Foi publicado ha poucos dias um livro em 8.º, de 272 paginas, intitulado
_Questões do Pará_. É escripto pelo sr. D. A. Gomes Pércheiro, que viveu
alguns annos na indicada cidade do imperio do Brazil, e precedido de uma
carta do sr. Ferreira Lobo, contador do tribunal de contas, e auctor de
mui importantes trabalhos em assumptos de organisação de fazenda.
O livro de que nos occupamos foi escripto ao correr de penna, mas relata
com bem vivas côres a serie de vexames por que passam os nossos
compatriotas que a sede do ganho tem levado áquella região do Brazil.
O auctor mostra o viver dos nossos patricios em todas as situações,
sempre objecto de exploração por parte dos naturaes, que andam dominados
do falso principio da _nacionalisação do commercio a retalho_.
O portuguez, ou antes o _marinheiro_ ou o _gallego_, como ali denominam
o filho de Portugal, é sempre o bode expiatorio nas questões de policia,
de impostos, de administração de justiça, de contractos, etc. Prejudicar
o portuguez por qualquer fórma é acto meritorio para os naturaes do
Pará!
Não são gratuitas as asserções do sr. Pércheiro, porquanto, no _livro
branco_ apresentado ás côrtes, encontra-se a confirmação official de
tudo quanto parecer exaggerado no livro de que fallamos.
É conveniente que todos leiam a obra do sr. Pércheiro: muitos sonhos
dourados hão de desvanecer-se, e as tendencias emigratorias tomarão
outra direcção. É lastimavel que offerecendo a nossa Africa occidental
localidades salubres, por exemplo, e bem perto, nas ilhas de Santo Antão
e Brava, do archipelago de Cabo Verde, os nossos emigrantes despresem o
territorio portuguez, onde encontram protecção da auctoridade, segurança
das vidas e da propriedade e recompensa dos seus esforços, vão
sacrificar-se do outro lado do occeano aos tratos que os proprios
brazileiros ostensivamente condemnam, e em terras bem menos salubres que
algumas das nossas provincias ultramarinas.
É necessario desvendar os olhos d'esses infelizes, que abandonam patria
e familia, por suppostas riquezas que se traduzem em dissabores,
attentados pessoaes, oppressões, e, as mais das vezes, doenças cujo
resultado se não é a morte é o soffrimento chronico.
O sr. Pércheiro prestou um bom serviço com o seu livro, cuja leitura
muito recommendamos.
(_30 de maio_).
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