XV

Seriam quatro horas da tarde.

Amelia já vestida para o jantar, esperava o noivo, trabalhando em um

bordado de tapessaria. A seu lado em uma linda banca de costura forrada

de páo setim, havia, além dos utensilios necessarios, uma profusão de

seda frouxa de varias côres.

No setim branco, estendido pelo elegante bastidor de mogno, via-se o

risco de um par de sandalias, que pareciam destinadas á alguma fada,

tão pequena, mimosa e delicada era a fórma do pé.

Um dos esboços estava ainda intacto; no outro porém via-se já um

florão de rosas bordadas á seda frouxa, e no centro a lettra L., feita

com torçal de ouro. Era naturalmente a inicial do nome, em cuja

tenção a moça trabalhava.

Amelia estava nesse dia talvez menos formosa, porém em compensação

mais seductora. Certa expressão languida, ou de cansaço ou de

melancolia, embotava a flôr de sua habitual lindeza, desmaiando o matiz

dos labios e das faces, velando o brilho dos olhos pardos. Seu trajo

branco ainda mais ameigava a sua phisionomia.

Não ha para arrebatar os sentidos, como essa languidez da mulher amada.

Parece que ella verga com a exhuberancia do amor, como a planta muito

viçosa, quando concentra a seiva que não brota em flôr. O homem

querido se regosija, pensando que suas palavras e suas caricias pódem,

como os orvalhos celestes, reanimar e expandir o coração da mulher

amada.

Talvez em Amelia não fosse esse desmaio senão o effeito da fadiga do

baile, e das scismas da noite mal dormida.

Emquanto bordava, o ouvido da moça attento esperava algum rumor que lhe

annunciasse a chegada do noivo. Um carro parou á porta; e momentos

depois soaram na sala de visitas os passos de alguem.

Era Horacio.

Vendo a moça na saleta proxima, o leão dirigiu-se a ella, com a

familiaridade á que lhe dava direito seu titulo de noivo. Trocados os

comprimentos usuaes, sentou-se junto ao bastidor.

--O que está bordando?

Amelia fez um gesto para cobrir o bordado:

--Deixe vêr! insistiu o moço.

--Não vale a pena!

--Ah!

Esta exclamação desfez-se nos labios do mancebo em um sorriso de

jubilo.

--É um presente de annos para uma amiga! disse Amelia.

--Não são para a senhora?

--Não; respondeu a moça admirada.

--Está zombando commigo!

--Veja!

A unha de nacar da moça, mostrou o L. bordado a ouro.

--Pois ha quem tenha este pésinho mimoso, a não ser minha noiva? disse

Horacio rindo-se.

--Eu? exclamou Amelia enrubecendo. Pobre de mim!

--Lembra-se do que me prometteu hontem á noite?

Uma nuvem de tristeza cobriu o lindo semblante da moça; com a fronte

pendida e os olhos baixos, parecia contrahida por uma dôr intima.

--Amelia!

--Hontem... não tive animo de contrarial-o. Fiz mal; desculpe-me.

--Então sua promessa? disse o moço com ironia.

Amelia voltou o rosto como para esconder uma lagrima.

--Acredite. O que me pede... não posso... não tenho forças para

fazer. Si o senhor soubesse!... E entretanto deve saber, porque... Eu

lhe supplico, não fallemos disso agora; depois eu lhe direi.

Prometto-lhe!

--Não se dê a este trabalho. Já sei quanto basta: zombou de mim.

Horacio levantou-se visivelmente despeitado, e volveu os passos pela

sala. Amelia continuou a bordar, talvez para disfarçar o seu vexame.

Decorridos alguns instantes, Horacio, lançando um olhar para a moça,

occupada com seu bordado, viu alguma cousa que o sobresaltou. A fimbria

do vestido, suspensa na travessa do bastidor, devia descobrir o pé da

moça para quem estivesse sentado á sua esquerda.

O leão aproximou-se na esperança de sorprender o avaro thesouro que se

roubava á seus olhos.

--Não sabia que bordava tão bem!

--Ora! Não tenho paciencia para estes trabalhos. Si não fosse uma

divida...

--Como? Não é mais presente de annos?

--Uma e outra cousa.

--Ou talvez nem uma nem outra; disse Horacio adoçando o tom de ironia.

--Que necessidade tinha eu de enganal-o? disse Amelia com um doce

resentimento. Uma amiga minha...

--Cujo nome não consta.

--É segredo! atalhou a moça com faceirice.

--Ah! É segredo?

--Inviolavel. Ella não quer por cousa alguma que saibam nem mesmo

suspeitem....

--Que é sua amiga?

--Ora!... Que tem um pé deste tamanho: disse a moça mostrando o

bordado.

--Devéras? acodio Horacio.

--Ella pensa que é um aleijão e sente uma tristesa...

--Na verdade, possuir um thesouro, um primôr! Admira como sua amiga já

não morreu de desgôsto.

--Mas fallando sério; não é natural que uma moça tenha o pé de uma

menina de sete annos.

--Não sei si é natural; mas sublime, asseguro-lhe que é. Ha certas

graças na mulher que devem ficar sempre meninas; as huris, as fadas, as

deusas, são assim.

--Com effeito! Si eu fosse ciumenta!

--De sua amiga?... De uma amiga tão intima?... Era quasi ter ciumes de

si mesma! disse Horacio gracejando.

--O que o senhor quer sei eu. É vêr se adivinha.

Horacio tinha sustentado esta conversa com interesse extremo; menos

pelas palavras da moça, do que pelos movimentos da fimbra do vestido.

A saia, arregaçando gradualmente com a inflexão do talhe gentil da

moça reclinada sobre o bastidor, promettia brevemente descobrir o

thesouro, tão estremecido pelo mancebo.

Amelia, occupada com seu trabalho, e distrahida com a conversa, se

esquecêra daquelle constante cuidado que ella tinha em compôr a orla

do vestido. Durante a conversa apenas uma vez tirara os olhos do

bordado, para lançar uma vista furtiva ao leão.

--Mas então essa amiga mysteriosa.... A senhora ia contar uma historia,

si não me engano.

--Historia, não senhor. Queria explicar-lhe por que este bordado é o

pagamento de uma divida.

--Justamente.

--Pois essa minha amiga, incommodava-se muito quando tinha de comprar

botinas; custava achar um par que lhe servisse. As de senhora eram muito

grandes; as de menina eram muito baixas. Afinal encontrou um sapateiro,

que trabalha tão bem como os melhores de Pariz.

--É exacto.

--Como exacto? O senhor sabe?

--A senhora não falla do Campas? disse Horacio um tanto perturbado.

--Não, senhor.

--Pensei.

--Haverá dois mezes; indo eu a cidade, minha amiga, que tinha feito uma

encommenda de botinas, pediu-me para vêr si estava prompta. Quando o

criado a trouxe para o carro onde o esperava, cahiu um pé de botina já

usado, que fôra para modelo. Minha amiga ficou muito afflicta; e eu fiz

tenção de dar-lhe no dia de seus annos umas chinellas bordadas por

mim. Bem vê que não o enganei.

Proferindo as ultimas palavras, Amelia sempre occupada com seu bordado,

debruçou-se completamente sobre o bastidor para desembaraçar o fio de

sêda frouxa. Este movimento produziu o que Horacio esperava. A saia,

retrahida pela travessa do bastidor, descobriu até o artelho o pé da

moça.

O moço estremeceu com a forte emoção; e fechou os olhos, atordoado.

O que vira era uma cousa indefinivel, estupenda. Era o aleijão, a

monstruosidade de que lhe fallára Leopoldo. Aquella massa informe;

aquella enormidade cheia de cavernas e protuberancias, elle a tinha ali

em face, diante dos olhos, escarnecendo do seu amor, como um desses

caturras hediondos das lendas da idade media.

--Diga-me uma cousa: hontem depois que sahimos o senhor conversou com

aquelle moço que dansou commigo? O Leopoldo, não é?

Não recebendo resposta, Amelia ergueu a cabeça para interrogar o noivo

com o olhar. O aspecto demudado de Horacio, o sorriso pungente que

amarrotava seu bigode artistico, a vista anciada que elle tinha fixa no

monstro, lhe reveláram subitamente o que succedêra.

Um grito de afflicção escapou-se do peito da moça, que afastou

violentamente de si o bastidor, causa do accidente, e colheu os largos

volantes da saia, occultando o que ella por tanto tempo defendêra

contra a curiosidade soffrega do moço. Por alguns instantes os noivos

permaneceram mudos e confusos, sentindo-se repellidos um pelo outro, e

comtudo não ousando affastar-se. É um supplicio cruel esse que

inflinge a presença de um ente que faz corar de vergonha.

Afinal Horacio levantou-se e deu alguns passos á esmo. Amelia

aproveitou-se desse movimento para fugir da sala. Ficando só, o leão

dardejou para o interior um olhar terrivel; e tomando o chapéo, desceu

rapidamente as escadas.

Agora elle comprehendia tudo: e as palavras que Leopoldo lhe dissera na

vespera, ao sahir do baile, lhe repercutiam ao ouvido, como uma

gargalhada satanica:--«A illusão é a unica realidade deste mundo.»

--Como pude eu tanto tempo illudir-me com o excessivo recato de Amelia?

Como não desconfiei do pudor selvagem que vellava semelhante á um

dragão sobre o terrivel segredo?

«Não ha moça, seja ella o anjo da pudicicia, que não mostre ao menos

a pontinha do pé, quando o tem mimoso e gentil. Eu devia saber disso,

mas estava cégo. Todos cochilamos, sem ser Homeros: eu que me prezo de

conhecer a mulher, portei-me como um calouro.

«Consumir dois mezes á correr após uma sombra, e quando esperava que

a sombra tomasse corpo, ella se desvanece... Qual! Antes se

desvanecesse; mas ao contrario toma um vulto medonho, enorme,

esqualido. Faz-me quasi lembrar o verso de Camões.»

Horacio soltou uma gargalhada:

--Realmente eu não sei qual de nós dois ficou mais corrido. Si ella de

mostrar a toeza; si eu de a vêr.

«Sonhar uma perola, e encontrar um seixo; imaginar um mimo, e achar uma

brutalidade; desejar um botão de rosa, e colher uma tubara!

«Si os rapazes souberem disto, estou deshonrado. Como posso eu mais

apresentar-me na rua do Ouvidor, quando a cousa divulgar-se? Todo o asno

terá direito de atirar-me o couce, como ao leão moribundo da fabula.»

Horacio começou á reflectir, si fizera bem sahindo tão

precipitadamente da casa de Salles. Moderou o passo, e olhou o relogio.

Eram perto de cinco horas. Si voltasse, chegaria tarde; demais, como

explicar a retirada e a volta?

--Em todo o caso, pensou o leão, a fortuna não me desamparou de todo.

Assim como a illusão durou até hoje, podia prolongar-se mais algumas

semanas, e... Tremo de horror, quando me lembro que eu podia ser atado

aquelle mourão, aquelle poste! Ser condemnado a arrastar uma trave por

toda a vida? Que supplicio!

«Si eu podesse imaginar que o Omnipotente, creador de tantas

maravilhas, se occupa com a minha ridicula individualidade, e se

interessa pelos pecados que eu tenho commettido, me ajoelhava aqui mesmo

na rua, e lhe renderia graças pela minha salvação.»

«Quem se livrasse de ser esmagado por uma rocha, não escaparia de tão

grande perigo como eu. Casar-se um homem com aquelle pé, seria

predestinar-se para o homicidio.»

Passava um carro, que parou de repente.

--Ainda por aqui, Almeida? disse o Salles deitando a cabeça fóra do

carro.

--É verdade... sahi, mas....

--Entre, que hão de estar á nossa espera; São cinco horas, demorei-me

hoje além do costume; por causa mesmo do senhor, maganão! Certos

arranjos.

Horacio procurou rir, mas fez uma careta que desculpou com um callo.

Elle, o leão, sempre elegante, correcto e irreprehensivel no trajo,

como nas maneiras, tinha perdido completamente a serenidade de espirito.

As senhoras estavam reunidas na saleta. Amelia ficou sorprendida, vendo

Horacio de volta com seu pai; e reprimiu o contentamento que sentia. Mas

este durou pouco. Ella conheceu logo que o leão obedecêra mais ás

conveniencias, do que ao affecto que lhe tinha.

Comtudo essa volta significava alguma cousa. Ella, Amelia, não causava

horror á seu noivo.

O jantar foi animado pela conversa viva e espirituosa de Horacio, que

havia recuperado seu sangue frio. Uma circumstancia porém não escapou

a Amelia, que passou desapercebida ás outras pessoas; o leão, apezar

de sentado á sua esquerda, não achou um momento para trocar com ella

uma palavra. Ao contrario, manteve sempre a conversação geral, para

impedir o dialogo intimo, que elle receiava.

Terminado o jantar, Horacio achou um pretexto para retirar-se logo.

--O que se passou D. Amelia, é mais do que um segredo para mim; eu nada

sei, esqueci; disse elle despedindo-se.

Tocando apenas na mão que a moça lhe estendêra, sahiu.

Amelia deu um passo para chamal-o, mas apoiando-se ao recosto do sofá,

permaneceu immovel, escutando os passos do noivo até que se perderam ao

longe.

A Pata da Gazella: romance brasileiro. · 第 18 / 23 题