No nosso paiz ha jornaes que defendem hoje o que atacavam hontem, o que
não deixa de ser razoavel... até certo ponto; isto é quando da
contradicção apparente d'hoje nasça a rectificação sincera aos erros
commettidos hontem. Mas faz-se mais... queremos dizer:--faz-se menos;
por que hoje se defende uma causa julgada má, que hontem fora
classificada de optima e vice-versa, isto successivamente, conforme as
conveniencias dos jornalistas que fazem do sublime invento de Guttemberg
o ariete com que costumam atacar o reducto da moralidade. Outros ha,
que, tendo começado a percorrer o bom caminho, recuam, ao mais pequenino
assomo de desagrado dos optimistas.
No primeiro caso está o jornalismo representado no jornal cujos
escriptos sobre emigração acabamos de criticar; e no segundo está, por
exemplo o _Diario de Noticias_, uma das folhas mais populares d'este
paiz, e por isso mesmo aquella que ensina menos; porque, como diz o
ditado, todos os dedos lhe parecem hospedes: porque de tudo tem medo.
Dizia ha pouco um distincto litterato, que costuma encobrir o seu
laureado nome com o pseudonymo de _Fernão Vaz_, a proposito de uma
critica feita a um trabalho que destinamos ao theatro,[16] que o
referido _Diario_, por ter extractado dos relatorios dos consules o que
alli ha de mais horroroso sobre a emigração para o Brazil, foi alcunhado
de _impertinente_; dando a entender que a referida redacção suspendera a
transcripção alludida--o mais assignalado serviço que ella poderia
prestar ao paiz--para se livrar do anathema, que jámais iria ferir um
collosso material creado e sustentado pelo publico a quem essa
publicação deve defender, para pagar um diminuitissimo agio dos favores
que lhe ha dispensado.
Não fazemos accusações sem base, nem é nosso intuito offender ninguem;
mas se á tal suspensão presidio o _medo_, como se deprehende das
palavras do escriptor citado, e nós acreditamos--porque o director do
referido jornal _prohibiu_ a que a sua redacção fosse representada na
leitura do nosso drama _Os Aventureiros_, fundado em epysodios da
emigração--; o medo, repetimos, ou a conivencia, em assumpto de tanta
magnitude, é um crime de lesa-imprensa que não póde deixar de ser
fulminado com a maxima severidade.
Nem a _diplomacia do senso real das cousas_, nem a _diplomacia
hypocrita_, como diz algures o escriptor Fernão Vaz, a propósito das
impertinencias (?) que elle viu, póde ser adoptada como linha de
conducta no decorrer da nossa humilde critica, porque aspiramos apenas a
encomios firmados em justissimas apreciações aos nossos exforços e,
sobretudo, a estar bem com a nossa consciencia. Eis porque não tememos o
epiteto de impertinente.
Nenhuma das diplomacias citadas, segundo os exforços que fizemos para as
perceber--pode desculpar uns certos erros publicos, que por estarem ao
alcance da imprensa digna e por que são essencialmente prejudiciaes
ao paíz, devem ser combatidos sem tregoas e tão severamente quanto
é a altura d'onde esses erros partem, quando não seja para
corregil-os--porque ha infatuados que nunca se corrigem--ao menos para
prevenir os incautos do precipicio para onde os podem encaminhar os
apostolos do mal.
[16] Veja-se a nota n.º 3.
V
Temos que continuar a nossa critica severa, mas digna, a um trabalho
sobre emigração, publicado ha pouco sob os auspicios do governo do
Brazil e escripto por um litterato brazileiro, e para que não vão
accusar-nos de systhematico na propaganda contra a emigração _e a tudo
que é brazileiro_, entendemos dever começar pelos de casa.
O livro a que nos queremos referir teve primeiro o seguinte
titulo--_Estudo sobre a colonisação e emigração para o Brazil_--e o
actual apparece com o de--_Brazil_--simplesmente. Não se lhe mudou
apenas a capa; fez-se mais: antepôz-se ao texto--que é o mesmo--os
elogios da imprensa portugueza, para que no imperio fosse mais facil a
extracção do livro!
Este systema de _recommendações_ tem grande valor no Brazil; e o author
do _Estudo_ vio-lhe o alcance, o que não quer dizer que os nossos
_recommendadores_ o vissem tambem: até cremos que usaram de boa fé; mas
não póde isso obstar a nossa critica.
O tal livro advoga a emigração dos portuguezes para o Brazil, e além
d'isso offende os nossos brios, o que demonstraremos nos seguintes
capitulos.
O auctor das _Farpas_, tendo estudado profundamente o assumpto em
dezembro de 1872, e tendo dado provas de que o estudára, mimoseando o
publico com 37 brilhantissimas paginas no referido folheto, em que bem
se revella o combatente convicto contra a emigração, _recommenda_ pouco
depois ao publico, o seu antagonista, no seguinte documento:
«.....O sr. Augusto de Carvalho é auctor de um livro importante ácerca
da emigração e da colonisação do Brazil, assumpto utilissimo para os
interesses portuguezes, do qual não póde deixar de occupar-se a imprensa
que respeita a sua missão. Creio bem que v. estimará egualmente cultivar
as relações d'este espirito conciliador»[17] etc. etc.
Este _espirito conciliador_ respondendo á asserção da commissão de
emigração de que «em Portugal não ha miseria nem falta de trabalho que a
incite», diz o seguinte:
«Permitta-nos a illustrada commissão que lhe façamos sentir que os
factos prottestam contra similhante conclusão. Na ultima leva de
degredados (portuguezes) em numero de 92, d'estes foram 52 condemnados
por furtos, roubos e falsificações. E ainda no mez de novembro ultimo
(1873), de 40 que deram entrada no Limoeiro para seguirem o mesmo
destino, 31 foram-n'o por crimes da mesma natureza.»
Este desenlace _conciliatorio_ do tal _recommendado_ ás conclusões da
commissão alludida, mostram mais alguma cousa do que a conciliação,
mostram a falta de bom senso; porque nos paizes onde a riqueza anda a
pontapés--para os que trabalham--tambem ha condemnados pelos crimes de
furto, roubos e falsificação, porque os ratoneiros, ladrões e falsarios
de _todas_ as nações preferem tudo ao trabalho honrado. E havemos de
provar esta asserção com respeito ao proprio Brazil--a nova terra da
promissão.
Mas não antecipemos a critica ao livro _recommendado_.
Querendo naturalmente defender os assassinos dos nossos compatriotas
residentes na sua patria, diz o auctor do _Estudo_, em tom
_conciliatorio_, já se sabe:
«Acaso, por se haver morto com um tiro em certo logar do Minho, um
infeliz que subtrahia um cacho de uvas, segue-se que todo o povo
d'aquella provincia seja deshumano?»
Será isto em desforço dos assassinatos de Jurupary e tantos outros?!
O auctor das _Farpas_ que responda.
Defendendo os magistrados que prevaricam no imperio, commemora a
seguinte futilidade, que não tem nada de conciliatoria:
«Acaso, por haver sido, no Fundão, condemnado um pobre Antonio Gomes, a
um mez de prisão, multa correspondente e despezas do processo, pelo
crime de _sorrir-se e piscar os olhos_ para o delegado Duarte de
Vasconcellos, segue-se que a justiça é nulla em Portugal?»
Estes crimes sociaes commettidos no nosso paiz não podem equiparar-se
com os crimes sociaes commettidos no Brazil pelos naturaes contra a
colonia portugueza. E não póde porque... «A roça no imperio do Brazil,
segundo diz o author das _Farpas_, é como em Portugal o banco. É ella
que faz a lei, a justiça e o direito. Com uma pequena differença nos
resultados d'esta influencia do capital e da propriedade no Brazil e em
Portugal: é que em Portugal é contrastada pelas beneficas rezistencias
de alguns milhares de cidadãos que mantem a liberdade por meio da
independencia facultada pelo trabalho; no Brazil não, porque no Brazil
quem trabalha é o escravo, e a quantidade chamada povo não existe.»[18]
O Brazil, aos olhos do tal recommendado, é o paraiso terreal, a terra
promettida, onde podem reunir-se os individuos de todas as
nacionalidades, que alli queiram ter patria commum; e aos olhos do
auctor das Farpas, no Brazil _tudo é hostil ao emigrado_; no Brazil _não
respeitam a fé dos contractos com os miseraveis trabalhadores
portuguezes_; e accrescenta:
«O colono portuguez no Brazil nem tem os direitos dos nacionaes, nem os
previlegios dos estrangeiros. Em uma nota do barão de Cotégipe, ministro
brazileiro, a mr. George Bukley, ministro inglez, ácerca da deserção de
marinheiros estrangeiros para a marinha brazileira, encontra-se
consignada nos seguintes termos a condição dos individuos que compõem a
tripulação dos navios do estado--escravos, portuguezes, nacionaes e
estrangeiros.»
Como teremos occasião de mostrar, o auctor do _Estudo_ recommenda a
conveniencia da colonisação portugueza; e o auctor das _Farpas_
criticando habilmente o assumpto escreve estas terriveis verdades:
«A primeira tentativa de colonisação com trabalhadores livres, data de
1819, dois annos antes da independencia. Mil e setecentos aldeãos
suissos do cantão de Fribourg estabelecem-se no Val de Parahiba do sul e
fundam a Nova Friburgo no extremo limite meridional da zona torrida,
perto de uma grande cidade. Dez annos depois a colonia suissa estava em
dois terços do que primitivamente fôra. Actualmente a Nova Friburgo é
uma cidade inteiramente brazileira, onde raras familias friburguezas se
encontram ainda.
«Em 1845, uma nova tentativa feita sob os auspicios do governo
brazileiro, levou alguns milhares de trabalhadores de Baden e de bavaros
do Palatinado ao Rio de Janeiro. Estabeleceram-se em Petropolis, perto
do palacio imperial. Em 1859--quatorze annos depois--de tres mil e
dezeseis colonos que ainda habitavam Petropolis, rarissimos tinham
passado de simples cavadores de enxada. Esta colonia tem-se concentrado
cada vez mais em torno da residencia imperial, e vive quasi
exclusivamente da actividade que o soberano e a côrte espalham
necessariamente em torno de si.
«O celebre naturalista suisso Tschudi, mandado pelo seu governo ao
Brazil, como plenipotenciario, a fim de estudar a historia dos
emigrados, fez uma viagem de muitos mezes atravez de differentes
feitorias, e em um relatorio de 9 de outubro de 1860, no qual consignou
as suas impressões e as suas idéas, deixou um monumento historico
pavoroso e indiscutivel contra a colonisação do Brazil.
«A suissa prohibiu a emigração dos seus filhos para aquelle ponto do
globo.
«Avé-Lallemant, encarregado officialmente de visitar as colonias allemãs
no imperio brazileiro, dá pormenores aterradores da sorte dos obreiros
que encontrou nos estabelecimentos do Mucury, na provincia de Porto
Seguro.
«Dolorosamente penetrado da desgraça que presenceou, Avé-Lallemant,
dirigiu-se pessoalmente ao imperador, expoz-lhe as condicções em que
estavam vivendo os seus compatriotas no Mucury, e conseguiu de sua
magestade que um navio fosse mandado áquella colonia, afim de trazer
para os hospitaes do Rio de Janeiro os infelizes, os doentes e os
_desesperados_. _Desesperados_, palavra que sobre a colonisação do
Brazil se empregou então officialmente pela vez primeira e talvez unica
no mundo!
«A primeira leva dos emigrados recolhidos do Mucury ao Rio de Janeiro a
bordo do alludido vapor do estado, foi composta sómente dos enfermos, e
constou de oitenta e sete individuos.
«A praça do Rio de Janeiro deve de recordar-se ainda do dia memoravel na
historia da emigração em que se viu chegar esse tragico e funebre
comboio.
«Os possantes e valerosos mancebos allemães; que o Rio vira passar
poucos mezes antes corajosos, esperançados e alegres para os trabalhos
do Mucury, eram desembarcados em macas nos caes ruidosos da capital de
um dos mais ricos paizes do mundo.
«Vinham devorados pelas febres paludosas exhaladas de um rio podre,
cobertos de lepra e de _vermine_, immundos de chagas e escalavrados de
contusões.
«Um tinha morrido no trajecto, a bordo. Outro expirou justamente no
momento em que o collocavam em terra.
«Poucos dias depois chegava do Mucury uma segunda leva de emigrados, com
cerca de outros tantos enfermos e outros dois cadaveres.
«A opinião no Rio de Janeiro tinha-se mostrado tão profundamente
commovida com este espectaculo de uma barbaridade suprema e de uma
miseria unica, os poderes publicos estavam tão evidentemente instruidos
do que era a colonia do Mucury, que Avé-Lallemant, tendo depositado nas
mãos do governo o relatorio que fizera, entendeu que podia deixar o Rio
de Janeiro e proseguir para o norte a viagem de exploração de que se
incumbira, sem receio de que jámais se podessem repetir as calamidades
que presenceara.
«Apenas o viajante allemão deixou o Rio de Janeiro o director da colonia
do Mucury publicou uma nota justificativa do seu procedimento. Um
delegado imperial enviado ao Mucury para liquidar a verdade, expirou ao
regressar ao Rio. De sorte que tudo ficou no estado em que se achava
antes do relatorio de Lallemant. Com uma unica differença.
Immediatamente depois do que acabava de se passar, o senado brazileiro
votava á companhia do Mucury um credito de cerca de 500 contos com a
garantia de um juro de 7 por cento! Era o applauso do governo e a
gratidão nacional sanccionando um dos maiores vexames que teem sido
impostos á civilisação e á humanidade.
«Ha mais ainda: Os eleitores de Minas Geraes propozeram por duas vezes o
nome do director da colonia do Mucury no primeiro logar da lista
senatorial.
«Dois unicos homens, honrados e benemeritos, protestaram nobremente
contra este oprobrio da justiça--o imperador, que riscou da lista dos
senadores o nome do eleito por Minas Geraes como inapto para representar
os interesses de um povo, e o sr. Silva Ferraz, ministro da fazenda, o
qual aboliu o credito votado á colonia que tal cidadão dirigia.[19]»
Isto é a verdade.
A carta antithesis ao que fica transcripto, devia ser classificada
de--_diplomacia do senso real das cousas_, pelo meu amigo Fernão Vaz!
[17] Carta dirigida ao sr. Cruz Coutinho pelo auctor das _Farpas_,
publicada no prefacio do livro--_Brazil_.
[18] Veja-se o numero das _Farpas_, correspondente a dezembro de
1872.
[19] Veja-se o n.º das _Farpas_, já citado.