No dia em que elle se matou, a graça, a flôr dos espiritos alegres,
pendeu amortecida como essa outra flôr, que no campo chamam _bons dias_,
quando a tarde principia a engolfar-se na penumbra do crepusculo...
A mocidade, o heliotropo que floresce nas almas primaveris, que desperta
voltada para o oriente, e que sempre vae seguindo o sol, aquecendo-se
n'elle para melhor sorrir, parou um momento, indecisa no seu passo
diario, como uma pessoa que, de caminho, foi surprehendida por uma
dolorosa noticia...
A anecdota, que bem póde comparar-se a esses bellos cachos de glicinia
que, nas estradas monotonas, espreitam ás vezes sorrindo do alto dos
muros das quintas, como para animar o viandante, pareceu chorar por
elle, que jámais havia feito uma jornada litteraria sem lhe dar um momento
de attenção em passando...
A alegria, esta madresilva das almas que vivem contentes com a sua
sorte, esta flôr que, nas mais agrestes paragens, parece cantar na
festiva expansão do seu perfume, dizendo a toda gente que ella está ali,
bem florida e vivaz, retraiu-se, quando soube da catastrophe, para
occultar a sua commoção, como tambem ás vezes a madresilva se encobre
com as folhas da hera, que nos braços verdes a vae levantando ao alto
das grandes ruinas...
A modestia, a violeta timida que não faz alarde da sua delicadeza, e que
é o caracteristico das almas boas e simples, chorou sobre a terra que
não tardaria a devorar, no seu seio egoista, o cadaver do homem que
melhor a personificou no mundo...
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Mas como póde este Julio, tão alegre, tão moço sempre, tão costumado a
rir, tão interessado pelo mundo, tão apegado á vida, que até parecia não
estar disposto a envelhecer jámais, tão delicado e gentil nos seus
pensamentos e nos seus actos, acabar sinistramente, n'um drama de
sangue, que só de recordal-o sente a gente o coração confranger-se?!
Que outros, fatalistas, hipocondriacos, supersticiosos e visionarios se
suicidem, comprehende-se, explica-se de algum modo. A vida era-lhes
pesada, não tanto por si mesma, como por que elles proprios exageravam o
peso da vida.
Mas o Julio, tão despreoccupado, tão pouco dado a scismas e
presentimentos, tão bem disposto sempre a não extrair de toda a agua de
uma nuvem mais que uma lagrima--apenas!
«Não se amargure pelas lagrimas que encontrar n'elle (o livro _Scenas da
minha terra_); tel-as-ha trazido alguma nuvem ligeira, que um raio de
luz mais ligeiro ainda haverá logo enxugado; são irmãs dos meus
sorrisos, essas lagrimas...»
«De mais a mais não sou de uns certos, que tudo pesam e scismam antes de
se proporem a sair da sua terra, e até cuidam que o barco se ha de
perder, simplesmente pelo facto de os levar; eu, ao contrario, cuido que
por eu ir n'elle é que o barco não se perderá. Muito pouco merecem,
pois, a Deus, os medrosos que assim se temem d'elle.»[17]
«Viajo com enthusiasmo, com esperança, com uma ineffavel felicidade; nem
entendo que se possa viajar para passar o tempo; passar o tempo, é
morrer!»[18]
«Tudo é grande agora, bem se sabe, lettras, artes, politica, e coisas;
deixem, todavia, que um fiel, que sempre foi dado á alegria e á
sensibilidade, venha recitar, a meia voz, as suas oraçõesinhas, perante
o altar da anecdota!»[19]
Estas ultimas palavras foram escriptas em maio de 1888. Dois annos
depois, contados quasi dia a dia, Julio Cesar Machado acabava
tragicamente, mais tragicamente ainda do que o seu mestre e amigo Lopes
de Mendonça, porque a exaltação doentia do seu espirito não nos deu o
tempo preciso para que nos habituassemos a esperar a catastrophe final.
O filho que elle adorava até ao fanatismo succumbira a uma allucinação
de momento, e desde esse dia toda a felicidade de Julio Cesar principiou
a desmoronar-se, como um talude do qual, em se despegando um punhado de
terra, nada fica de pé dentro de poucas horas.
Todos nós nos lembramos do Julio passeando com o filho pela mão, muito
ufano d'essa creança de calção e blusa, a quem falava curvando-se, a
quem sorria escutando-a.
Uma palavra de saudação amavel dita a esse rapazinho, desempenado e de
feições miudas, valia mais para Julio Cesar do que o referirmo-nos com
louvor ao seu livro mais querido, _Os contos ao luar_.
--Ó Julio, o teu prologo dos _Contos_ leio-o ás vezes para me sentir tão
moço como ha vinte annos. «... E depois, eu não sei bem por que chamei
ao meu livro _Contos ao luar_!» Bonito, como eram então as coisas bonitas!
--Pois sim... Mas olha que este rapaz não é peor do que o livro...
respondia-me elle uma vez.
E eu comprehendi-o, porque tambem tenho filhos...
Um dia, n'um jantar em casa de Baptista Podestá, o pequeno Julio
levantou-se da mesa, e foi engalfinhar-se nas costas de um amigo do pae,
que o recebeu amavelmente. D'ahi a momentos, o pequeno correu a trepar
pela cadeira de outro amigo de Julio Cesar, que o reprehendeu. Não
tardou que o pae, com as lagrimas nos olhos, saisse com o filho, depois
de haver apertado a mão, muito expressivamente, ao amigo que tinha
afagado o Julito, e interrompendo desde essa hora as suas relações com o
outro amigo que o reprehendera.
Este immenso amor pelo filho estremecido foi que o allucinou, que o
perdeu;--basta por si mesmo a explicar a contradicção que em Janeiro de
1890 resaltou entre a morte e a vida de Julio Cesar Machado.
Eu devo á memoria d'este homem a gratidão que nos impelle para todo
aquelle que nos sorriu na hora em que tentavamos uma empresa arriscada.
Foi no livro _Manhãs e noites_ que elle saudou com excessivo favor os
meus primeiros trabalhos litterarios, as _Peregrinações na aldea_ e o
romancesito _Idyllios á beira d'agua_. Não me conhecia pessoalmente,
elle vivia em Lisboa, eu estava no Porto, apenas haviamos trocado
algumas cartas.
Só em 1873, annos depois, nos avistamos em Lisboa, onde eu,
recemchegado, sondava hesitantemente o meu destino.
Fiz então, sobre o joelho, nos primeiros dias da minha installação, um
livro que me haviam comprado no Porto: _Photographias de Lisboa_.
Reproduzo uma pagina d'esse livro:
«Na casa de Julio, na sua modesta casa da travessa do Moreira, está o
escriptor: tudo simples, alegre, baralhado e artistico. Quadros,
retratos, livros, jornaes, flores, estatuetas, bengalas, charutos, um
labirintho em que todavia ninguem chega a perder-se... sendo homem. Eu
explico a phrase, que póde parecer descomposta. É que as mulheres, por
naturalmente timidas, facilmente se confundiriam no cahotico _atelier_
do Julio.
«Uma das muitas curiosidades, que denunciam o escriptor no _ménage_, é
um valioso album em que a par dos authographos figuram os retratos das
maiores notabilidades europeas. Lá estão, reproduzidos d'um lado pela
photographia, do outro pelo proprio estilo, Lamartine, Victor Hugo,
Vacquerie, Gautier, Auber, Janin, Herculano, Garrett, Rodrigo da Fonseca
Magalhães, Castilho, Camillo, etc., as nossas glorias e as estranhas.
«A proposito dos escriptores francezes do album, falamos, á segunda vez
que nos viamos, de litteratura franceza. Não sei qual de nós passou dos
talentos masculinos da França para os femininos. Provavelmente foi o
Julio. O que é certo é que occorrendo-me o nome de Sophia Gay, mãe de
Delphina Gay, depois madame de Girardin, lamentei não haver encontrado o
seu nomeado livro _Physiologie du ridicule_. É effectivamente raro este
livro, cuja primeira edição data de 1833.
«--Ás vezes, disse o Julio levantando-se e abrindo a sua livraria,
encontra-se a felicidade onde se não espera. Todavia é mais facil
encontral-a debaixo d'um telhado do que debaixo d'uma pedra, d'onde a
desencantou o nosso Camillo.
«E tirando para fóra um livro:
«--Ora se você póde reputar felicidade instantanea o encontrar a
_Physiologia do ridiculo_, alegre-se que vae vêl-a.
«E, escrevendo alguma coisa na primeira pagina, accrescentou:
«--E lel-a.
«O Julio havia escripto:
«_Ao seu amigo Alberto Pimentel--lembrança de Lisboa em outubro de 1873._
_Julio Cesar Machado_.»
«E entregando-me o livro:
«--E tel-a.
«Era impossivel recusar; acceitei.»
Depois d'esse dia, as nossas relações de amizade tornaram-se familiares,
intimas, o _tu_ veio consolidal-as como entre dois bons amigos de
collegio, que se conhecessem desde a infancia.
Em 1888, nas Caldas da Rainha, fizemos a nossa estação de aguas
alegremente, e, por acaso, retiramos no mesmo dia. Elle ficava na
Durruivos, com a sua familia; eu, com a minha, seguia para a Ericeira.
Uma bella tarde de verão declinava, e o que quer que fosse de leve
saudade consoladora pairava no ar. Julio Cesar, sua esposa e seu filho
apearam-se n'uma estação que não sei dizer ao certo se era o Bombarral
ou o Ramalhal. Todos tres muito alegres, muito despreoccupados,
saboreando a sua modesta _villegiature_.
Já elle ia saindo da estação, e eu gritei-lhe:
--_Scenas da minha terra! Scenas da minha terra!_
É o seu livro que mais fala da Durruivos.
Julio Cesar voltou-se rapidamente, abriu os braços como para receber as
minhas palavras, e depois, com a mão direita, acenou na direcção dos
campos, dos arvoredos da Durruivos.
O Julito agitou no ar o seu chapeu.
E o comboio partiu.
[17] e [18] Do livro _Recordações de Paris e Londres_.
[19] Do livro, o seu ultimo livro, _Mil e uma historias_.
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