XI

Alguem ha que nos accusa de exaggerado no nosso livro _Questões do

Pará_, por termos avançado proposições da mais alta gravidade contra o

imperio brazileiro. Essa gente não acha sufficientes os documentos que

comprovam as nossas verdades. Talvez que até mesmo continuassem na sua

incredulidade em presença dos factos. Não admira. O publico é ás vezes

inconsequente; porque acredita nos bruchedos, nas pantomimas das

mulheres que deitam cartas, ou nas artimanhas dos jesuitas. Quando se

trata de cousas tão importantes, despresa o proloquio--_ver e crer..._;

e só faria uso d'elle, se algum ratão se lembrasse de dizer, que ia

atravessar o Tejo com umas botas de cortiça.

Houve incredulos em todas as épochas. Muita gente tem morrido com a

esperança de que o sr. rei D. Sebastião hade voltar ainda a estes reinos

em manhã de nevoeiro. Não ha tambem quem acredite que a agua de Lourdes

fizera o milagre da Misericordia e quejandos? E que importa aos

sebastianistas e aos devotos da nova _Revalescière_ as risadas do

publico sensato? Não será, de certo, por causa d'isso que deixará de

haver quem espere pelos sapatos do defunto rei e quem se recuse a tomar

o seu banho na agua milagrosa!

Ha factos extraordinarios na vida de todos os povos; mas nenhum haverá

de certo que se assemelhe em phenomenos ao povo brazileiro.

Hade haver pouco mais de 50 annos, quando o imperio, pela bocca do seu

primeiro _defensor perpetuo_, declarava a todo o mundo, que tendo os

brazileiros chegado á sua maior edade, pedia a emancipação; diziam os

paraenses, tambem pela bocca dos seus escolhidos:

--Nós somos portuguezes! Portugal é a nossa patria!

Não conveio muito este protesto aos libertadores do Ypiranga; por isso

alguns navios de guerra foram incumbidos de incender no coração d'este

povo o amor á liberdade que lhe promettia a nova patria!

Em 1825 reconhecera Portugal a independencia do Brazil, e o Pará, todo

lacrimoso, entregava-se, com medo das palmatoadas, nos braços da risonha

deusa!

De 1833 a 1842 mudaram completamente as scenas. O povo que alguns annos

antes sacrificaria a vida pela metropole, assassinava e roubava os

portuguezes no meio da rua, á luz esplendida d'este seculo, que lhe dera

a liberdade![62]

Estas scenas, repetidas mais de uma vez depois d'aquella epocha fatal,

não foram ensinadas pelos portuguezes, no longo periodo do seu dominio.

Os selvagens, que outr'ora vagueavam por estas paragens,

horrorisar-se-iam de semelhantes barbaridades, commettidas por quem já

se dizia civilisado. Reconhecera então o governo do Brazil, que os seus

agentes haviam exorbitado as ordens da propaganda, sustentada no

_Paraense_ e outros pasquins, em que tambem um conego incitava os

naturaes á matança dos portuguezes. Por isso lançou mão de um meio

extremo, esmagando aquelle povo, que tão mal havia comprehendido o grito

dado nas margens do historico ribeiro. Centenas de paraenses foram desde

logo mettidos nos porões dos navios e alli assassinados barbaramente.

O governo brazileiro foi sempre amigo dos extremos. Depois de observar

attentamente, e na maior paz de espirito, os assassinatos commettidos á

sombra d'uma impunidade ridicula, chega-lhe a vez de representar o seu

papel de barbaro. Não é de meias medidas. Os seus administrados, á

semelhança de certo rei da França, inventam ou modificam uma machina de

exterminio. E o governo, quando se cansa de ver correr sangue innocente,

manda chegar os assassinos ao terrivel instrumento, e assim lhes rouba

com a vida o terrivel papel de carrasco. O resultado é ficar o Brazil

sem colonos e sem selvagens que podiam ser civilisados, o que é mau!

Mas depois d'aquelles horrorosos acontecimentos pareceram socegar os

animos; porém lá estava a ferida aberta. Os descendentes das victimas do

governo brazileiro tinham ouvido por entre as juntas das cobertas dos

navios um terrivel anathema, que era ao mesmo tempo a morte da provincia

mais rica do imperio. Esse anathema de exterminio contra os colonos

tinha sido ouvido tambem pelos portuguezes, que entenderam desde logo

dever explorar a industria extractiva de certos productos riquissimos,

que, até ha bem poucos annos, parecia no Pará uma mina inexgotavel.

A agricultura que nos paizes virgens offerece sempre um lucro mais

duradouro e mais proporcional ao capital e ao trabalho empregado, porque

a exploração dos productos extractivos é mais eventual e retarda por

consequencia a prosperidade do territorio onde ella se exerce; a

agricultura, repetimos, foi desde logo desprezada. O facto era logico.

Uma revolução, em qualquer dia de expansão paraense, era facil, e a

borracha, a castanha, o cacau e muitos outros productos podiam fazer uma

viagem até á Europa, na companhia de seus donos, sem que a estes desse

muito cuidado as terras e as arvores que costumam dar semelhantes

fructos. Outro tanto não aconteceria com os terrenos comprados pelos

colonos, com os productos agricolas ainda por colher ou com os engenhos

montados para a sua fabricação, que cairiam irremediavelmente nas mãos

dos communistas.

No Pará, depois da sua famosa independencia, houve sempre

revolucionarios a incitar os animos, já propensos á desordem, contra

portuguezes. E o que é extraordinario é que esta gente, que não quer

admittir em seu seio os colonos que mais podem concorrer para o seu

engrandecimento, é apologista da republica!

Em 1873, por occasião da prisão dos revolucionarios que no Pará pizaram

a nossa bandeira, andavam os apologistas da sublime idéa ameaçando os

estrangeiros e promettendo lançar fogo aos estabelecimentos! A musica,

que marchava na vanguarda dos communistas tocava o hymno da marselhesa,

e do meio d'aquella bachanal saía ao mesmo tempo o grito de--viva o sr.

D. Pedro II! e tocava o hymno imperial!

E note-se que são sempre assim os que sonham com a republica no Brazil.

Quanto mais republicanos mais inimigos dos estrangeiros. Esta gente,

salvas mui raras excepções, que já mais poderão fazer do imperio uma

republica, não dá ás palavras e ás cousas a mesma significação que nós

lhes damos. As suas idéas estão sempre em manifesta contradição. Ha

povos no Brazil, que podemos comparar a um collegio de rapazes a quem a

palmatoria muitas vezes não faz conter nos limites da ordem.

O que é facto inquestionavel, é que muito ha que dizer ainda a respeito

do odio selvagem que aos portuguezes votam os brazileiros. A

conveniencia mal entendida da maior parte dos portuguezes calar os

soffrimentos recebidos no imperio, é em parte a origem de tantos males,

que, divulgados, serviriam de correctivo salutar. O portuguez soffre ha

seculos o barbarismo d'aquelle povo, e não só se resigna com o martyrio

que lhe infligem, mas até procura viver no meio d'elle, pugnando ao

mesmo tempo pela prosperidade d'um paiz tão despresado pela maioria de

seus naturaes. O francez, o inglez, o allemão que reside no Brazil, não

tem rebuço em formular as suas queixas contra os indigenas. Estes

colonos não são, comtudo, os que mais soffrem. A prudencia do portuguez

chega ao ponto de dizer bem do imperio, pouco depois de haver recebido

d'elle os mais acerbos desgostos. As excepções são rarissimas, e nós

orgulhamo-nos de não pertencer á regra geral.

Pouco tempo depois de havermos publicado as _Questões do Pará_ recebemos

uma carta de um subdito francez, nosso particular amigo, o qual foi

muitos annos negociante no Pará, e ainda hoje pertence a uma firma

respeitabilissima, que assim se expressa a respeito das verdades no

mesmo livro contidas:

«_Amigo_:--Tenho recebido os jornaes, que já emittiram opinião a

respeito do seu livro. Admira-me que houvesse um[63] que o taxasse de

exagerado, principalmente no que diz respeito ao caixeiro da casa

ingleza. Bem se vê, que o jornalista conhece pouco o Pará. Vou

contar-lhe alguns casos que alli se deram commigo.

«Quando pela primeira vez appareceu a _febre amarella_ na provincia do

Pará, os habitantes da cidade de Cametá amedrontaram-se por tal fórma,

que influiram com a camara municipal para que fosse collocada uma guarda

na bocca do Tocantins, com o fim de não deixar passar os barcos e as

canôas procedentes da cidade de Belem. Constando ao sub-delegado, que eu

tinha mandado um bote ao Pará apresentar ao presidente da provincia uma

queixa contra tão grande escandalo, expediu logo aquella auctoridade uma

ordem de prisão contra mim. O delegado da policia, logo que soube do

facto, mandou chamar o sub-delegado a quem perguntou o que havia feito,

ao que respondeu confirmando o mandado de prisão. Então aquella outra

auctoridade policial lhe fez ver, que seria prudente cassar a ordem,

quanto antes, dizendo que eu não era portuguez, mas sim francez, com que

se podesse zombar. Sabe que fallei sempre perfeitamente o portuguez e

d'ahi a illusão. O subdelegado foi logo a correr a fim de ver se era

tempo de cassar a ordem de prisão, o que felizmente poude conseguir.

Sabendo eu o occorido mandei logo outro bote ao Pará, com a noticia a

meu..., o qual representou ao mesmo consul. Este apresentou-se ao

presidente da provincia, na companhia do commandante d'um navio de

guerra francez que então estacionava nas aguas do Pará. A auctoridade

superior da provincia depois de ouvir attentamente o consul, disse que

ia dar as suas ordens e que desde já lhe dava sua palavra de honra, que

se eu estivesse preso, mandaria ir em ferros o subdelegado. Então o

presidente fez um officio á camara municipal, ordenando-lhe em termos

muito severos, que desse entrada franca ás embarcações do Pará e que não

tornasse a acontecer outra similhante arbitrariedade. Este officio foi

mandado distribuir depois de impresso, aos habitantes da cidade de

Cametá!

«Mas outro caso lhe vou contar. Sahia do porto do Pará uma escuna

americana, que nos fora consignada. O capitão, por esquecimento, tinha

deixado ficar a matricula no consulado. O consul pediu ao guarda-mór

para fazer voltar a escuna. Este quiz primeiro consultar o presidente

que ficou d'accordo. Passado uma hora, mandou-me o presidente chamar, e

disse-me o seguinte:--«Mandei-o chamar, por que tenho estado a pensar no

que acabei de fazer, que foi annuir a mandar chamar a escuna americana

para receber os papeis que lhe esqueceram. Desejava saber o que pensa v.

a tal respeito, porque estou a receiar de ter alguma responsabilidade

n'este acto que acabo de praticar.» Respondi-lhe que a responsabilidade

era toda do consul, porquanto o navio tinha sido chamado a requesição

sua. Esta resposta deixou o presidente muito satisfeito, porque dizia

elle _que o ministerio brazileiro recommendava muito ás presidencias

para não origínarem questões com as tres potencias_:--Estados-Unidos,

Inglaterra e França! Isto que eu lhe digo é a pura verdade; mas com tudo

ainda pode haver quem duvide, assim como duvidam do seu livro.» etc.

Como se vê, estas tristes verdades depoem tanto contra a civilisação de

um povo, que effectivamente é preciso estar prevenido para as acreditar.

Ha tempo escreveu um correspondente do Pará para um jornal da

capital[64], o seguinte:--«O auctor das _Questões do Pará_, ou por não

querer tornar o livro volumoso, _ou por ignorar muita cousa_, em razão

de ter aqui residido pouco tempo, _diz muito menos do que podia e devia

dizer_.»

Valha-nos ao menos estas demonstrações sinceras dos que ainda soffrem.

[62] Revolução de 1835 contra portuguezes.

[63]_O Districto d'Aveiro._ Veja-se a critica ás _Questões do

Pará_, no fim do volume.

[64]_A Democracia_, de 14 de julho de 1875.

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 90 / 176 题