Ao mesmo tempo que o nosso leão, entrava Leopoldo de Castro na modesta
habitação que então occupava na Gloria.
Quando lhe fugira a celeste visão, o mancebo foi seguindo com o passo e
com os olhos o carro que levava sua alma presa áquelle rosto
encantador. O passo era rapido e o olhar ardente; um anciava por chegar;
o outro quizera attrahir pela força da paixão, pelo iman das centelhas
magneticas, que desferia a alma.
Fosse illusão dos sentidos perturbados pela commoção interior, ou
breve e confusa percepção da realidade, julgou o moço vêr, no
momento de dobrar o carro pela rua Sete de Setembro, um talhe esbelto
inclinar-se para a frente, e apparecer de relance um rosto alvo, donde
escapou-se vivo e rapido olhar.
Leopoldo não tinha o intento de alcançar, nem mesmo seguir, o carro
que fugia com velocidade; mas embalava-o a esperança de que um
obstaculo qualquer, impedindo por instantes o livre transito, lhe
permittisse outra vez contemplar a moça. Quando, porém, isso não
succedesse, consolava-o a idéa de conhecer a direcção que tomaria a
linda victoria:
--Si eu soubesse ao menos para que lado mora ella!... Esse ponto seria
o meu horizonte, o meu céo. Me voltaria para ali quando adorasse á
Deus, e quando conversasse com ella. Amaria as estrellas, as nuvens e
até as borrascas dessa banda do firmamento; amaria as ruas, as
calçadas e até a poeira desse arrabalde da cidade.
O mancebo vagou assim durante duas horas, percorrendo as ruas sem
destino. Não era tanto a esperança de vêr a moça ou sómente o
carro, como a necessidade de occupar seu espirito, o que o impellia
nessa perseguição de uma sombra.
--Eu tornarei a vel-a, pensava elle comsigo; e ella me ha de amar, tenho
convicção. O amor é um magnetismo; eu acredito que o magnetismo se
resume nelle; que a lei da attracção não é sinão a lei da
sympathia; os polos são a cabeça e o coração, na terra, como no
homem. Si ella fôr a mesma que eu vi com os olhos de minha alma, a
mesma que se revellou á minha paixão, aquella a que devo unir-me
eternamente para formar um ser mais perfeito, eu caminharei para ella,
como ella para mim, impellidos por uma força mysteriosa, por mutua
aspiração.
Com o animo repousado por essa convicção que nelle se derramára,
entrou Leopoldo em casa. Ahi o esperava o isolamento em que se ia
escôando sua vida, depois da perda de uma irmã á quem adorava.
Nessa irmã tinha elle resumido todas as affeições da familia,
prematuramente arrebatadas á sua ternura; o amor filial, que não
tivera tempo de expandir-se, a amisade de um irmão, seu companheiro de
infancia, todos esses sentimentos cortados em flôr, elle os
transportára para aquelle ente querido, que era a imagem de sua mãi.
Essa perda deixára um vacuo immenso no coração de Leopoldo; a
principio enchera-o a dôr; depois a saudade; agora essa mesma terna
saudade sentia-se desamparada na profunda solidão daquelle coração
ermo. O mancebo carecia de uma affeição para povoar esse deserto de
sua alma; de uma voz que repercutisse nesse lugubre silencio. É tão
doce partilhar sua melancholia, ou seu prazer, com um outro eu, com um
amigo ou uma esposa. São dous hombros para a cruz, e dous peitos para a
alegria; alliviar-se o peso, mas duplica-se o gozo.
Ao cahir da tarde, quando o crepusculo já desdobrava sobre a cidade o
véo de gaza pardacenta, Leopoldo, sentado á janella de peitoril de sua
casa, fumava um charuto, com os olhos engolphados no azul diaphano do
céo, onde scintillava a primeira estrella. A seus pés desdobrava-se a
bahia placida e serena como um lago, com a sua graciosa cintura de
montanhas, caprichosamente recortadas.
O espirito do moço não se embebia de certo na perspectiva dessa
encantadora natureza, sempre admirada, e sempre nova. Ao contrario
abandonava-se todo ás recordações de seu encontro pela manhã e aos
enlevos que lhe deixara a contemplação da linda moça. Passava e
repassava em sua memoria como em um cadinho, todas as circumstancias
minimas deste grande e importante acontecimento, desde o momento em que
assomou a visão até que desappareceu por ultimo ao dobrar o canto da
rua.
Achava nisso o mesmo praser que um menino guloso experimenta em chupar
novamente os favos já saboreados; lá ficou um raio de mel, que o labio
avido colhe. Para Leopoldo esses raios de mel eram os olhares, os
movimentos, os sorrisos da moça, avivados pela maior contensão do
espirito.
Houve uma occasião em que o mancebo quiz representar em sua lembrança
a imagem da moça: naturalmente começou interrogando sua memoria á
respeito dos traços principaes. Como era ella? Alta ou baixa, torneada
ou esbelta, loura ou morena? Que côr tinhão seus olhos?
A nenhuma dessas interrogações satisfez a memoria; porque não
recebêra a impressão particular de cada um dos traços da moça. Não
obstante, a apparição encantadora resurgia dentro de sua alma; elle a
revia tal como se desenhára a seus olhos algumas horas antes. Era a
imagem diaphana de um sonho que tomara vulto gracioso de mulher.
--Não me lembro de seus traços, não posso lembrar-me!... murmurava no
intimo. Eu a contemplei, como se contempla uma luz brilhante: ve-se a
chamma, o esplendor; e nem se repara no espectro que a flamma envolve
como uma roupagem. Ella é minha luz; não sei a côr e a fórma que
tem, mas sei que scintilla, que me deslumbra; que innunda meu ser de uma
aurora celeste. Não poderia descreve-la, como um poeta... Mas que
importa? Pois que eu a sinto em mim; pois que eu a possuo em meu
coração?
As palpebras do mancebo cerrarão-se coando apenas uma restea de olhar,
que se embebia nas alvas espiras da fumaça do charuto. Percebia-se que
naquella nevoa se debuxava á sua imaginação a seductora imagem,
deante da qual elle cahia em extases de uma doçura ineffavel.
--Quem sabe? Talvez não seja ella o que nos bailes se chama uma moça
bonita; talvez não tenha as feições lindas e o talhe elegante. Mas eu
a amo!... O amor é sol do coração; imprime-lhe o brilho e o matiz!
Venus, a deosa da formosura, surgindo da espuma das ondas, não é outra
cousa senão o mytho da mulher amada, surgindo d'entre as puras
illusões do coração! O que eu admiro nella, o que me enleva, é sua
belleza celeste; é o anjo que transparece atravez do envolucro
terrestre; é a alma pura e immaculada que se derrama de seus labios em
sorrisos, e a envolve como a scintillação de uma estrella.
Leopoldo já não estava só na existencia; tinha para acompanha-lo na
esperança essa doce apparição; como para partilhar a saudade tinha a
memoria querida de sua irmã. O coração aproximou as duas imagens;
ligou-as por algum vinculo misterioso; e creou assim uma familia ideal,
em cujo seio viveu para o futuro, como para o passado.
Nas horas do trabalho, o moço absorvia-se completamente nas
occupações habituaes e cerrava sua alma para não deixar que as
miserias do mundo ahi penetrando profanassem o templo de sua adoração;
o templo da esperança e da saudade. Fora dessas longas horas,
encerrava-se naquelle asylo e ahi vivia.
Alguns dias depois do encontro da rua da Quitanda, o Castro percorrendo
distrahidamente os jornaes da manhã, deu com os olhos sobre os
annuncios de espectaculo, cousa que desde muito tempo não existia para
elle. Representava-se no theatro lyrico a _Lucia de Lamermoor_, o mais
sublime poema de melancolia, que já se escreveu na lingua dos anjos.
O mancebo teve um desejo irresistivel de ir aquella noite ao
espectaculo, apezar de conservar ainda o luto pesado. Não comprehendia
esse capricho de seu coração; attribuiu ao encanto das reminiscencias
daquella musica tão triste, e tambem daquelle amor tão estremecido,
que os homens quizeram romper, mas a fatalidade uniu para sempre no
tumulo. Elle ia saturar-se de tristeza; não havia, portanto,
profanação de uma dôr santa.
Eram perto de dez horas: cantava-se o final do segundo acto da opera, e
Leopoldo, sentado em uma cadeira, do lado direito, estava completamente
absorvido no canto magistral de Lagrange e Mirate. Um momento, porém,
ergueu os olhos, e volvendo-os lentamente, fitou-os em um camarote da
segunda ordem. Estremeceu; o olhar morno e baço que se escapava de sua
pupilla illuminou-se de fogos sombrios e ardentes.
Vira a mulher amada.
Amelia estava nessa noite em uma de suas horas de inspiração; a mulher
bella tem, como o homem de intelligencia, em certos momentos,
influições energicas de poesia; nessas occasiões ambos irradiam; a
mulher fica esplendida, o homem sublime.
O talhe esbelto da moça desenhava-se através da nivea transparencia de
um lindo vestido de tarlatana com laivos escarlates. Coroava-lhe a
fronte o diadema de suas bellas tranças, donde resvalavam dois cachos
soberbos, que brincavam sobre o collo. Os cabelleireiros chamam esses
cachos de arrependimentos, _repentirs_. Por que motivo? A alma que se
arrepende convolve-se daquella fórma; o pezar a confrange. Já se vê
que os cabelleireiros tambem são poetas.
Não foi, porém, o suave perfil da moça, nem os contornos macios de
suas fórmas gentis, o que arrebatou o espirito do mancebo. Elle só viu
a luz, o brilho d'alma, rarejando do sorriso. Contemplava a rosa,
embebia-se nella, sem contar-lhe as petalas.
Amelia, que apoiava o lindo braço sobre a almofada de velludo da
ballaustrada, prestava attenção á scena, recolhendo ás vezes a vista
para discorrel-a vagamente pelos camarotes fronteiros. Depois que o
panno cahiu, conservou-se na mesma posição, conversando com sua mãi
e Laura que ali estava de visita. Então voltou rapidamente o rosto, e
deixou cahir sobre a platéa um olhar subito e vivo. Foi uma centelha
electrica, listrando no espaço, para logo apagar-se.
Revelou-se no semblante da moça alguma inquietação e visivel
incommodo. Quiz disfarçar, mas afinal ergueu-se, para occultar-se no
interior do camarote, por detrás de Laura, a qual occupava o outro
logar da frente.
O olhar que deitára á platéa encontrou o olhar profundo e ardente de
Leopoldo; e batendo de encontro a esse raio brilhante, reagiu como
estylete para feril-a no coração.
Leopoldo notou vagamente esse movimento; mas como entre a columna e o
busto de Laura elle via a sombra da mulher a quem amava, não se
interrompeu seu enlevo. De vez emquando passava-lhe pelo rosto um
lampejo subtil, no qual presentia o olhar furtivo da moça.
V
Estava a subir o panno.
Amelia resolvêra ficar onde estava, e não tomar o logar da frente,
apezar de Laura ter voltado a seu camarote. Mas essa resolução, tão
solidamente calcada em seu coração, cahiu de repente: bastou um olhar.
Vira na platéa, encostado á balaustrada da orchestra, um elegante
cavalheiro.
Era Horacio.
O sorriso brando que manava dos labios da moça, como a onda pura e
christalina de um ribeiro, desappareceu então sob outro sorriso mais
brilhante, que borbulhava como a frol da cascata. Era o sorriso da
vaidade, como o outro era da innocencia.
A moça collocou-se na frente, fazendo realçar com a graça de seus
movimentos a suprema elegancia do talhe. Demorou-se mais do que era
preciso nesse acto; e sentando-se, houve em seu corpo um impulso quasi
imperceptivel de mysteriosa expansão. Dir-se-hia que ella se queria
debuxar no quadro illuminado do camarote.
A causa desse elance não o adivinham? O leão tinha assestado seu
binoculo de marfim; e a moça com um irresistivel assomo de faceirice
abandonava-se ao olhar do mancebo.
Durante o acto, Amelia distrahiu mais a attenção do semblante pallido
de Leopoldo. Enleiava os olhos na figura elegante de Horacio; prendia-se
ao fino buço negro que sombreava o labio desdenhoso do leão;
embebia-se toda na graça de sua attitude: tentando assim resistir a
curiosidade incommoda que attrahia sua attenção para o importuno
desconhecido.
Não sei porque, Leopoldo, cuja adoração era infatigavel como a
emanação de uma chamma perenne, sentia naquella occasião a
necessidade de dar um repouso a sua contemplação. Então como si a luz
que o deslumbrava se fosse tornando mais doce, elle pôde vêr
destacar-se o perfil gracioso da moça.
--Tem o cabello castanho! É pena! Acreditava que a mulher a quem amasse
algum dia, havia de ser loura. É a côr do reflexo da luz, deve ser a
côr desse véo casto que Deus fez para o pudôr. A madeixa foi dada á
mulher para recatar a face que enrubece e o seio que palpita; essa gaza
preciosa deve ser de ouro, ou antes de graça e esplendor.
O moço já não olhava para Amelia; com as palpebras cerradas estava
agora vendo-a na penumbra d'alma.
--Mas para mim é indifferente que tenha o cabello castanho; podia
têl-o negro como a treva. Eu a amo, amo sua alma, sua essencia pura e
immaculada! Si Deus me enviou um anjo para consolar-me em minha
afflicção; para amparar-me em meu isolamento; para encher de
ineffaveis jubilos meu ser saturado de amarguras; posso eu queixar-me
porque o Senhor o vestiu de uma simples tunica de lã, e não de um
sumptuoso manto de ouro? Eu gostava dos cabellos louros: pois agora só
gosto, só quero, só vejo uns cabellos castanhos, porque pertencem a
ella, s'impregnam de seu perfume, e respiram seu halito!
Terminára o acto. Leopoldo, contemplando a moça, pela primeira vez
lembrou-se de saber quem era, na sociedade, aquella mulher que lhe
pertencia pelo pensamento. Tinha-se habituado a consideral-a como uma
cousa sua; parecia-lhe que ninguem mais existia sinão elles dois.
Volveu os olhos em busca de algum conhecido, a quem dirigisse a
pergunta. Não encontrou: mas ao cabo de alguns instantes descobriu o
leão em seu posto.
--Ah! lá está Horacio, que póde me informar. Elle conhece todo o
mundo! Justamente agora pôz o binoculo para o camarote.
Como desejava sahir, dirigiu-se para aquelle lado; mas o leão, inquieto
e preoccupado, sahira açodadamente, e subia de um pulo as escadas que
o separavam da segunda ordem.
--Aquella mão é irmã do meu adorado pesinho! Não tem a graça delle,
sem duvida, nem se compara com aquelle mimo de amor; mas ha um certo ar
de familia, um quer que seja!...
Assim cogitando, Horacio chegára á porta de um camarote, e pela fresta
fitára com disfarce o olhar em Laura, cuja mão, excessivamente
pequena, e calçada por uma luva muito justa, custava a segurar o
binoculo de madreperola.
O moço, apenas reconheceu o vestido de seda violeta, e a mãosinha que
lhe servira de phanal, abaixou o olhar para a fimbria do vestido a vêr
si descobria alguma cousa, o peito, a ponta, a sombra, ao menos, do
pesinho mimoso, do idolo de sua alma. Mas não foi possivel: o vestido
arrastava no chão; nenhum movimento fazia ondular a seda; e comtudo o
mancebo ali ficou immovel, palpitante de emoção, como si esperasse dos
labios da mulher amada o monosyllabo que devia dicidir de seu destino.
A paixão que o mancebo concebêra pela dona incognita da botina achada,
longe de se desvanecer, adquirira uma vehemencia extrema. Horacio, o
feliz conquistador, o coração fogoso e inflammavel, nunca ardêra por
mulher alguma, como agora ardia por aquelle pesinho idolatrado. Era um
verdadeiro amor de leão, terrivel e indomito; era um delirio; uma
raiva.
Seus amigos já não o reconheciam; elle apparecia nos bailes, nos
theatros, nos pontos de reunião, de relance, como um meteoro, seguindo
após uma idéa fixa, ou uma sombra que fugia diante de seus passos.
Conversou-se muito na rua do Ouvidor á este respeito. Uns attribuiam o
facto inaudito á primeira derrota.
--Horacio, dizia um de seus amigos, como Napoleão, só devia ser
derrotado uma vez. Mas essa vez foi Waterloo!
--Que pensa então?
--Que o pobre rapaz caminha para o seu rochedo de Santa Helena. Ou casa
ahi com alguma mulher feia e rica, ou engorda como um cevado.
Outros lembravam-se de algum desarranjo de fortuna, ou de alguma
velleidade politica, para explicar o mysterio. Mas sabia-se que o moço
tinha bom e seguro rendimento; e quanto á politica, elle a comparava a
uma embriaguez causada pela mais ordinaria zurrapa de taberna.
Muitas vezes disse, gracejando, a seus amigos:
--Quando me quizer embriagar, em vez de zurrapa, beberei champanhe. É
mais fino, e tambem mais barato, porque não deixa uma irritação de
estomago, cujo preço é muito superior ao de uma caixa de melhor
_cliquot_.
A causa real da mudança do leão ninguem, pois, a sabia, nem a
suspeitava.
Depois da achada da botina, sua vida tomara um aspecto muito differente.
Naquella mesma tarde em que o deixamos na sua casa de Botafogo,
terminado o jantar, mandou apromptar o tilbure e voltou á cidade. Seu
apparecimento áquella hora na rua do Ouvidor causou extranheza; um
leão de raça, como elle, não passeia ao escurecer, sobretudo no
centro do commercio, onde só ficam os que trabalham. Seria misturar-se
com os leopardos que aproveitam a ausencia dos reis da moda, para
restolhar alguma caça retardada.
Correu Horacio todas as lojas de calçado á procura de informações.
Para disfarçar sua paixão, inventou uma aposta, como pretexto á sua
curiosidade. A um freguez como elle não se recusava tão pequeno favor,
sobretudo quando levava o sainete de uma anecdota de bom tom. A todos
elles o leão se dirigia mais ou menos nestes termos:
--Fiz uma aposta com uma senhora. Que em todo o Rio de Janeiro não se
encontram tres moças de 18 annos que calcem n. 29. Tenho todo o empenho
em ganhar a aposta, não tanto pelos botões de punho, como porque, si
ella perder, ha de ser obrigada a mostrar-me seu pé, para eu verificar
si é realmente desse tamanho. Peço-lhe, pois, que me dê uma nota das
freguezas a quem costuma vender calçado deste numero.
Nesta pesquiza gastou Horacio muitos dias, sem colher o menor resultado.
Os poucos pares de calçado n. 29, vendidos pelas differentes lojas,
eram destinados á meninas de doze annos ou a pessoas desconhecidas,
cuja idade se ignorava. Apezar de tudo o leão não desanimava; todas as
manhãs, ao acordar, levantava um plano de campanha, que punha em
pratica durante o dia.
Horacio sentira-se de repente tomado de indefinivel ternura por uma
classe; de que antes só lembrava-se para amaldiçoal-a: a classe dos
sapateiros. Quando via um sujeito de avental de couro e sovella, o leão
sentia-se attrahido para aquelle individuo, que talvez encerrasse o
segredo de sua felicidade, seu futuro, sua existencia. Outras vezes,
porém, tinha de repente uns accessos de ciume selvagem. Lembrando-se
que esse operario talvez já houvesse tomado medida ao adorado pésinho;
que essas mãos calosas teriam tocado a cutis assetinada do anjo de seus
pensamentos; o mancebo sentia em si o furor de Othello e procurava um
punhal no seio; felizmente só achava a carteira, a adaga de ouro com
que neste seculo se assassina mais cruelmente.
Depois de consumir as horas em suas indagações, ia contemplar a
botina, prenda querida de seu amor e proseguia á noite sua porfia
incansavel. Corria os espectaculos e bailes, com o olhar rastejando para
descobrir por baixo da orla do vestido, o ignoto deus de suas
adorações. Não dansava para observar melhor o arregaçado dos
vestidos; de ordinario andava pelas escadas e portas, afim de aproveitar
o ensejo da subida e descida; muitas vezes ia fumar junto ao logar onde
se collocavam os lacaios, na esperança de conhecer o portador da
botina.
Quando as rainhas da moda, as deusas do salão, sorprezas e attonitas o
viam passar sem distinguil-as com uma palavra ou uma fineza, elle,
atirando-lhes um olhar de compaixão, dizia comsigo:
--Coitadas! não sabem que o leão viu a pata da gazella e fareja-lhe o
rastro. Que lhe importam as garras da panthera?...
Recolhendo, Horacio accendia duas velas transparentes e collocava-as a
um e outro lado da almofada de velludo escarlate, sobre uma mesinha de
charão, embutido de madreperolas. Tirava de um elegante cofre de
platina a mimosa botina, e com respeitosa delicadeza deitava-a sobre a
almofada, de modo que se visse perfeitamente a graciosa fórma do pé
que habitara aquelle ninho de amor.
Então accendia o charuto, sentava-se n'uma cadeira de espreguiçar,
defronte, porém, distante, para que o fumo não se empregnasse na
botina, e ficava em muda e arrebatada contemplação até alta noite.
Sobre aquella botina via elevar-se como sobre um pedestal, um vulto de
estatua, mas vago, indistincto; e comtudo esse esboço sem fórmas
seductoras, aquella sombra sem alma e sem calôr lhe parecia de uma
belleza deslumbrante. Não era ella a mulher a que pertencia o mais
formoso pé do mundo, o mimo, a obra prima da natureza?
Recordava-se das mulheres mais bonitas que tinha visto, das mais lindas
senhoras a quem amára com paixão, e sua memoria as trazia todas, uma
após outra, para as collocar ao lado daquella figura vaga e
desvanecida, que plainava sobre a almofada, como sobre uma nuvem de
ouro. Como ellas fugiam abatidas e humilhadas diante de seu impetuoso
desdêm!
--Não são dignas, murmurava elle, nem de beijarem o chão pisado pela
fada desta botina!
Eis qual tinha sido a vida de Horacio até o momento em que o vamos
encontrar no mesmo logar defronte da porta entreaberta do camarote.
Laura percebeu-o afinal, e sorriu-lhe com ternura. A attenção do rei
da moda era uma fineza, um ar de seu real agrado; cumpria-lhe agradecer.
Fitando com mais força o olhar na pupilla da moça como para travar-lhe
da vontade, Horacio abaixou lentamente esse olhar até a fimbria do
vestido de chamalote com uma insistencia significativa. Laura fez-se
escarlate; e a porta do camarote, rapidamente fechada, a subtrahiu ás
vistas ardentes do leão.
--É ella! exclamou o coração do mancebo afogado em jubilo. Não ha
duvida. Para sentir esse pudor exagerado e incomprehensivel é preciso
ter ali occulto um pé como aquelle que eu sonhei. Um pé?... Não; um
mimo, uma maravilha, um thesouro, um céo!... É o pudor da violeta, que
se esconde na sombra; é o pudor da perola, occulta na concha; é o
pudor do diamante, sumido no seio da terra; é o pudor da estrella,
immergindo-se no azul.
O leão desceu as escadas murmurando:
--Vêl-o e morrer.
Pouco depois terminou o espectaculo. Amelia com um resaibo de
melancholia na fronte, embuçou-se na pellissa e desceu. Ella perdêra
de vista Horacio, e só o tornára a vêr parado em frente á porta do
camarote de Laura. Desamparada pelo encanto do gentil mancebo, soffrêra
todo o resto do espectaculo o desassocêgo que lhe incutia o olhar de
Leopoldo. Por mais que voltasse o rosto sentia a phosphorecencia
estranha desse olhar repulsivo, que entretanto a prendia, máo grado
seu.
Leopoldo esperava no corredor da entrada a passagem da moça, quando
avistou a seu lado Horacio. O leão soffrego e impaciente, volvia o
olhar em varias direcções; naturalmente procurava alguem, e receiava
que lhe escapasse.
--Adeus, Horacio.
--Boa noite, Leopoldo.
Amelia appareceu nesse momento.
--Conheces aquella moça, Horacio?
--Qual?... Espera!
Horacio tinha avistado Laura, que descia o lanço da escada opposta, e
corrêra pressuroso, com os olhos fitos na fimbria de sêda. Seu olhar
tinha tal força que parecia um croque a levantar a orla do vestido.
Debalde; nem a sombra do pé: o encorpado estôfo arrastava pesadamente
pelo chão.
Chegou a moça á porta, onde o carro a esperava. Horacio teve um
vislumbre de esperança; porém nova decepção o esperava. Não viu
mais do que uma nuvem de sêdas ondular e sumir-se.
O leão fez um movimento de desespero.
--Senhor! porque em vez de homem, não me fizeste estribo de um carro!
Teria a felicidade de ser pisado por aquelle pesinho.