IV

No nosso paiz ha jornaes que defendem hoje o que atacavam hontem, o que

não deixa de ser razoavel... até certo ponto; isto é quando da

contradicção apparente d'hoje nasça a rectificação sincera aos erros

commettidos hontem. Mas faz-se mais... queremos dizer:--faz-se menos;

por que hoje se defende uma causa julgada má, que hontem fora

classificada de optima e vice-versa, isto successivamente, conforme as

conveniencias dos jornalistas que fazem do sublime invento de Guttemberg

o ariete com que costumam atacar o reducto da moralidade. Outros ha,

que, tendo começado a percorrer o bom caminho, recuam, ao mais pequenino

assomo de desagrado dos optimistas.

No primeiro caso está o jornalismo representado no jornal cujos

escriptos sobre emigração acabamos de criticar; e no segundo está, por

exemplo o _Diario de Noticias_, uma das folhas mais populares d'este

paiz, e por isso mesmo aquella que ensina menos; porque, como diz o

ditado, todos os dedos lhe parecem hospedes: porque de tudo tem medo.

Dizia ha pouco um distincto litterato, que costuma encobrir o seu

laureado nome com o pseudonymo de _Fernão Vaz_, a proposito de uma

critica feita a um trabalho que destinamos ao theatro,[16] que o

referido _Diario_, por ter extractado dos relatorios dos consules o que

alli ha de mais horroroso sobre a emigração para o Brazil, foi alcunhado

de _impertinente_; dando a entender que a referida redacção suspendera a

transcripção alludida--o mais assignalado serviço que ella poderia

prestar ao paiz--para se livrar do anathema, que jámais iria ferir um

collosso material creado e sustentado pelo publico a quem essa

publicação deve defender, para pagar um diminuitissimo agio dos favores

que lhe ha dispensado.

Não fazemos accusações sem base, nem é nosso intuito offender ninguem;

mas se á tal suspensão presidio o _medo_, como se deprehende das

palavras do escriptor citado, e nós acreditamos--porque o director do

referido jornal _prohibiu_ a que a sua redacção fosse representada na

leitura do nosso drama _Os Aventureiros_, fundado em epysodios da

emigração--; o medo, repetimos, ou a conivencia, em assumpto de tanta

magnitude, é um crime de lesa-imprensa que não póde deixar de ser

fulminado com a maxima severidade.

Nem a _diplomacia do senso real das cousas_, nem a _diplomacia

hypocrita_, como diz algures o escriptor Fernão Vaz, a propósito das

impertinencias (?) que elle viu, póde ser adoptada como linha de

conducta no decorrer da nossa humilde critica, porque aspiramos apenas a

encomios firmados em justissimas apreciações aos nossos exforços e,

sobretudo, a estar bem com a nossa consciencia. Eis porque não tememos o

epiteto de impertinente.

Nenhuma das diplomacias citadas, segundo os exforços que fizemos para as

perceber--pode desculpar uns certos erros publicos, que por estarem ao

alcance da imprensa digna e por que são essencialmente prejudiciaes

ao paíz, devem ser combatidos sem tregoas e tão severamente quanto

é a altura d'onde esses erros partem, quando não seja para

corregil-os--porque ha infatuados que nunca se corrigem--ao menos para

prevenir os incautos do precipicio para onde os podem encaminhar os

apostolos do mal.

[16] Veja-se a nota n.º 3.

V

Temos que continuar a nossa critica severa, mas digna, a um trabalho

sobre emigração, publicado ha pouco sob os auspicios do governo do

Brazil e escripto por um litterato brazileiro, e para que não vão

accusar-nos de systhematico na propaganda contra a emigração _e a tudo

que é brazileiro_, entendemos dever começar pelos de casa.

O livro a que nos queremos referir teve primeiro o seguinte

titulo--_Estudo sobre a colonisação e emigração para o Brazil_--e o

actual apparece com o de--_Brazil_--simplesmente. Não se lhe mudou

apenas a capa; fez-se mais: antepôz-se ao texto--que é o mesmo--os

elogios da imprensa portugueza, para que no imperio fosse mais facil a

extracção do livro!

Este systema de _recommendações_ tem grande valor no Brazil; e o author

do _Estudo_ vio-lhe o alcance, o que não quer dizer que os nossos

_recommendadores_ o vissem tambem: até cremos que usaram de boa fé; mas

não póde isso obstar a nossa critica.

O tal livro advoga a emigração dos portuguezes para o Brazil, e além

d'isso offende os nossos brios, o que demonstraremos nos seguintes

capitulos.

O auctor das _Farpas_, tendo estudado profundamente o assumpto em

dezembro de 1872, e tendo dado provas de que o estudára, mimoseando o

publico com 37 brilhantissimas paginas no referido folheto, em que bem

se revella o combatente convicto contra a emigração, _recommenda_ pouco

depois ao publico, o seu antagonista, no seguinte documento:

«.....O sr. Augusto de Carvalho é auctor de um livro importante ácerca

da emigração e da colonisação do Brazil, assumpto utilissimo para os

interesses portuguezes, do qual não póde deixar de occupar-se a imprensa

que respeita a sua missão. Creio bem que v. estimará egualmente cultivar

as relações d'este espirito conciliador»[17] etc. etc.

Este _espirito conciliador_ respondendo á asserção da commissão de

emigração de que «em Portugal não ha miseria nem falta de trabalho que a

incite», diz o seguinte:

«Permitta-nos a illustrada commissão que lhe façamos sentir que os

factos prottestam contra similhante conclusão. Na ultima leva de

degredados (portuguezes) em numero de 92, d'estes foram 52 condemnados

por furtos, roubos e falsificações. E ainda no mez de novembro ultimo

(1873), de 40 que deram entrada no Limoeiro para seguirem o mesmo

destino, 31 foram-n'o por crimes da mesma natureza.»

Este desenlace _conciliatorio_ do tal _recommendado_ ás conclusões da

commissão alludida, mostram mais alguma cousa do que a conciliação,

mostram a falta de bom senso; porque nos paizes onde a riqueza anda a

pontapés--para os que trabalham--tambem ha condemnados pelos crimes de

furto, roubos e falsificação, porque os ratoneiros, ladrões e falsarios

de _todas_ as nações preferem tudo ao trabalho honrado. E havemos de

provar esta asserção com respeito ao proprio Brazil--a nova terra da

promissão.

Mas não antecipemos a critica ao livro _recommendado_.

Querendo naturalmente defender os assassinos dos nossos compatriotas

residentes na sua patria, diz o auctor do _Estudo_, em tom

_conciliatorio_, já se sabe:

«Acaso, por se haver morto com um tiro em certo logar do Minho, um

infeliz que subtrahia um cacho de uvas, segue-se que todo o povo

d'aquella provincia seja deshumano?»

Será isto em desforço dos assassinatos de Jurupary e tantos outros?!

O auctor das _Farpas_ que responda.

Defendendo os magistrados que prevaricam no imperio, commemora a

seguinte futilidade, que não tem nada de conciliatoria:

«Acaso, por haver sido, no Fundão, condemnado um pobre Antonio Gomes, a

um mez de prisão, multa correspondente e despezas do processo, pelo

crime de _sorrir-se e piscar os olhos_ para o delegado Duarte de

Vasconcellos, segue-se que a justiça é nulla em Portugal?»

Estes crimes sociaes commettidos no nosso paiz não podem equiparar-se

com os crimes sociaes commettidos no Brazil pelos naturaes contra a

colonia portugueza. E não póde porque... «A roça no imperio do Brazil,

segundo diz o author das _Farpas_, é como em Portugal o banco. É ella

que faz a lei, a justiça e o direito. Com uma pequena differença nos

resultados d'esta influencia do capital e da propriedade no Brazil e em

Portugal: é que em Portugal é contrastada pelas beneficas rezistencias

de alguns milhares de cidadãos que mantem a liberdade por meio da

independencia facultada pelo trabalho; no Brazil não, porque no Brazil

quem trabalha é o escravo, e a quantidade chamada povo não existe.»[18]

O Brazil, aos olhos do tal recommendado, é o paraiso terreal, a terra

promettida, onde podem reunir-se os individuos de todas as

nacionalidades, que alli queiram ter patria commum; e aos olhos do

auctor das Farpas, no Brazil _tudo é hostil ao emigrado_; no Brazil _não

respeitam a fé dos contractos com os miseraveis trabalhadores

portuguezes_; e accrescenta:

«O colono portuguez no Brazil nem tem os direitos dos nacionaes, nem os

previlegios dos estrangeiros. Em uma nota do barão de Cotégipe, ministro

brazileiro, a mr. George Bukley, ministro inglez, ácerca da deserção de

marinheiros estrangeiros para a marinha brazileira, encontra-se

consignada nos seguintes termos a condição dos individuos que compõem a

tripulação dos navios do estado--escravos, portuguezes, nacionaes e

estrangeiros.»

Como teremos occasião de mostrar, o auctor do _Estudo_ recommenda a

conveniencia da colonisação portugueza; e o auctor das _Farpas_

criticando habilmente o assumpto escreve estas terriveis verdades:

«A primeira tentativa de colonisação com trabalhadores livres, data de

1819, dois annos antes da independencia. Mil e setecentos aldeãos

suissos do cantão de Fribourg estabelecem-se no Val de Parahiba do sul e

fundam a Nova Friburgo no extremo limite meridional da zona torrida,

perto de uma grande cidade. Dez annos depois a colonia suissa estava em

dois terços do que primitivamente fôra. Actualmente a Nova Friburgo é

uma cidade inteiramente brazileira, onde raras familias friburguezas se

encontram ainda.

«Em 1845, uma nova tentativa feita sob os auspicios do governo

brazileiro, levou alguns milhares de trabalhadores de Baden e de bavaros

do Palatinado ao Rio de Janeiro. Estabeleceram-se em Petropolis, perto

do palacio imperial. Em 1859--quatorze annos depois--de tres mil e

dezeseis colonos que ainda habitavam Petropolis, rarissimos tinham

passado de simples cavadores de enxada. Esta colonia tem-se concentrado

cada vez mais em torno da residencia imperial, e vive quasi

exclusivamente da actividade que o soberano e a côrte espalham

necessariamente em torno de si.

«O celebre naturalista suisso Tschudi, mandado pelo seu governo ao

Brazil, como plenipotenciario, a fim de estudar a historia dos

emigrados, fez uma viagem de muitos mezes atravez de differentes

feitorias, e em um relatorio de 9 de outubro de 1860, no qual consignou

as suas impressões e as suas idéas, deixou um monumento historico

pavoroso e indiscutivel contra a colonisação do Brazil.

«A suissa prohibiu a emigração dos seus filhos para aquelle ponto do

globo.

«Avé-Lallemant, encarregado officialmente de visitar as colonias allemãs

no imperio brazileiro, dá pormenores aterradores da sorte dos obreiros

que encontrou nos estabelecimentos do Mucury, na provincia de Porto

Seguro.

«Dolorosamente penetrado da desgraça que presenceou, Avé-Lallemant,

dirigiu-se pessoalmente ao imperador, expoz-lhe as condicções em que

estavam vivendo os seus compatriotas no Mucury, e conseguiu de sua

magestade que um navio fosse mandado áquella colonia, afim de trazer

para os hospitaes do Rio de Janeiro os infelizes, os doentes e os

_desesperados_. _Desesperados_, palavra que sobre a colonisação do

Brazil se empregou então officialmente pela vez primeira e talvez unica

no mundo!

«A primeira leva dos emigrados recolhidos do Mucury ao Rio de Janeiro a

bordo do alludido vapor do estado, foi composta sómente dos enfermos, e

constou de oitenta e sete individuos.

«A praça do Rio de Janeiro deve de recordar-se ainda do dia memoravel na

historia da emigração em que se viu chegar esse tragico e funebre

comboio.

«Os possantes e valerosos mancebos allemães; que o Rio vira passar

poucos mezes antes corajosos, esperançados e alegres para os trabalhos

do Mucury, eram desembarcados em macas nos caes ruidosos da capital de

um dos mais ricos paizes do mundo.

«Vinham devorados pelas febres paludosas exhaladas de um rio podre,

cobertos de lepra e de _vermine_, immundos de chagas e escalavrados de

contusões.

«Um tinha morrido no trajecto, a bordo. Outro expirou justamente no

momento em que o collocavam em terra.

«Poucos dias depois chegava do Mucury uma segunda leva de emigrados, com

cerca de outros tantos enfermos e outros dois cadaveres.

«A opinião no Rio de Janeiro tinha-se mostrado tão profundamente

commovida com este espectaculo de uma barbaridade suprema e de uma

miseria unica, os poderes publicos estavam tão evidentemente instruidos

do que era a colonia do Mucury, que Avé-Lallemant, tendo depositado nas

mãos do governo o relatorio que fizera, entendeu que podia deixar o Rio

de Janeiro e proseguir para o norte a viagem de exploração de que se

incumbira, sem receio de que jámais se podessem repetir as calamidades

que presenceara.

«Apenas o viajante allemão deixou o Rio de Janeiro o director da colonia

do Mucury publicou uma nota justificativa do seu procedimento. Um

delegado imperial enviado ao Mucury para liquidar a verdade, expirou ao

regressar ao Rio. De sorte que tudo ficou no estado em que se achava

antes do relatorio de Lallemant. Com uma unica differença.

Immediatamente depois do que acabava de se passar, o senado brazileiro

votava á companhia do Mucury um credito de cerca de 500 contos com a

garantia de um juro de 7 por cento! Era o applauso do governo e a

gratidão nacional sanccionando um dos maiores vexames que teem sido

impostos á civilisação e á humanidade.

«Ha mais ainda: Os eleitores de Minas Geraes propozeram por duas vezes o

nome do director da colonia do Mucury no primeiro logar da lista

senatorial.

«Dois unicos homens, honrados e benemeritos, protestaram nobremente

contra este oprobrio da justiça--o imperador, que riscou da lista dos

senadores o nome do eleito por Minas Geraes como inapto para representar

os interesses de um povo, e o sr. Silva Ferraz, ministro da fazenda, o

qual aboliu o credito votado á colonia que tal cidadão dirigia.[19]»

Isto é a verdade.

A carta antithesis ao que fica transcripto, devia ser classificada

de--_diplomacia do senso real das cousas_, pelo meu amigo Fernão Vaz!

[17] Carta dirigida ao sr. Cruz Coutinho pelo auctor das _Farpas_,

publicada no prefacio do livro--_Brazil_.

[18] Veja-se o numero das _Farpas_, correspondente a dezembro de

1872.

[19] Veja-se o n.º das _Farpas_, já citado.

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 33 / 176 题