Ainda outro dia eu estive reunindo, n'um só lote da minha modesta
bibliotheca, todos os livros de Julio Cesar Machado, arrolando o espolio
litterario d'esse morto querido, destinando-lhe um logar de honra no
futuro pantheon dos meus auctores predilectos.
Ainda foi outro dia!...
De cada lado me surgia um livro seu, e assim, com algum tempo de
trabalho, pude reunir n'um só logar todos os seus volumes, incluindo os
dois da _Vida em Lisboa_, que vão sendo muito raros no mercado.
É que eu gosto de trabalhar n'uma certa desordem, em que perfeitamente
me oriento. Acho fria, monotona a arrumação sistematica por auctores,
dispostos em fila, como se se tratasse de uma batalha. Alegra-me a
distribuição caprichosa de escolas e escriptores, essa _grande
confusion_ tumultuaria em que Voltaire dá o braço a Chateaubriand, em
que Rénan se encontra vizinho do padre Manuel Bernardes, e em que
Bossuet vive paredes meias com Augusto Comte.
Apraz-me ter que pensar no meio d'esse permanente _cancan_ dos
espiritos, que volteiam em torno da minha banca de trabalho, uns graves
como espectros, outros folgazãos como collegiaes; estes sorrindo
desdenhosamente scepticos, aquelles crendo fervorosamente como apostolos.
Mas quando Julio Cesar Machado morreu, quiz votar-lhe uma especie de
culto privativo--o culto da saudade--e dei-lhe um logar reservado n'um
só lote da minha estante. Dispondo ordenadamente os seus livros,
folheei-os rapidamente, evoquei gratas recordações de antiga leitura, e
muitas vezes encontrei citado entre as paginas, que ligeiramente
passavam por deante dos meus olhos, o nome do sr. Andrade Corvo.
Hoje alargo as dimensões do compartimento em que Julio Machado era
inquilino unico, e ponho, tambem ordenadamente, ao lado das suas obras,
as do sr. Andrade Corvo, porque esses dois espiritos, postoque
diversamente orientados, sempre se comprehenderam e estimaram, e
estimando-se e comprehendendo-se continuarão conversando um com o outro
no mesmo lote da minha estante.
Durante a vida do sr. Andrade Corvo, muitas vezes tive de escrever a seu
respeito. No folhetim semanal do _Economista_ apreciei eu dois volumes
dos seus _Contos em viagem_, e não sei se foi n'essa occasião, ou em
qualquer outra, que eu, fazendo o elogio do sr. Corvo como romancista
historico, declarei francamente antepôr o seu _Um anno na côrte_ á tão
preconisada _Mocidade de D. João V_, de Rebello da Silva.
Não quer isto dizer, por modo algum, que eu não reconheça em Rebello da
Silva superiores qualidades de estilista; mas como romancista historico
acho que o sr. Corvo o excedeu na urdidura do romance, no estudo da
época, e na fidelidade dos caracteres.
A obra do sr. Corvo não se limitou, porém, ao romance. Elle foi
dramaturgo, jornalista, poeta, estadista e academico.
Em todas estas espheras de acção firmou creditos inabalaveis de homem
eminente. Como escriptor nunca lhe ouvi notar senão um defeito: não ter
orthographia. Mas a orthographia é como a belleza: nem toda a gente tem
a mesma opinião a respeito de uma e outra. Quanto á orthographia do sr.
Corvo, é provavel que o sr. Latino, que prefere a etimologica, a achasse
má; mas é tambem provavel que o sr. Barbosa Leão, que apostolava a
sonica, a achasse boa.
Corvo viajou por todas as regiões da sciencia, não com bilhete de _ida e
volta_, como quem vae passar dois dias santos fóra da terra, mas como
esses pacientes caminheiros que fazem a sua Jornada de Misericordia em
Misericordia.
Formou-se não sei quantas vezes, não por necessidade, mas por
divertimento. A sua grande distracção era estudar, saber.
E aqui vem a proposito o que a seu respeito escreveu Julio Cesar Machado
no _Claudio_:
«Harcourt tinha todo o charlatanismo de talento com que se maravilham os
leitores faceis. Citou muitos auctores, referiu-se a muitas obras,
metteu trechos de todas as linguas, uns bocados em latim, outros em
allemão, dois em grego. O _Martinho_ exultou. O homem novo ia matar tudo.
«Não matou cousa nenhuma. D. José de Almada tinha não só mais talento
que elle, mas outra qualidade de merecimento e outra seriedade de
estudo. Incommodou-se com isso, como toda a gente se incommoda de ver a
ruindade fazer gosto em desacreditar os dotes mais nobres de um homem, a
sua intelligencia e o seu trabalho, e respondeu-lhe com a elevação de um
poeta e o sentimento de um artista.
«Pouco depois representou-se uma peça de Andrade Corvo, _O Astrologo_.
«--Ah! O Corvo é um homem superior, um homem justamente respeitado
pela valia dos seus meritos... Vou-me a elle.
«E atirou-se-lhe n'uns folhetins, como póde atirar-se um lobo esfomeado
a um homem bem nutrido. Corvo foi o ultimo a dar por isso.
«De mais a mais, exactamente por essa occasião, João de Andrade Corvo,
tenente do corpo de engenheiros, lente da escola polytechnica, socio da
academia real das sciencias, auctor do _Anno na côrte_, do _Alliciador_,
do _Astrologo_, de _D. Maria Telles_, de _D. Gil_, de _Nem tudo que luz
é oiro_, de grande numero de artigos publicados dos _Annaes das
sciencias e lettras_, na _Epocha_, etc., estava todo entregue a uma
curiosidade.
«Uma tarde, no Rocio, passeando com o dr. Thomas de Carvalho e o dr.
Magalhães Coutinho, Andrade Corvo dissera-lhes que para as suas cousas
de botanica teria talvez de ir estudar physiologia animal, e ser
discipulo d'elles.
«--Não és capaz!
«--Ora! Elle é lá capaz d'isso!
«--Sou capaz até de estudar o curso completo.
«Os dois olharam para elle, sorrindo.
«--Vou matricular-me ámanhã.
«Matriculou-se no dia immediato.
«Abriram as aulas; e, desde o primeiro dia, lá ia elle sempre com a
maior regularidade, de lição sabida, sentar-se no seu banco: e quando se
diz lá ia, quer dizer que foi lá cinco annos, todos os dias, como um dos
melhores discipulos, o mais applicado, o mais exacto no cumprimento dos
seus deveres. Ás vezes chovia o grande diabo, e Andrade Corvo, a pé,
modestamente, _á estudante_, trepava aquella calçada do Garcia e
mettia-se pela rua que vae ao hospital com o passo accelerado de um
filho familias que estivesse exposto mais dia menos dia a que o pae lhe
exigisse uma certidão de frequencia colhida com austeridade nos
registros sisudos do livro de ponto.
«Homem verdadeiramente original! Homem de constancia do trabalho, do
estudo, na sêde de saber, que só n'isso faz do desejo uma força, e que
n'elle ainda não parou nem se fartou um instante.
«Elle tem passado a sua vida descansando alternadamente da sciencia na
politica, da politica na litteratura.»
N'uma época em que o sr. Corvo geria simultaneamente as pastas da
marinha e dos negocios estrangeiros, e em que os debates parlamentares
eram irritantes e longos, muitas vezes o encontrei, horas antes,
entregue a estudos litterarios na Torre do Tombo e na Academia Real das
Sciencias.
Na Academia tinha elle até um gabinete especial, que era conhecido pela
designação de--_Gabinete do sr. Corvo._
O seu espirito possuia a gastronomia das lettras. Não podia entrar na
secretaria ou no parlamento sem ter devorado primeiro a iguaria da
sciencia e o pitéo litterario. Como todo o bom gastronomo, gostava de
variar. Por isso, ao mesmo tempo que redigia os _Estudos sobre as
provincias ultramarinas_, escrevia os _Contos em viagem_. Só depois de
regalado o paladar é que fazia despachos e discursos.
Qualquer assumpto, por mais ingrato que parecesse, lhe tentava o
espirito, comtanto que tivesse de o tratar litterariamente. O arroz, que
deu a Teixeira de Vasconcellos uma novella, sendo-lhe comtudo preciso,
para doirar a pillula, misturar o arroz com assucar, deu a Andrade Corvo
um trabalho scientifico de primeira ordem. Refiro-me á parte que lhe
coube--estudos economicos e higienicos sobre os arrozaes--no relatorio
official apresentado ao ministerio do reino, em 1860, por elle, Manuel
José Ribeiro e Bettamio de Almeida. Este trabalho notabilissimo, em que
a collaboração do sr. Corvo occupa 200 paginas _in-folio_, foi desde
logo tão apreciado, que se julga muito feliz quem hoje possue um
exemplar.
Vivendo intellectualmente n'uma região superior, nos dominios
immateriaes da abstracção, o sr. Corvo tinha o mais soberano desdem por
todas as ninharias da vida ordinaria, por mil bagatellas que, não
obstante, constituem outras tantas engrenagens do mecanismo social.
Alguns, por isso, lhe chamavam excentrico. A este respeito posso referir
uma anecdota authentica e graciosissima.
Era o sr. Corvo presidente da Camara dos Pares, e sabe Deus com que
sacrificio elle se resignava a perder duas horas calado, ouvindo repetir
aos outros o que já tinha ouvido dizer centenas de vezes em diversas
occasiões.
Havia uma sessão em que se esperava a apresentação de uma proposta de
alcance politico. O sr. Corvo sabia isto. Logo que chegou ao gabinete da
presidencia, tocou a campainha. Perguntou ao continuo quem era o
redactor que estava de serviço n'aquelle dia. O continuo foi saber, e
levou a resposta ao sr. Corvo: o redactor de serviço era eu. Fui
immediatamente ao seu gabinete. O sr. Corvo, depois de me apertar a mão,
disse-me com uma grande seriedade:
--Consta-me que vae ser hoje apresentada uma proposta, e que isso prende
com o artigo 37.º do regimento. Ora eu não sei qual é a disposição
respectiva. Peço-lhe o favor de me dizer o que o artigo 37.º do
regimento dispõe.
Sorri-me. O sr. Corvo sorriu-se tambem.
--É que eu não sei de cór--respondi--o que dispõe o artigo 37.º
--Nem eu, replicou o sr. Corvo.
--N'esse caso vamos vêr.
E abri o _Regimento_, que estava sobre a banca do presidente.