinou a beijar a d’elle.
--É mysterioso teu pae!...--ponderou Nicoláo.
--Pois que te disse?
--Ouviu-me umas observações duras de se ouvirem, e chorou, como
viste... E não póde deixar de ser o que eu já suppuz... Teu pae é
ludibrio de alguma intriga a teu respeito.
--Intriga?
--Sim... Levaram-n’o a uma terrivel suspeita... de ti e de Raphael.
Faz mal em se não declarar. A injuria reflecte-se em mim... Eu queria
mostrar-lhe a elle, ainda mais que ao mundo, a tua innocencia.
--Pois alguem me considera culpada?!--atalhou extremamente resentida
Beatriz.
--Não digo tanto; mas com capacidade para culpada.
--Quem?... Eu mereço isto!... Pois tu podes presumir?...
--Se eu podesse presumir, não t’o diria, minha querida prima.
Esperava... Facilitava-te as occasiões; e, quando t’o dissesse, a tua
bocca não poderia defender-se. Comprehendeste-me bem?
--O ar com que me estás fallando, Nicoláo...
--É a primeira vez que reparas n’este ar. Deus permittirá que seja a
ultima.
--Desconfias da minha lealdade, Nicoláo?
--Já respondi, Beatriz. Não desconfio. A tua agonia de morte começaria
desde a desconfiança.
Repostos na bonançosa vida de Palmeira, ataram o fio quebrado das
serenas alegrias, que irradiavam á volta do berço da creancinha.
Bonançosa vida, escrevi eu, porque os exteriores condiziam com a
palavra; todavia, no recondito d’alma de Beatriz, estava o aspide
roedor, que lhe torvava os sonhos de infernaes alegrias, ou horridas
visualidades. Abria os olhos molhados de culposas lagrimas, e
seccava-as ao bafejo do filhinho. Seguiam-se no dia as intermittencias
da noite. Uma hora, relampagueava-lhe a esperança uma luz vividissima,
ao clarão da qual divisava a imagem de Raphael. Outra hora sentia
atravez do seio uma vibração glacial, como se a larga lamina de ferro
lhe abrisse bulhões de sangue: n’esta visão infanda era a imagem do
marido que lhe avultava descomposta pela vertigem do odio. Refugiava-se
ainda sob a egide do anjo, a creancinha, que inclinava o rosto á face
d’ella, e balbuciava a primeira syllaba das suas reminiscencias do ceu.
Martinho Xavier lá estava em Chaves. Decorreram dois mezes, e elle
não voltou á Palmeira. Foram visital-o e levar-lhe o neto e afilhado.
Acharam-n’o quebrantado com o pezo de mais dez annos. Encaneceram-lhe
os cabellos, arrugaram-se-lhe as faces, amortiçou-se a luz dos
olhos, arados pela bafagem ardente, que não tinha respiradouro. Para
elle a perdição da filha era um anathema indeclinavel. Entrou-se
do convencimento de ser ella o instrumento providencial do castigo
de Nicoláo de Mesquita. A deshonra de Ernesto Froment havia de ser
vingada. A sua amada Beatriz, a innocente das perversidades do marido,
obedecia ao sobre-humano impulso da indefectivel justiça. Minguava-lhe
illustração para combater o prejuizo. Accusava de injusta a Providencia
quando lhe genuflectia, e subpunha a cabeça de sua filha a uma absurda
fulminação.
Á força de apprehender n’isto, desordenou-se-lhe a intelligencia por
uns paradoxos de fatalismo, que implicavam á religiosidade do seu
caracter.
Encarava de fito na filha e chorava. Affagava o neto, e perguntava-lhe:
--Entendes tu a minha dôr, anjo do ceu?
Descaía um severo olhar sobre Nicoláo, e dizia-lhe:
--Não devias casar nunca, sem saldar contas com a Providencia.
O marido de Beatriz suspeitou da inteireza intellectual do sogro. Era
para isso. Quiz arrancal-o da solidão do seu quarto, e trazel-o para
Palmeira. Foi invencivel a resistencia muda do precoce velho, que
apenas contava quarenta e oito annos. Quiz Beatriz ficar em Chaves, e o
pae rejeitou o alvitre, como desnecessario á sua morte.
Voltaram a Palmeira.
Parece que lhes soavam n’alma de ambos as medonhas alvoradas de um dia
de infinita calamidade. O ceu era o mesmo, a creancinha brincava entre
elles com as flôres inverniças; ao passo que os paes, sem se revelarem,
olhavam sobre o menino com os olhos lagrimosos.
--Porque choramos nós?--perguntava Nicoláo.