Em 1873, vespera de Natal, lembro-me bem...
A noite estava clara, levemente fria. Principiava a sentir-se um
tudo-nada d'essa animação popular que, á meia-noite, havia de
repartir-se pelos ranchos joviaes, de homens e mulheres, á saida da
missa do gallo. As confeitarias resplendiam num grande espelhamento de
guloseimas e cartonagens. Os varinos apregoavam o _Jornal da Noite_,
que, dirigido por Teixeira de Vasconcellos, era a unica folha que saía
depois de posto o sol. Patrulhas de cavallaria subiam a passo o Chiado e
a rua larga de S. Roque, dispersando-se pela cidade alta. Para os
theatros do Gimnasio e da Trindade encaminhava-se um formigueiro de
espectadores, dobrando a esquina do largo das Duas Egrejas, onde hoje
está a ourivesaria Leitão. Vendedores de _cautelas_ rouquejavam o pregão
da _taluda_, o 4897, perseguindo a gente.
Era o primeiro Natal que eu passava em Lisboa e, diga-se
francamente, uma pequenina onda de saudade, mansa mas teimosa, envolvia
o meu coração na salsugem de recordações esfumadas, de memorias
fugitivas d'aquella noite de festa.
Conhecendo apenas de Lisboa as ruas mais frequentadas, eu ia
aventurar-me a uma exploração, não direi tão arriscada como as do sertão
africano, mas não inteiramente isenta de difficuldades, por certo.
Como eu houvesse procurado já duas vezes Eduardo Coelho em sua casa, sem
o encontrar, elle tivera a amabilidade de escrever-me pedindo que, a fim
de encontrarmo-nos _definitivamente_, fosse eu á redacção do _Diario de
Noticias_, ás nove horas da noite.
Fui. Mas, fiel ao meu programma de aprender as ruas de Lisboa sem o
auxilio de ninguem, entrei no Bairro Alto um pouco ao acaso, em demanda
da rua dos Calafates, pois que o seu chrisma em rua do _Diario de
Noticias_ é de recente data.
Complica-se com o encruzamento de varias travessas a topographia
d'aquelle bairro. Ha pessoas que, comquanto nascidas em Lisboa, não se
orientam facilmente no Bairro Alto, assim como tambem não são capazes de
sair, sem que as dirijam, do labirintho do Bairro d'Alfama.
Tive a audacia de querer aprender, por mim mesmo, o caminho do _Diario
de Noticias_, e não me ficou barata essa audacia. Perdi tempo e passos.
Mas sustentei heroicamente o meu capricho: não fiz uma pergunta sequer.
Aprendi n'aquella noite a complicada topographia do Bairro Alto, levei a
cabo a exploração, sabe Deus com que trabalho!
Finalmente, entrei na redacção do _Diario de Noticias_ quarenta minutos
depois da hora aprazada.
Contei a Eduardo Coelho, que eu via pela primeira vez, embora tivesse
estado com elle em communicação epistolar, a causa da minha demora.
Elle, de flôr ao peito, muito alegre, muito bem disposto, riu da
minha aventura e, ficando silencioso um momento, acabou por dizer-me:
--Sabe uma coisa? Gosto d'isso. Affirma um caracter. Você é um homem
capaz de luctar, de soffrer para vencer. Perdeu quarenta minutos á
procura do _Diario de Noticias_, mas ganhou o ficar habilitado a tornar
cá com os olhos tapados.
Apresentou-me a todos os seus collegas de redacção, captivou-me com
aquella sincera bonomia que era a feição predominate do seu caracter
affectuoso: ficamos amigos.
Fomos d'ali para o theatro do Gimnasio ver o terceiro ou quarto acto de
uma comedia, que já não sei como se chamava; Mas, pouco antes de acabar
o espectaculo, Eduardo Coelho despediu-se. _Ia fazer a meia noite, com a
sua familia_, disse-me. Eu não sabia o que era _fazer a meia noite_.
Coelho riu-se.
--É o que lá, para as nossas provincias, se chama a consoada, a ceia do
Natal.
Foi assim que eu conheci pessoalmente Eduardo Coelho, proprietario e
redactor principal do _Diario de Noticias_.
Em maio de 1889 chegava eu á _gare_ de Campanhã, no Porto, em virtude de
um acontecimento de familia, que me trazia então dolorosamente
preoccupado. Ouvi dizer a um companheiro de viagem, que estava lendo o
_Jornal da manhã_:
--Morreu o Eduardo Coelho.
--De repente?
--Sim, de repente.
--Hontem á noite, quando saímos de Lisboa, nada constava...
Tive sincera pena da morte d'esse homem bom, trabalhador e alegre, que
foi, deve dizer-se, _uma das forças do seu tempo_.
Depois de haver sido um dos _vencidos da vida_ (não no sentido
pantagruelico que esta denominação está tendo hoje, mas no sentido
economico e abstemio) elle conseguira, graças á sua imaginação, ter uma
idéa que o salvasse.
Citam-se os grandes generaes e os grandes inventores porque tiveram uma
idéa: seja um plano de batalha ou a invenção de uma machina. Eduardo
Coelho teve tambem uma idéa, que, sem embargo de lhe ser pessoalmente
proveitosa, tem aproveitado a muita gente: lançar um jornal de dez réis
para noticias e annuncios.
Mas não basta ter uma idéa: é preciso sabel-a conduzir. Eduardo Coelho
affirmou esse duplo merito, e a sua idéa, feita jornal, conservou sempre
a direcção que elle lhe deu, ganhou velocidade, está em movimento, já
não poderá desgarrar-se.
Litterato, gostando do theatro, gostando de fazer romances e dramas,
folhetins e versos, elle teve comtudo o bom senso de nunca ser tão
exclusivamente litterato no seu jornal que pudesse com isso prejudicar a
indole noticiosa e popular do _Diario de Noticias_.
Redigindo-o, acommodava-se, aninhava-se dentro do circulo de Popilius
que a si proprio se havia traçado, e se as saudades da litteratura o
tentavam a fazer arte por amor da arte, deitava o seu livro,
espanejava-se em liberdade n'um volume independente, que era uma especie
de gazeta feita... á gazeta.
Mas os moldes do _Diario de Noticias_ nunca foram alterados, o artigo
litterario nunca floresceu tanto que ensombrasse a noticia, a _blague_
phantasista nunca se permittiu nutrir á custa do chocolate do
annuncio--este Mathias Lopes da imprensa quotidiana.
Dizer o que se passava, com uma grande investigação de pormenores, mas
sem refolhos de linguagem que ameaçassem attenuar ou esfriar o interesse
do leitor, eis o proposito inicial do _Diario de Noticias_.
Contar as occorrencias como qualquer pessoa que chegasse á escada as
poderia contar, ainda sob a primeira impressão, e sem retoques de
litteratice, n'um tom que tanto pudesse servir para o visconde do
primeiro andar como para a velhinha do quinto, eis o que o _Diario de
Noticias_ se propoz conseguir, e realisou.
Os litteratos, sempre n'um falso ponto de vista, mordiscavam ás vezes a
epiderme do _Diario de Noticias_: queriam-n'o mais enlitteratado, mais
pintalegrete em estilo. Eduardo Coelho nunca permittiu á sua vaidade que
fosse susceptivel a estas agulhinhas da critica do _Martinho_. Seguia o
seu caminho, tranquillamente, resolutamente, e, graças ao seu trabalho
honesto e indefesso, ia construindo predios na rua dos Cardaes ao passo
que os seus criticos, trabalhando sempre, mas com peor orientação,
viviam em casa de renda, com difficuldade em pagal-a.
Pela firmeza com que soube sustentar o seu proposito, conseguiu que
Lisboa inteira se cousubstanciasse com o _Diario de Noticias_, que, se o
lermos com attenção, é a chronica da capital, escripta dia a dia, na
flagrante nudez da sua verdade anatomica.
Toda a gente espera mais ou menos (incluindo os litteratos) que chegue á
porta esse vigilante mensageiro de todas as manhãs. Os outros jornaes
podem interessar-nos mais ou menos sob o ponto de vista exclusivo das
nossas predilecções pessoaes ou politicas; mas o _Diario de Noticias_
diz-nos o que ha a dizer com a brevidade de quem dá um recado,
informa-nos, faz-nos a sua vénia, e deixa-nos em liberdade para lermos,
consoante nosso gosto, os outros jornaes. É e não é um concorrente
perigoso para as novas empresas jornalisticas, porque os dez réis que
elle custa cristalisaram no orçamento domestico da população lisbonense,
converteram-se em despesa ordinaria, não entram em linha de conta para o
gasto, maior ou menor, que hajamos de fazer com os outros jornaes que se
vendem avulso.
A velhinha da mansarda já tem como certo que, além do indispensavel á
sua alimentação, ha de gastar um vintem por dia: dez réis para o
seu _Diario de Noticias_, dez réis para o carapau do seu gato.
Ás cinco horas da manhã, quando a gente parte ou chega de uma viagem,
todos os moços de fretes lêem preliminarmente o _Diario de Noticias_,
encostados ás esquinas das ruas.
Ora o moço de fretes é incapaz de perpetrar uma extravagancia
dispendiosa. Harpagão das esquinas, trabalha para amealhar, com os olhos
postos no seu ideal gallego de repatriar-se remediado. Mas no sindicato
das _maltas_, para alimentação, renda de casa e despesas miudas, entra a
verba effectiva do _Diario de Noticias_, cuja leitura se faz, as mais
das vezes, em voz alta, para o grupo todo.
É isto ou não é isto?
Eduardo Coelho teve pois uma idéa que se consolidou n'um facto
indestructivel. Deixou alguns livros, mas a sua popularidade, a sua
gloria, a sua evidencia não lhe veiu dos livros, veiu-lhe do _Diario de
Noticias_.
No proprio dia em que elle se enterrava, o _Diario de Noticias_
appareceu carregado de annuncios: era a affirmação glorificadora de que
elle não trabalhára debalde e de que a sua idéa se havia convertido
definitivamente n'uma instituição lisbonense.
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