VERDADEIRO
METODO
DE ESTUDAR,
PARA
Ser util à Republica, e à Igreja:
PROPORCIONADO
Ao estilo, e necesidade de Portugal.
EXPOSTO
_Em varias cartas, escritas polo R. P._ * * * _Barbadinho
da Congregasam de Italia, ao R. P._ * * *
_Doutor na Universidade de Coimbra._
TOMO PRIMEIRO.
[Illustração]
VALENSA
NA OFICINA DE ANTONIO BALLE.
ANO MDCCXLVI.
_COM TODAS AS LICENSAS NECESARIAS, &c._
_AOS REVERENDISIMOS_
PADRES MESTRES,
DA VENERAVEL RELIGIAM DA COMPANHIA
DE JEZUS.
_No Reino, e Dominio de Portugal._
ANTONIO BALLE
OBZEQUIOZAMENTE SAUDA.
Saiem à luz, Reverendisimos Padres, as cartas eruditas, de um autor
moderno: as quais até agora corrèram manuscritas, por algumas maons:
mas chegando às minhas, e conhecendo eu, que podiam utilizar a muitos,
me-rezolvi impremi-las. O argumento delas é este. Certo Religiozo da
Universidade de Coimbra, omem mui douto, como mostra nas suas cartas;
pedio a um Religiozo Italiano, seu amigo, que vivia em Lisboa; que
lhe-dèse algumas instrusoens, em todo o genero de estudos. O que o dito
Barbadinho executa, em algumas cartas: explicando-lhe em cada-uma,
o que lhe-parece: e acomodando tudo, ao estilo de Portugal. Este
autor escreveo-as, sem nem menos suspeitar, que se poderiam impremir:
como consta de alguns periodos destas, que nam impremi; e de outras
que conservo, em que declara com mais individuasam, o motivo desta
conrespondencia: e explica varias coizas, que aqui nam se-acham. Onde,
para consolar o dito autor, que nam sei se ainda vive, e fazer o que
dezejava; nam impremi senam as que me-parecèram necesarias: e ainda
nestas ocultei os nomes dos conrespondentes, e de algumas pesoas,
que nelas se-nomiavam: parecendo-me justo e devido, nam revelar
os segredos, das conrespondencias particulares: principalmente,
quando podia conseguir o fim, de utilizar o Publico, sem prejuizo de
terceiro. As cartas encadeiam tam bem umas com outras, que se-podem
chamar, um metodo completo de estudos. podem servir para todos; mas
especialmente sam proporcionadas, ao estilo de Portugal: pois este
era o fim do autor. Protesta ele nas mesmas cartas ineditas, que nam
dera em varias coizas, melhor metodo; porque temia, que o seu amigo
mostráse as cartas, a pesoas preocupadas: as quais nam fariam nada,
se lhe-aconselháse tudo, o que praticam em outros Reinos: e que por
iso se-acomodava ao gosto, do paîz em que estava. E nam cesava de
encomendar-lhe, que as-nam-lese a omens, que interpretasem mal as suas
palavras; e as-aplicasem, a outro sentido.
E querendo eu agora impremir estas cartas, a quem as-devo dedicar,
senam a VV. RR.? Prezumo, e com muita razam, que se o autor ouvèse
de publicar estes escritos, a ninguem mais os-ofereceria, que a esa
sagrada Religiam: visto mostrar a cada paso, o respeito e venerasam,
que lhe-profesava. E sendo eu nam menos propenso, e obrigado a toda
a Companhia; quero tambem mostrar-lhe o meu reconhecimento, nesta
pequena oferta. Se a minha posibilidade dèse mais, mais faria: mas as
forsas nam conrespondem aos dezejos: e VV. RR. costumam estimar mais a
vontade, que as ofertas. Alem diso, por todos os titulos deviam estas
cartas, ser consagradas ao seu nome. Sam VV. RR. aqueles, que só podem
ajudar, os pios dezejos deste autor: aqueles, que só tem forsas, para
iso: e finalmente aqueles, que mais que ninguem dezejam, o adiantamento
da Mocidade, e se-cansam, para o-conseguir. Acrecento, que o autor
confesa, que tudo aprendèra, com a diresam desa Roupeta, e polos seus
autores. E asim, torno a dizer, por todos os titulos estes livros,
se-lhe-devem dedicar.
Quam oportuna ocaziam se-me-oferecia agora, de referir os louvores
desa veneravel Religiam, se a moderasam, e umildade de VV. RR. nam
me-tapáse a boca! Quem tem dado mais, e mais ilustres escritores a
ese Reino, que a Companhia? Quem tem promovido com mais empenho os
estudos, que os seus mestres? Onde florecem as letras com mais vigor,
que nos seus Colegios? Que omem douto tem avido em Portugal, que nam
bebèse os primeiros elementos, nas escolas desa Religiam? Nam leio as
istorias dese Reino, e Conquistas, que nam veja a cada paso, exemplos
memoraveis, da grande piedade, da suma erudisam, do inexplicavel zelo
dos seus Religiozos! VV. RR. que abrîram no-Oriente as portas, ao
Evangelho, tem trabalhado com tal empenho, na vinha do Senhor; que
se contamos somente os Povos convertidos, tem conquistado para a Fé,
e tambem para o Reino, imperios vastisimos. Nem sei a quem atribua
maior gloria: se às armas vitoriozas dos Portuguezes, no Oriente; se
às pias exortasoens, e fadigas, dos seus Misionarios. Mas se é mais
gloriozo o triumfo, que se-consegue sem sangue, somente com a forsa
da eloquencia, sem prejuizo dos Povos, e com grande utilidade da
Republica: ficam VV. RR. muito mais gloriozos, que os mesmos ilustres
Generais Portuguezes; pois conseguîram a vitoria, nam dos corpos, mas
dos animos. Vencèram VV. RR. nam derramando o sangue dos outròs, mas o
proprio: e com ele escrevèram o seu nome, nam só nos livros da fama,
e destas istorias caducas; mas no-mesmo livro da-vida: e levantáram
um padram naquela patria, em que as virtudes se-estimam: premeiam-se
dignamente os servisos: e a gloria dos vitoriosos nam morre. Nam
me-volto para a Africa, para a America, que nam veja os Religiozos da
Companhia, convertendo os idolatras, ajudando os fieis, ensinando a
todos. Aî mesmo em Portugal, quem á que nam seja obrigado, à Companhia;
e nam experimente os influxos, desa benigna Religiam? Quem ja mais
chegou, a uma das cazas desa Religiam, para buscar um confesor, a
qualquer ora da noite; que nam ficáse consolado? um Pregador, para
qualquer festividade; que nam fose obedecido, ainda sem interese?
quem foi pedir conselho, em materias de conciencia; que nam tivese
promta resposta? quem quiz um parecer escrito, em qualquer materia
que o-quizese; que nam tornáse satisfeito? Se olho para as prizoens,
vejo os Religiozos da-Companhia consolando os aflitos, procurando
os livramentos, confesando, e confortando a todos. Se olho para as
prasas, e ruas publicas, vejo os mesmos Religiozos, doutrinando os
ignorantes, excitando a emulasam nos-meninos, atraindo com suave
maneira os que pasam, para ouvirem a verdade Evangelica. Se olho
para as igrejas, vejo-os frequentes no confesionario, exortando os
fieis em dias determinados, exatisimos nas funsoens divinas, que
celebram com toda a magnificencia, e devosam. Se olho para as escolas,
vejo-os ensinando aos meninos com grande amor, e paciencia, nam só
as letras, mas a piedade, que em toda a ocaziam lhe-inspiram. As
mesmas portarias das suas cazas, ensinam com o exemplo; nos muitos
martires, e doutos, que nelas vemos pintados; que muda, mas eficazmente
persuadem, seguir a mesma estrada: e ensinam com a doutrina, nos
livros que nelas incontramos, que suavemente inclinam a vontade, para
abrasar a vida perfeita. Finalmente se olho para qualquer Religiozo da
Companhia, vejo o retrato da continencia, da moderasam, da mansidam,
da afabilidade, do respeito: coizas que me-infundem um sagrado terror.
Bemdita Religiam, em que o Prelado nam se-distingue do Sudito, senam
em ter mais trabalho, e suportar o pezo, do governo economico. Ninguem
aspira aos governos: ninguem busca meios de conseguilos: sinal certo,
que se-administram com os olhos em Deus, e na sua obrigasam. Nam á
distinsam de magisterios: nam á izensam de graos. O mesmo que ensina
a Teologia na cadeira, ensina o catechismo nas prasas: o mesmo que
confesa os Grandes, confesa os Pequenos: o mesmo Prelado que manda
aos mais, obedece, e serve nas ocazioens a todos. Finalmente todos
conspiram, para dar gloria a Deus, utilidade ao proximo, e servir no
que podem à Republica.
Nam quero trazer à memoria, o que esa sua Religiam tem feito, e faz,
nas mais partes da Europa Catolica. Deixo de parte, a inviolavel
uniam que sempre teve, com a Sé Apostolica: e as persiguisoens, e
censuras criticas, que tem sofrido por esa cauza. Nem menos falo na
gloria, que rezulta à Companhia, de ver que tantas Religioens, e
Congregasoens, que se-fundáram despois dela, todas a-tem tomado por
treslado: e nam julgam merecer com justisa, os louvores dos omens pios,
senam quando se-avizinham mais, ao seu instituto. Este é um milagre
continuo daquele bemaventurado espirito, que la no-Ceo está sempre
pedindo a Deus, pola propagasam, e aumento da Religiam que ca deixou:
unir tantas vontades, para imitarem uma Religiam, que nam conta longa
serie de seculos, mas que é a mais moderna, entre as famozas. Nam,
nam quero referir mais singularidades. Intraria na verdade em uma
materia vastisima, que me-daria argumento, para muitos e dilatados
panegiricos; mas excederia os meus limites. Só considero, o que faz em
Portugal, e o que pratîca no seu dominio. Estas coizas ocupam de sorte
a minha ideia, e admirasam, que me-nam-permitem considerar o demais,
aindaque seja grande e singular. Nem tem que me-dizer, que as outras
Religioens sagradas todas se-cansam em obzequio da Igreja: ensinam
muito, e edificam muito. Confeso, que todas tem as suas singularidades:
todas merecem ser louvadas: todas dam gloria a Deus, e servem à
Igreja: mas cadauma no seu genero. Nam vejo alguma, que tenha todas
as prerogativas, que se-acham juntas, na Religiam da Companhia: e que
as-pratique, nam por vaidade, nam por outro interese mundano; mas por
amor de Deus, e por caridade do proximo. Estam todos os Portuguezes
tam persuadidos, desta verdade, que quem quizese dizer o contrario,
serîa publicamente escarnecido. Os mesmos Monarcas de Portugal, que
sabem justamente estimar a Virtude; nam costumam intregar, a diresam
da sua conciencia, senam aos Religiozos da Companhia. Desde que
VV. RR. intráram neses Reinos, conspiráram todos eses Soberanos a
reconhecèlos, como prudentisimos diretores, da conciencia dos omens:
e por iso os-elegèram, para seus Confesores. Os Principes, a Caza
Real, os Grandes, a maior parte dos omens de letras, e empregos, todos
praticam o mesmo. Nam é posivel, que se-inganem tantos omens, de
diferentes gerarchias, e de incontrados intereses, sem que os-obrigue
a experiencia, e a verdade. Em todos os seculos, e entre todos os
omens de juizo, o consenso de todos, foi argumento irrefragavel,
da evidencia. Todos os omens prudentes louvam a VV. RR. todos
os-engrandecem, todos os-buscam, todos se-servem das suas prendas, e
virtudes: E asim sam VV. RR. tais como eles intendem.
Mas eu PP. RR. ja saî fóra do-meu argumento. Comesei uma carta, e
acho-me engolfado em um elogio: caî naquilo mesmo que dezejava evitar.
Nam sei se ofendi a sua moderasam, com as minhas expresoens: que é
verdade que nacem do corasam, e sam proferidas com toda a sinceridade,
de um bom amigo; mas emfim sam elogios. Nam obram VV. RR. polos
louvores: mas por um fim mais alto, mais grande, mais admiravel. Nam
obram bem para o-parecerem, e paraque todos o-conhesam; mas porque o
seu instituto asim obriga: asim foram criados: vivem persuadidos diso
mesmo: e nam podem obrar de outra sorte. Este é o elogio, que aquele
encarecido Romano[1] deu la, ao seu Catam Uticense, com adulasam
excesiva: mas que eu intendo, que só se-pode aplicar a VV. RR. nam
com lizonja, mas com verdade notoria; porque o-digo publicamente, e a
todo o mundo. Asim é, nam obram bem os Religiozos da Companhia, para
agradar ao mundo, e conseguir os seus louvores: e dejando eu fazer-lhe
a vontade, nam devo opor-me aos seus dezejos. Verdade é, que falando
desa Religiam, dificultozamente podia deixar de expremir, alguma
coiza do que intendo. Mas VV. RR. nam mo-permitem; eu me-desdigo, e
dou por nam dito, quanto até aqui tenho significado. Só digo, que
lhe-ofereso, e dedico as cartas de um autor, que conforme julgáram os
omens doutos, que as-lèram, conheceo o verdadeiro modo de estudar: e
para o-conseguir, deu excelentes doutrinas: e quem as-ler com animo
dezapaixonado, e tiver voto na materia, achará nelas tudo o que é
necesario, para aquistar o bom gosto literario; quero dizer, um juizo
critico, que ensine abrasar somente o que se-deve, em todo o genero
de estudos. Acho nelas algumas vezes, certas palavras, e diversidade
na uniam dos-Pronomes, e outras particulas com os Verbos &c. conforme
o idiotismo Italiano; que o autor pode ser que mudáse, se lhe-puzese
a ultima mam: porque me-parece, que era bem informado da-lingua
Portuguesa, e nam pecou por-ignorancia. Mas se nelas á algumas coizas
que emendar, e acrecentar, quem melhor o-pode fazer, que VV. RR. Comque
ponho-as nas suas maons, e ofereso-as ao seu criterio: e só direi o que
me-pertence, a cerca da prezente edisam.
O autor segue uma Ortografia particular, (que eu, movido das mesmas
razoens, abrasei) e que ainda nam está bem recebida, nese Reino: e
asim para nam parecer novidade, será precizo ler as cartas, como
se-acham impresas: observando bem a primeira, na qual dá razam, da sua
Ortografia. Mas como em outras cartas explica varias coizas, que aqui
nam se-acham; devo declarálas, paraque os leitores formem conceito,
das opinioens do autor. Em certa carta, escrita entre a primeira, e
segunda do primeiro tomo, diz, que nam obstante que disèse[2], que a
linha se-pode pór entre as disoens, para evitar os equivos: v.g. na
particula _por_, quando significa _cauza_, para a-distinguir do-verbo
_pòr_: ou tambem nas particulas _no_, _do_, _da_; para as-distinguir
dos sustantivos _nó_, _dó_, e do verbo, _dá_, _dás_: Contudo observando
ao despois, que podia embarasar os principiantes, ver as linhas nestas
particulas, que sam frequentes; julgára mais acertado, tirálas das
ditas particulas: como tambem de todas as terminasoens plurais dos
verbos: v.g. _disera-mos_, _amaria-mos_, _quizer-mos_, _fizer-des_
&c. pola razam que estas terminasoens sam mui frequentes, e todos
as-intendem mui bem. Acrecenta, que tambem nam se-deve pòr, naquelas
palavras e verbos, em que se-acrecenta uma letra, para evitar a uniam
de vogais, que fasam equivocos, v.g. _fazèla_, quando vale o mesmo,
que _fazer-a_, isto é, _fazer esa coiza_. Tambem quando se-introduz o
pronome no verbo: v.g. _dirmeám_, que vale o mesmo que, _diram-me_:
_falosîa_, _obrigalosîa_, que muitos escrevem mal asim; _falos-ia_,
_obrigalos-ia_: porque a dita palavra compoem-se destas: _faria-os_,
_obrigaria-os_: acrecentando um _l_, para facilitar a pronuncia
das-vogais: onde separando, _ia_, separam uma parte necesaria da
palavra, e fazem erro. Nestes cazos diz, que basta o acento em
_fazèla_, _dirmeám_, _obrigalosîa_. Aindaque na primeira e semelhantes,
quando sam imperativos, _faze-la_, _quere-la_ &c. que valem, _faze-a_,
_quere-a_; nam reprova que se-ponha a linha, para mostrar que é
esdruxola, e que se-pronuncîa diferentemente. Asimque para facilitar
a Ortografia, somente deixa as ditas linhas nestes cazos. I. Na uniam
dos pronomes com os verbos, ou das particulas que servem de pronomes,
e sam diferentes das terminasoens dos verbos: v. g. _fazemos-lhe_,
_lhes-fazem_, _nos-dizem_, _dizem-no_, _o-dizem_, _as-querem_. II. Nos
verbos impesoais, que unem com o reciproco: _fazem-se_, _chamam-se_,
_se-nam-fazem_: ou tambem nestes; _nos-explicarmos_, _nos-virmos_ &c. e
outras unioens semelhantes: como no verbo á quando une com a particula
se: porque sempre se-pronuncîa unido: _se-á-de_, _ám-de_ &c. Tudo isto
advertîra confuzamente, no lugar apontado: mas aqui o-explica melhor.
E com efeito tendo escrito com as linhas, as primeiras trez cartas,
nas seguintes observa as regras, que aqui dá. E devendo eu, ou tirar as
linhas de todas, ou polas em todas, para proceder coerente; segui esta
segunda parte: aindaque em algum plural de verbo, alguma vez a-nam-puz.
A quem nam agradar, observe as regras que o noso autor dá; que eu
tambem observo.
Adverte na mesma carta o autor, que serîa utilisimo, que os omens
doutos, seguindo a regra da pronuncia, puzesem _i_ em muitos verbos,
e nomes que deles nacem, que se-pronunciam geralmente com _i_; e
nam se-podem pronunciar com _e_, sem se-esforsar: v.g. _emprestar_,
_engrandecer_, _envergonhar_ &c. Diz porem, que ele só o-praticou
em poucos, e mais comuns, v.g. _intrar_, _incontrar_, _inganar_,
_intender_, _ingenhar_, _importar_, _informar_, e algum outro
rarisimo. O que fez, para nam escandalizar de um jato os leitores,
pouco informados destas coizas: mas aconselhava, que pouco a pouco
se-introduzisem com _i_. Como tambem se-escrevesem com _e_, alguns
infinitos, v.g. _admetir_, _permetir_, _defirir_, &c. nam obstante se
pronunciarem com _i_, os prezentes &c.
Em algumas partes, de duas ou trez palavras compoem o autor uma só:
_damesma_, _contantoque_, _namobstanteque_. Outras vezes escreve-as
separadas: _com tanto que_, _nam obstante que_, &c. o que eu conservei
na impresam. Mas diz o autor que o-fez, para mostrar, que se-podem
unir, e separar, como cadaum quizer: O que fazem os seus Italianos, em
varias palavras; e os mesmos Latinos em _paulo minus_, _nihilo minus_,
_quam ob rem_, _et enim_ &c. que escrevem ou separadas, ou juntas, como
lhe-parece mais elegante. Mas o noso autor comumente escreve-as unidas.
Algum erro de Ortografia segundo os tais principios, se-cometeo nesta
edisam: o que moralmente nam se-podia evitar, nam sendo o mesmo autor,
o que correge a impresam. Estes parece-me que se-podem reduzir, a
varios capitulos. I. Puzeram algumas vezes acento agudo, em lugar do
grave; e polo contrario: o que o autor distingue mui bem. II. Falta
o acento em algumas palavras, em que o autor costuma polo, ou para
evitar equivoco, ou para facilitar a pronuncia: v.g. _serîa_, verbo;
e _seria_ adjetivo: _escrevèram_, preterito remoto; _e escreverám_,
futuro: _fórma_, nome da escola; e _forma_, nome de artifice: &c.
aindaque neste particular o contexto, comumente tira o equivoco.
III. Acha-se alguma linha, em parte onde nam devia, ou falta onde
devia: mas sam cazos mais raros. IV. Varias vezes escrevèram _i_, por
_e_, em _admitir_, _defirir_, _prefirir_, _permitir_ &c. que o autor
sempre escreve por _e_, _admetir_ &c. conformando-se, segundo diz,
com a pronuncia comua, e facil, que sempre exprime o _e_, tirando
em bem poucos. Polo contrario puzeram tambem e por _i_, em _ingano_,
_incontrar_, _intrar_, _inganar_ &c. que o autor sempre escreve por
i, pola mesma razam da pronuncia. V. Falta alguma virgula onde devia
estar, segundo os principios do autor: e alguma se-acrecentou. VI.
Dividîram algumas palavras mal no-fim das regras: v.g. _min-ha_,
_con-heso_, _mel-hor_, _ba-sta_, &c. devendo porem o _n_, e _l_
das primeiras unir-se com _h_; e o _s_ da segunda com o _a_. Em
_inco-gnito_, _per-spetiva_, e outras poucas que tem origem Latina,
ou sam quazi Latinas; intendo que è melhor, dividilas nesta fórma,
seguindo o estilo Latino.
Estes erros sucedèram mais frequentemente, nos principios de ambos
os tomos, que se impremiam juntos: tempo em que o corretor nam tinha
toda a noticia, da Ortografia do autor. Mas como os ditos erros nam
pervertem o sentido do-discurso; por iso os-nam-apontei nas erratas.
E asim só apontei aqueles, que me-parecèram que mudavam o sentido,
ou que eram totalmente contrarios, ao estilo do autor, ou comum da
dita lingua. Com as reflexoens que aqui aponto, pode o leitor cortez
emendàlos, quando s’incontrarem: tendo à vista esta regra: Que
achando-se diversidade em alguma palavra, que às vezes tem uma letra, e
n’outras ocazioens letra diferente; observe o que é mais frequente; e
saiba, que iso é o que o autor aprova.
Advirto alem disto, que os que impremîram o primeiro tomo, nam tinham
U vogal maiuscolo pequeno, e asim servîram-se deste U, para vogal; e
d’estoutro V, para consoante. No segundo tomo comumente se-distinguem
na figura. Tambem advirto, que a minha imprensa nam tinha estas duas
linhas =, para pòr no-fim da-regra, na divizam forsada das-palavras:
(o que serîa necesario para distinguir, o que o autor aponta, na
primeira carta) e asim puz somente, a linha simplez. O que advirto
ao leitor, paraque nam estranhe, faltarem aquelas duas linhas, que
o autor encomenda, e pratîca: aindaque com uma só linha, muito bem
se-conhece, e distingue o sentido. Finalmente advirto, que puz alguns
titulos das materias, no corpo de algumas cartas. v.g. na da Gramática,
Medicina, &c. o que fiz, para facilitar a inteligencia aos leitores,
e distinguir as materias. Isto é, RR. PP. o que tenho que advertir
nesta carta, sobre a impresam, e inteligencia das-ditas cartas. O mais
que se-contem nelas, compendiei nos-sumarios, que puz no-principio de
cadauma, e tambem se-acham no-Index, de cada tomo. Nem me-pertence amim
formar juizo delas, quando as-ofereso a pesoas tam doutas, de quem eu
devo receber os ditames. Onde acabo a prezente carta, repetindo de
novo a VV. RR. a venerasam que lhe-tenho, e dezejando-lhe as maiores
felicidades, e a toda a sua Religiam.
NOTAS DE RODAPÉ:
[1] Velleio Paterculo.
[2] Carta I. pag. 36.
INDEX
Do que contem as Cartas do primeiro Tomo.
CARTA I.
Motivo desta correspondencia: e como se-deve continuar. Mostra-se, com
o exemplo dos Antigos, a necesidade de uma Gramatica Portugueza, para
comesar os estudos. Dá-se uma ideia, da melhor Ortografia Portugueza:
e responde-se aos argumentos contrarios. Que o Vocabulario do Padre
Bluteau se-deve reformar, para utilidade da Mocidade. _Pagina 1._
CARTA II.
Danos que rezultam da Gramatica Latina, que comumente se-ensina.
Motivos porque nas escolas de Portugal, nam se-melhora de metodo. Nova
ideia de uma Gramatica Latina facilisima, com que, em um ano, se-pode
aprender fundamentalmente Gramatica &c. _pag. 59._
CARTA III.
Abuzos que se-introduzîram em Portugal, no ensinar a lingua Latina. Mao
modo que os mestres tem, para instruir a Mocidade. Propoem-se o metodo,
que se-deve observar, para saber com fundamento, e facilidade, o que é
pura Latinidade. Necesidade da Geografia, Cronologia, e Istoria, para
poder intender os livros Latinos. Apontam-se os autores, de que os
mestres se-devem servir na Latinidade: e como devem servir-se deles; e
explicálos com utilidade; e as melhores edisoens. Aponta-se o modo de
cultivar a Memoria, e exercitar o Latim nas escolas. _pag. 74._
CARTA IV.
Necesidade das linguas Orientais, principalmente Grega, e Ebraica, para
intender as letras Umanas: mas muito principalmente, para a Teologia.
Modo de as-aprender. Utilidade da lingua Franceza, e Italiana, para ser
erudito com facilidade, e sem despeza. _pag. 112._
CARTA V.
Discorre-se da utilidade, e necefidade da Retorica. Mao metodo com
que se-trata em Portugal. Vicios dos Pregadores; que sam totalmente
ignorantes de Retorica. Que absolutamente deve deixar o antigo estilo,
quem quer saber Retorica. _pag. 124._
CARTA VI.
Continua-se a mesma materia da Retorica. Fazem-se algumas reflexoens,
sobre o que é verdadeira Retorica, e origem, dela. Que coiza sejam
figuras, e como devemos uzar delas. Diversidade dos estilos, e modo de
os-praticar: e vicios dos que os-nam-admitem, e praticam. Qual seja o
metodo de persuadir. Qual o metodo dos panegiricos, e outros sermoens.
Como se-deve ensinar Retorica aos rapazes, e ainda aos mestres. Algumas
reflexoens, sobre as obras do P. Antonio Vieira. _pag. 153._
CARTA VII.
Fala-se da Poezia. Os Portuguezes sam meros versejadores. Prejuizos
dos mestres, de nam poetarem em Vulgar. Que coiza seja ingenho
bom, e mao. Especies de obras de mao ingenho, em que caîram alguns
Antigos, mas principalmente os Modernos. Necesidade do Criterio, e
Retorica, em toda a sorte de Poezia. Primeiro defeito de Poezia, a
inverosimilidade: exemplos. Segundo defeito, os argumentos ridiculos.
Reflexoens particulares, sobre as compozisoens pequenas Portuguezas;
que nam podem dar nome, a um omem: defeitos da Nasam, provados com
exemplos. Reflexoens sobre o Epigrama Latino, Elogios, inscrisoens
Lapidares, Eglogas, Odes, Satiras, poemas Epicos. Que os Portuguezes
nam conhecèram as leis, do poema Epico; prova-se com Camoens, Chagas,
Botelho de Morais. Aponta-se o metodo, com que se-devem regular os
rapazes, no-estudo da Poezia. Nova ideia de uma Arte Poetica, util para
a Mocidade. _pag. 215._
CARTA VIII.
Trata-se da Filozofia. Mao metodo com que se-trata em Portugal.
Advertencia das outras Nasoens, em procurar a Ciencia. Necesidade da
istoria da Filozofia, para se-livrar de prejuizos. Ideia da serie
filozofica. Danos e impropriedades da Logica, que comumente se-explica.
Dá-se uma ideia, da boa Logica. _pag. 276._
[Illustração]
CARTA PRIMEIRA.
SUMARIO.
_Motivo desta conrespondencia: e como se-deve continuar. Mostra-se,
com o exemplo dos-Antigos, a necesidade de uma Gramatica Portugueza,
para comesar os estudos. Dá-se uma ideia, da-melhor Ortografia
Portugueza: e responde-se aos argumentos contrarios. Que o Vocabulario
do-Padre Bluteau se-deve reformar, para utilidade da-Mocidade._
Meu amigo e senhor: Nesta ultima carta, que recebo de V. P. entre
varias coizas que me-propoem, é a principal, o dezejo que tem, de que
eu lhe-diga o meu parecer, sobre o metodo dos-estudos deste Reino:
e lhe-diga seriamente, se me-parece racionavel, para formar omens,
que sejam utis, para a Republica, e Religiam: ou que coiza se-pode
mudar, para conseguir o dito intento. Alem disto, quer tambem, que
eu lhe-dé alguma ideia, dos-estudos das-outras Nasoens, que eu tenho
visto. Quanto às outras proguntas, parece-me que bastantemente
respondo, inviando-lhe o papel incluzo: no-qual achará, tudo o que
queria saber. Mas polo que respeita ao negocio, dos-metodos diferentes
de estudos, duvidei por-algum tempo, se obedeceria a V. P. e tinha
algumas razoens, que me-pareciam forsozas; suposta a grande pratica
que tenho, deste mundo, e deste Reino. Eu sou Estrangeiro: e com
dificuldade me-explicarei em uma lingua, que nam mamei no-berso. Que
nas minhas cartas particulares, eu cometa erros, a bondade de V. P.
mos-desculpa. mas se eu escrever em materia, que se-posa mostrar
a outrem; e me-fugir da-boca, alguma expresam menos propria; averá
censores tam dezumanos, que me-condenem, por-escrever em lingua alheia,
talvez sem advertirem, que iso está sucedendo todos os dias, aos
mesmos nacionais, que frequentemente os-cometem. Alem disto, sempre
foi coiza odioza, dar regras em caza alheia: e lembrando-me eu de
alguns, que me-diseram muito mal, do-grande serviso que fez ao Reino o
P. Bluteau, compondo o seu Vocabulario; via de longe, a tempestade que
se-levantaria contra mim, se este meu parecer tivese a infelicidade,
de sair das-maons de V. P. Mas a maior razam era, porque isto, de
emendar o mundo, e principalmente o querer arrancar certas opinioens,
do-animo de omens envelhecidos nelas, e consagradas ja por-um costume,
de que nam à memoria; é negocio, que excede as forsas de um só omem:
e principalmente de um omem, de tam pouco merecimento, e autoridade
como eu. E V. P. que é tam versado na Istoria, pode trazer à memoria,
mil exemplos destes, que deram, e ainda oje dam, ao mundo Literario,
materia de grande admirasam. Lembrou-me tambem, que eu sou Religiozo,
em uma Religiam, em que geralmente florecem pouco os estudos: e que,
por-este principio, nam faltariam omens, ainda prezados de doutos, que,
se chegasem a saber, de quem eram as cartas, as-desprezasem; sem terem
a paciencia, de examinar as minhas razoens: por se-persuadirem, que
certos acidentes exteriores, de emprego, vestido, &c. conduzem muito,
para o merecimento das-obras: e que, sem pizar os ladrilhos de certas
Universidades, nam se-pode fazer coiza boa.
Estas, e outras coizas, que se me-ofereceram à memoria, me-tiveram,
como lhe-dise, duvidozo. Finalmente as repetidas instancias que V. P.
me-faz: a sua grande autoridade: e as plauziveis razoens que me-alega,
me-fizeram pegar na pena, para escrever o meu parecer. V. P. segura-me
certas coizas, que nam sam de pouca considerasam. Diz-me, que oje á
muita gente do-seu parecer, nam só entre os Seculares, mas tambem
entre os Regulares: de que me-cita bons exemplos. Diz-me, que o bom
gosto nas Artes, e Ciencias, se-comesou a introduzir em Portugal,
no-feliz reinado deste Augusto Monarca: o qual nisto, tem ajudado mais
o Reino, que todos os seus antecesores. Finalmente promete-me, que
as minhas cartas, nam sairám da-sua mam, ao menos em meu nome. Com,
estas condisoens, obedeso a V.P. e me-gloreio muito, que um omem
da-sua literatura, nam despreze o parecer, de um sugeito de tam pouca
doutrina. Dividirei o argumento, em varias cartas: e como as minhas
ocupasoens, e molestias mo-permitirem, irei comunicando a V. P. as
minhas reflexoens. Devo porem, nesta primeira carta, fazer algumas
protestas. Primeira: Que eu nam acuzo, ou condeno, pesoa alguma deste
Reino. Se às vezes nam me-agradam as opinioens, nem por-iso estimo
menos os sugeitos, e autores, distingo muito o merecimento pesoal,
do-estilo de cada um, ou metodo que observa: e poso fazer esta
separasam, sem ofender pesoa alguma.
Esta reflexam para V. P. é superflua, pois conhese mui bem o meu
animo; e sabe, que eu só pego na pena, para lhe-dar gosto. Mas porque
poderá ler esta carta, a algum ignorante, ou malevolo; que intenda,
que eu, dizendo o que me-parece dos-estudos, com isto digo mal, da
Religiam da-Companhia de Jezu; que neste Reino, é a que principalmente
ensina a Mocidade: devo declarar, que nam é ese o meu animo. Eu
venero esta Religiam doutisima, por-agradecimento, e por-justisa.
Por-agradecimento, porque ese pouco que sei, eles mo-ensináram: e
aindaque nas escolas nam aprendese tudo, aprendi-o conversando com
eles particularmente, e lendo os seus autores. Sempre conservei com
eles, intrinseca amizade: e disto conservarei uma memoria sempiterna.
Por-justisa, porque sendo todas as Religioens veneraveis; esta o-é
mais que todas, segundo a minha opiniam. Parece que mandou Deus à
Igreja estes Religiozos, unicamente para utilidade dos-proximos, pois
eles ensinam a doutrina, e piedade, com grande amor, e trabalho:
sacrificam-se polos Fieis, em todas as ocazioens: e sam perpetuos
defensores da-Igreja Catolica, como confesam os mesmos Erejes.
Estes sam os motivos da-minha venerasam, e parcialidade por-eles.
Mas asimcomo nem todos os Jezuitas, seguem as mesmas opinioens de
doutrina, mas permitem aos seus mesmos, a liberdade de filozofar,
dentro dos-limites do-justo; e uns sam contrarios de sentimentos a
outros: Asimcomo alguns Jezuitas Estrangeiros, tem reprovado diante
de mim, o metodo de Portugal; e alguns Portuguezes me-confesáram, que
o-seguiam por-necesidade, e nam por eleisam; e confesáram limpamente,
que se-podia, e devia emendar em muitas coizas: (achará V. P. muitos,
que lhe-digam, que aquela Logica Carvalha, e Barreta, nam se-deviam
explicar nas escolas, mas coizas mais utis: o que eu ouvi muitas
vezes) Asim tambem nam será maravilha, que eu me-desvie em muitas
coizas, do-estilo que seguem, os Religiozos da-Companhia neste Reino:
e reprove outras, que observam alguns dos-seus autores. Para tudo
teria exemplos na mesma Companhia, e tambem em Portugal. Mas nam me-é
necesario tanto: porque os mesmos Jezuitas, reconhecem de antemam
esta verdade; e sabem, que, sem injuriar uma Religiam, pode um omem,
ser de contrario parecer. Conhecem muito bem estes doutos Religiozos,
que nestas diferensas de pareceres, nam deve entrar o corasam, porque
estam fóra da-sua jurisdisam: e se-podem dar entre pesoas, mui unidas
de inclinasam. Os Jezuitas todos sam prudentes: e nenhum omem prudente
ignora, e contrareia estas coizas. Os individuos de uma comunidade,
nem todos sam de igual talento: e as comunidades de uma Religiam, nem
todas seguem o mesmo metodo. Alem diso, aqui em Portugal, á muita
outra gente que ensina. os outros Religiozos, ensinam os seus, e
os de fóra. os mestres seculares, tambem ensinam. E asim as minhas
opinioens, podem ter por-objeto, nam uma só pesoa. Isto me-basta
advertir, a estas pesoas, que querem saber mais que os autores: e
quererám explicar, e interpretar mal as minhas palavras. Onde concluo,
que a todos venero, e estimo mui particularmente: somente direi, o que
me-parece se-devia fazer, para poder instruir com fruto. A segunda
coiza é: que eu nam me-cansarei, em escrever Portuguez elegante: mas
me-servirei das-palavras, de que comumente me-sirvo, no-discurso
familiar. Nas materias de doutrina, por-forsa devo servir-me, de
algumas palavras, que nam sam Portuguezas: o que tambem fazem os
Latinos, quando tratam semelhantes pontos. porque no-estado em que
as coizas estam, nam se-servindo das-ditas palavras, nam é posivel,
explicar bem as materias. E asim deve V. P. estar preparado, para nam
se-admirar, de alguns termos novos; e para me-desculpar, os erros que
posa cometer. Ocorre-me ainda terceira: e vem aser, que eu suponho,
que V.P. me-dispensa, de citar todos os momentos autores, de que tiro
algumas das-noticias, que lhe-diser. com tanto que eu aponte, o que
é necesario, nam emporta quem o-diz. Basta que eu diga, uma vez por
todas, que a major parte do-que digo, experimentei eu mesmo: outras
coizas, observei em terceira pesoa; ou li em autor aprovado. V.P. olhe
para a razam, em que eu me-fundo: porque esta deve valer mais, que a
autoridade extrinseca. Tambem incidentemente digo, nam a V. P. que
sabe conhecer as coizas; mas a algum, que posa ler estas cartas: que,
se algumas vezes apontar como optimos, alguns autores Erejes; nam louvo
neles a sua particular religiam, mas a erudisam, ou metodo. Comumente
avizarei, quais sam os Erejes, paraque nam se-leiam, sem licensa
devida. Mas se acazo me-esquecer entam advertilo, aqui o-advirto para
sempre.
Comeso pois nesta carta, pola Gramatica: que é a porta dos-outros
estudos: da-qual depende, a boa eleisam dos-mais. Porque muitos nam
intendem, o que significa este nome, por-iso nam fazem, grande progreso
na Gramatica. Eu, ainda que falo com V. P. que o sabe, falarei daqui
emdiante, como se faláse, com quem o-nam-soubese.
A Gramatica, é a arte de escrever, e falar corretamente. Todos aprendem
a sua lingua no-berso: mas se acazo se-contentam com esa noticia,
nunca falarám como omens doutos. Os primeiros mestres das-linguas
vivas, comumente sam molheres, ou gente de pouca literatura: de
que vem, que se-aprende a propria lingua com muito erro, e palavra
impropria, e pola maior parte palavras plebeias. É necesario emendar
com o estudo, os erros daquela primeira doutrina. Uma razam, aindaque
boa, um pensamento exquizito, exposto com palavras toscas, ou que nam
signifiquem, o que se quer; dezagrada muito, e comumente nam persuade.
Contudo iso por-muitos seculos, se-contentàram os Omens, de falar, como
primeiro lhe ensináram. Nam foi senam despois do-terceiro milenario,
que os Omens se-aplicáram a falar bem. Foram os Gregos os primeiros,
de que a Istoria nos-aponta, que se-aplicasem a este estudo: e tal
vez os unicos, entre todos os Orientais. A sua Gramatica consistia,
em conhecer bem as diferensas das-letras: ler, escrever, e falar
bem. Explicavam tambem os Poetas; nos-quais aprendiam a Politica,
e Religiam. O governo da-Grecia, que era quazi todo de Republica,
(nas quais as publicas asembleias do-Povo, deliberavam nos-maiores
negocios) lhe-inspirou este dezejo. conhecéram eles, quanto emportava
falar bem, para falar em publico: e se-aplicáram tanto a iso, que
deram, e ainda oje dam, documentos a todo o mundo. Talvez niso foram
mais escrupulozos doque convinha: porque, para conservar a sua lingua
pura, nam queriam aprender, lingua alguma estrangeira. Estavam tam
satisfeitos, das-belezas da-sua lingua, que quazi desprezavam as
outras todas. desorteque quando os Romanos, despois de vencidos os
Gregos, os-transportáram a Roma; avendo nesta tantos, e de diferentes
gerarchias, se-observou (como nota um autor de bom juizo) que os
Romanos, aprenderam o Grego: mas nenhum Grego, estudou a lingua Romana:
aindaque com o uzo, alguma coiza intendese. E este costume, durava
ainda nos-tempos de Cicero.
Com a lingua pasou da-Grecia para Roma, a inclinasam para a Gramatica.
porque se-observou, que a lingua Latina se-comesou a aperfeisoar,
desde o tempo dos-Cipioens, e continuou até o seculo de Augusto. que
é justamente o tempo, em que os Gregos, destruido o seu imperio,
comunicáram a sua lingua aos Romanos. Pois aindaque, desde o tempo
da-guerra com os Sanitas, e outros Povos da-Magna Grecia, polos anos de
Roma 471. algum Romano comesáse a intender, e falar o Grego; foi raro:
e somente para poder intendelos nas Embaixadas, e coizas semelhantes,
é que o-aprendiam. nam era vulgar este estilo: o que só sucedeo ao
despois. Foram os Romanos os primeiros, que aprenderam voluntariamente
lingua estrangeira. o que nam consta, que Povo algum, antes deles,
tivese feito. E nisto mesmo, me-parecem mais racionaveis: porque
conhecendo a necesidade dela, para o estudo da-Filozofia, Matematica, e
belas Letras, nam se-envergonháram de receber lisoens, daqueles mesmos
a quem tinham vencido, e davam leis. Este é um grande elogio, para
uma Nasam tam considerada, como a Romana: conhecer que é vencida em
merecimento; e confesar publicamente ese vencimento; e pór o remedio
a esa falta. Paolo Emilio, aquele grande omem, que destruio na pesoa
de Perseo, o imperio de Macedonia, antes de tornar para Roma, pedio
aos Ateniezes, que lhe-buscasem um excelente Filozofo, para acabar de
instruir, seus dois filhos. Outros omens grandes, que por-brevidade nam
aponto, seguiram o seu exemplo. Lelio, e Cipiam Emiliano, que tanto
rafináram a lingua Romana, eram inseparaveis, dos-seus mestres Gregos:
dos-quais nam só aprendiam a Filozofia, mas tambem a Gramatica; e o
modo de falar bem, e aperfeisoar a sua lingua. Os Filozofos daquele
tempo, nam se-ocupavam somente, com discursos aereos de Logica; mas
estendiam o seu conhecimento, para muitas outras coizas.
Mas, é necesario confesar uma verdade; em todo o tempo ouve
dificuldade, em se-receberem costumes novos, aindaque fosem utis. os
Velhos nam querem ceder dos-costumes, que uma vez espozáram. Isto
vimos em Roma, no-consulado de Estrabo, e Messala: que publicáram
um decreto, em que ordenavam aos Filozofos, e Retoricos, sairem de
Roma[3]. Catam o velho, que temia, que os Romanos, pola vaidade
de quererem falar bem, servisem mal à Republica no-oficio das-armas;
foi um grande protetor disto. Mas a Verdade, por-mais que se encubra,
sempre transpira. Trez Embaixadores Ateniezes, que, cinco ou seis anos
despois do-tal decreto, vieram a Roma, namoráram todos com os seus
discursos. e, nam obstante a repugnancia de Catam, e de alguns outros,
os estudos das belas Letras se-introduziram em Roma, e cada dia mais
se-aumentáram[4]. A Grecia foi reconhecida por-mestra: e Atenas foi
sempre reputada, a Universidade de Roma: aonde se-mandavam os nobres
Romanos, para aprenderem o bom gosto. Os dois celebres Antonios, Atico,
Cicero pai, e filho, e muitos outros lá foram aprender o que souberam.
e o que mais cauza admirasam, é, irem em tempo, que as letras tinham
descaido na Grecia. tal era a boa opiniam que tinham dela! Outros
muitos Gregos vinham a Roma, e publicamente ensinavam, os estudos
Gregos.
Com este exemplo, pouco mais de um seculo antes de Cristo, se-abriram
escolas Latinas em Roma. as quais, ainda que com alguma contrariedade,
felizmente e com grande concurso se-continuáram. Delas sairam omens
mui grandes, que apuráram, quanto puderam, a lingua propria. Tais
foram Cota, Sulpicio, Ortensio, Marco Cicero, Caio Cezar, Marco
Bruto, Messala, Asinio Pollio, e muitos outros que entam, e oje
veneramos, como mestres da-lingua Latina. À imitasam dos-Gregos,
comesáram os Romanos a aprender, a Gramatica da-sua lingua, no-mesmo
tempo que aprendiam a Grega. A Gramatica, nam se-reputava, coiza de
pouca emportancia: mas a-consideravam como baze da-Eloquencia: e
por-iso a ela se-aplicavam omens grandes; e nela empregavam um tempo
consideravel, os que queriam, fazer figura na Republica. Os livros
Retoricos de Cicero, principalmente os trez _de Oratore ad Quintum
Fratrem_, especialmente o ultimo: o livro intitulado: _Orator ad Marcum
Brutum_: e o _de Oratoriis Partitionibus_: nam só ensinavam Retorica,
mas principalmente falar a sua lingua, com toda a pureza, e grasa: que
era uma parte principal da-Retorica. Caio Julio Cezar, aquele grande
omem em armas, e letras, nam se-envergonhou, de escrever dois livros,
sobre a Analogia da-lingua Latina[5]. Marco Terencio Varram escreveo
comentarios doutisimos sobre a sua lingua, e uma Gramatica. Continuou
este costume, até o tempo de Quintiliano, e seu dicipulo Plinio o moso:
o qual Quintiliano, alem de nos-explicar, como se-ensinava a Gramática
Latina; ele mesmo nos-deixou uns Elementos dela, no-primeiro livro
das-suas Instituisoens. E é de crer, que se-continuase este estilo,
até os principios do-quinto seculo de Cristo; em que os Godos entráram
em Roma: ou um pouco despois, em que os Ostrogodos se-estableceram na
Italia, e arruináram o imperio Latino: abrindo com isto a porta aos
Longobardos, que nela domináram tantos anos. Desorteque com o Imperio
no-Occidente, se-pode dizer, que se arruinou a lingua Latina: porque
comesando a destruir-se, com a mescla de outras palavras, foi necesario
emendála com o estudo, e fazer Gramatica dela.
Este metodo de ensinar aos nacionais, a Gramatica da-sua lingua, nam
só praticáram os Antigos; mas até em um seculo barbaro, qual foi o
de Carlo Magno, foi conhecido, e praticado: e o mesmo Carlo no-dito
VIII. seculo, escreveo uma Gramática Tudesca, que era a lingua da-sua
corte. Nos-seguintes seculos até o duodecimo, em que a ignorancia tanto
dominou, nam foi ignoto este uzo. Mas alguma Gramatica que se-fazia,
era para intender o Latim. os livros eram rarisimos. a critica nenhuma.
e asim nam é maravilha, se nam se-aplicáram ao que deviam. Desde o
seculo duodecimo até todo o seculo decimosexto, reinou outra particular
ignorancia, sobre o metodo. Muitos se-aplicáram as letras, mas muito
mal. só reinavam as agudezas, e o estilo ridiculo. No-seculo pasado, é
que resuscitou este metodo, de ensinar a Gramatica da-propria lingua.
E, na verdade, o primeiro principio de todos os estudos deve ser, a
Gramática da-propria lingua. A razam porque nos-parece tam dificultozo,
o estudo da-Gramatica Latina, (alem de outros motivos que em seu lugar
direi) é porque nos-persuadimos, que toda aquela machina de regras, é
particular da-lingua Latina: e nam á quem nos-advirta, quais sam as
formas particulares desa lingua, a que chamam _Idiotismos_: quais as
comuas com as outras. Se a um rapaz que comesa, explicasem, e mostrasem
na sua propria lingua, que á Verbo, Cazo, Adverbio &c. que á formas
particulares de falar, deque se-compoem, a Sintaxe da-sua lingua: Se
sem tantas regras, mas com mui simplezes explicasoens, fizesem, comque
os principiantes refletisem, que, sem advirtirem, executam as regras,
que se-acham nos-livros: e isto, sem genero algum de preceitos, mas
polo ouvirem, e exercitarem: Seguro a V. P. que abririam os olhos
por-uma vez, e intenderiam as coizas bem: e se-facilitaria a percesám
das-linguas todas.
Isto suposto, julgo que este deve ser, o primeiro estudo da-Mocidade.
e que a primeira coiza, que se-lhe-deve aprezentar é, uma Gramatica
da-sua lingua, curta, e clara: porque neste particular, a voz
do-Mestre, faz mais que os preceitos. E nam se-devem intimidar os
rapazes, com mao modo, ou pancadas, como todos os dias sucede: mas, com
grande paciencia, explicar-lhe as regras: e, sobre tudo, mostrar-lhe
nos-seus mesmos discursos, ou em algum livro vulgar, e carta bem
escrita, e facil; o exercicio, e a razam, de todos eses preceitos.
Se me-tocáse o-fazelo, regularia tudo desta maneira. Primeiro,
explicaria brevemente as regras: e obrigalosîa a repetir, as mesmas
noticias gerais. Despois, darlheîa um livro de Cartas, vg. as do-P.
Antonio Vieira: escolhendo as mais facis: ou alguma istoria pequena,
digo, que tivese capitulos pequenos, e periodos nam mui compridos: e
mandaria, que a-lesem: e no-mesmo tempo apontaria, quais eram as partes
da-orasam. o que se-observa, com grande facilidade. Ajuntaria a isto,
as regras mais principais de Sintaxe: porque como tudo isto, se-á-de
recozer na Latinidade, basta nesta ocaziam, uma noticia geral. Feitos
estes principios, ensinaria duas coizas, mui principais em materia
de linguas. a primeira é, a propriedade das-palavras: mostrando-lhe,
a forsa de cadauma daquelas, que sam menos comuas. a segunda é, a
naturalidade da-fraze: ensinando-lhe, que a afetasam, se-deve fugir em
tudo: e que se-deve cuidar em explicar tudo, com palavras mui naturais.
Alem disto, ensinaria aos rapazes, pronunciar bem, e ler expeditamente.
Este ponto, é mui necesario: achando-se todos os dias omens feitos,
que lem soletrando, e cantando: e que dizem mil barbarismos. o que
tudo procede, de nam terem tido mestres, que lhes-ensinasem bem.
Quando os rapazes estivesem mais adiantados, obrigálosia, a escrever
algumas cartas, a diversos asumtos. e introduziria entre dois, uma
conrespondencia epistolar: ensinando-lhe os tratamentos, e modo de
escrever, a diversas pesoas. Nesta ocaziam tem lugar, ensinar-lhe a boa
Ortografia, e Pontuasam. É incrivel, a utilidade que daqui rezulta,
nam só para a inteligencia da-Latinidade; mas para todos os estudos
da-vida. Este estudo pode-se fazer, sem trabalho algum: e se-pode
continuar no-mesmo tempo, emque se-explica o Latim: bastando meia ora
cada menhan, ler, e explicar o Portuguez. Isto se-pratica oje, em
algumas partes da-Europa. e só os que nam tem juizo, para conhecerem a
utilidade, que daqui rezulta, é que negam, a necesidade deste metodo.