«De tornada, fizeram ali grande detença. Buscando achaque de querer lá

ir para detraz das casas, levando Enis consigo, houve tempo para Aonia

entrar onde êle estava então deitado, contra a outra parte da parede,

chorando, porque não vira Aonia ao passar, que bem se pudera êle erguer.

E como isto perdêra, cuidava tambem que havia de perder a tornada;

porque um mal nunca lhe viera sem outro, pelo que estava no maior pranto

do mundo para consigo.

«Entrada Aonia, deteve-se um pouco, e sentiu que êle chorava, e

suspirava baixo, de maneira que como, n'aquilo, se forçava a si mesmo.

«Éla, para vêr se poderia saber o porquê, que tudo desejava saber d'êle,

deteve-se ainda mais: mas êle com pensamentos muitos, que sobrevinham ao

choro, mais o acrescentava do que o diminuia.

«Assentando-se então Aonia na borda d'aquela sua pobre cama, lhe pôs a

mão, e quisera-lhe dizer alguma cousa, mas não pôde, que lhe faleceu o

espirito.

«Virando-se Bimnarder, e vendo-a, tambem lhe faleceu o seu.

«Estiveram assim ambos um grande pedaço sem se dizerem nada um ao outro:

e êle com os olhos postos em Aonia, e Aonia postos os seus no chão,

porque, em se virando Bimnarder, tomou vergonha. Levando-os assim á

terra, cobriu-se-lhe o seu formoso rosto de um tanto de côr, alem da

natural; e costumava dizer meu pae (porque parte d'esta historia em seu

tempo se soubera) que não parecia senão que viera aquela côr como para

ajudar ainda mais Aonia contra Bimnarder, tam formosa a éla, formosa,

fizera.

«Mas, estando assim n'isto êles ambos, e não estando êles ambos ali,

chegou Enis muito de rijo á porta, dizendo que se queriam já ir, e que a

mandavam chamar.

«Assim, foi forçoso levantar-se Aonia, e ir-se, e Bimnarder vêr tudo, e

ficar.

«Mas Aonia, que bem via os olhos de Bimnarder como ficavam, tomou uma

manga de sua camisa, e, rompendo-a, para remedio de suas lagrimas lh'a

deu, significando, na maneira só como lh'a deu o para que lh'a dava;

pois parece que a dôr grande que sentia não lh'o deixou dizer por

palavras; mas, em lh'a dando, pôs os olhos nos seus, dizendo-lhe só

assim:

«--Pesa-me, pois a minha ventura, ou desventura, não quis que vos eu

deixasse de magoar com o que eu não quisera.»

«E estas palavras lhe disse já fóra da porta.

«E com élas, e com o que sentiu ao dizer d'élas, duas a duas, lhe

começaram as lagrimas a correr dos seus formosos olhos, e pelas suas

faces formosas abaixo lhe iam fazendo carreiras por onde iam, que

Bimnarder a tanto pranto convidou quanto era a razão d'êle, pois perdia

a vista.

«Foi tanto o choro, que não lhe bastavam os seus olhos ás suas lagrimas,

pelo que lhe não pôde então dizer nada. Mas Enis, apressando Aonia com a

fala, e com as mãos, quasi puxando-a, e levando-a já, virou-se para êle

Aonia, dizendo:

--«Levam-me!»

«E, deixando-se ficar toda com os olhos, se foi assim, enlevada, até

que, com a parede das outras casas, passou alem.

«Apartada que éla foi de Bimnarder, êle não se pôde ter que pela outra

banda da sua casa se não saisse para aquela parte d'onde se podia ver o

caminho que élas levavam; e ali esteve olhando, entretanto a terra lhes

deu lugar, e depois, um grande pedaço, em quanto poderiam bem chegar a

casa; pois, parece, folgam tambem os olhos com a presunção, e descansam

em olhar para aquela parte onde está, ou vae, aquilo que podiam ver, se

não fôra a fraqueza d'êles, ou o impedimento d'alguma cousa.

«Mas como lhe pareceu que estaria já em casa, lembrou-se logo do lugar

onde éla estivera na sua cama assentada, e com grande pressa se tornou

para lá.

«E, entrando, foi-se ali pôr, onde éla estivera d'antes.

«Consigo estava fantasiando a Aonia; ora lembrando-lhe como aquilo

fizera, ora como aquel'outro.

«Depois, tomando aquela parte da manga, que lhe deixára, se punha a

chorar com éla, de mistura com palavras tristes, como que as houvesse

éla de entender.

«N'isto passou aquela doença, em que grandemente foi visitado por Enis;

e sarou depressa.

«E, d'aqui até que lhe aconteceu a desventura que vos contarei, se

passaram tempos e outras infindas cousas; porque os paços de Lamentor

acabaram-se, e pelo apartamento do lugar onde êles estavam, Aonia e a

ama, com outras mulheres de casa, iam passar tempo á ribeira d'este rio,

onde Bimnarder sempre andava.

«Mas nenhuma cousa ha n'este mundo em que se deva ninguem muito fiar;

que aquela grande segurança em que Bimnarder estava, em lugar tam ermo,

lhe não pôde durar, como agora vereis.»

CAPITULO XXIX

De como Lamentor casou Aonia com o filho de um cavaleiro seu comarcão, e

do que Enis aconselhou a Aonia que fizesse

«E foi assim que a donzela, por quem morreu o cavaleiro da ponte, (como

vos hei contado) veio tristemente a acabar por aso da irman viuva que o

levou nas andas.

«E sucedeu no castelo um filho de um cavaleiro muito valido e rico

n'esta terra, que, por meio de visinhos, desejou a Aonia para mulher, o

que foi depressa acabado, pela igualdade d'ambos n'aquilo em que a

quiseram aqueles em que estava o «_praz-me_» do casamento.

«Mas, pelo luto de Lamentor, e pelo apartamento de sua vida, não o soube

Aonia senão no dia antecedente áquele em que a haviam de levar para o

castelo,--que em sua casa não queria Lamentor ver prazeres, e bem lhe

pareceu que se não desconcertaria Aonia do esposo; porque era bem posto

cavaleiro, e, dos bens do mundo, abastado; e por isso tambem escusava

dizer-lh'o então. Mas não foi assim; que Aonia toda aquela noite passou

em um grito.

«Se não fôra Enis, que do seu segredo era sabedora, morrêra ou se fôra

por esse mundo; mas éla a consolou, e, com muitas esperanças que lhe

deu, não tam sómente a susteve, que não fizesse de si nada, mas antes

ainda lhe fez ser contente d'aquela vida e desejá-la; porque lhe dizia

que, como os casamentos ocupavam aos homens, poderia éla ter a liberdade

que quisesse; e, com resguardo, faria o que de sua vontade fosse, o que

não poderia fazer na casa onde estava.

«Este conselho foi tomado sem Bimnarder saber, porque a brevidade do

tempo não deu lugar para isso; mas concertaram-se ambas que ficasse Enis

para lh'o dizer ao outro dia, e, depois, mandaria por éla, porque logo

determinou pedi-la a Lamentor.

«E veio aquele outro dia; e, como Bimnarder não guardasse outro gado,

ainda bem não era manhan, já êle andava pela ribeira d'este rio; e viu

vir muita gente a cavalo, e passar a ponte dirigindo-se para os paços de

Lamentor.

«Mas não teve então a quem preguntar o que seria aquilo.

«Comtudo, não se tirou d'ali, porque logo se lhe revolveu o pensamento,

e inclinou a vontade a querê-lo saber; que, pela maior parte, o que ha

de ser, dá primeiro sempre na alma; e se andassemos de sobre-aviso

facilmente entenderiamos tudo, ou parte, do que nos está para vir.»

CAPITULO XXX

De como Fileno, o marido de Aonia, desejoso de a ter em seu poder, a

levou de casa de Lamentor muito acompanhada

«Descidos os de cavalo, estiveram por grande espaço com Lamentor; e,

depois, começaram saindo uns atraz dos outros, fazendo maneiras de

prazer.

«E, n'isto, viu Bimnarder donas a cavalo, e viu o fio da gente

encaminhar-se para a ponte; pelo que teve ensejo de preguntar a um pagem

que cousa era aquela.

«Disse-lh'o êle, seguindo seu caminho; mas Bimnarder não o acabou de

crer, tamanho abalo fez no seu cuidado.

«Porém, olhando, viu a Aonia, e com éla, da parte esquerda, o seu

esposo, que conhecido ia nos trajos e na comunicação da pratica que

entre ambos levavam; porque tudo, como derradeira cousa, olhava

Bimnarder, e muito bem viu!

«E Aonia nunca se virou para aquela sua banda, que continuada sempre

d'éla era; mas antes, porque ia inclinada para aquela parte onde o

esposo ia, pareceu-lhe a êle que o ia muito mais do que éla ainda ia, e

que o fazia por acinte. E isto é natural, pois quando uma pessoa vos cae

n'um erro, todas as cousas, que depois faz, tomais á pior parte, como

aqui aconteceu.

«Ficou Bimnarder tam maguado que d'ahi a mais de uma hora não cuidou de

nada. E, ao cabo d'éla, virando-se para outra parte, se foi; e não no

viram mais.

«N'aquele dia á tarde, veio Enis buscá-lo; e, não no achando, preguntou

por êle; e disse-lhe outro pastor (que por acaso acertára então de estar

perto d'êle, olhando tambem a gente) que, depois d'éla passada, estivera

êle um grande pedaço sem se mudar do lugar d'onde estava e sem tirar os

olhos do chão, como homem pensativo, em sua maneira. E tanto que êle

mesmo olhára para isso, e quisera-lhe falar, senão quando êle, n'isto,

virára para outro lado, e, pela ribeira, dando a andar apressadamente,

desaparecêra, e nunca mais o vira. E já êle mesmo fôra ao monte de seu

amo preguntar por êle, para que viesse pastorear seu gado, que andava

desmandado, e não o acharam; e que, do monte, tambem o foram buscar por

todo este mato, e pareceu a todos que seria ido, porque êle nunca tal

costumou; e já outrem andava com o seu gado.

«Ficou Enis toda fóra de si; e logo cuidou que lhe não cumpria ir ver

Aonia, nem viver com éla, pois saira tam mal o seu conselho.

«E, tornada para casa, ordenou dilatar a sua ida por alguns dias, para

ver se sabia novas de Bimnarder.

«Entretanto, não sabendo nenhumas, e apressando-a Aonia para que lh'as

levasse, determinou, comtudo, ir; porque, por outra via, cuidou para

consigo que com pouco trabalho se lhe tiraria por então Bimnarder do

pensamento; que os casamentos, á primeira vista, parecem outra cousa; e

senhoras, que d'antes foram presas de amor, logo aos primeiros dias

esqueceram todo o passado; mas depois, por cousas e desgostos, que

nascem da culpa do longo tempo, ou conversação que traz menospreso,

tornaram muitas vezes ás lembranças do primeiro.

«Porque n'isto, que Enis consigo cuidou, quis obedecer a Lamentor, que

já, a pedido de Aonia, mandava que a levassem.

«Que vos hei de dizer?

«Ainda bem não chegavam, afastou-se Aonia com éla, mas, sabido o que se

passava, chorou muitas lagrimas e maldisse o dia em que nascera.

«Enis, que era avisada, e via que, pois o mal não se podia curar, se

devia dilatar, lhe fez uma fala d'esta maneira:

--«Deixemos, senhora, o pranto, que d'êle não se vos podem seguir senão

dous males muito grandes. Um, é que mataes a vós com o choro; e quando,

porventura, vier Bimnarder, não vos quereria achar assim, e será esta

então maior ofensa para êle; porque est'outra tem desculpa, e esta não a

terá para êle, senão se lhe quiserdes dizer que desconfiaveis d'êle, que

monta tanto como cuidardes d'êle mal. Ora vede lá, senhora, convosco, se

podereis dar a culpa a quem quereis tamanho bem! Pois, afóra isto,

tendes ainda outro mal: que correis risco de se saberem vossos prantos,

e, como êles sejam tomados em tempo de bodas, não se poderá deixar de

suspeitar d'eles mal. E, por aqui, tolher-se-vos-á, porventura, o que

póde ser em algum tempo, o que eu espero; porque as lagrimas de

Bimnarder não podiam ser sem vos êle querer muito grande bem, que lhe

não doesse muito o que fizestes; e não lhe póde doer muito o que

fizestes que, n'algum tempo, não queira saber o como ou porque o

fizestes;--porque o bem-querer grande faz sentir muito os escandalos

recebidos, e crê-los em parte, quanto baste para o sentimento ser maior

do que póde ser. Mas, porém, sempre deixa uma duvida lá na crença, para

experimentar n'algum tempo, tarde ou cedo, segundo a dôr grande ou

pequena lhe dá lugar. Não póde ser que aquilo que vós, senhora, sabeis,

não faça duvidar Bimnarder do que fizestes, até se êle desenganar por si

mesmo. Ou, se isto não é assim, não ha verdade no mundo nem nos homens!»

CAPITULO XXXI

Em que se diz a grande dor que sentiu Aonia em seu casamento

«Estas palavras desagastaram a senhora Aonia algum pouco, mas não de

todo; que, na verdade, se a deixaram estar só, e ter tempo para

perseverar n'este cuidado, não creio eu que éla pudera durar muito.

«Mas era esposada de então, e umas cousas e outras não na deixavam nunca

só; espalhavam-se os cuidados.

«Assim, éla, pouco a pouco, foi-se acostumando a viver d'outra maneira;

que as ocupações de casa, e a desconfiança, ou desesperança, que foi

tendo de Bimnarder, lhe fizeram indo ter nas cousas passadas uma sombra

de esquecimento, com que éla pudera viver todas as horas da sua vida

descansada ou menos cansada, se em alguma cousa d'este mundo houvera

segurança.

«Mas não na ha; que mudança possue tudo!...»

INDICE

CAPITULO I--Em que a donzela começa a sua historia

CAPITULO II--Em que a donzela vae prosseguindo sua historia

CAPITULO III--Da conta que a dona dá á donzela de sua vinda áquela terra

CAPITULO IV--Das palavras que a dona com a donzela passou

CAPITULO V--Do que Lamentor passou n'aquela parte onde foi aportar com a

sua nau, e da batalha que teve com o cavaleiro da ponte, e do que mais

lhe sucedeu

CAPITULO VI--Em que se diz a razão por que o cavaleiro da ponte sustinha

aquele passo, e de como sua irman ali veio ter

CAPITULO VII--Como, depois de partida a irman do cavaleiro da ponte, por

aprazer aquele lugar a Lamentor, ordenára fazer ali seu assento

CAPITULO VIII--De como a Belisa vieram em crescimento as dôres do parto,

e, parindo uma criança, faleceu

CAPITULO IX--Do pranto que Aonia fez pela morte de sua irman Belisa

CAPITULO X--De como Narbindel, vindo combater com o cavaleiro da ponte,

vendo o pranto que se fazia na tenda de Lamentor, entrou dentro para o

consolar

CAPITULO XI--De como se deu sepultura ao corpo de Belisa, e do pranto

que com êle fez Lamentor

CAPITULO XII--Do que sucedeu ao cavaleiro, que saiu da tenda, vencido do

parecer e formosura da senhora Aonia

CAPITULO XIII--Em que se diz quem fosse Cruelcia, e do que o cavaleiro

passou com seu escudeiro

CAPITULO XIV--De como, partido o escudeiro do cavaleiro da tenda, entrou

em pensamentos de como se apartaria d'êle, e mudaria o nome

CAPITULO XV--De como Bimnarder soube de um servidor de Lamentor que este

ordenava fazer ali uns paços, e do mais que lhe aconteceu com a sombra

que lhe apareceu

CAPITULO XVI--De como, estando Bimnarder muito pensativo no que faria,

viu de subito vir o seu cavalo fugindo d'uns lobos que o queriam matar

CAPITULO XVII--De como Bimnarder assentou vivenda com o maioral do gado,

e do que a donzela passou com a dona em sua historia

CAPITULO XVIII--Em que a ama dá razão á donzela da cantiga de Bimnarder

CAPITULO XIX--De como conta a ama á senhora Aonia o que vira fazer ao

pastor, acabada a cantiga

CAPITULO XX--Da peleja que o touro do pastor teve com outro alheio, e de

como o matou, a qual Aonia estava vendo do eirado

CAPITULO XXI--De que maneira Bimnarder se viu com Aonia

CAPITULO XXII--De como Bimnarder, estando na fresta da camara de Aonia,

se pôs devagar a ouvir a ama

CAPITULO XXIII--Do singular conselho que deu a ama á senhora Aonia, pelo

que suspeitou de seus amores

CAPITULO XXIV--Em que se conta o mais que a ama passou com a senhora

Aonia, ácerca de Bimnarder

CAPITULO XXV--De como Bimnarder, pela fresta do aposento de Aonia, lhe

falou

CAPITULO XXVI--De como Bimnarder, estando na fresta de Aonia, adormeceu,

e se lhe foram, por sonho, os pés, e caiu

CAPITULO XXVII--De como a ama, sentindo de noite o estrondo da queda, o

que sobre isso fez quando foi manhan

CAPITULO XXVIII--De como, estando da queda Bimnarder muito doente, Aonia

buscou maneira por onde o fosse visitar

CAPITULO XXIX--De como Lamentor casou Aonia com o filho d'um cavaleiro

comarcão, e do que Enis aconselhou a Aonia que fizesse

CAPITULO XXX--De como Fileno, o marido de Aonia, desejoso de a ter em

seu poder, a levou de casa de Lamentor muito acompanhada

CAPITULO XXXI--Em que se diz da grande dôr que sentiu Aonia em seu

casamento

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Saudades: história de menina e moça · 第 5 / 5 段