CAPITULO III

As falsas doutrinas sobre emigração. A nova terra da promissão, ou o

paiz de romanos. Rocha Pitta e Augusto de Carvalho. O escravo e a sua

emancipação. As leis brazileiras sobre colonisação. A legislação

n'outros paizes. A religião brazileira é contraria á emigração europea.

A reforma religiosa nos seculos XVI e XVII concorreu para o

engrandecimento dos Estados Unidos da America. Os jesuitas e a

escravatura na America do Sul. Os jesuitas e os bandeirantes. Nobrega,

Anchieta e os indios. Desmandos dos jesuitas. Contradicções. Os

hollandezes em Pernambuco. Heroes, traidores e authomatos na restauração

de 1643. Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros. Horrores

historicos.

I

Publicou-se ha pouco um livro intitulado o _Brazil_. Advogar a causa da

colonisação e da emigração para o imperio americanno, eis o seu

principal assumpto. Foi impresso no Porto em 1875, e é offerecido á

praça do commercio d'aquella cidade. Seu auctor é o sr. Augusto de

Carvalho, escriptor brazileiro, a quem a fama tem elevado ao apogeo de

litterato distincto.

Pode dizer-se, sem medo de errar, que a nova publicação, em substancia,

pouco mais differe de uma outra, do mesmo auctor, publicada um anno

antes, sob o titulo--_Estudo sobre a colonisação e a emigração para o

Brazil_. Não é reimpressão por se ter esgotado a obra; mas o auctor,

pelo que colligimos, esquecera-se de chamar _historia_ á edição de 1874,

e veio agora supprir essa falta.

Eis ahi está um escrupulo bem entendido, que toda a gente levará a bem

no sr. Augusto de Carvalho.

Empenhado na luta em que o auctor do _Brazil_ se mostra acerrimo, mas

não habil combatente, porque mais de uma vez offerece ás balas do

inimigo o peito descoberto, não devemos ensarilhar as nossas armas,

visto que o reducto é de facil accesso.

Veio um homem do Brazil para as nossas terras, com o fim de animar as

consciencias aváras pelas riquezas do imperio. Esse homem encostado á

diplomacia, mas litterato pouco consciencioso, embora as cornetas da

fama o collocassem nas alturas, soube estudar a fraqueza d'aquelles a

quem se dirige: d'ahi a supposta victoria! Os seus escriptos, adequados

ás intelligencias fracas, que só pensam no oiro e no bem particular e

que despresam o bem geral, que é a prosperidade d'este paiz; resumem-se

nas doutrinas erroneas, tantas vezes repetidas, mostrando sempre o

caminho phantastico, que já mais poderá conduzir o viajante incauto ao

sonhado El-Dorado. Esses escriptos, alem de mentirem á historia, como

havemos de provar, formam, por assim dizer, um compendio de instrucções

pueris, que parte do nosso commercio abraça e premeia, sem lhe estudar a

causa, que é a decadencia do imperio; e n'esta ignorancia, ou egoismo,

serve de porta-voz ás illusões que taes escriptos encerram, para que os

nossos infelizes trabalhadores abandonem a patria e a familia, e que,

melhor aconselhados, deveriam com seus robustos braços, concorrer para o

engrandecimento da nossa agricultura, que ha de vir a ser a riqueza de

todos que para ella collaborarem.

O livro de que vimos fallando defende e aconselha a emigração de

portuguezes para o Brazil. A razão é forte:--o imperio precisa de

braços, como o esfomeado precisa de alimentos, e o novel historiador,

como bom filho, não quer ver morrer a sua patria.

Honra lhe seja.

Não condemnamos a emigração _expontanea_. Ella, até certo ponto, é

necessaria, especialmente a que se encaminha para possessões nossas,

onde o trabalho fica sendo riqueza da patria, quer os lucros permaneçam

nas nossas colonias, quer se desviem para á metropole. Não a

condemnariamos mesmo para o imperio, se se não dessem as circunstancias

apontadas já e outras que faltam apontar ainda. Mas como filho d'este

abençoado paiz, condemnaremos com todas as veras do coração as falsas

doutrinas de que se servem os alliciadores, para arredarem de Portugal e

seus dominios os nossos trabalhadores incautos.

Nada de enganos. Pintem o Brazil tal qual elle é, e se depois de

exhibirem o seu fiel retrato, apparecerem adoradores, la se avenham os

descrentes do retratista.

Não aconselhariamos ao auctor do livro que analysamos a que dissesse mal

do seu paiz. O que não desejamos para nós não aconselhamos aos outros.

Mas se a causa é má, cumpria dar-lhe de mão. O bom advogado, pelo menos,

não tomaria conta d'ella.

O auctor do _Brazil_ não só se fez o advogado de uma causa má, mas, o

que é mais, o seu escripto recente-se da falta de seriedade, depois que

foi transformado em historia.

O historiador é quasi profeta: elle deve estudar muito o passado e o

presente para evitar os males futuros.

Um habil operador corta a parte gangrenosa, para evitar a perca total do

corpo. E o auctor do _Brazil_, não metteu o bisturi na chaga:--o mau

systema da colonisação, as leis barbaras que a matam.

O historiador não deve ser injusto.

Thiers, antes da guerra assolar a França, previu os males da sua patria.

Deixou por isso de ser o primeiro entre os francezes?

O auctor do livro o _Brazil_, alem de tentar deslustrar-nos não viu o

mal que definha a sua patria, para applicar-lhe o curativo. Parece que

só escrevera para exaltar os malevolos e, depremindo-nos, illudir os

pobres d'espirito. Mas ainda mesmo que os incautos, seduzidos pelas

phantasias deixem passar as excrecencias que o livro encerra, julgará o

governo brazileiro, por conta de quem foi escripta a obra em questão,

que alguns milhares de colonos do nosso paiz, poderão supprir a falta de

alguns milhões de braços de que se resente a lavoura do imperio?

Portugal possue uns quatro milhões de habitantes e pouco mais comporta o

seu territorio. O Brazil deve possuir uns dez milhões, mas comporta

duzentos! É impossivel que o nosso paiz possa supprir o imperio de tão

grande falta; assim como não é razoavel que uma pequena fonte possa

abastecer de agua uns poucos de mil hectares de terras sequiosas.

Vejamos quaes são os paizes que mais podiam concorrer para a

prosperidade do Brazil. Naturalmente a Inglaterra, a Allemanha, a França

e a Italia; mas os governos d'estas tres ultimas potencias prohibem a

emigração para o imperio, quando alli se manifesta a febre amarella, que

produz os seus maleficos effeitos nos primeiros seis mezes de cada anno.

E quando não existisse tal prohibição, seria facil aos estadistas do

Brazil desviar a corrente da emigração d'aquelles povos para a America

do Norte?

Não, de certo: a isso se oppõem os costumes e as leis do povo

brazileiro.

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 35 / 176 题