CAPITULO II

Os advogados da emigração e a companhia Transantlantica. Remuneração ao

trabalho. O custo da escravatura preta e o custo da escravatura branca.

O definhamento da agricultura no Brazil, por causa da falta de braços.

Erros do jornalismo a respeito da emigração. O «Diario de Noticias» e o

sr. Fernão Vaz e o drama «Os Aventureiros». Um livro a favor da

emigração e o auctor das «Farpas». Elogios e sensuras. A praça do

commercio do Porto e uma penna de ouro.

I

O _Brazil_, jornal que advoga os interesses dos nossos compatriotas

residentes no imperio, publicou um artigo que nos surprehendeu, por vir

elle sustentar idéas tantas vezes combatidas no mesmo jornal. E a nossa

surpreza ainda foi maior, porque esse artigo, que tem por epigraphe _A

colonisação para o Brazil e a Companhia Transantlantica_, mais parece

que fôra escripto com o fim de tratar de interesses particulares de um

ou outro engajador de colonos portuguezes. O que muito folgamos, não

obstante o referido artigo vir publicado no logar de honra, foi não ser

elle assignado pelos seus illustres redactores effectivos, a quem temos

visto atacar as idéas no mesmo contidas.

Empenhados na lucta travada a respeito da emigração de portuguezes para

o imperio brazileiro, não devemos ficar silenciosos á vista de certas

proposições alli enunciadas.

Entremos pois na questão e deixemos de parte a circumstancia do

articulista achar razoavel o facto dos colonos portuguezes preferirem o

Brazil, pela «communidade de origem _e a facilidade que encontram no

exercicio das suas industrias_, por ser a lingua commum a ambos os

povos», etc., e entender por isso dever auxiliar a corrente da

emigração, por via da companhia Transantlantica, por quem parece morrer

de amores, já porque está _regularmente montada_, já porque _á testa

d'ella vê nomes que lhe merecem garantia de seriedade e de moralidade_.

Deixemos, portanto, este procedimento do articulista, que parece não

mudará, emquanto o nosso governo não encaminhar os colonos para os

terrenos incultos do Alemtejo, (o que já é muito!) ou para as nossas

possessões ultramarinas (_cuja communidade de origem etc._, é igual á do

imperio), reservando-se para mais tarde emittir o seu parecer, quando

appareça decidido o assumpto emigração, sujeito a uma commissão de

deputados, o que equivale a dizer-nos que será sempre a favor da

emigração, com tanto que os engajadores sejam sempre os agentes da tal

companhia; porque para nós é ponto de fé, que as nossas commissões nada

farão, embora as tenhamos no melhor conceito, e o nosso governo já mais

tratará de desviar a emigração da America meridional, encaminhando-a

para o Alemtejo ou para as nossas possessões ultramarinas.

Deixemos tambem de parte a circumstancia de que o articulista leva em

mira atacar a pessoa de um novo pretendente ao logar de engajador

official de escravos brancos para as roças insalubres do Brazil, e a não

sabemos que pequenas miserias de commendas, porque o tal pretendente

parece querer ferir os interesses da poderosa e _protectora_ companhia!

Deixemos, finalmente, que o illustrado articulista se incommode

sériamente com os ataques dirigidos pelo novo proponente aos caracteres

honrados e dignos, representados nas pessoas do ministro das obras

publicas do imperio, do conselheiro da companhia _protectora_ de

escravos brancos e do distincto escriptor Augusto de Carvalho, que, em

prejuizo da nossa patria, pretende illudir, com seus escriptos de

phantasia, os nossos infelizes compatriotas; porque, caso o articulista

venha a ser accusado de defensor da companhia Transantlantica, do seu

conselheiro, dos estadistas brazileiros e do escriptor assalariado,

ser-lhe-ha muito facil defender-se com o juizo dos jornalistas e dos

particulares, que conhecem os actos publicos e politicos das pessoas

aggredidas pelo endiabrado pretendente; podendo até escudar-se em abono

d'este ultimo--do sr. Carvalho,--nas provas de consideração ultimamente

apresentadas, em nome da colonia do Rio de Janeiro, pelo visconde de S.

Salvador de Mathosinhos, o que bastaria para demonstrar não só a

abnegação do articulista, como a de tão distinctos cavalheiros pelo bem

da nossa patria![12]

Mas deixemos isto tudo de parte, visto que ao articulista pouco importam

as doutrinas de hontem e as manifestas contradicções das doutrinas de

hoje, sustentadas no mesmo jornal, onde o governo brazileiro tem sido

accusado de menos fiel no cumprimento dos seus deveres para com os

colonos portuguezes, e onde não vimos ainda a razão que dê aso a tantos

elogios.

Deixemos ainda que o articulista do _Brazil_ viva em completa illusão a

respeito da protecção que diz dispensa aos colonos portuguezes a

companhia Transantlantica, que, a nosso ver, não é peor nem melhor do

que a que costumam dispensar outros engajadores, ou ainda mesmo da que

poderia dispensar o proponente Mattos,[13] caso a sua proposta fosse

acceita pelo governo do imperio como a mais lucrativa.

Deixemos de parte estas questões pessoaes, que o nosso fim é outro.

Nós, como acontece ao articulista do _Brazil_, não temos procuração de

ninguem para defender este ou aquelle engajador, pelo simples motivo que

a todos achamos maus. Não somos a favor das companhias poderosas nem tão

pouco dos agricultores riquissimos do Brazil, quer sejam nossos

compatriotas ou não, os quaes, diga-se aqui de passagem, só precisam de

escravos, pretos ou brancos (é questão de nome) para lhes desbravar as

terras, emquanto taes senhores se balouçam nas suas redes de pennas, sem

se importarem se os colonos caem fulminados pelas febres ou pela

intensidade do calor. Tambem não somos mais favoraveis aos engajadores

clandestinos, que ainda assim, não merecem tanto a nossa particular

attenção.

Ha tudo a temer dos engajadores officiaes, d'esses por quem o

articulista do _Brazil_ parece querer quebrar lanças; d'esses, que, com

o fim de chamar a si o maior numero de proselytos, têem a força

sufficiente de illudir as leis do nosso paiz; d'esses, cuja influencia é

sufficiente tambem para fazer demittir as nossas auctoridades

subalternas, que oppõe a sua dignidade ás promessas e ás ameaças dos

engajadores;[14] d'esses, finalmente, que obtêem com facilidade dos

nossos governos a approvação de tarifas especiaes dos caminhos de ferro,

a preços reduzidos, para a conducção de colonos que, uma vez chegados a

Lisboa, deverão immediatamente embarcar nos paquetes que se destinam aos

portos do Brazil.

Mas comquanto reconheçamos as difficuldades que ha em evitar a emigração

para uma região tão insalubre, porque de um lado temos os propagandistas

que apregoam phantasias e do outro as companhias e os capitalistas a

protegel-os, servindo-lhes de não pequeno auxilio a deficiencia das

nossas leis, senão a propria connivencia das authoridades, ainda assim

havemos de ser sempre leaes e acerrimos combatentes contra essa

emigração, por ser a mais prejudicial aos portuguezes.

A circunstancia de se haver illudido o articulista do _Brazil_, com

respeito ao trabalho, que lhe parece ser mais bem remunerado no imperio

do que em nossas terras, é assumpto para mais largo debate.

[12] Consta-nos que os roceiros do Brazil mandaram um presente de

cem libras ao auctor do _Estudo sobre a colonisação e a emigração

para o Brazil_.

[13] Considerado, actualmente, engajador official.

[14] Deu-se um facto d'estes com um administrador de concelho do

districto de Coimbra, e mal pensavamos nós que, passados apenas

alguns mezes, haviamos de ouvir fazer accusações gravissimas a

respeito da emigração clandestina, no parlamento portuguez, sem que

houvesse uma voz que as refutasse. (Veja-se a nota n.º 2 no fim do

volume.)

Portugal e Brazil: emigração e colonisação · 第 30 / 176 题