CORRESPONDENCIA DE COIMBRA

Este livro deve ser estudado e meditado. É a historia circumstanciada

d'essas desgraçadas questões do Pará, entre portuguezes e brazileiros,

incitados estes ao odio e á matança de nossos irmãos pelo pasquim da

imprensa chamado _Tribuna_.

Como quem de perto conhece a vida brazileira, mostra com argumentos os

perigos da emigração, e achamos util que este livro se colloque ao lado

dos escriptos do sr. Augusto de Carvalho que outro fim não tem senão

desinvolver a propaganda de emigração de portuguezes para o imperio

brazileiro.

Já o dissemos e repetimos: a emigração é um acto de liberdade que

ninguem contesta, mas impossivel no estado actual das circumstancias de

Portugal e Brazil.

O livro do sr. Pércheiro é obra de um bom coração portuguez que colloca

ao serviço da patria e da verdade a sua voz auctorisada.

(_16 de maio_)

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Sabeis o que foi a America?

Ha pouco mais de tres seculos era um mundo escondido pelos mares. Vivia

entregue ás leis da natureza e em quanto a civilisação viera do oriente

ao occidente em marcha continua, derribando e elevando, sempre

vencedora, sempre triumphante, a America nem sequer a olhava pelo cimo

das aguas, e nem as correntes dos mares lhe levavam os eccos alegres dos

nossos festins ao progresso!

Lá vivia, entregue ás leis dos sentidos, ao codigo do mais forçado, á

vontade do mais prepotente.

Os seus habitantes afundavam-se nas matas gigantescas, que similhavam os

alicerces dos ceus. Tinham a quina, o café, o assucar, a canella;

sentavam-se á sombra do cedro, do secular palisandro e da alta palmeira.

Pesava sobre elles o mysterio das grandes florestas virgens, que fazem

suppor maiores mysterios; encantava-os o trinado do sabiá, mas, quando

se abeiravam das costas, não sabiam cortar um tronco de cedro, e

atirando com o fraco lenho sobre o dorso do mar, que rugia, não sabiam

collocar-se sobre elle, e domando as ondas, os obstaculos, a

desesperança vir até onde, pelo menos os devia incitar a phantasia.

Olhavam com medo e terror o Amazonas, e como os pomos das arvores lhe

satisfizessem as primeiras necessidades da vida dormiam em somnolencia

permanente os dias da existencia.

A terra era fertil; os naturaes indolentes.

Mas a velha Europa tinha caminhado muito. As loucuras, os gozos, os

prazeres que a Asia lhe havia enviado como despojos da conquista pediam

novos manciaes de oiro, novos thesouros inexgotaveis, que saciassem a

libertinagem da matrona.

A Europa já tinha arrancado perolas dos seios das ondas; sonhou com

diamantes.

E quando os sabios, curvados sobre os problemas das sciencias physicas,

apontavam para paragens longiquas, os aventureiros lançavam-se logo a

procurar a nova terra.

O navegador chegou a ser um poeta.

Faltava-lhe a sciencia, mas tinha a _inspiração_.

E a inspiração bastava, e foi guiado por ella que Colombo deixou o porto

de Palos em 3 de agosto de 1492.

Pouco depois vinha Colombo depor um mundo aos pés do rei Fernando e da

rainha Isabel.

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Os portuguezes foram tambem á conquista. O acaso impelliu Pedro Alvares

Cabral a descobrir o Brazil, e o rei D. Manuel podia dar mais luzimento

á corôa e mais brilhantismo ao seu reinado.

Começava então o seculo XVI; e iniciava-se pelo descubrimento do Brazil

o gigante da Reforma e da Renascença.

D. Manuel não deu grande importancia ao facto: tantas eram as

descobertas do seu reinado, que a dependencia de metade de um mundo nem

o fazia estremecer!

Mas quando as caravellas chegavam carregadas de oiro e pedrarias, e se

buscava ahi o peculio para satisfazer ás sumptuosidades religiosas do

rei D. João V e á sequiosidade de dinheiro da curia romana, começou a

estremecer-se o Brazil.

Praticámos o nosso dever de povos civilisados. Aquelle povo ignorante,

que nada conhecia, mandamos-lhe atravez dos mares as nossas industrias,

as nossas sciencias, as nossas artes.

A emigração era uma cruzada abençoada. Os emigrantes iam prégar a

religião do trabalho e a sciencia da vida do progresso. Tomaram o livro,

e ensinaram a ler o selvagem; agarraram na enchada, e instruiram o

natural em cavar a terra.

Ensinaram-lhe a construir lanchas, e a lançal-as sobre as aguas dos

rios.

Crearam-lhe novas necessidades, mas deram-lhe meios de as satisfazer.

Derribaram-lhe as choças, e edificaram-lhe habitações firmes e solidas.

Ensinaram-lhe o commercio; arrotearam-lhe os terrenos; secaram-lhe os

pantanos; duplicaram-lhe a agricultura; exploraram-lhe o minerio.

Deram-lhe instituições, codigos, leis; mostraram-lhe a associação;

prégaram-lhe a liberdade e a beneficencia.

Depois fizemos a nossa primeira revolução liberal. Marchámos contra o

despotismo e mostramos-lhe os direitos do povo em 1820.

O gigante do seculo estranhou a audacia, mas temeu a força popular.

Transigiu, ou por outra transigimos.

Mas da liberdade conquistada fizemos participante a colonia brazilica.

Estendemos até lá as idéas que a França nos havia ensinado, e quando em

Ypiranga o regente soltou a primeira phrase de indepencia, quasi que

voluntariamente lhe levantámos a tutella.

Queria governar-se... Muito bem; em 1825 reconhecemos-lhe o direito,

demos-lhe a emancipação, e um rei, filho dos soberanos portuguezes, para

que a dirigisse.

Não lhe oppozemos grandes obstaculos, nem tentamos sujeital-a pela

força.

Ficou livre, e ficámos livres; mas n'esta mutua liberdade que nós

reconheciamos, parece que nos deviamos estreitar em amisade de irmãos,

em desenvolvimento de interesses, em aspirações de idéas.

Assim não acontece.

* * * * *

O povo brazileiro declara guerra de exterminio ao povo portuguez.

A indolencia teme a concorrencia da actividade; o homem perguiçoso e

somnolento aborrece o homem trabalhador.

No Pará é que se dá o combate sem treguas. O negociante, o artista, o

industrial, o trabalhador, que vão das nossas terras, abandonando a

patria e a familia, affrontando todos os perigos, em busca de pão,

veem-se odiados, espesinhados e assassinados pela horda de infames, que

querem recuar quatro seculos, voltando á selvajaria primitiva.

Incita-os á vingança um pasquim jornalistico, que todos os dias manda de

caza em caza, de animo de espirito em espirito o odio contra nossos

irmãos.

Em 1875, ainda o fanatismo de braços com o interesse incita as turbas á

matança. Os portuguezes são os christãos novos, os judeus e os

albigenses em que cevam rancores os parasitas e ociosos.

Senhores homens da _Tribuna_: expulsae os portuguezes, como á colonia

hebrêa faziam os reis catholicos de Hespanha. Confiscae-lhes mesmo as

riquesas; chamae a vós as suas propriedades; roubae-lhes o commercio que

elles souberam elevar e desenvolver, que assim tereis condignamente

satisfeito ao fim da missão jornalistica de assalariados vendilhões.

* * * * *

Os portuguezes residentes no Pará estão sujeitos ao afiado da faca

assassina. São seguidos na sombra e mortos cobardemente nas

encruzilhadas.

É crime ser commerciante; o trabalho é um delicto. Assim o entendem os

_tribunos_.

Ganhar honradamente o pão de cada dia, é uma atrocidade; a industria é

uma infamia; o homem que trabalha é um _gallego_.

E, oh supremo desaforo! se os portuguezes se reunem em associação, os

_tribunos_ só comprehendem as sociedades de bandidos!

As portas dos nossos compatriotas são marcadas com signaes, para que o

punhal possa entrar sem receio de errar o golpe.

A justiça verga-se; é egual para os naturaes, a quem absolve os crimes:

esmagadora, despotica e tyrannica para com o portuguez que commetteu a

menor transgressão á lei.

No seio das familias ensinam-se as creanças a odiar os filhos de

Portugal. As imaginações infantis apresentam-se quadros horrorosos, em

que se incute esse odio, em que elle se perpetúa sempre, e cada vez

produzindo mais funestas consequencias e terriveis episodios.

O lar é escola de malquerenças; e em vez de ensinarem aos filhos a

veneração e o amor pelos portuguezes, que lhes conquistaram a liberdade

e a civilisação que estão gosando, educam-nos nos principios repellentes

da inveja e do despreso.

E a colonia portugueza, laboriosa, activa, trabalhadora, soffre

resignada todos os ataques, todas as injurias e todos os doestos.

O imperio está imperturbavel, e contemporisa.

* * * * *

Houve um portuguez que presenciou todos estes factos, e que os lançou em

livro, contando-os com todas as particularidades.

Foi o sr. Gomes Pércheiro, agente no Pará da _Agencia americana

telegraphica_.

É um cidadão benemerito, que não trepidou diante de obstaculos, para

abrir os olhos aos nossos compatriotas, que, indo em procura de trabalho

e fortuna, encontraram o punhal do assassino.

Accusado o auctor d'este livro de falso e exagerado nos seus despachos

telegraphicos, veio deffender-se á imprensa, provando á evidencia, com

documentos incontestaveis, que não mentia ao seu dever nem faltou á

verdade dos acontecimentos.

Não fez estylo: escreveu os factos, simplesmente, e pediu sobre elles o

_veredictum_ da opinião. Mostra-nos o que é e o que vale o Brazil na

actualidade; desmascara muitos hypocritas e farçantes; ensina-nos o que

representa a educação brazileira; conta-nos o que significa a sua

justiça.

É um livro bom, que todos deviam lêr, para se não deixarem possuir de

falsas illusões e de miragens mentirosas.

O portuguez não tem só a vencer a intemperie do clima; tem a luctar com

a traição dos naturaes. Quando escapa á febre, nem sempre pode fugir ao

punhal.

Portugal não pode dar braços, porque necessita d'elles; como não pode

prohibir que cada qual procure a região que lhe aprouver, deve persuadir

pelo conselho e vencer pelo exemplo.

O livro do sr. Gomes Pércheiro é exemplo, e bem palpitante e provativo.

É a historia desinvolvida de todos os acontecimentos do Pará, de todos

os assassinatos, roubos e torpezas da _Tribuna_.

Toda a nossa imprensa se tem empenhado n'esta questão, e condemnado os

mercenarios jornalistas que além-mar estão fazendo propaganda traiçoeira

e vil.

Aquelle farrapo de banalidades só insere calumnias e infamias contra a

colonia portugueza, mas o livro _Questões do Pará_ vem desfazer todas

essas calumnias, e com pleno conhecimento de facto desarma os _tribunos_

e os que lhe pagam a escripta.

O sr. Pércheiro, publicando o seu livro, prestou um bom serviço a

Portugal, e oxalá que da sua leitura se colham os devidos resultados.

_Sergio de Castro_

(_20 de junho_)

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Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 146 / 176 题