Laura e Amelia eram primas e amigas de infancia; havia entre ellas
apenas a differença de dezoito mezes.
Desde a idade de tres ou quatro annos, isto é, desde que deixou as
faxas, Laura usou sempre de roupas compridas. Isso causava reparo a
todos que viam a menina trajada como uma senhora. Muitos achavam
extravagante e ridiculo o capricho e censuravam a mãi.
Esta ouvia as censuras de suas amigas, assim como os motejos estranhos,
e calava-se; mas não alterava o vestuario da menina. A ternura e
piedade materna lhe davam a paciencia necessaria para arrostar com as
zombarias do mundo.
Laura tinha um aleijão; nascêra com os pés disformes. Para mais
aggravar o desgôsto dos pais, essa monstruosidade vinha ligada á uma
belleza angelica. A senhora avaliou do infortunio de sua filha; e
preparou-se para todos os sacrificios. Consultas foram dirigidas aos
melhores medicos da Europa; chegou a emprehender uma viagem para tentar
os recursos da sciencia; foram todos ineficazes.
Desenganada afinal, dedicou-se a esconder a desgraça de sua filha, afim
de que ella não fosse obrigada á envergonhar-se na sociedade. Durante
muito tempo Laura não teve outra criada, alem de sua mãi. A custa de
esforços constantes, de uma vigilancia incessante de cada dia e cada
hora, conseguiu a senhora manter esse segredo de familia, do qual
dependia a felicidade da filha.
Attingindo a idade de oito annos, a menina com o instincto da mulher,
comprehendêra seu infortunio; e desde então descansou a mãi daquelle
cuidado incessante. Ficando moça casou-se, e seu marido que a amava
extremecidamente, morreu ignorando o segredo.
Com bastante magoa sua, Amelia sorprendeu o segredo da prima e amiga.
A filha de Salles tinha dois pésinhos de fada, breves, arqueados, com
uns dedos que pareciam botões de rosa. O desgosto e vexame que isso
causava á moça, ninguem o imagina. Ella suppunha-se aleijada; apezar
de seus 18 annos, seus pés eram de menina.
Assim o mesmo cuidado com que Laura escondia a sua monstruosidade, punha
ella em occultar essa graça e prenda da natureza. Naquelle tempo não
se tinha introduzido ainda a moda dos vestidos curtos; bem ao contrario
o tom era arrastar desdenhosamente pelo chão a longa fimbria do
vestido.
Um dia que Laura passou em sua casa, Amelia teve curiosidade de comparar
seu pésinho com o da prima, para saber si a differença era excessiva.
Em quanto a outra endireitava o penteado no toucador, realisou ella seu
intento.
Avalie-se da vergonha e afflição de Laura; o desespero de Amelia foi
maior ainda. Não perdoava a si mesma o ter causado tão grande pezar á
prima, á quem ella queria muito bem. Para mitigar essa dôr profunda,
Laura esqueceu a sua.
Desde então as duas amigas se consolavam mutuamente. Laura admirava o
pésinho de Amelia; esta, ou sinceramente, ou para attenuar a magoa da
prima, chegava a invejar o seu infortunio.
Aborrecida de não encontrar nas lojas calçado que lhe servisse, Amelia
tinha descoberto por acaso o sapateiro da rua Sete de Setembro.
Conhecendo a habilidade do Mattos, pensou que elle podesse disfarçar o
defeito da prima. Não se enganou; o artista realisara a obra-prima de
paciencia, que Leopoldo tivera occasião de apreciar por um acaso.
Amelia fez á Laura o sacrificio de expôr-se para não comprometter o
segredo da amiga. O sapateiro não a conhecia, nunca a tinha visto,
recebia as encommendas por intermedio de um criado que pagava á vista.
Facil foi portanto illudil-o.
Na occasião em que as duas primas esperavam de carro na rua da
Quitanda, o lacaio vinha da casa do sapateiro, o qual vexado com a
pressa, esquecêra as recommendações de fechar bem o embrulho.
As pretenções de Horacio vieram pouco depois arrefecer a amizade das
duas primas; já não se viam tão a miude; mas não obstante Amelia
continuou a prestar a Laura o mesmo serviço, e essa, coagida pela
necessidade, foi obrigada a acceital-o.
Iam as cousas por esse theor, quando teve logar o baile do Azevedo.
Depois da primeira quadrilha, Amelia foi ao toucador. Era este em uma
sala que dava para o jardim. Aproximando-se de uma janella entreaberta,
obscurecida pela sombra do cortinado da cama, viu a moça os dois amigos
no momento em que elles vieram sentar-se no banco, justamente collocado
por baixo da janella.
A casa era abarracada. Amelia encostada no portal da janella, descobria
os dois cavalheiros por entre a folhagem, e ouvia distinctamente suas
palavras.
Ahi, immovel, mas agitada por commoções diversas, escutou ella a
historia do pé, e a historia do sorriso. Já os dois amigos se tinham
afastado, e a moça permanecia no mesmo logar, como extatica.
A narração de Horacio, e as observações que fizera Leopoldo a esse
respeito, revelaram á moça uma cousa que já anteriormente se havia
apresentado, embora indistincta, vaga e confusa á seu espirito.
O que Horacio amava nella, não era mais do que uma fórma, um capricho,
um sonho de sua imaginação enferma. Ella comprehendeu essa aberração
dos sentidos em um homem gasto para o amor e saciado de prazeres. A
mulher era para o leão uma cousa commum e vulgar, incapaz de
produzir-lhe emoções fortes. Tinha-as admirado, de todos os typos e de
todos os caracteres. Seu coração exhausto precisava de alguma cousa
nova, original e extravagante.
Amelia comprehendeu isto, não por uma analyse, que seu espirito casto
não poderia fazer; mas por uma intuição d'alma.
Quando de novo encontrou Horacio no baile, suas maneiras não podiam que
se não resentissem do estado de seu coração. Tratou o leão
seccamente; mas logo tornou-se amavel; occorreu-lhe uma idéa; quiz pôr
á prova o amor do noivo, antes de confiar-lhe seu destino.
Foi na sua alcova, durante a insomnia, que ella recordou-se da historia
de Leopoldo, e comparou seu amor ao de Horacio. Repassando na mente as
palavras commovidas do primeiro, pensando naquelle affecto tão
desprendido das miserias humanas, tão d'alma, Amelia sentia-se como
purificada dos desejos do seductor.
Esse amor puro e immaterial era um baptismo para seu coração virgem.
A moça conheceu que o engano de Leopoldo, provinha de uma illusão da
vista, no momento de entrar no carro com Laura; illusão confirmada pela
presença do lacaio na loja do sapateiro. Chegou á estimar esse
incidente que pôz em relevo a alma nobre e generosa do mancebo.
Acodiu-lhe á lembrança, sua primeira conversa em casa de D.
Clementina. As palavras que então lhe pareceram inintelligiveis, tinham
agora um sentido. Comprehendia toda a sublimidade do coração que dizia
com uma profunda convicção:--«Sinto-me capaz de amar o horrivel,
sinto-me capaz de nutrir uma dessas paixões martyres, de amar o anjo
ainda mesmo encarnado no aleijão.»
--Esse me ama realmente, a mim, e não a sua fantazia! murmurou a moça
com tristeza.
No dia seguinte, depois de uma noite de insomnia, preparou-se para
receber Horacio, e submettel-o á prova. O Mattos conservava um par das
antigas botinas de Laura, o qual lhe fôra para modelo. Mandou Amelia
buscal-o; e encheu-o de algodão para acommodar nessa enormidade o seu
mimoso pésinho.
O bordado do bastidor, foi expressamente inventado. Procurando uma
lettra para indicar a pessoa a quem destinava o pretendido presente,
insensivelmente traçou um L. Era a inicial de Laura, que lhe acudira a
mente, ou era a lembrança de Leopoldo, que lhe esvoaçava ainda na
imaginação? Foi uma e outra cousa. Serviu-se do pretexto da amiga,
para evocar o nome do homem, que tão profundamente a amava.
Depois da scena que teve logar na tarde do jantar, Amelia arrependeu-se.
Receiava ter-se excedido; bastava-lhe matar a illusão do mancebo, não
devia ter excitado o horror. Mas o affecto de Leopoldo a tornara
exigente, ella queria ser amada por Horacio da mesma fórma, com aquella
sublime abnegação.
Durante alguns dias, alimentou a esperança de conservar a affeição do
noivo, e regosijava-se com a idéa da sorpresa que lhe guardava.
A ausencia do leão a foi desenganando de dia em dia. Travou-se então
uma luta em seu espirito. Devia esquecer o homem que não amava nella
sinão uma fantazia?
O tom de Horacio na ultima noite a irritou. Seu amor proprio indignou-se
com o menoscabo do moço e subita revelação de sua alma lhe advertiu,
que esse casamento causaria sua desgraça.
No dia seguinte ao do rompimento, Amelia foi como havia dito na vespera
á casa de D. Clementina. Era a primeira vez que tornava a vêr Leopoldo
depois do baile.
Estiveram juntos alguns momentos. Como de costume Leopoldo fallou, e a
moça embebeu-se daquellas palavras apaixonadas como de um effluvio
suave.
Em um momento de pausa, disse Amelia.
--O senhor, passou por nossa casa na terça-feira?
--É verdade. Porque pergunta?
--Eu estava no jardim. Vi-o quando passava; cuidei que ia entrar.
--Não me animava.
--Porque?... Mamãi já lhe offereceu nossa casa.
--Tenho receio de ser importuno.
--Pouco sahimos agora; á excepção das noites que passamos aqui,
estamos sempre sós; mamãi lendo, e eu tocando ou fazendo algum
trabalho de lã.
--E ninguem mais? perguntou Leopoldo, fitando na moça um olhar
interrogador.
--Ninguem! respondeu Amelia em tom grave.
Leopoldo ficou suspenso, buscando comprehender o pensamento da moça.
Era magoa do bem perdido, ou temor do mal frustrado, que assim lhe
annuviara a phisionomia?
Mas o sorriso prasenteiro illuminou o semblante da moça:
--Sabe? Naquella noite do baile, me contaram uma historia muito
interessante? disse ella.
--Não se póde saber?
--O senhor, póde. Foi a _historia de um sorriso_, disse Amelia
sublinhando a palavra com um gesto faceiro.
--Quem lhe contou? Foi elle...
--Foi o senhor.
--Eu?
--O senhor mesmo. Já não se lembra?
--Quer gracejar?
--O senhor estava no jardim conversando com seu amigo, e eu na janella
do toucador.
Leopoldo adivinhou.
--Então ouviu tudo?
--Tudo!...
--E... perdoou-me?
--Não; não tinha de que, mas...
E seus bellos olhos limpidos repousaram no semblante do moço.
--Mas comprehendi!
Nesse momento D. Leonor chamou Amelia.